"Contos de fadas são mais que verdade; não porque nos dizem que dragões existem, mas porque eles nos dizem que dragões podem ser derrotados." G. K. Chesterton

[Trecho] "Xantungue", terceiro capítulo de "Danação", segundo volume de "Mundos em Conflito"

Xantungue é o nome pelo qual é comercializada a seda tecida à mão com fios irregulares, apresentando uma superfície desigual e áspera. O tecido era originalmente produzida na província de Shandong (antigamente grafada Xantung), no leste da China. O mesmo nome é dado a tecidos naturais ou sintéticos com características parecidas com as deste tipo de seda, nomeadamente os tecidos macios de seda, algodão ou linho, que tenham entremeados fios mais grossos. [Wikipédia]

Mais um capítulo que explora sobre o plano intermediário e seus personagens.

Veil by kelogsloops
Vannora dormia tranquilamente. Eu, contudo, pensava a respeito do sonho que ela me contou. Um de nós morreria. Era o meu temor também, embora não quisesse dividi-lo com ninguém, nem mesmo com a mulher que amava.
Sentado na beirada da cama, estava confuso demais tanto para ler o sinistro diário do louco quanto para formar quadros mentais da situação. A reunião com Gariel e os demais não foi bem o que eu esperava, e um misto de frustração e empolgação me invadia os pensamentos. Havia coisas nas entrelinhas, no comportamento do trio principal — o Anjo, a Iconoclasta e o Juiz problemático — que me incomodavam severamente. Eles pareciam, ao meu ver, deter mais informações do que aquelas que nos passaram; William as teria dito, se não fosse Sephora detê-lo.
“Ailith a olhou estranho”, pensei. “Por quê?”
Na hora, um lampejo de suposição me veio à mente, mas o afastei por julgar pertencer ao heterônimo, que vinha demonstrando uma capacidade assombrosa de bloquear os pensamentos mais superficiais, dificultando aquela ligação que tivemos durante a Guerra dos Criativos. Contudo, refletindo longe de tantos olhares e pessoas, fazia sentido aquela suposição.
Durante todo aquele dia, enquanto todos nos conhecíamos melhor e processávamos as migalhas de informações adquiridas. Minha cabeça estava distante, pensando no sonho de minha namorada, apesar de ela me passar poucos detalhes, como se aquilo fosse um tabu; respeitei seu espaço, mas não me agradava a aura de mistério acerca de algo que julguei tão crucial.
Vannora conversou com Kale, que também era uma Intérprete, ambas falando inicialmente sobre Minas Gerais, estado de origem da jovem que estava sempre sorrindo e era protegida por um homem calado e de aspecto sereno, sempre num canto, com uma flauta emitindo um som suave e baixíssimo. Depois, como era de se esperar, dividiram as experiências mais esotéricas e místicas, relatando sobre eventos sobrenaturais, os quais ouvi mais atentamente.
A conversa rendeu mais do que o esperado, e logo outros Criativos se juntaram, relatando pequenos acontecimentos “Antes da Colisão”, como alguém denominou o tempo, dividindo-o em “Antes da Colisão”, “Durante a Colisão” e “Depois da Colisão”. Eram coisas estranhas, mas que, vistas sob um olhar qualquer, desprovido do conhecimento que muitos começavam a carregar, não passavam de crendices idiotas.
Foi bom aquela roda de conversa imensa que se formou. Primeiro, porque quebrou o que restava de resistência entre nós, facilitando as interações e a construção do que eu poderia classificar como amizade ou companheirismo. Segundo, por mais que minha amada preferisse não se prolongar em falar, aquele momento descontraído a fazia bem, afastando qualquer chance de pensamento ruim. E terceiro, que era o mais importante para mim, permitia que minha mente confusa compreendesse a presença de cada um ali.
— Alguém mais achou aquele papo do Anjo meio enrolado? — perguntou Leonel, depois de olhar para os lados.
Estávamos apenas nós, os Criativos. Não todos, talvez, mas éramos numerosos e ocupávamos cadeiras, bancos e nos amontoávamos num lado apenas da mesa retangular, como aquelas turmas colegiais que vemos nos filmes estrangeiros. Claro que não debatíamos futilidades ou perdíamos tempo com besteiras, e sim confabulávamos acerca de nossa situação.
— Também achei — respondeu o Professor, com seriedade. — Tudo bem que eles nos contou uma mistura de lendas, mas algo ali está incompleto.
— Mistura de lendas?! — estranhou Cíntia.
— Sim. O Velho Tempo me lembra uma divindade do zervanismo, uma tradição indo-iraniana que relatava um deus supremo que teve dois filhos, um de trevas e outro de luz.
Recordei-me das palavras de Ailith quando a questionei sobre uma religião se basear em outra, ter um vislumbre de algo além da compreensão. Se o zervanismo, em nosso mundo, falava de Velho Tempo, era porque o legado de sua desgraça havia nos atingido direta ou indiretamente. “A religião é uma arte de interpretação das coisas que a mente conhece, mas não consegue entender acordada. É uma forma de dar forma ao que é disforme, uma limitação interpretativa que os povos ditos racionais impuseram sobre suas vidas, esquecendo-se da essência dos que os criaram” foi o que ela me respondeu. Fazia sentido.
— Desconfio que há algo relacionado ao Alec — sugeriu Elric, mexendo naquela pedra. — E duas pessoas, William e Sephora, sabem muito bem no que estamos metidos. Gariel nos esconde informações por receio de discordarmos ou algo assim, mas aqueles dois... Bom ficar de olho, viu?
— E você? Também não nos esconde algum segredo? — provoquei, com um riso cínico, algo que fez Alastair gargalhar em meus pensamentos.
— Certamente, assim como cada um de nós. E saberemos da maioria, conforme as coisas forem se complicando. Por ora, nossas preocupações são continuar aprimorando os usos dos cristais, pois já que fomos classificados por nossas habilidades, creio eu, é nosso dever as desenvolvermos à exaustão para que nossas vidas valham as que se perderam e, quando morrermos, que nossas mortes sejam por uma boa causa.
— Então — começou Cassandra, que não fazia parte do grupo de Protetores, assim como o irmão, apesar de terem ajudado Cíntia e Aquiles a escaparem dos Perseguidores —, fomos salvos para morrermos mais à frente?
— Algum problema em adiar a morte? — cutucou meu heterônimo, inclinando o corpo para a frente, apoiando o cotovelo esquerdo na mesa.
