"Contos de fadas são mais que verdade; não porque nos dizem que dragões existem, mas porque eles nos dizem que dragões podem ser derrotados." G. K. Chesterton

18 de novembro de 2017


13 de novembro de 2017

Um conto por semana #1: A Estrela

O projeto Um conto por semana consiste em escrever toda semana, durante um ano, um conto de qualquer gênero e plot com o mínimo de 2 mil palavras e o máximo recomendado de 5 mil (o que pode ser superado, como ocorreu com o primeiro conto). O importante é ter uma produção de quase (ou mais de) 50 contos em 365 dias, dos quais 12 serão publicados na Amazon durante este período e os demais ao longo do ano seguinte, após serem passados a apoiadores do vindouro Padrim.

Dito isso, vamos ao conto da semana, A Estrela.


A premissa dele é bem simples: uma garota pede a ajuda a um imenso lobo para concluir uma longa jornada. Apenas isso. Nada mais, nada menos. Tem os conflitos até a conclusão, a história possui momentos de ação e aventura, pequenas e sutis reviravoltas. A primeira versão tem quase 6 mil palavras, e eu gostei do que escrevi. Precisei refazer tudo umas três vezes até ter certeza do tom e do que eu queria contar, então o texto inteiro passou fácil de 11 mil palavras, somando o que tem e o que apaguei.

Como o primeiro mês nem começou, não há garantias que verão esta história por agora; e ainda não me decidi se estará, em algum momento, no Padrim.

6 de novembro de 2017

[Conto-Entrevista] Chá de Cogumelos com Laísa Couto

Desenterrando postagens de um antigo blog, encontro este conto-entrevista que fiz com a Laísa Couto, autora da série Lagoena, atualmente sem edições físicas ou virtuais. Fico na torcida que logo ela publique o livro, numa versão mais completa do que a que saiu anteriormente, assim como a conclusão da série.


Arte de Frank William para a capa de Lagoena, quando em edição pela Draco

Existem muitas terras e muitos mundos a serem conhecidos. Sou daqueles que acreditam em mundos paralelos, em realidades distintas coexistindo lado a lado, e que a mínima mudança basta para alterar tudo e criar possibilidades diversas, opostas e interessantes.

E que prazer é ser convidado para um chá de cogumelos com Laísa Couto num campo de grama baixa, numa tarde amena, sob a sombra de uma árvore de copa vasta! Eu amo essas coisinhas malucas, sabe? E chás de cogumelos são sempre maravilhosos, sobretudo quando acompanhados de uma boa conversa sobre um mundo novo, que ainda não conheço.

Estranho como Laísa consegue se esconder tão bem, e ainda assim estar perto. E mais estranho é que durante nosso bate-papo eu pouco pude saber sobre ela. Tento saber quem é a minha anfitriã, afinal, é o mínimo depois de um convite tão tentador.

"Um fantasma", ela responde sem titubear, mas logo percebe que aquilo pode ter sido uma grosseria sem intenção. "Como diz o lema do meu perfil lá no Confissões Desajustadas: '... agora não sou nada, sou apenas um ponto final numa história que nunca foi contada'. Em mim não há nada de especial a ser revelado, e as pessoas já tiveram a oportunidade de me conhecer de modo muito particular, que é lendo meus textos..."

Sorri e bebe um gole de sua bebida.

"Um autor fala muito de si quando dá vida a seus personagens", deixo escapar, enquanto desvio o olhar para o céu anil, salpicado de nuvens brancas. "Então, parte você está no que você escreve, certo? Talvez como um enigma esperando ser decifrado."

"É inevitável uma criação não possuir a identidade do criador. Do contrário, tudo soa artificial e a verdade perde credibilidade. Não é à toa que os manuais de como escrever um livro estimulam o autor iniciante a acessar suas memórias para construir seus próprios textos", responde Laísa, e eu a olho para vislumbrar algo familiar e inédito, num paradoxo.

Ela arfa, de leve, sem ruído e conclui:

"O enigma também pode estar numa simples frase, longe de uma complexidade extra ou hiperespetacular. A novidade dentro das camadas de um texto depende muito do entendimento do leitor. Há segredos em um livro que nunca serão relevados, faz parte do encanto da literatura."

Eu a entendo, afinal, uso muitos símbolos em meus livros, camadas e camadas de  mistérios e pistas sobre quem sou e quero ser, meus medos e sonhos.

