"Contos de fadas são mais que verdade; não porque nos dizem que dragões existem, mas porque eles nos dizem que dragões podem ser derrotados." G. K. Chesterton

Trailers Fantásticos #14: Rampage [2018]

Filme de animais/monstros gigantes inspirado no jogo de mesmo nome, lançado em 1986.


Na trama, Dwayne Johnson interpreta o primatologista David Okoye, que tem uma grande amizade com o gorila branco George. Um experimento genético transforma o animal em um grande monstro, junto com outros predadores ao redor da América do Norte. Okoye então se reúne com um engenheiro genético desacreditado para criar um antídoto e salvar seu amigo.


Falam por aí #1: Fragilidade

Lançado em 2017, Fragilidade é quarto capítulo de Paracosmos, a saga de fantasia sombria sobre um grupo de crianças e adolescentes marcados por traumas e dotados de poder, uma combinação perigosa e delicada, assim como qualquer emoção. 

Um simples esbarrão e o paracósmico Abrão vislumbra o destino de Daiane, até então uma completa desconhecida.

Intrigado com seu suicídio, ele resolve descobrir mais sobre os motivos e causas e, após obter detalhes de sua vida, parte em busca de vingança. Mas não pelo suicídio.


Abaixo, as resenhas e os comentários que o conto já gerou:

Fragilidade é um conto que conversa com o leitor, conversa sobre perspectiva, sobre vida, limitações, sobre dores, sobre perder e se perder. É uma conversa segura e responsável sobre suicídio, que não usa estupro como recurso literário, e que te abraça e te faz encontrar na narrativa algo que eu poderia chamar de conforto.
Alice Cristina, no Skoob

Fragilidade é um grito no escuro, um denotar apreensivo, onde muitos leitores podem se identificar. Eu, particularmente, me identifiquei. Não se trata apenas de um conto, mas sim de um farfalhar infindável de razão e consequência, ou melhor, crime e castigo.




Gêneros Literários #17: Dying Earth

Houve um imenso hiato, mas espero cobrir mais alguns gêneros e subgêneros literários ao longo deste ano, uma vez que alguns projetos meus esbarrarão por eles. E nada melhor do que um que pretendo investir tanto na leitura quanto na escrita: a dying Earth.

Dark Sun by daarken
Segundo a Wikipédia, "dying Earth (que podemos traduzir como Terra agonizante ou Terra moribunda) é um subgênero de fantasia científica que ocorre no futuro distante, seja no fim da vida na Terra, seja no fim dos tempos, quando as leis do próprio universo falham. Temas de cansaço do mundo, inocência (perdida ou não), idealismo, entropia, esgotamento (permanente) de muitos ou todos os recursos (como nutrientes do solo) e a esperança de renovação tendem a dominar".

Difere do "subgênero apocalíptico na medida em que não trata de destruição catastrófica, mas com exaustão entrópica da Terra. O gênero foi prefigurado pelas obras do movimento romântico. Le Dernier Homme, de Jean-Baptiste Cousin de Grainville (1805), narra o conto de Omegarus, o Último Homem na Terra. É uma visão sombria do futuro quando a Terra tornou-se totalmente estéril. O poema de Lord ByronDarkness (1816), mostra a Terra depois que o Sol morreu".

Outro exemplo "é La Fin du Monde (O Fim do Mundo, também conhecido como Omega: os últimos dias do mundo), escrito por Camille Flammarion e publicado na França em 1893. A primeira metade mostra a colisão de um com a Terra no século XXV. A última metade centra-se na história futura da Terra, onde as civilizações se elevam e caem, os seres humanos evoluem e, finalmente, a Terra termina como um planeta antigo, moribundo e estéril".

O trabalho de ficção científica mais famoso "por utilizar as imagens familiares de Morte conhecidas foi a famosa novela de H. G. WellsA Máquina do Tempo (1895). No final deste trabalho, o viajante do tempo sem nome viaja para o futuro distante, onde há apenas alguns seres vivos em uma Terra moribunda. Ele retorna ao seu próprio tempo para relacionar seu conto com um círculo de contemporâneos".