Arfei.
Ele havia usado o fato de tanto ela quanto Neville serem imortais gerados por meio de avanços científicos para caçar confusão. Contudo, antes que a garota pudesse reagir, a voz de Phyreon ecoou pelo salão amplo e ocupado apenas por nós.
Tomar no rabo! — gritava ele, enrolado em panos encharcados de sangue, mancando devido ao ferimento na perna. — Ninguém mais mexe em mim! Pode ser a Anjo mais gostosa ou peituda, mas me recuso a encarar outra sessão de terapia com corpos com najas se esfregando em mim!
Dois Anjos, ambos altos e de pele marcada por símbolos rúnicos luminosos, vinham logo atrás. Apenas uma túnica branca lhes cobriam os seios e virilhas, enquanto demais partes de seus corpos delicados e aparentemente femininos estavam nus, revelando uma perfeição inexistente no plano físico. As asas coloridas, com predominância dos tons azulados, esverdeados e avermelhados, estavam rentes às costas, mas com as penas eriçadas.
— O que foi, velho?! — berrou Kari, levantando-se e indo ao encontro de seu amigo e Protetor.
— Essas coisas... esses Anjos! — vociferou Phyreon, e tive a nítida impressão de ouvir sons estáticos em cada sílaba pronunciada. — Elas são eles!
Quase todos gargalharam, o que fez o Lorde liberar uma descarga elétrica que atingiu o centro do local, assustando-nos.
— Como você sabe? — indagou a Estrategista mineira, visivelmente se deliciando com a situação embaraçosa em que o companheiro de jornada havia se metido. — Por acaso você tentou alguma gracinha com elas... eles... os Anjos?
— Não! Nunca! Jamais! Eles... eles que tentaram abusar de mim num momento de fraqueza!
Apesar do susto que tomamos, era muito divertido as caretas que aquele homem, que transitava entre a juventude e a velhice, num estranho paradoxo, fazia a cada tentativa de se explicar.
— Não foi nossa intenção abusarmos de você, senhor — defenderam-se os dois Anjos, que deviam ser gêmeos de tão parecidos que eram. — Apenas estávamos limpando sua artemagia carregada, permitindo que o senhor não mais dependesse de nós para se curar.
— E precisava me despir todo e esfregar essas...? Pelos deuses!
— A artemagia circula pelos seres criados de diversas maneiras. Você, senhor, canaliza uma grande quantidade na testa, no peito e na virilha, regiões delicadas, pois a mente se abre aos mundos metafísico e intermediário, o coração aos mundos dos sentidos e das coisas abstratas e os órgãos genitais aos mundos dos prazeres e das coisas físicas. Queremos apenas equilibrar esses três pontos, pois são eles que o impedem de se curar sozinho, afinal detém em si grande quantidade de artemagia.
— E para que se esfregarem em mim?!
— O contato é uma forma de trocar energias — responderam os dois Anjos, com simplicidade. — Ou o senhor acha que o sexo é apenas para divertimento?
Phyreon fez uma expressão que nos fez gargalhar ainda mais alto. Ele cerrou os punhos, liberando mais energia estática.
— Deixe-os fazer o que tem que ser feito, oras! — zangou-se Kari, ficando cara a cara com o Lorde de cabelos longos e alvos. — Estou cansada de tratar esses seus ferimentos que nunca saram! Acha que é barato os curativos e tudo mais? Você acha que é fácil explicar para minha mãe de onde vem tanto sangue?
— Mas, Kari, eles têm...
— Quero nem saber! Volte agora para lá e só volte aqui curado! Ou conto pra todo mundo aquela vez que você agarrou...
— Chega! Entendi!
As risadas estavam estrondosamente altas e ficavam ainda mais no desenrolar daquele inusitado episódio.
— Se um de vocês tentarem alguma gracinha — advertiu Phyreon, apontando cada um deles com gravidade, os olhos cinzentos faiscando —, vão perder mais do que essas asas cheias de frescuras. Entenderam?
— Perfeitamente, senhor.
O trio se retirou, deixando-nos rindo um bom tempo ainda.
— Vocês prestaram atenção à palavra que eles usaram para designar a energia criativa? — perguntei Elric, voltando a ficar sério.
— “Artelagia”, ? — replicou Samekh, enquanto acariciava o pequeno dragão que continuava adormecido em seu colo, apesar do barulho que fizemos.
— Artemagia, “sábia habilidade”, numa tradução literal — corrigiu o Professor.
— Sim, por aí mesmo.
— E aqueles pontos que eles mencionaram, são os chacras, não? — acrescentou Kale, demonstrando acompanhar o raciocínio daquele Mentalista tão enigmático.
— Sim, exato. São sete chacras principais — respondeu Elric. — Chacra-base, na área pélvica; umbilical, no baixo-ventre; plexo solar, na região do baço e pâncreas; cardíaco, na caixa torácica; laríngeo, no pescoço; frontal, na testa; e coronário, acima da cabeça.
— É, temos que organizar essas informações ou nunca vamos compreender o jogo de xadrez em que nos metemos — observou Leonel, coçando os dedos.
— Tem razão, mas acho que hoje não é um bom dia para isso. Estamos todos ainda cansados e a reunião não foi lá grandes coisas. Acho que devemos descansar o máximo que pudermos e pouparmos energias para os treinamentos com os cristais. Se aperfeiçoarmos o uso criativo, poderemos ter meios de buscar resposta e até derrotar o exército que nos tirou tudo aquilo que amamos.
As últimas palavras do Mentalista nos atingiram com profundidade.
Aos poucos, fomos nos dissipando. Observei um a um, associando os nomes aos rostos, decorando os grupos que cada um se encontrava. Com o decorrer dos dias, pretendia conhecê-los melhor, saber mais sobre suas motivações, os medos que carregavam, coisas que os impulsionavam a se manterem de pé, mesmo após perderem tanto.
Vannora e eu permanecemos ali, em silêncio. Ela se deitou no banco largo, pondo a cabeça sobre minhas coxas, e ficamos nos olhando; eu acariciando seus cabelos loiros, ela expressando um turbilhão de emoções naqueles olhos castanhos. Em alguns momentos, notei que seus lábios se moviam, como se fossem deixar escapar alguma frase ou pedido, mas logo paravam e os olhos se desviavam dos meus. Quando não pôde mais me fitar, a Intérprete se ajeitou de maneira a ficar contemplando a parede decorada até adormecer. Como não queria acordá-la, apenas fiquei ali, esperando.