"Mas Lagoena é incrível, pelo que posso notar. Um mundo fantástico, Laísa", comento, e ela agradece o elogio com um sorriso. "Quando e como surgiu? Como você criou algo tão fantástico?"

Tudo bem que eu estou apenas num campo, e não havia passeado pelas florestas, pelas estradas, pelas vilas e pelos reinos, havia a ser visto ainda, mas Zarak me ensinou a me encantar com o pouco, pois é no pouco que se inicia o muito.

"Lagoena surgiu sem querer, escrever pra mim foi sem querer, e os dois surgiram ao mesmo tempo, de braços dados. O tempo dado para conhecer Lagoena foi o mesmo tempo dado para conhecer o que era escrever (o que tenho muito a aprender)."

Um gole rápido.

"Lagoena nasceu sem a mínina pretensão de ser o que é hoje. É estranho voltar anos atrás e pensar em como tudo começou. Não acredito que tenha surgido. A história já existia e estava perdida em algum lugar no espaço, eu só fiz parar, afinar os ouvidos e escutar. Claro que houve 'ruídos' nesse meio tempo, tempestades colossais, ventanias que quase me derrubaram, mas tive de me manter em pé para escutar uma voz rara no meio disso tudo e ver tudo passar como um filme na minha mente. Apenas escutei e descobri Lagoena..."

Ouvir o chamado... como eu entendo sobre isso.

"O único caminho que conheço para criar um mundo fictício é a verdade", continua minha amiga, sonhadora e indiferente aos meus pensamentos mediante suas palavras apaixonadas. "Simples e pura verdade."

"E quando foi que você ouviu o chamado?", indaguei, interessado em saber como foi a iniciação de Laisa naquele local escondido no centro de galáxias onde a magia ainda impera.

"Em 2005, quando li uma reportagem sobre livros de fantasia e sua repercussão. Eu era totalmente alheia a este tipo de literatura. Mas algo me deu um estalo e resolvi passar das costumeiras 30 linhas das redações escolares..."

"Aconteceu comigo também, ao dar vida a Zarak... e desde então tive de me controlar para não exceder o limite pedido nas redações."

Rimos.

"E faz um bom tempo já, hein?", emendo.

"Sim, e espero continuar me dedicando a esse projeto e que possa dar bons frutos...", concorda ela, ainda mais sonhadora.

"Dará sim, tenho certeza."

Tomamos mais uns goles de chá. Eu começo a sentir os efeitos dos cogumelos, e cada vez mais a beleza daquele lugar me invade a mente. Ou será culpa da bebida?

"Lagoena é um lindo nome. O que significa?"

"Vem do latim. Seu prefixo lago pode ser interpretado como parte de um todo, de um conteúdo ou continente. Por isso, um dos primeiros significados que encontrei foi pedaço de terra, mas o significado mais comum é garrafa, vasilha, ânfora."

Uma ânfora de segredos e aventuras, eu diria, mas prefiro me calar.

Arte de Frank William para uma das cenas mais tensas do livro.

"Já que você me chamou para tomar este maravilhoso chá", começo, com a voz embaralhada, as ideias voando no ar como bolhas de sabão, "conte sobre o que há aqui. Eu quero saber mais ou menos o motivo de você vir tanto para cá. E o que me espera aqui?"

"Podemos esperar de Lagoena nossos melhores sonhos e nossos piores pesadelos. Florestas almadiçoadas. Criaturas espectrais. Seres antigos e belos. A magia está impregnada em toda atmosfera. É difícil tentar desmembrar Lagoena e saber onde está enraizada sua magia. É magia em sua totalidade. É a magia de colher histórias banais e recontá-la de outra forma. É a magia de remexer o fundo do baú e polir a dor ao ponto de transformá-la em cristal puro."

O brilho de seus olhos me encanta, e me sinto leve como as bolhas que sobrevoam minha cabeça, logo sendo conduzidas pela brisa, para bem longe. Estou emocionado e ansioso para desbravar aquele mundo mágico criado não por uma autora estrangeira, e sim por uma brasileira. Mas eu precisava saber de mais uma coisa.

"Qual a importância de tudo isso, de Lagoena para você?"

"Refletir sobre a importância de Lagoena pra mim é muito difícil e pessoal... Vou tentar ser honesta. Lagoena me abriu as portas para a literatura, um mundo que me acolheu, me ofereceu sua amizade incondicional e deu voz ao meu constante silêncio. Esse projeto meu deu a possibilidade de enxergar mais longe, encontrar a verdade nas simples coisas, ser feliz sem ser."