"Duas obras de William Hope Hodgson elaboraram a visão de Wells. A Casa no Limiar (1908) ocorre em uma casa sitiada por forças sobrenaturais. O narrador então viaja (sem explicação e talvez psíquicamente) num futuro distante em que a humanidade morreu e depois, ainda mais, após a morte da Terra. A Terra da Noite (1912) descreve um tempo, milhões de anos no futuro, quando o Sol escureceu. Os últimos milhões da raça humana estão reunidos em uma gigantesca pirâmide de metal, o último Redusto (provavelmente a primeira arcologia na literatura), sob cerco de forças desconhecidas."

"A partir da década de 1930, Clark Ashton Smith escreveu uma série de histórias situadas em Zothique, o último continente da Terra. Smith disse em uma carta a L. Sprague de Camp, datada de 3 de novembro de 1953:

Zothique, vagamente sugerido pelas teorias teosóficas sobre os continentes passados ​​e futuros, é o último continente habitado da Terra. Os continentes do nosso ciclo atual ficaram afundados, talvez várias vezes. Alguns permaneceram submersos; outros ressuscitaram, parcialmente, e se reorganizaram.

A ciência e a maquinaria da nossa civilização atual foram há muito esquecidas, juntamente com nossas religiões presentes. Mas muitos deuses são adorados; e a feitiçaria e o demonismo prevalecem novamente como nos dias antigos. Ramos e velas são usados ​​por marinheiros. Não há armas de fogo — apenas os arcos, flechas, espadas, dardos, etc. da antiguidade."

"Apesar de não ser tecnicamente definido em uma terra moribunda, muitas das histórias de espada e planeta do início do século XX definidas em Marte — mais notadamente a série Barsoom, de Edgar Rice Burroughs de Barsoom, e trabalhos influenciados por ele compartilham semelhanças com o gênero. Nestas histórias, antigas e exóticas civilizações marcianas (ou outras) sofreram um declínio decadente, causado pela presença de adversários demoníacos de idades passadas. O fato de os cientistas terem especulado seriamente que Marte tinha uma vez suportado a vida, que, pelo presente, quase ou, talvez inteiramente, morreu, deu um chute entrópico especial a essas aventuras escapistas".

"Sob a influência de Smith, Jack Vance escreveu a coleção de histórias curtas The Dying Earth, que teve várias sequências. Esses trabalhos deram ao subgênero seu nome". A TV Tropes oferece mais detalhes sobre a obra de Vance.

Arte de Bruce Pennington
Por fim, a Wikipédia, em inglês, oferece uma boa lista de outras obras do gênero, entre as quais se destacam A Cidade e as Estrelas, de Arthur C. Clarke, e A Morte da Luz, de George R. R. Martin.


Resenha #12: O Culto [D. A. Potens]

Ano: 2017
Páginas: 200
Editora: Produções BlackGoat
SINOPSE: Meu nome não será dito. Você não verá meu rosto. Só peço que escute e não respire. Não tire seus olhos de mim e não disperse seus pensamentos, pois minha atenção é sua, somente sua, para que conheça aquilo que me persegue; de onde ela veio e quem a criou. Por quê? Porque ela pode estar na sua casa e, se estiver, tenha certeza de que precisará de ajuda.

Meus sonhos me trouxeram até aqui para enxergar o que a magia, a igreja e seitas ocultistas podem fazer em tempos de caos e escuridão. No Acre, em 1921, o mal que eu conheci teve início a partir do nascimento de cinco crianças com cabeças de cabras pretas que foram perseguidas pelo Vaticano. O que aconteceu após isso somente os fortes de coração podem ouvir. Você é um deles? Uma delas?

O grito de louvor será dado. Conheça a história da besta consagrada. A Cabra Preta lhe espera soltar gritos de pavor. Já eu... Bom... Eu espero que você tenha coragem de conhecê-la.



Nunca mais leio nada para comprovar um ponto.

O horror (e o terror) é um gênero literário complicado. O escritor que se aventura por ele precisa saber bem onde pisar, quando e o porquê. Não é apenas jogar uma cena violenta ali, uma morte sinistra mais acolá e ter criaturas demoníacas tocando o pavor. O horror é feito de personagens sob uma trama bem feita.

D. A. Potens, contudo, falha em tudo e além.

Começando que O Culto mais parece um breve tratado do que não fazer numa história de terror (e horror). Quase todos os capítulos (que são poucos e, com exceção de um, tão curtos quanto a memória de quem o escreveu) são como contos isolados que foram, posteriormente, reunidos e costurados com uma linha frágil demais. E as poucas páginas da obra são recheadas de tantos elementos que ficamos diante de um show de horrores perverso ao bom gosto.