“Vocês dois foram induzidos a se aproximarem.”
Aquela afirmação de Ailith me assombrava ainda. Toda vez que olhava aquele belo rosto, beijava aquela boca ou abraçava aquele corpo mais me atormentava saber que os Lordes haviam brincado com nossos sentimentos. Se o amor que eu sentia por ela fosse uma sugestão hipnótica, o que mais seria mentira e ilusão? Minhas lembranças sobre a Guerra dos Criativos seriam frutos de hipnose também? E quem garantiria que eles não poderiam me obrigar inconscientemente a ser um guerreiro, um salvador, o Lorde Negro?
— Eu a amo, V — sussurrei, enquanto algumas lágrimas escorriam por meu rosto. — E não deixarei que nada aconteça a você ou nos separe.
Fechei os olhos, arfando.
Quando Vannora despertou, deveria ser final de tarde.
Fomos para nosso quarto e um jantar nos foi entregue na porta por uma jovem simpática e de pouquíssimas palavras. Agradeci, levando as bandejas para dentro, pois o tabu impedia que qualquer um adentrasse um aposento como aquele enquanto os hóspedes estivessem presentes.
A refeição foi tranquila. Tanto minha amada quanto eu economizamos na conversa. Ao terminarmos, como nos foi instruído por quem nos trouxe o jantar, deixamos tudo no lado de fora.
Deitamo-nos pouco depois, porém somente ela conseguiu dormir.
E ali estava eu, em plena madrugada, pensando em tantas questões confusas. Olhando para a porta, veio uma vontade de perambular pelos corredores, deixar a intuição me guiar um pouco. Faria bem para mim, para minha mente prestes a explodir.
Andei bastante, sem rumo, percorrendo alguns salões além daquele que estive horas antes, encontrando alguns Anjos concentrados em orações ali e aqui, curvando-se a cinco símbolos distintos: espirais, cruzes, quadrados, labirintos e círculos, predominando as cores vermelha, azul, violeta, dourada e preta em seus contornos. Um ou outro me olhou e fez o que pareceu uma reverência bem simples, mas logo retornando à atividade sagrada.
Descobri uma enorme biblioteca, todavia estava trancada pela porta de vidro, que possuía curiosos desenhos em alto-relevo, os quais dediquei alguns minutos passando os dedos, descobrindo que representavam criaturas disformes, cheias de braços, pernas, cabeças e aspectos repugnantes. Lembrei de Amaury, o lovecraftiano que conheci na Guerra dos Criativos; certamente ele apreciaria aquelas aberrações gravadas no material transparente.
— São pesadelos — disse uma moça que passava pelo corredor.
Virei-me para observá-la, mas logo ela desapareceu numa porta estreita, impossibilitando que eu visse seu rosto ou lhe perguntasse qualquer coisa. Deduzi que fosse uma dos Transcendentes citados pelo líder dos Anjos.
“Pesadelos”, pensei, voltando a encarar a porta e o que estava além dela. “Sonhos.”
Aquele era um mundo acessível normalmente por sonhos. E estávamos todos ali em presença física. Um lugar transcendental.
Continuando meu passeio, encontrei alguns Protetores numa pequena sala. Dracco, William e Dorian bebiam, os três em silêncio, num canto mais reservado; e aquele homem robusto e de barba negra comprida estava noutro extremo, saboreando alguns pães e bebendo a mesma coisa que os outros. De cabelos longos e com tranças em algumas partes, vestes de pele de urso, provavelmente, ele possuía uma aparência bárbara, típica de um guerreiro destemido.
— Aceita, garoto? — perguntou-me, erguendo a caneca, assim que me viu.
— Não, não bebo. Obrigado.
— Sou Nord, das Terras Glaciais do Oriente. Ou eram glaciais, antes de todo aquele gelo derreter quando os dragões despertaram.
— É um Protetor?
— Sim, mas meu protegido foi destroçado por uns lobos maiores do que um touro. Escapei por milagre, mas não sem antes ter minhas tripas postas para fora por dentes enormes. Cheguei aqui quase morto, mas os Anjos me salvaram.
Ele falava com naturalidade de alguém acostumado a lidar com a morte, sobretudo as que causava.
— Bem — disse eu, olhando para o corredor —, preciso voltar.
— Vá lá, garoto! Não deixe sua garota esperando! Mulheres odeiam esperar.
Sorri de leve, afastando-me.
Aquela morada era quase labiríntica, mas eu conseguia me localizar gravando pontos específicos, que me ajudariam a regressar ao meu aposento. Desde que cheguei no plano intermediário, minuto a minuto, meus sentidos iam se aguçando, sobretudo a memória. Constatei isso enquanto recordava, detalhe a detalhe, da longa jornada pelo Brasil até Akakor; e de Akakor até aquele mundo. Tudo estava em ordem cronológica, com todos os detalhes.
“A lembrança de um Criativo é o primeiro passo para a imortalidade.”
Alcancei naquela andança sem rumo um imenso jardim. Dividido em câmaras, corredores e espirais, com plantas de tantas variedades e cores... arbustos, árvores frutíferas, ervas penduradas no teto altíssimo, cobrindo paredes e parte do piso... Eu precisava mostrar para Vannora pela manhã.
Eu estava saindo por outro canto quando algo me chamou a atenção.
As duas estavam numa parte mais afastada do jardim, a qual descobri por mero acaso; eu teria passado por ali sem notá-las, mas ouvi uma voz conhecida falando algo inteligível. A câmara era pequena, dividida por paredes feitas de madeira e cobertas por plantas ornamentais, que se espalhavam como tentáculos espinhosos; as poucas flores que havia era de uma beleza impressionante, tão alvas que qualquer toque meu poderia sujá-las.
Andei com cautela, embora desconhecesse o motivo daquilo. Prendi a respiração, tentando ouvir com clareza quem conversava, mas cada vez mais o tom diminuía, sendo reduzido a um longo suspiro, como se algo ou alguém o provocasse.
“Ailith?!”
Foi um pensamento fugaz, estranho e poderoso. Aquela voz que ouvi era de minha Protetora!
