A Guerra dos Criativos: Lorde Azul [Ladie]

Recebi este conto da Ladie, amigo e autora de fanfictions que leu A Guerra dos Criativos e havia comentado que faria algo em cima; meses se passaram e eis que certo dia, quando eu nem me lembrava mais do assunto, ela me passou o texto a seguir (que contém spoilers e termos entendíveis apenas lendo o livro original).

Para os leitores de A Guerra dos Criativos (e Colisão), fica o conto (que ficou lindão e que servirá de base para compôr mais um pedacinho do Lordeverso. Sim, uma fanfiction vai ser usada pro cânon!).

Boa leitura!

Hoje ela usa um vestido chinês. A imagem vai ficar gravada em minha mente (sempre fica); e eu não me importaria se todo o meu cérebro fosse voltado apenas para recordá-la (mas não era). Ela me encara com olhos da cor de carvalho, brilhantes e gentis, emoldurados por 118 cílios escuros. Sei o número exato de cor porque, quando preciso me acalmar, apenas fecho os olhos e invoco o rosto dela; gravo cada detalhe e me lembro de todos os olhares e sorrisos.

Mas ela jamais saberá disso. Finjo que a presença dela não me abala.

— O que a traz aqui, mensageira? — pergunto, sorrindo calmamente.

— Venho em nome do Lorde Negro — ela responde apenas por formalidade. Desejo revelar a ela que acho desnecessário que me diga isso. Na verdade, mais do que desnecessário, é irritante ouvi-la dizer que pertence a ele. Só o fato do Lorde Negro tê-la escolhido como um de seus Ordeiros era o suficiente para me tirar o sono. Mesmo a existência de um laço inocente como o de confiança entre ela e qualquer outra pessoa era demais para que eu pudesse suportar.

— Mais uma vez? — questiono. — Às vezes tenho a impressão de que o Lorde Negro mata seu tédio fazendo de mim seu desafeto.

— Ah, sim, Lorde Azul, estou consciente da sua opinião. Já passei suas palavras para o Lorde Negro, e ele garante que o senhor é que se diverte vendo-o irritado. No fundo, eu concordo. — Ela dá de ombros. Será que ela faz ideia de como sua sinceridade é atraente?

— Concorda?

— Lorde Azul, eu venho aqui todas as noites em razão de suas transgressões — ela comenta ironicamente. Passa o braço direito pela cintura e apoia o outro braço na mão, começando a contar nos dedos. — Na segunda, eu vim por causa de seus aviões-beija-flores que fizeram ninhos nos campos de treinamento. Na terça, em razão de seus Arautos. Na quarta, por causa da sua gigante Lullaby que destruiu um vilarejo de grous. Ontem, por causa de suas sirenas.

Sim, eu tinha um verdadeiro arsenal de motivos para trazê-la à minha corte todos os dias.

— E hoje? — questiono.

— Um de seus Generais desafiou minha soulmate — ela diz obviamente irritada. — O senhor poderia nomear melhor os seus guerreiros. Eu fico chocada com a incompetência deles. Se é para escolher um ogro, ao menos seja um que tenha alguma inteligência.

— Aquele ogro é um grande violoncelista.

— Sério? — ela questiona, arregalando os olhos e abrindo um sorriso surpreso. — Sério mesmo?

— Um dos melhores — garanto.

— Posso ouvi-lo? — ela questiona. Então balança a cabeça, confusa. — Não, melhor não. Só discipline-o, ele não pode sair desafiando Ordeiros sem motivo.

— Está querendo me ensinar como lidar com os meus, mensageira? — Mantenho em meu rosto um sorriso tranquilo. Ela não se intimida comigo, embora fosse dada a ficar envergonhada quando iniciava um monólogo pensativo e me percebia estudando-a. — Pois bem, resolverei o assunto.

— Obrigada. — Então inclina-se e faz menção de se afastar.

— Yamni — chamo. Ela me encara. — Tem certeza que não quer ser minha?

Dúvida passa por seu olhar. Não tenho facilidade de reconhecer expressões nos rostos das pessoas, mas fiz questão de decorar cada uma das dela. A que eu mais amava era quando ela entrava na minha corte e fechava os olhos ao ouvir alguma música que lhe agradava. Era por isso que eu chamava meus melhores Criativos para tocarem ou cantarem quando ela vinha. Ela adora vibratos. Ou, ao menos, os bons vibratos. Quando se deparava com algum exagerado, franzia o nariz ligeiramente, controlando-se para não demonstrar como havia se incomodado com os floreios.

Ela me encara.

— Qual o seu verdadeiro nome, Lorde Azul? — ela pergunta, quebrando a mais sagrada regra desse mundo: todos aqui são anônimos.

Não me ofendo com a pergunta dela, mas também não sei que resposta lhe dar. Eu não tenho um nome, ao menos nenhum que considere meu, senão uma junção de fonemas que os outros usam para me chamar, mas que eu nunca fiz questão de compreender.

Para mim, o nome dela era mais meu do que a palavra que usavam para me nomear no mundo físico. Tenho medo da reação dela se eu lhe dissesse isso. O Mundo dos Criativos sempre foi o meu mundo real. Esse universo inteiro, sustentado em parte pela minha mente, onde eu sou um deus, uma fonte; no outro, sou o que eles chamam de autista, um savant.

No mundo físico, eu não sou digno dela.

— Por que você não me dá um nome? — sugiro.

Ela sorri.

— Vou pensar em algo — garante. Ela vai embora.

Não me importo. Amanhã estará aqui novamente.