Chá de cogumelos são bons, mas provocam na gente reações estranhas.

Quando Laísa termina de falar, eu voo longe, acenando para ela, afinal é quase fim de tarde e preciso correr para a faculdade. Ela retribui, com a mão coberta pela luva; bebe mais um gole da bebida servida em Lagoena por uma criatura esquisita e única, que conhece mais de cogumelos do que eu. Não há tristeza em seu rosto, e sim a certeza de que e voltarei, de que aquela terra fantástica ganhou mais um visitante.


3 de novembro de 2017


24 de outubro de 2017

[Poema] Mel I, II e III

Os 3 poemas a seguir foram escritos há alguns anos, em momentos diferentes; não foram feitos para serem bons e tampouco possuírem qualquer valor, e sim deixar escapar um pouco o que me incomodava. Os textos de apresentação são das datas de suas publicações no antigo blog.


Um pequeno exercício poético que fiz hoje, na hora do jantar, enquanto ouvia repetidas vezes a versão do Hydria para Ana's Song, que fala sobre anorexia e tal. Como já devo ter mencionado aqui ou ali, tenho depressão e imaginei esses versos simples aí, digitando direto no celular e postando no Facebook.


Mel, eu te respeito,
Mas tu me perfuras o peito
Com teus dedos finos
E me provoca desatinos.

Mesmo que tu digas me amar,
Não posso confiar
Em alguém que me deseja sorte,
Mas só me causa morte.



Outro poema, feito para minha amante constante... 



Mel, a cada dia que passa
Mais este amor que tu tens me mata,
Uma parte de mim deixa de existir
E tu apenas rires de mim.

Tu juraste me trazeres calma,
Mas só perfuraste minha pobre alma
Com pensamentos de dor
E me fez acreditar que era amor.

Como pode, Mel, brincares com o que sinto,
Se diante de tuas mentiras não minto?
Acaso, Mel, és tu uma farsa,
És o princípio de toda minha desgraça?


Outro poema, feito pouco depois de simplesmente travar a garganta na hora de jantar. Enfim...


Este amor, Mel, chegou ao limite,
Arrancou todo meu fraco apetite,
Pois não consigo parar de pensar em ti;
Este amor me tirou a vontade de sorrir.

O que fizeste comigo?
Acaso isto é algum castigo
Por algo que devia ter feito,
Por amar demais, por faltar com respeito?

Como posso continuar esta vida,
Quando em meu peito há uma ferida
Que me queima e me enlouquece,
Que de minha pouca alegria carece?

Ah, Mel, tu és ingrata amante,
Lembrando-me a todo instante
- Ah, pobre de mim! Pobre de mim! -
Que é melhor morrer do que viver assim!

15 de outubro de 2017


7 de outubro de 2017


5 de outubro de 2017

Adeus, Vannora e os Mundos em Conflito!


Este ano estou meio ao acaso em meus escritos, enquanto reformulo algumas coisas e decido os rumos para o que eu já tinha planejado para o Lordeverso. A cada mês, por exemplo, sinto menos vontade de continuar com diversas histórias e até as abandono completamente pelo tempo que precisar. Foi assim que despubliquei e engavetei Ariane, pois é um livro que já não corresponde mais ao que sou como pessoa e escritor.

E estou fazendo algo semelhante com outros dois projetos.

As aventuras de Vannora, a Senhora da Espada Vitoriosa chegam ao fim bruscamente. E A Guerra dos Criativos passa a ser, por ora, o único livro sobre os Lordes, Juízes, Pilares e Criativos: a então trilogia Mundos em Conflito já não faz mais tarde de meus planos, sendo Colisão, o primeiro volume, despublicado.

Há diversos motivos para uma decisão tão repentina, mas parte dela é essa: estava cansado de remanejar ambos os projetos, adequá-los e dedicar tanto tempo quando, na verdade, os resultados continuavam abaixo do esperado, os esforços só me desgastavam e desviavam de algumas partes mais importantes.

Vannora descansa sua espada sangrenta e imbatível; Ailith talvez viva outras histórias; e eu devo um sincero pedido de desculpas a cada um que adquiriu, leu e deu um feedback sobre essas histórias.

Enfim, é isso.

3 de outubro de 2017

[Conto] A Estrela Mais Distante

A Estrela Mais Distante é um dos contos que mais gostei de ter escrito. Nasceu de uma ideia simples, acho que parte de algum diálogo que realmente aconteceu com a vontade de sair um pouco de minha zona de conforto. Dizer mais do que isso seria estragar a experiência da leitura.