Quando tive uma visão do que acontecia, parei. E a respiração foi suspensa por segundos, enquanto minha mente processava aquela informação surpreendente. O coração disparou muito, muito rápido; os sentidos ficaram num dilema que teria denunciado minha presença ali, o que causaria confusão e, provavelmente, algum problema.
Escondi-me atrás da parede, descuidando-me quanto aos espinhos, que perfuraram de leve minhas costas. Controlei como pude o ar que entrava e saía dos pulmões, tentando raciocinar.
Ailith não estava sozinha: Sephora estava ali.
E as duas estavam muito próximas, com os lábios se tocando!
Testemunhei a cena em poucos segundos, mas foi nítida o bastante para recordar, enquanto me acalmava. A Juíza estava encostada na parede, que naquela parte da câmara em que elas estavam era lisa, com as mãos para trás, como se quisesse escapar; a ruiva, por sua vez, segurava-a pela cintura com um braço e acariciava o rosto delicado da loira com a mão livre. E se beijaram.
No tempo que encarei aquela questão moral, que deve ter durado meio minuto, as duas se locomoveram pelo espaço, indo até um ponto em que uma pequena varanda deveria oferecer uma vista linda. Através de uma fresta entre os ramos espinhentos, observei-as.
Ailith contemplava a vista, os cabelos dourados esvoaçantes, assim como parte do vestido de um tecido que julguei ser seda; ela mantinha os braços sobre o peito, parecendo sentir frio. Eu havia visto aquele gesto durante nossa odisseia rumo a Akakor, e ele expressava muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo.
Sephora, que também usava aquele tipo de vestido, num tom mais forte do que o da Protetora, aproximou-se por trás, abraçando-a sem muita pressão, contudo o suficiente para que seus seios roçassem nas costas dela. Foi visível para mim o arrepio que aquilo causou.
Elas dialogaram por algum tempo. A filha de Zarak estava hesitante, resistindo como podia às investidas da Iconoclasta, porém não convenceu muito a outra, que, afastando os cabelos que cobriam a nuca, beijou o pescoço da Juíza, fazendo-a ofegar entre lábios.
Talvez empolgada com o sucesso daquela nova abordagem, a ruiva ousou mais ainda: movendo uma das mãos que agarrava a cintura delineada de Ailith, desceu-a por toda a extensão da coxa esquerda, tocando a borda, que ia subindo conforme os dedos a puxavam para cima, revelando aquela pele clara. As unhas fizeram trilhas róseas suaves, subindo e subindo...
Desviei o olhar, pensando no que estava ainda fazendo naquele lugar, agindo como um voyeur. Menos de onze metros, talvez, separava-nos; era uma loucura espiar a intimidade de duas guerreiras capazes de me matar com um movimento apenas. Fechei os olhos, pronto para sair.
— Ainda pensando nele? — perguntou Sephora, num tom baixo, mas que pude ouvir melhor do que a conversa anterior.
— Eu... você... você fica me confundindo com esses jogos...
Foi instintivo: virei-me para tornar a observá-las.
Elas estavam frente a frente. E transbordavam uma sensualidade inacreditável, uma aura de desejo latente e reprimindo, duas partes opostas que, naquele instante, poderiam se completar.
Durante a reunião, eu havia notado como as duas se olharam; achei estranho, e agora entendia o motivo. Quando Ailith me beijou, ela não estava impulsionada a qualquer complexo freudiano por mim; na verdade, estava afastando o que era óbvio demais, renegando seus sentimentos, pois era Sephora que ela amava. Será que havia algum tabu naquele plano metafísico que proibia duas mulheres de se relacionarem?
— Não a confundo, Lith — replicou a ruiva, que deve ter sorriso, mas era impossível eu ver estando ela de costas. — Você quem está se confundindo, buscando em Alex aquilo que eu posso lhe dar.
A Protetora fechou os olhos e abriu suavemente os lábios quando os dedos da Iconoclasta alisaram o rosto, passando pelo queixo até o busto, passeando por cima do vestido, delineando um de seus seios.
— E William? — perguntou a garota loira, arfante.
— Ele está envolvido em sua vingança contra o Lorde, assim como Gariel anseia pelo equilíbrio dos mundos que estão em rota de colisão. Além do mais, ambos são uma parte de um passado distante, assim como minha vida antes de conhecê-la.
— E minha mãe?
Sephora parou as carícias e se afastou, voltando-se para minha direção. Vi seu rosto sereno ser rapidamente abalado, como se aquela pergunta carregasse uma culpa a qual ela era incapaz de suportar. Foi um lampejo de expressão, pois logo ela reassumiu a postura de autoridade e dominação característica e encarou a jovem que tentava seduzir.
— Não há um dia sequer que não me puno por tê-la deixado morrer — respondeu. — E não há um momento sequer que não lembre que eu falhei em protegê-la. Seu pai e seu avô fizeram o que podiam naquele dia, mas minha presença teria feito a diferença. Contudo, o que foi feito não pode ser desfeito. É como proferir palavras ofensivas e esperar que a pessoa a quem foram direcionadas não se ofenda. Somos todos culpados por nossas escolhas, e mudar nossa culpa é renegar aquilo que nos torna únicos perante a imensidão da Criação. O que me resta é cuidar de você, deter o assassino de sua família e impedir que os universos sejam tragados por uma força que não deveria ser manipulada por um ser humano. Devo isso para sua mãe, que morreu para proteger a filha que tanto amava. Devo isso para seu pai, que optou morrer do que viver e cuidar da filha. E devo isso para cada um que morreu e morrerá até que o Lorde Branco seja expurgado para sempre e reste apenas o Corruptor como peso oposto na balança.
Ailith estava emocionada e não fazia esforço algum para disfarçar.
— Eu a amo, Lith. E amar é arriscado, é um modo de vida muito perigoso, afinal ou você machuca alguém ou alguém machuca você. Mas é tão inevitável quando pensar ou viver. É o que nos aproxima dos físicos, daqueles que agora lutam pelo direito de existir, assim como lutamos pelo nosso.
E então teve o abraço. Foi sem qualquer tom erótico, sem qualquer segunda intenção. Apenas e unicamente um abraço apertado. A Juíza se jogou nos braços de Sephora e chorou copiosamente, apertando-a nas costas, amarrotando a seda; as lágrimas caíam sem pudor. A Iconoclasta afagou os cabelos da amada, consolando-a, sussurrando palavras que, embora eu não as ouvisse, sabia que eram de acalento.