Na trama, o narrador é um homem misterioso, que tem sonhos estranhos sobre eventos passados e recentes envolvendo figuras caprinas, e parece ser parte de algo maior. O mistério aqui é quem é esse homem e qual a origem da tal Cabra Preta (cujo poder ora parece grandioso, ora se torna reduzido a derrubar portas e paralisar pessoas com o berro).

E enquanto acompanhamos seus sonhos, somos apresentados a um padre ocultista genérico, um thelemita genérico, cenas de gore genérico, eventos genéricos de canibalismo e crueldade genérica.

A impressão é que o autor apenas pegou cada ideia que teve e apenas jogou, convencido de que agradaria quem busca apenas cenas sem sentido e sangrentas. O efeito causado, todavia, é de risada ou repulsa (e no pior sentido), pois, em nome do choque, o autor não economiza na descrição de um pai matando, esquartejando e devorando a filha de oito anos, uma cena que não serve para nada além de provocar horror no leitor, que fica impressionado por alguém ter pensado em algo tão grotesco. Aliás, canibalismo, segundo Potens, é uma ação tão corriqueira que uma garota consegue, em poucas horas, devorar de três a quatro corpos sem esforço, inclusive os ossos.

O Culto ainda sofre de ausência de verossimilhança interna gravíssima; em determinada cena, um grupo de pessoas dança até a morte, mas não por exaustão, e sim por desgaste literal: conforme vão dançando, seus pés são consumidos como um lápis esfregado no chão, até não sobrar mais do que apenas resquícios das coxas. Não bastasse essa morte bizarra e impossível, o padre chega ao local e, abismado, questiona-se se aquilo não foi ação da criatura que ele zela numa caverna — e até vai ao local que ela vive, para se certificar que o monstro não escapou; o problema é que, perto do final, o thelemita revela que foi o padre quem causou a histeria dançante! Como o padre causou isso se ele próprio questiona se não foi uma das cabras?

Noutra cena, digna das animações dos Looney Tunes, um par de indivíduos removem peles humanas de suas cabeças humanas e revelam cabeças caprinas. Se tivesse uma fala de humor, combinaria muito com qualquer cena de algum desenho animado de tão bizarra que foi.

Outro grande problema, além da escrita medíocre, é como a mulher geralmente é representada: se não é uma virgem que serve de receptáculo para as crias infernais (um tropo típico de qualquer filme trash), é a vadia que merece e deve morrer (a velha de vagina murcha que saciava sexualmente uma das criaturas ou Catarina, que morreu por ter muitos amantes). As mortes mais brutais são exclusivamente femininas, todas descritivas e longas. Há um estranho senso de justiça e punição em “O Culto”, uma contradição que reforça a necessidade de se desenvolver os personagens, pois acompanhamos muito a visão de quem pune (e quase todos soam esquizofrênicos ou de índole duvidosa), numa glorificação à morte lenta e torturante. O leitor apenas deve aceitar que é assim e pronto, pois é o que o autor diz que é.

Escritores de horror de verdade, como Stephen King e Lovecraft, costumam pensar em detalhes (cenários, personagens, clima, acontecimentos) de maneira a enriquecer a história, levar o leitor de um ponto seguro ao desconforto completo; Potens não, ele apenas joga tudo lá, esperando chocar, mas apenas entedia o leitor mais experiente. Seu desconhecimento de psicologia ou falta de aptidão em lidar com pessoas atrapalha, a alegação de conhecer algo de magia (em especial a Goetia e a Thelema) cai por terra pela repetição de crenças retiradas de filmes trash. A narrativa é automática e desprovida de emoções, ainda que algumas frases soem dignas de Tumblr. As tentativas de justificar ações com revelações oportunas incomodam e soam falsas, uma vez que a primeira impressão é de alguém mentalmente perturbado — então por que o leitor acreditaria que ele foi estuprado a mando de uma garota ou possui um passado traumático?

Lendo a obra inteira, sou forçado a apoiar a primeira frase usada na divulgação da obra: trata-se, sim, de uma piscina de merda, então, com todas as forças, evite cair nela.

Mas, se tem algo que eu posso elogiar, é a capa, a única coisa realmente livre de críticas, pois, da escrita à revisão — que deixou passar erros pontuais e palavras trocadas e sem acento —, nada mais se salva.

NOTA: 0,5