"Contos de fadas são mais que verdade; não porque nos dizem que dragões existem, mas porque eles nos dizem que dragões podem ser derrotados." G. K. Chesterton

O "recalque" e a obrigação de "fazer melhor"


Desde o dia que Valesca Popozuda espalhou aos ouvidos alheios sua filosofia contemporânea, imortalizando frases como "beijinho no ombro pro recalque para passar longe", debates na Internet nunca mais foram os mesmos. Em especial no meio literário, onde egos, ideiais e visões se chocam a maioria parte do tempo.

Muitas e muitas vezes, pelos grupos do Facebook, li comentários que se resumiam em uma simples sentença: Não gostou, faz melhor, recalcado!. Que me perdoem os colegas, mas, no momento em que resumimos uma crítica e opinião alheia a "recalque" e exigimos que quem criticou e opinou "faça melhor", assumimos nossa imbecilidade argumentativa.

Imaginem o absurdo não poder criticar mais nada sem que alguém venha e diga "Não gostou, faz melhor!". Não poderíamos mais reclamar das rodovias esburacadas, pois, se estamos achando ruim, vamos lá e tapamos, "fazendo melhor". Ou não haveria críticas a um filme tão ruim quanto Esquadrão Suicida, afinal teríamos que "fazer melhor" logo em seguida.

Percebem que absurdos esses exemplos que apresentei? Pois é, igual a lógica por trás dessa mania detestável de resumir uma crítica à inveja (que as pessoas insistem em dizer ser "recalque") e pedir que quem criticou "faça melhor". E o mais triste é constar que frases imbecis assim nascem da mesma fonte que nascem histórias. São escritores ou aspirantes a escritores que proclamam e repetem essas sentenças de desmerecimento à crítica e obrigação de provar ser melhor.


Para ficar num exemplo acessível para todos (creio eu), o escritor Paulo Coelho é duramente criticado por sua escrita. Há livro apontando erros e problemas em suas obras. Ainda assim, é um dos autores mais vendidos e lidos do mundo, alcançando leitores por inúmeros países. Na lógica do "recalque" e "faz melhor", as críticas a ele se devem por:
  1. ser brasileiro, afinal não valorizamos nossa literatura (parte disso realmente eu concordo, e espero um dia falar sobre isso com mais cuidado);
  2. vender milhões de livros (afinal quem não sonha escrever qualquer coisa, por mais ruim que seja, e vender muito, ter milhares de leitores defendendo a gente?);
  3. ser uma celebridade (escritor hoje tem que aparecer em televisão ou no cinema, ir em festas, e não apenas escrever, pois a imagem de popstar vende mais livros do que o próprio conceito da história contada).
Ciente desses pontos do "recalque", vem a exigência do "faz melhor":
  1. seja um escritor medíocre que mora no Brasil e tente alcançar a fama do Paulo Coelho;
  2. venda milhares de livros; milhões, de preferência; e tenha leitores que o defenda com unhas e dentes e comente "é recalque" e "se não gostou, faz melhor" em grupos e páginas do Facebook;
  3. seja celebridade, apareça na TV e no cinema, seja convidado para festas e eventos pelo mundo.
E essa limitação no debate é perigosa, impedindo a discussão de problemas em obras mais conhecidas e a aprendizagem em cima de erros. Quem se recusa a admitir que há falhas em algo, acusando quem as aponta como "recalcado", é quem mais perde: sem uma opinião divergente, nunca notará defeitos, aceitará qualquer coisa como exemplo a ser seguido e reproduzirá mais e mais vezes erros.


Arte do Dia #2

Arbori, dragões que se mesclam com a natureza, em especial à madeira, feitos por Emily Coleman. Mais detalhes sobre as esculturas e a artista podem ser conferidas em Bored Panda (em inglês).