Retirei-me dali com cuidado, tremendo um pouco. Andei até uma câmara distante, sentei-me no chão e chorei em silêncio, com o peito doendo terrivelmente. A dor foi tanta que parecia sufocar, queimar meus órgãos vitais, destruir meus sentidos... uma tortura que não fiz questão de parar. Deixei que durasse o tempo que precisasse.
Quando passou, levantei-me e fui para o quarto.
Vannora dormia como um anjo, indiferente, por ora, à sombra que se aproximava para selar nossos destinos naquele jogo de xadrez cósmico no qual servíamos de peças.


[Trecho] "Yantra", segundo capítulo de "Danação", segundo volume de "Mundos em Conflito"

Yantra significa assomar, instrumento ou máquina. Na atualidade, um yantra é uma representação simbólica do aspecto de uma divindade, normalmente Durga. Ele é uma matriz interconectada de figuras geométricas, círculos, triângulos e padrões florais que formam um padrão fractal de elegância e beleza. Embora desenhado em duas dimensões, um yantra deve representar um objeto sagrado tridimensional. Os yantras tridimensionais estão se tornando incrivelmente comuns. Embora o yantra seja uma ferramenta usada na meditação por ambos sérios pesquisadores espirituais e escultores da tradição clássica, sua shakti é também disponível para pesquisadores iniciantes com sincera devoção e boas intenções.

Servindo como a representação matricial das manifestações, acredita-se que os yantras místicos revelam a base interna das formas do universo. A função dos Yantras é ser símbolo de revelação das verdades cósmicas. [Wikipédia]

Assim como no capítulo anterior, o título do capítulo faz referência a conceitos apresentados neste.

Sri Yantra Healing Mandala by Lilyas
— Deus teve um sonho — começou Gariel, naquela primeira manhã.
Bocejei, assim como a maioria. Ninguém estava recuperado para uma reunião com tantos envolvidos, mas o líder dos Anjos parecia impaciente o bastante para ignorar nossa necessidade de descansar.
— Foi o universo original, o primeiro, aquele que muitos de vocês devem conhecer como Éden ou Paraíso. Ninguém, nem mesmo os Anjos ou qualquer entidade acima de nós, sabe onde fica nem como acessar, pois faz parte de uma natureza que nos foge à compreensão. Pertence, portanto, à existência parafísica...
— “Superior à natureza”.
O sussurro do Professor me fez fitá-lo rapidamente. Ele estava concentrado demais nas explicações do interlocutor e nem percebeu meu breve interesse em seu comentário.
—... um plano que muitos creem ser semelhante ao nosso pela singularidade que é — continuou o Anjo, enquanto seus olhos percorriam o vasto salão cheio de Criativos e Protetores, alguns dos quais eu ainda não conhecia. — Independente disso, o universo primordial permanece escondido de tudo e de todos, como algo único e perfeito, diferente do que veio a seguir, quando Deus criou entidades poderosíssimas e as dotou de imenso conhecimento sobre Seu sonho. Eram os Ascendentes, sendo Lorde dos Lordes, nosso criador, o maior entre eles.
“A tarefa de cada um dos Ascendentes era multiplicar aquele universo surgido de um sonho. E por eras inimagináveis foi o que todos fizeram, gerando complexos conjuntos que se interligavam de maneira assombrosa. Surgiram mundos ricos em vida, seja animal ou vegetal, com criaturas interpretadas segundo a visão de cada uma das entidades mensageiras. Réplicas sem fim, com o propósito de preencher o vazio negro do Universo.
“Sistemas solares, galáxias, universos... e um dia, questionando seu papel naquela tarefa monótona, Lorde dos Lordes parou. Ele olhou suas criações, cópias sem identidade, semelhantes a todas as outras. Cada macroverso criado era composto de dezenas, centenas ou milhares de universos, que muitas vezes abrigaram microversos tão minúsculos quanto um grão de areia em algum mundo. E ele viu que estava se limitando, não usufruindo de todo o poder dado por Deus.
“E assim surgiu nosso mundo, aquele que alguns de vocês, por intermédio de Alec, conhecem como Mundo das Ideias...”
Quando ele pronunciou meu pseudônimo, senti quase todos os olhares direcionados para mim. Como instinto, apertei a mão de Vannora, que segurava a minha embaixo da mesa. Respirei fundo e mantive minha atenção em Gariel, que ainda estava em pé, tendo dois seguidores em cada lado, todos sentados e sérios.
— Em nenhum outro canto ou recanto do Universo existe um mundo como o nosso, um lugar que só é acessível por criaturas físicas dotadas de imaginação e poder criativo grandes o bastante para ir além deste mundo em que nos encontramos. E ali Lorde dos Lordes testou criações inéditas, povoando cada aspecto de um planeta. Ao se dar por satisfeito, replicou tudo aquilo no novo macroverso, interligando-o exclusivamente ao ponto de origem, para que o físico e o metafísico, os universos paralelos e o nosso mundo estivessem sempre lado a lado, separados apenas por uma energia peculiar, os Véus.
“Não pretendo entrar em detalhes sobre o funcionamento de tudo, e sim que saibam sobre as origens do que enfrentamos. Portanto, em determinado momento, sentindo-se solitário, Lorde dos Lordes cometeu seu primeiro e único erro: gerou seis pares de filhos, dividindo pela metade seu poder e distribuindo igualmente uma metade entre os doze, para que cada um deles não se achasse superior ao outro. De um Ascendente surgiram os Descendentes.
“O pai continuou se dedicando apaixonadamente na ampliação de suas criações autorais, conhecendo entidades que não eram de sua natureza, como o Velho Tempo, que recebeu um pouco de poder criativo e fez surgir o Limbo, um mundo que pertence a este plano em que nos encontramos, o intermediário, a fronteira entre o físico e o metafísico, e dois filhos, Branco e Negro. E os filhos, que deveriam zelar pelas obras paternas, iniciaram facções gananciosas por mais e mais poder, desejosos por futilidades.
“Os doze foram se matando por eras incontáveis. Nenhum Anjo ou qualquer criatura interferiu naquela guerra, mas sabíamos que não tardaria para que fôssemos ou atingidos ou completamente envolvidos, afinal o palco era onde morávamos. E nos envolvemos quando apenas um Descendente restou e ele se voltou contra o pai. Éramos, contudo, fracos, apesar de numerosos e bem-intencionados; e nosso inimigo recebeu uma ajuda externa: Branco, o filho de Velho Tempo.