— Cada estrela já foi uma alma que habitou a Terra.
Ele sempre me dizia isso. Queria que eu acreditasse nisso.
Era importante para ele.
Eu, idiota, nunca levei muito a sério.
— Todo mundo sabe que as estrelas são esferas gasosas incandescentes.
Não sei se era a informação correta, mas era o que eu sempre dizia. No começo, apenas para irritá-lo; posteriormente, no intuito de provocá-lo — e era quando ele me abraçava forte e me beijava, falando o quanto eu era irritante com aquele papo científico.
— Pô! Você sabe que estou tentando ser romântico, não?
Sim, eu sabia. Deus, como aquele garoto era romântico!
Ele era como um poeta, embora nunca tenha me escrito versos; ele manejava as palavras como um poeta sem versos e sem rimas, apenas com símbolos, e aquilo me bastava, era o suficiente para me fazer suspirar. Num mundo cada vez mais frio e caótico, encontrar alguém como ele era um oásis que relutava a deixar.
— Ah, tá! Prossiga então!
Éramos um casal feliz, apesar de tudo. Apesar de o mundo conspirar constantemente contra nós. Quando a barra ficava pesada, ele me abraçava forte e dizia que nada nos derrubaria ou nos separaria, que éramos predestinados a ficar juntos para sempre. Além de poeta, era um motivador, um otimista com a vida, um crente de dias melhores.
— Como eu dizia, cada estrela já foi uma alma que habitou a Terra. Quando alguém morre, nasce uma estrela. Se prestar atenção, notará que cada estrela tem uma característica única, o que a torna especial.
Nunca vi nada de especial em nenhuma estrela. Todas brilhavam, todas possuíam cores distintas, todas estavam distantes. E havia grande chance de quase todas ali estarem mortas, como eu deveria estar, se ele não tivesse me encontrado e me nutrido com amor.
— Talvez você pense que elas estão distantes — disse-me, algumas noites atrás —, e realmente estão. Talvez pense que são reflexos do passado, e certamente são. Talvez você não as note todas as noites e tampouco dê importância ao que vivo dizendo sobre estrelas e almas, mas elas estarão sempre ali, por toda a parte, brilhando e piscando, entre as nuvens, em noites de chuvas, ofuscadas pelo Sol ou pelo luar mais intenso... Elas sempre estarão lá. E eu acredito, sim, que são almas de vidas que já se foram, de amigos meus, de parentes meus, de parentes seus, de gente que nunca conhecemos... Não é como um cemitério, sabe? É um paraíso, onde não importa quem brilha mais ou brilha menos, qual tem um brilho diferente e qual não tem. Até a estrela mais distante, cujo brilho nós só percebemos após horas e horas de contemplação, tem o mesmo valor que a mais brilhante e próxima da Terra.
Embora fosse poeta, ele não era de chorar tão fácil — ao contrário de mim.
Mas naquela noite ele chorou.
Abracei-o com força. Uma força que eu achei que não tinha. E que vinha dele, dos anos ao lado daquela pessoa especial, e me mantinha como uma planta agarrada a um solo que se desmanchava com as chuvas torrenciais.
Ficamos assim por muito tempo.
Pela última vez.
Quando ele foi embora, já tarde da noite, eu senti um arrepio.
Se eu tivesse pedido, ele teria ficado. E estaria agora comigo, abraçando-me e me dando um pouquinho de sua força, como sempre fazia. Roçaria sua barba volumosa em meu rosto, seguraria minha mão quando eu acordasse de um pesadelo, cumpriria as promessas de vivermos juntos até envelhecer e morrer.
Mas eu o deixei ir, assim como uma folha carregada ao vento. Ou uma palavra dita sem pensar.
Morto.
Aquele que me devolveu as razões de viver já não vivia mais.
E eu estava preso em uma promessa.
— Esses cortes — falou, tocando meus pulsos feridos repetidas vezes —, eles são os últimos que você fará em seu corpo. Agora estou aqui e cuidarei de você, Rodrigo. Não deixarei que o mundo o machuque de novo. Mas preciso que me prometa nunca mais fazer isso. Preciso que comece a ser forte. Eu dou minha força para você, mas um dia terá que ser autossuficiente. Prometa-me que tentará, dia após dia, ser forte.
Chorei apenas, aninhando-me em seu peito.
Eu saía da adolescência. Era difícil ainda para minha família me aceitar. Era um fardo pesado para mim suportar os olhares das pessoas, as piadas ofensivas. Cortar meus pulsos parecia a única solução para aliviar minhas frustrações, abreviar minha vida...
Até que eu o encontrei.
Camilo era minha fortaleza.
E foi arrancada de mim por alguém sem rosto, sem nome. Dois tiros no peito. E nada mais.
Não pude ir em seu velório. A família dele nunca aceitou quem ele era. Culpavam a sociedade, as más companhias... me culpava por ter um filho diferente, que vivia um amor com outro rapaz.
Ele sempre foi um otimista. Era sua forma de lidar com as mesmas coisas que eu.
Enquanto eu me mutilava, sem encontrar nada pelo que viver, Camilo se agarrava às crenças mais simples, almas se transformando em estrelas, para continuar vivendo, confiante que dias melhores viriam.
Talvez ele também fosse uma alma desajustada num mundo cheio de regras sobre como devemos ser e agir. Talvez nossos encontros, em minha casa, onde eu morava apenas com Bob, um cachorro que ele me deu no dia de meu aniversário, ou em qualquer outro lugar que nos respeitava como pessoas, fossem as válvulas de escape da realidade.
Éramos, afinal, dois sobreviventes de anos carregados de preconceitos e ódio, duas metades ainda boas que se encontraram e se completaram. Dois fugitivos que gostavam de olhar o céu noturno, ainda que um visse apenas pontinhos luminosos, estrelas e planetas, às vezes algum cometa, e o outro fosse mais sonhador.
Camilo havia me feito prometer uma coisa.
— Promete viver até o fim?
— Prometo — respondi, antes de me afastar um pouco de seu peito e roçar nossos lábios no prelúdio de um beijo, a barba volumosa dele roçando em minha pele imberbe.
Deitei-me no tapete, como antes fazia todas as noites quando acompanhado, e procurei algo naquela noite. Meus olhos estavam marejados de saudade e pesar, a mente ainda sem saber o que fazer.

