"Contos de fadas são mais que verdade; não porque nos dizem que dragões existem, mas porque eles nos dizem que dragões podem ser derrotados." G. K. Chesterton

Resenha #11: Midore me no Samurai [Verônica S. Freitas]

Ano: 2017
Páginas: 74
Editora: Independente
SINOPSE: Mayumi Suguiyama levava uma vida de escravidão com os tios. Sem qualquer expectativa de vida além daquela, um dia encontra uma espada de madeira. Lembrando-se do que aprendeu com o pai, treina sempre que possível com a espada. E, num momento em que resolve lutar contra uma injustiça, quando quase foi morta por um policial opressor, seu destino cruza o de Yori Takehiko, um samurai habilidoso e com estranhos olhos verdes.

Resgatada da morte por ele e a ordem que lidera, Mayumi precisará enfrentar velhos demônios, escapar de planos sinistros contra sua vida, aprender a confiar em Yori e, acima de tudo, descobrir quais emoções e sentimentos unem-na ao misterioso samurai, que foi discípulo de seu pai.

Midori me no Samurai é uma história sobre legado, honra, amor e esperança, escrita, em 2011, por Verônica S. Freitas, que se inspirou em obras japonesas de diversas mídias, entre elas o mangá e anime Samurai X e os videogames The King of Fighters e Samurai Shodown, além de sua paixão pela cultura oriental no geral.

The samurai girl by Gengar1991
Este livro foi editado por mim como presente de aniversário para a autora, a quem devo muito de meu aprendizado na escrita. Era uma novela inicialmente publicada em seu blog. Fiz a revisão e a edição do e-book com a ajuda de um amigo, além da impressão de 10 exemplares. Até o presente momento desta resenha, a obra não se encontra à venda.

Verônica sempre soube me cativar com sua escrita, seja em contos de fantasia (o primeiro que li girava em torno da lenda das amazonas), de terror (ainda me recordo do pesadelo vivido por uma garota ao recusar um pretendente ou do desespero de um jovem ao entrar em contato com a mula-sem-cabeça) ou de fundo mais romântico (e aqui Midore me no Samurai se encaixa, embora possua elementos de ficção histórica e aventura).

A novela pode ser dividida em três momentos: o breve treinamento solitário da protagonista, Mayumi, até seu encontro com Yori, o samurai de olhos verdes que dá nome à história; a convivência dos dois, assim como a traição sofrida pelo samurai, que busca derrubar o poder vigente; e a vingança de Mayumi, com a ajuda do guerreiro.

Trata-se de um conto quase japonês, com referências históricas e culturais bem inseridas, personagens que transitam entre a lealdade e a ambição capaz de qualquer coisa, um amor que pode ou firmar um plano de vingança ou pôr tudo a perder.

Embora não seja uma história voltada à aventura, e sim ao amor, Midore me no Samurai peca um pouco no segundo ato, quando os sentimentos de seus protagonistas tomam algumas páginas e nos fazem revirar um pouco os olhos, mas tudo é compensado no ato seguinte, quando Mayumi deixa de ser tão boba e volta a brilhar como a jovem rebelde que abre o livro.

Torço para que um dia mais leitores possam conhecer a novela e se encantar tanto pela trama deliciosa quanto pela escrita apaixonada da autora.

NOTA: 8,6

"Os Outros" e os significados forjados

Skull brush by Art-of-Animalpark
Muito do que eu escrevo é carregado de simbolismos.

Em A Guerra dos Criativos, por exemplo, a cena em que determinado personagem morre, é a ruptura da adolescência para a fase adulta. Em Anamélia, o tempo todo a protagonista-título flerta com a possibilidade de morrer, e cada tarefa que realiza sempre a encaminha para uma certeza e a faz reviver partes de sua vida. O conto A Casa de Praia, por sua vez, mostra um relacionamento fadado ao fracasso e as tentativas do protagonista em mantê-lo, mesmo ciente do resultado irremediável.

E podemos notar símbolos em muitas coisas ao nosso redor, inclusive na publicidade.

Nos filmes que assistimos, por mais banais que vários possam ser; nas músicas que ouvimos; nas pinturas que admiramos sejam em museus ou redes sociais; nos livros que lemos; nos trocadilhos e conversas cotidianas. Tudo está tão preso a símbolos e seus infinitos significados que negar tal fato é como negar parte de nós.

Somos criaturas simbólicas, e nos expressamos por um código de fala e de escrita, por gestos e por pensamentos.

Então, por um simples processo de lógica ou de intuição, esperamos que os escritores tenham esse senso de símbolos e significados, que eles possam não apenas passar sua mensagem da melhor e mais fascinante forma como também comprrenderem um pouco o que outros escritores fizeram ou tentaram fazer.

Certo?

Errado!

Hoje, por exemplo, fui bombardeado por uma sequência impressionante de interpretações abomináveis feitas em cima do filme Os Outros, de 2001. A trama é bem simples, contendo uma reviravolta muito boa: os personagens que são assombrados estão mortos e os que assombram estão vivos. Nisso, uma cena do filme foi debatida e tanto quem propôs o debate quanto quem o aceitou iniciariam um show de horrores digno dos piores pesadelos, pois, mesmo diante da informação mais crucial, que permitiria um olhar novo sobre as cenas, as interpretações beiraram ao cult mais exibido e pedante possível, negando as inspirações do filme, que vão de livros (num exemplo, A volta do parafuso, de Henry James, que possui uma adaptação cinematográfica também, Os Inocentes, de 1961) à doutrina espírita.

Nisso, só para ficar no que consigo lembrar e me enojar, temos os empregados eram os traumas da protagonista, o molho de chaves e as correntes remetem ao estado de mortos que se encontram os personagens e, minha preferida, o grito inicial da personagem remete ao fato de ela ter matado os filhos.

Não!

Não!

E não!

Há significados em cenas e diálogos, mas com certeza não estão nos empregados que aparecem nos minutos iniciais, pois eles estão todos mortos também. O fato de a protagonista detestar piano e comentar que isso a deixa com enxaqueca, então ela pede que não deixem seus filhos tocarem, por sua vez, dá uma pista sobre o crime que ela cometeu em vida. O surgimento inesperado dos três empregados, sem bagagens, denunciam algo anormal (eles a recepcionam no pós-morte). Não ter qualquer meio de comunicação (com os vivos) também é uma pista. E o filme iniciar com seu grito, por fim, deixa bem claro a chave do mistério: após ela assassinar os filhos (se não me engano, enquanto eles dormiam, então nenhum deles sabe que morreu), entra em desespero e se mata (acho que com uma espingarda, mas posso estar enganado). Daí seu grito desesperador, a desorientação (e o choque foi tão grande que ela simplesmente se esquece que matou os filhos e se matou logo depois) e a recepção dos três empregados (já mortos há mais tempo e moradores da casa).

E não, o grito dela não significa nada sobre o que ela não pode controlar. Esqueça isso também!

Simples.

Não tem que complicar nada.

Símbolos podem ser herméticos ou não.

Às vezes, contudo, é só deslize de maionese de quem quer achar pelo em ovo mesmo.