“Lorde dos Lordes não pôde atuar nas batalhas, pois, se ele viesse a morrer sob a mão do filho, todo seu poder passaria para o assassino e milhares de macroversos entrariam em colapso, os demais Ascendentes seriam igualmente perseguidos e exterminados e... bem... o que impediria de alcançar Deus?”
Houve um pequeno alvoroço entre alguns Criativos diante da pergunta. Olhei para onde vinham aquelas exclamações e expressões de espanto, constatando que havia cristãos no grupo.
“Cada vez fica melhor!”
O pensamento de Alastair veio repentinamente, e o vi sentado de qualquer jeito na cadeira, como se aquilo tudo o entediasse. Ele me olhou e piscou, sem emitir mais qualquer pensamento, demonstrando que controlava nossa ligação psíquica e eu só saberia o que fosse permitido.
— Sem poder se envolver diretamente, Lorde dos Lordes buscou ajuda nos mundos criados, recrutando criaturas com forte poder criativo para resistir e combater de igual o filho, que já era conhecido como Corruptor, aquele que converteu algo ordeiro em caótico. Negro, por sua vez, envergonhado pela atitude ambiciosa do irmão, uniu-se à nossa causa. Não éramos mais apenas habitantes de um mundo metafísico enfrentando um oponente poderoso; éramos agora um exército vindo de muitos mundos garantindo que o amanhã fosse preservado.
“Branco e Negro morreram ao mesmo tempo, instantes antes de destruirmos o corpo de Corruptor, realizando um ataque que custou milhares de vidas e me deu esta cicatriz no olho direito. Mas logo nos deparamos com um grande problema: aquela energia acumulada pelo filho ingrato não poderia retornar ao dono ou ao progenitor nem tampouco deveria circular livremente pelo macroverso, afinal um dia se uniria e traria de volta quem havíamos acabado de matar.
“A solução foi extrema, mas a única que nos pareceu justa naquele momento: milhares de Anjos, incluindo um filho meu, ofereceram-se para portar em seus interiores um pequenino fragmento daquela força corrompida, transmutando-se em novas entidades, seres que não poderiam mais conviver conosco por causa da natureza ambígua que adquiriram. E foi criado este mundo intermediário, uma ponte entre o plano físico e o metafísico, onde viveriam por eras infindáveis.
“Mas nem todos habitam este lugar, e alguns deles estiveram ou ainda estão em mundos, sendo deuses e demônios, profetas e salvadores. Por ainda possuírem origem angelical, quase todos são de boa índole e...”
— Não é bem assim, Gariel — interrompeu uma voz feminina, que carregava uma mistura poderosa de serenidade e autoridade, capaz de me provocar uma estranha sensação de dèja vú. — E não creio que devesse mentir ou omitir tantos fatos para aqueles que irão nos ajudar a corrigir nossos erros do passado.
Não apenas eu, mas cada um dos ali presentes, Criativos, Juízes e Protetores, procuraram por alguns segundos a senhora daquelas palavras que calaram o líder dos Anjos. Quando os olhares foram se fixando numa figura ruiva, soube que era ela, a Iconoclasta que Ailith me contou existir, a mesma que eu conheci durante a Última Guerra dos Criativos, embora não sob o nome de Esfinge.
Os cabelos eram curtos, pouco acima dos ombros, num corte irregular que deixava algumas pontas maiores do que as outras; uma franja cobria a testa e dava um ar enigmático aos olhos que, de longe, emitiam um brilho violeta severo. O tom vermelho dos fios era muito vivo, numa coloração que lembrava uma cereja bem madura. A pele era alva, tão branca que parecia porcelana, e sem qualquer manchinha ou marca visível, e o contraste com o rubro-cereja das madeixas era perfeito e harmônico demais para não ter sido notado antes por qualquer um de nós. E era muito, muito linda! Os traços faciais eram femininos, mas portavam uma aura masculina, o que não faria o menor sentido no nosso mundo, mas ali, naquele lugar, era a androginia comum aos Anjos, apesar de algo me dizer que ela não era um.
Naquela ocasião, usava uma armadura leve em tons cinzentos, com símbolos estranhos sobre os ombros e toda a extensão dos braços. Em momento algum em que estivemos ali, pareceu-me que aquele metal a incomodasse ou pesasse — talvez ela já fosse acostumada com aquele peso.
 — Sephora — falou Gariel —, sempre querendo ultrapassar a minha autoridade.
— Apenas quando o assunto é de meu interesse. Ou se esqueceu do que enfrentei quando alguns dos seus tentaram mexer com algo que não lhes cabe qualquer direito, nem mesmo a você, que é...?
— Entendi, entendi!
— Então, não omita o fato de que alguns Transcendentes tenham se rebelado e tentado algum golpe ou ataque ao que deveriam defender! Nem negue que um deles tenha ensinado sobre Branco e Negro a um humano! E respeite acima de tudo os que aqui estão dispostos a corrigir nossos erros!
Observei o rosto do líder dos Anjos se contorcer um pouco, mas foi um lampejo fugaz demais para que mais alguém notasse; com exceção de mim, que estava mais interessado em entender cada camada da confusão em que estava metido, as atenções estavam sobre aquela mulher que conseguia calar e desafiar Gariel, fazendo-o rever seu jeito enigmático de falar.
— Houve Transcendentes, os Anjos com fragmentos de poder do Corruptor, que se revelaram perigosos. Muitos deles foram lançados num mundo avulso, que não foi criado por nenhum Ascendente, o Limbo, e de lá jamais deveriam retornar. Por isso este mundo foi criado, para que as coisas ficassem restritas aqui, mas tantos anos de liberdade forjaram ligações com o plano físico. Os sonhos que os humanos e outras diversas criaturas físicas têm surgiram aqui, por exemplo.
— Estamos num mundo de sonhos? — perguntou Vannora.
— Sim, é para cá que muitos vêm quando adormecem — confirmou o Anjo. — Mas não pretendo explicar sobre isso, afinal temos prioridades no momento.
Olhei para minha namorada, ciente de que deveria investigar o que a perturbava desde a chegada ali.