Eu viveria da melhor maneira possível, pois sabia que lá do alto, ainda que fosse a estrela mais distante do conjunto pontilhado, Camilo olharia com orgulho para a alma que ficou na Terra. E eu nunca decepcionaria o homem que me trouxe de volta à vida.

28 de setembro de 2017


27 de setembro de 2017

[Trecho] "Mors certa, hora incerta", terceiro capítulo de "Memento Mori"

Bem, último capítulo postado no blog. Em breve, estarão todos no Wattpad, assim como a continuidade da trama. E as postagens seguirão o padrão irregular, e continuarão sem revisão, pois só reviso quando concluo tudo ou saio relendo para entrar no clima.

Este capítulo é curto, meio que serve para apresentar mais do mundo e continuar com a proposta de matar personagens das formas mais variadas possíveis. Um amigo quem decidiu o desfecho desta parte, aliás; não do jeito que eu fiz, mas a forma de morrer, sim.

Ah, nem é spoiler!

Wayne Barlowe
A vida, para Adam, era uma sucessão de erros e fracassos, mesmo quando as coisas pareciam ir bem.
No início, ele havia tentado se estabelecer no mundo dos filmes e comerciais, vendendo-se como um ator em ascensão, e até contratou um amigo, que se passou por agente e acabou não rendendo tanto quanto o esperado. Era difícil convencer quem era formado na arte de enganar, e os produtores sempre percebiam que diante deles estava não um artista completo e dedicado, com grande potencial, e sim um joão-ninguém sem quaisquer perspectivas quanto a futuro.
Então, meio ao acaso, descobriu um submundo onde suas habilidades de trapaceiro poderiam ser bem empregadas e favorecê-lo bem mais do que a atuação; não foi complicado adentrá-lo e conquistar espaço, embora fosse, desde o início, um jogo perigoso e incerto. Quando o escândalo estourou, perdeu tudo: dinheiro, status, mulheres... e viu-se num beco estreito, com uma saída distante.
Mais ou menos como aquele que andava espremido pelas paredes imundas, sob um céu esquisito. Contudo, o beco da situação vergonhosa em que se meteu após falar mais do que deveria para uma repórter disfarçada de aspirante a atriz era uma figura de linguagem, e aquele em que sujava sapatos, calça e camisa era tão palpável quanto os muitos seios siliconados que apertou ao longo dos anos.
O corpo estava dolorido, como se tivesse levado uma surra de algum agiota a quem devia muita grana; ou de algum marido cuja mulher, fogosa e insatisfeita com as broxadas do cônjuge, foi ter com Adam um sexo de verdade. Mas, como não havia hematomas em lugar algum, logo descartou ambas as suposições; apenas havia acordado num pátio deserto, cuja única saída se dava depois de percorrer um estreito vão entre dois prédios de portas e janelas trancadas e soldadas.
Por ser magro, a passagem apertada não era um obstáculo tão grande; e não era tão longo quanto imaginou: em três ou quatro minutos de percurso, já estava na rua. Olhou em todas as direções, a desolação espalhada por cada canto, pelo asfalto rachado e esburacado, pelos prédios de vidros quebrados ou ausentes, pelos veículos abandonados em toda parte, entregues à ferrugem e ao mato acobreado que os cobria...
— Que maldito lugar é este?
Sempre lhe diziam que as drogas que consumia acabariam o levando a uma overdose; nunca receou qualquer problema do tipo, pois não era de excessos, e sim doses moderadas ao longo do dia. Contudo, diante da paisagem pós-apocalíptica em que se encontrava, talvez estivesse em algum delírio alucinógeno após exagerar ou na cocaína ou no LSD, que experimentava algumas poucas vezes ao ano.