— Pois bem, Criativos, Juízes e Protetores — continuou ele, voltando para aquela postura antes de ser repreendido por Sephora —, Lorde dos Lordes partiu para algum lugar, sem promessas de retornar ou de nos zelar, mas deixou nosso mundo sob os cuidados não apenas dos Anjos, mas de Juízes e seres criativos que deveriam governar. Não apenas humanos, mas qualquer criatura física capaz de criar com a força da imaginação ou que fosse dotada de enorme poder. Os Lordes, aqueles que muitos de vocês defenderam anos atrás, na Última Guerra.
— Qual o critério exato para saber se alguém pode ou não ser um Lorde, já que são, praticamente, gente como qualquer um de nós, e não deuses? — perguntou Elric, quase no final da outra extremidade da mesa, enquanto segurava uma pedrinha incolor na mão esquerda. — Baseiam-se em quociente de inteligência? Ou inteligência emocional? Algum distúrbio mental? Quais as características que tornam alguém capacitado para liderar todo um mundo estrangeiro e ser aceito como uma divindade, se os relatos de Alex estiverem certos?
— O plano físico é movido por aparências, por uma superficialidade que oculta o que importa: a essência das coisas. Quem olha um mendigo dormindo numa calçada, não o imagina como uma criança feliz ou que teve uma família, mas a viu ser brutalmente assassinada e enlouqueceu. A loucura, muitas vezes, é uma forma sadia de esquecer uma dor. E qual é o melhor recipiente para ocultar tanto poder criativo em mundos de formas concretas?
— Num corpo debilitado, creio eu.
— Sim, Elric. Ou numa mente que fuja da normalidade, que esteja aparentemente aquém daquilo que as sociedades julgam ser normal.
— Savants?
Gariel assentiu.
“O que diabo é isso?”, perguntou Alastair.
Era a dúvida da maioria ali. Eu já tinha ouvido ou lido a respeito, mas não me recordava claramente do conceito naquele momento.
— Interessante — falou Elric, esboçando um sorriso breve. — Isso explica a preferência em resgatá-los antes de tudo, afinal, em nosso mundo são fracos demais para se protegerem, mas... uma vez em Akakor... vocês pensaram em tudo mesmo, hein?
— E o que são esses savants que vocês estão falando? — perguntou um homem alto e robusto, cuja barba negra descia até metade do peito.
— J. Langdon Down diagnosticou uma condição muito rara em que pessoas com deficiências mentais sérias, retardos mentais ou doenças mentais graves, como autismo e esquizofrenia, apresentam fragmentos fantásticos de genialidade ou habilidades acima do comum. Ele chamava os portadores dessa condição de idiot savant, “idiota prodígio”, mas o politicamente correto fez o termo ser alterado para síndrome de Savant ou savantismo — explicou Celine, com um jeito didático que me fez prestar muita atenção nela.
Havíamos nos encontrado em São Paulo ainda, antes de tudo aquilo explodir e querer nos matar.
— Há relatos de savants que decoraram milhares de livros, até os números das páginas de determinados trechos, se questionados onde poderia ser encontrados — continuou ela, sem nos fitar diretamente —; outros que desenhavam uma paisagem como se estivessem diante dela, embora só tivessem visto uma única vez; uns conseguiam tocar qualquer música após ouvi-la uma vez ou saber as horas com precisão ou de mover por um ambiente sem esbarrar em nada, apesar de serem cegos...
— Então, seus deuses são retardados mentais?! — debochou William, que estava ao lado de Alastair.
Os dois gargalharam, mas foi breve. Num movimento brusco, Tyel apareceu ao lado do insolente, encostando uma adaga em seu rosto marcado por cicatrizes negras e pressionando a cabeça de meu heterônimo na mesa; as asas coloridas estavam totalmente abertas, com penas eriçadas.
— Tyel! — exclamou o líder, sem alterar a expressão.
— Mas, senhor...
— William é conhecido por não medir palavras, mesmo que desrespeite muitas regras de convivência e leis sagradas, mas não é um motivo para atacá-lo, visto que somos todos aliados numa mesma causa.
— Certo, sen...
Talvez irritado por ser confrontado, o Juiz renegado agarrou o braço da Anjo e desferiu um soco em seu estômago, arremessando-a longe. Ignorando o que acabou de fazer, pegou o copo com aquela bebida que nos foi servida mais cedo e esvaziou num gole demorado, sob nossos olhares assombrados.
— Nenhum Anjo me toca — disse, por fim, quando notou nosso assombro.
Tyel se levantava, mas não me pareceu disposta a revidar o ataque; apenas curvou a cabeça, num sinal de respeito ao superior, e se retirou.
“O clima hoje está ótimo para tretas”, comentou Alastair.
“É.”
— Como eu dizia, os Lordes são savants em sua maioria, humanos vindos de vários mundos, escolhidos ao nascer e destituídos ao morrer — continuou Gariel, com firmeza. — Mas apenas eles não conseguem sustentar um mundo metafísico. Por isso existiram por tantos anos a Guerra dos Criativos. A movimentação constante de poderes criativos ajudava a manter tudo e contribuir para preservar e aumentar as formas viventes.
“O equilíbrio teria se mantido de maneira perpétua, mas um dos Criativos teve conhecimento sobre segredos que todos juramos não ser nem do conhecimento dos Lordes.
“Quando Branco morreu, seu corpo luminoso se perdeu no espaço, vagando sem rumo e condenado a nunca ser sepultado. Negro, por sua vez, foi transmutado em armadura, mas ficou decretado que ninguém jamais deveria usá-la sem ser o merecedor. Ele seria aquele que surgiria somente para restaurar o equilíbrio, o que aconteceu uma vez, ao eleger a humanidade como herdeiros dos Pilares, os Lordes, algo que obedecemos até os dias atuais, pois o Lorde dos Lordes criou empatia pelos humanos. E, assim como veio, foi embora.
“Sephora é uma entidade anômala, uma criatura que surge quando forças acima da compreensão se manifestam no plano físico e alteram a existência de um individuo, transformando-o em metafísico ou transcendental. Durante as eras, houve poucas criaturas assim, e Sephora é a única que se mantém em nosso mundo. Ela é uma Iconoclasta.”
O Anjo se calou, como se quisesse que a ruiva tomasse a palavra e se apresentasse melhor. Durante os segundos de espera, cada um de nós a observamos, atentos aos seus movimentos suaves e precisos. Quando me olhou de relance, tive a impressão de que ela sondava minha alma em busca de alguma coisa.