Caminhou a esmo, pensando até que ponto a alucinação iria e se isso afetaria seus compromissos quando o efeito passasse. Lembrou-se da entrevista que cederia a uma rádio, para falar sobre as denúncias que o envolviam e dedurar alguns colegas, vários deles famosos e influentes; seria uma maneira de amenizar seu lado e forçar acordos que o favoreciam, sob os panos quentes de empresários e agentes desesperados por preservarem as imagens públicas de seus clientes tão lucrativos.
As divagações eram muitas, e não demorou para Adam falar sozinho e rir dos comentários e piadas que escapavam a cada novo pensamento e possível solução que tomaria para um dos inúmeros problemas em que estava metido; de um jeito ou de outro, queria e iria dar a volta por cima, recuperar o que lhe foi tomado e chutar para o mais longe possível toda a maré de azar que devastava sua vida.
Distraiu-se mais do que deveria e não notou para onde ia, um erro que foi a sorte de um grupo de cinco criaturas pequenas e reptilianas; de réptil cada indivíduo tinha as escamas salientes numa coloração entre o verde e o azul, uma cabeça que se assemelhava a de um lagarto e um enorme cauda que se agitava de um lado a outro; do resto, contudo, estavam mais para primatas, como versões menores de gorilas, pois se moviam com as pernas curtas arqueadas, os joelhos dobrados para fora, apoiando-se nas mãos volumosas, de quatro dedos, sem polegares, pois os braços eram longos e musculosos. Não houve mais do que seis ou sete segundos para Adam parar de falar sozinho e de andar, o cérebro processar o que via e tomar a decisão mais sensata diante de animais tão extraordinários: fugir.
Ele correu afoito e adentrou a primeira casa cuja porta não estava trancada; nem porta tinha, aliás, mas não era algo que alguém fugindo de monstros pensaria em fechar atrás de si num momento de desespero. Apenas entrou, quase tropeçando em algo que, num vislumbre rápido sob a penumbra, assemelhava-se a um corpo humano ressecado; passou pela sala, corredor e cozinha, saindo num quintal cujo capim cresceu bastante e secou. Sem hesitar, enfiou-se no emaranhado de vegetais dourados, impulsionando o corpo para a frente e abrindo passagem com as mãos; o capim o feriu superficialmente e produziu coceiras na pele. Mas não parou a jornada, pois logo atrás os estranhos primatas reptilianos o perseguiam, emitindo sons estranhos, como silvos de ofídios.
Ao alcançar a grade da cerca enferrujada, estava todo coberto de poeira, pedaços de gramíneas e filetes de sangue; escalou-a com urgência, caindo no outro lado, sobre um solo macio. Levantou-se e, mancando, percorreu metade de um quintal arenoso; os pés afundaram de repente e, antes que pudesse compreender o que acontecia, foi sugado para debaixo da terra.
A queda foi breve; e a água morna amorteceu o impacto. A areia caiu ao redor, produzindo sons baixos, mas com força o suficiente para fazerem eco na caverna.
Adam respirou aliviado quando, ao olhar para cima, não viu quaisquer sinais de seus perseguidores; um alívio momentâneo, pois estava com um novo problema para resolver: sair dali. Nadou com vigor de um atleta, com medo de haver monstros sob seus pés, ocultos nas águas escuras e mal iluminadas pelos poucos feixes de luz que adentravam por frestas do teto, dezenas de metros acima. Quando chegou à margem íngreme, subiu-a com dificuldade, escorregando e se ralando até encontrar degraus de uma velha e gasta escada esculpida na pedra negra.
Cansado, ele amaldiçoou a tudo e a todos, enquanto examinava as águas calmas que se perdiam de vista, até se fundirem às trevas do subterrâneo, quase um quilômetro à frente; a seguir, olhou ao redor, deparando-se com resquícios do que foi um porto rústico em meio e, centenas de metro tanto à esquerda quanto à direita, paredes tortuosas e impossíveis de serem escaladas. Virou-se para trás; vários túneis terminavam ali, e nenhum possuía placas ou qualquer coisa que o ajudasse a escolher um para seguir.
Por longos minutos, Adam ficou parado em cada uma das entradas, às vezes adentrando alguns passos e logo retornando; alguns túneis cheiravam a podridão extrema ou possuíam um odor repulsivo e sufocante; outros, estavam com o chão cheio de ossos humanos ou carcaças de estranhos animais decorando as paredes. Nenhuma alternativa lhe pareceu boa, mas ficar ali, perto de um lago debaixo da terra, onde a escuridão das águas e adiante poderia ocultar aberrações ainda piores do que os primatas reptilianos, era muito mais arriscado.
Escolheu o túnel menos repugnante e entrou, levando nas mãos um pedaço de tábua que encontrou ao acaso. Inicialmente estreito, centenas de passos depois a passagem se alargou até se bifurcar; impaciente, o ator escolheu continuar desbravando pela esquerda; e centenas de metros adiante, outra bifurcação; e depois outra; e mais outra... E a luz cada vez mais fraca, deixando de ter o tom alaranjado característico do da superfície para se tornar algo pálido, como se fosse produzido por um tipo de cristal fosforescente.
Os fragmentos do capim irritavam a pele e provocavam coceiras intermináveis; de início, não passavam de incômodo, uma coçada aqui e ali; contudo, após a água começar a secar no corpo, ficando apenas as roupas úmidas, a coisa foi se intensificando, tornando-se insuportável. Quanto mais se coçava, mais a coceira parecia se espalhar, tornar-se mais forte, e mais exigia o atrito de seus dedos e unhas na epiderme; quando a violência aumentou, pedaços finos de pele foram arrancados, criando ferimentos, o que piorou ainda mais a provável alergia.
Adam xingava como nunca havia xingado antes enquanto o suor caía nas feridas e os terríveis comichões continuavam provocando a angústia desesperada de se aliviar logo; livrou-se da camisa ao chegar em outra das várias bifurcações que existiam naquele maldito inferno subterrâneo, deitou-se no chão e se comportou como um animal, esfregando-se e rolando de um lado para outro, em meio a gritos de dor e sofrimento.
Ele estava tão concentrado na tentativa estúpida de se livrar da sensação de formigas andando abaixo da pele que não notou a aproximação de um imenso e horrendo animal semelhante a um anuro; possuía um corpanzil oleoso, como se coberto de graxa até por causa do tom e da viscosidade da pele, que era composto por quatro pernas robustas e similares a de um lagarto, e por isso seus passos eram quase silenciosos e sutis, uma cabeça pouco destacada, como a de um sapo, e uma pança que quase arrastava conforme se movia como um réptil.
Antes que o homem percebesse qualquer coisa, foi atingido por uma gosma amarelada, escarrada com urgência pelas glândulas salivares do anfíbio colossal. E foi um deleite aquela substância nojenta e pegajosa, pois a coceira parou quase imediatamente; gargalhando de alegria, com a pele toda arranhada e escavada, algumas partes com nacos de pele e carne pendurados, a carne viva bastante visível e ensanguentada, pôs-se de pé e encarou o monstro oriundo das entranhas da terra. A gargalhada continuou, num delírio de loucura, quando escutou as falanges caindo na poça sob seus pés, que lentamente afundavam; não sentia mais a coceira, ou dor, porém tinha consciência de que mais uma vez a vida o enganou e o pôs numa situação de azar. O último azar.
Sob os olhos impassíveis e pacientes do sapo infernal, Adam encontrou seu destino, derretendo-se lentamente, caindo sobre a sopa gelatinosa que sua carne e seus ossos formaram, rindo ensandecido, amaldiçoando-se por ter feito tantas escolhas infelizes. Quando não restou mais nada, exceto um amontoado róseo-amarelado, o anuro iniciou seu banquete, lambendo com deleite o delicioso sabor que apenas os humanos tinham.