— Não tenho muito que dizer — principiou Sephora, sem se levantar da cadeira —, exceto que não posso prometer que venceremos nem que, se vencermos, vocês estarão vivos para a celebração. Mas confio que cada um possa nos ajudar a deter a ameaça que surgiu como consequência de inúmeras péssimas escolhas e decisões, o fruto de eventos aleatórios que foram se juntando até formar o maior exército atuante em dezenas de mundos e universos. O Lorde Branco que enfrentamos não é mais aquele que muitos combateram no passado. Ele está infinitamente mais forte, mais inteligente, mais influente do que um dia já foi. Não há meios possíveis de matar alguém que se tornou uma Ideia.
— Ideia?! — foi a exclamação geral, enquanto eu me mantive concentrado, formando o extenso quebra-cabeças com aquelas peças jogadas por todo o chão.
— Quando se vive muito tempo influenciando mentes e manipulando desejos e vontades, a ligação com o plano físico vai desaparecendo, a essência original vai se esvaindo até que, em certo momento, surge uma Ideia, um conceito perpétuo e forte o bastante para ecoar por eras. Por isso ele sobreviveu por milênios. Em algum mundo, um culto menor se iniciou, uma adoração a um deus que ninguém sabia de onde vinha ou quando surgiu. Ele se nutriu por tanto tempo de migalhas, mas foi paciente, adquirindo conhecimento e exercendo milagres baseados na crença. Ao se fortalecer, iniciou os ataques do futuro para o passado, espalhando horrores e mentiras, reunindo um exército tão colossal que destruiu os Véus.
— Como ele conseguiu isso? — perguntei, incapaz de me controlar diante de pistas tão valiosas. — Como destruiu os Véus?
— Sobrevivendo por gerações, contaminando as pessoas certas, como uma ideia contagiante, um vírus mental, ele descobriu as falhas nos Véus e as explorou a exaustão, criando elos entre o tempo em que vivia e o que os primeiros portadores existiam — respondeu Gariel, após uma rápida reverência para a Iconoclasta. — É tudo o que sabemos. Quem são eles ou como surgiram ainda é um enigma o qual estamos todos interessados em desvendar.
Arfei.
— E qual é o papel de cada um de nós nessa guerra contra o Lorde Branco? — perguntou Elric. — Até onde sei, apenas Phyreon e, potencialmente, Alex são capazes de enfrentar de igual as ameaças que vi.
— De fato — concordou Sephora. — Mas o destino de Alex não é nada sem a ajuda dos demais. Cada um aqui presente, seja físico ou metafísico... ou quase-físico... é garantir que Alex se prepare para ser a segunda reencarnação do Lorde Negro, aquele que nos mostrará como vencer o Lorde Branco.
 Muitos me olharam; alguns, contudo, não pareciam crer que eu significasse qualquer esperança para a salvação dos universos. Se eu fosse qualquer um deles, não acreditaria que um garoto franzino teria chances contra alguém tão superior. Nem eu ainda sabia como poderia ser tão importante nem como auxiliar aqueles guerreiros metafísicos e físicos.
— Em resumo, temos uma porra de problema para resolver, perdemos quase uma hora aqui ouvindo vocês falando sobre a merda que fizeram ao longo dos anos e agora teremos que resolver e — falou William, levantando-se e me encarando —, pelo Lorde dos Lordes, nossa esperança é o frangote aí. Estamos todos fodidos!
— Eu confio no frangote aí — retrucou Alastair, sorrindo enigmaticamente. — Não por ser meu “irmão”, mas porque sei o que ele é capaz de fazer quando bem pressionado. Além do mais, Alec tem motivos de sobra para querer derrotar o Lorde Branco.
“Ou a morte de Zarak será em vão?”, completou, piscando para mim.
— Certo — disse Elric, que mantinha aquele ar objetivo que o tornava respeitado mesmo sendo um humano comum. — Pelo que entendi, eu iniciarei os treinamentos, ensinando tudo o que sei sobre os cristais. E os demais?
Gariel não respondeu. Apenas fez um gesto, sinalizando o fim daquela reunião.
Qualé, Gariel?! — atiçou o Juiz de cabelos brancos e cicatrizes na face. — Vai esconder deles seus planos obscuros? Será que não aprendeu nada sobre trabalho em equipe após tantas batalhas?
— William, chega! — interveio Sephora, aparecendo ao lado dele, pousando a mão sobre o ombro esquerdo.
O mesmo poder de dominação que ela exercia no líder dos Anjos era sentido sob aquele homem marcado pelas feridas visíveis e invisíveis. Por um breve instante, pareceu-me que ele, tão orgulhoso e arrogante, era o mais impactado pela presença da Iconoclasta.
— Vocês quem sabem! — exclamou William, afastando-se, mas aparentando sem controle de alguns sentidos. — Apenas quero acabar algo que jurei ter acabado quando o velhote marcou meu rosto.
O velhote era Phyreon, que não estava presente na reunião por ainda depender de cuidados em relação aos ferimentos sofridos. Segundo Kari, havia umas maldições estranhas que não possibilitavam nem cicatrizações nem regenerações, o que foi rebatido por Tyel, que confiava no conhecimento tanto de sua raça quanto daquela que nos hospedava e eu ainda não tinha conhecido.
— Descansem! — pediu a ruiva, suspirando. — Todos vocês. Aos poucos, um a um será chamado para uma conversa comigo ou com Gariel, para sabermos sobre suas habilidades e como as ampliá-las para o que estar por vir. Por ora, apenas descansem!
Um a um, primeiro Criativos, depois Protetores e, por fim, Juízes, foram se retirando. Vislumbrei Ailith, que havia ficado bem distante, lançar um olhar estranho para a Iconoclasta, que pareceu notá-lo e esboçar um sorriso discreto, mas cujo significado era evidente para mim.
— Menino — chamou-me Vannora, apertando com força minha mão, que em momento algum soltara a dela.
— Sim?!
Seus olhos castanhos estavam hesitantes, carregados de um pavor que me angustiava.
— Eu já estive aqui antes — revelou, com a voz pesada, intensa.
— Já?! Certeza?
— Sim, certeza. Lembro dos detalhes, da aura que este lugar carrega... e foi um sonho recente. Na verdade, não foi um sonho, e sim um pesadelo.
Isso, talvez, explicava aquela descarga emocional do dia anterior.
— Como foi, ninfa? — perguntei, preocupado.
— Não lembro muito de como terminou, mas ao entrar aqui, um de nós acabou de assinar a sentença de morte.