25 de setembro de 2017

Resenha #10: A espada do destino [Andrzej Sapkowski]

Ano: 2015
Páginas: 379
Editora: WMF Martins Fontes
SINOPSE: Geralt de Rívia é um bruxo sagaz e habilidoso. Um assassino impiedoso e de sangue-frio treinado, desde a infância, para caçar e eliminar monstros. Seu único objetivo: destruir as criaturas do mal que assolam o mundo. Um mundo fantástico criado por Sapkowski com claras influências da mitologia eslava. Um mundo em que nem todos os que parecem monstros são maus nem todos os que parecem anjos são bons...

No caminho para Brokilon, Geralt tropeça no corpo de um garoto, que provavelmente não tinha mais de quinze anos. O garoto foi morto por uma flecha, obviamente atirada com destreza, que ainda se vê cravada no seu crânio. Por experiência, o bruxo logo percebe o que aconteceu: certamente o garoto tinha se extraviado e entrado no território das dríades. Como outros que padeceram antes de igual sorte, provavelmente tinha acontecido o mesmo. Uma história triste, repetida com frequência.

A Shard of ice by Kisarra
Após me surpreender positivamente com O último desejo, tentei, o quanto antes, ler o segundo volume de contos da série; embora não tenha sido uma experiência parecida com o livro anterior, neste fui agraciado com momentos de partir o coração.

Em A espada do destino, Andrzej Sapkowski continua as aventuras do bruxo (ou witcher) Geralt de Rívia e começa a preparar o terreno para os próximos volumes, além de dar sequência a alguns poucos eventos vistos nos contos anteriores. Ao contrário do volume inicial da série, as histórias não são tão focadas em combates contra monstros; eles ocorrem, sim, mas são tão em segundo plano que servem apenas para complementar uma coisa ou outra. O emocional e os dramas dos personagens são o principal foco aqui.

O limite do possível, por exemplo, começa como uma divertida e empolgante caçada a um dragão; admito que lia com facilidade, mas me perguntava onde tudo aquilo iria me levar, pois somavam-se páginas e páginas de situações das mais diversas. Quando finalmente a coisa mostra ao que veio, temos divertidas batalhas entre cavaleiros e dragão, algumas reviravoltas e o tom meio pessimista e preciso de Sapkowski, que já deixa evidente o principal tema da maioria dos contos: o destino.

O segundo conto, Um fragmento de gelo, é outro que possui reviravoltas curiosas, pois inicia-se com a disputa entre Geralt e um feiticeiro pelo amor de Yennefer, que é incapaz de se decidir por um dos dois. É deste conto, aliás, que brota uma citação que me deixou inquieto por semanas: "— A verdade — disse o gavião — é um fragmento de gelo".

O fogo eterno eu considero o mais caricato e fraco de todos; não sei o motivo, mas cheguei ao seu final sem sentir provocado nem qualquer coisa. Apenas li e entendei (e gostei da reviravolta) e só.

Já o quarto conto, Um pequeno sacrifício, causou efeito semelhante ao provocado em Um fragmento de gelo, mas aqui temos Geralt tentando conciliar um príncipe e uma sereia, derrotar uma legião de criaturas marítimas assasinas e decidir-se em um novo relacionamento, ainda que restem lembranças de Yennefer e tal novo interesse amoroso possa estar findado ao insucesso. Eu achei, de todos, o mais melodramático, o que é um elogio, aliás.

Em A espada do destino, que empresta o título ao volume e serve de sinopse, continua os eventos de um conto do volume anterior, quando Geralt reencontra alguém que, embora lhe tenha sido prometida, ele se negou, posteriormente, a aceitar. E essa história é completada em Algo mais, que prepara as bases para os acontecimentos seguintes, além de continuar alguns eventos das histórias anteriores do volume.

Ainda que tenha sido uma ótima leitura, acabou ficando aquém do que foi O último desejo; é uma característica do autor, ao que parece, que adora oscilar e passear entre gêneros, levando seus personagens ao sabor de um destino que se mostrará impiedoso e cruel.

NOTA: 8,5