27 de dezembro de 2016

Autopublicar-se está caríssimo


Um amigo, orçando a impressão do novo livro dele, disse-me que, com orelhas, cada exemplar tem seu custo aumentado em R$ 5,00. Ou seja, se cada exemplar custar, para ser impresso, R$ 15,00, ele passa a custar R$ 20,00 só para ter aquelas orelhinhas bonitas que muito leitor evita usar para marcar a página em que parou, mas acha bonito ter, afinal vai preservar a capa por mais tempo.

Se for observar, o simples fato de usar papel pólen 80g (o famoso amarelado que todo mundo ama) ao invés do offset 75g (o branco que muitos desprezam) acrescenta mais sei lá quantos centavos no custo. E acontece o mesmo com a escolha de usar ou não capa com ou sem laminação, se é laminado fosco ou brilhante.

Isso ficando apenas em custos de impressão.

Se formos mais longe, tem o frete para o pacote com os exemplares chegarem ao autor.

Antes disso, custos com revisão, capa/ilustrações, diagramação, etc.

Calculando tudo e sendo frio e racional, o resultado é autopublicar-se está caríssimo. E não vale mais a pena. Ao menos com tiragens impressas.

Pelo menos foi o que concluí há quase dois anos, quando desisti de imprimir meus livros e me concentrei apenas em edições digitais. E acompanho entristecido cada vez mais colegas escritores constatarem isso e abandonarem.

Claro que não adianta apontar culpados, mas o fetichismo pelo livro impresso (com orelhas bonitas, capa laminada, papel pólen 80g ou superior, capa dura, que é algo praticamente inviável a um autor independente pelo altíssimo custo) torna tudo mais complexo.

Não há pecado em se querer livros bem editados e com material de qualidade. Qualquer autor com bom senso vai querer entregar algo assim ao leitor. Mas, exceto se você tiver problemas visuais, qual é o problema com um papel offset, por exemplo? Ou que leitor descuidado você é para precisar de orelhas que nunca serão usadas para marcar uma página, pois sem elas a capa se danificará?

Eu, por exemplo, adoro livros em capas duras, de preferência antigos. O amarelado de alguns livros que tenho é resultado da passagem do tempo. Outros, estão com as capas remendadas. Mas o conteúdo está lá, intacto. E acho que é isso que importa, afinal: conteúdo.

E entendo perfeitamente a necessidade de querer um livro maravilhoso com um preço que cabe em seu bolso, afinal ninguém quer pagar mais do que R$ 35,00 por um livro autopublicado, não é mesmo? Economizando uma graninha com um autopublicado, dá para comprar aquela edição que custa o dobro, mas publicada por uma editora conceituada no mercado, não é verdade?

Mas, caro leitor, da próxima vez que um autor independente publicar um livro e o vender, preste atenção à sua volta, nos custos dos produtos que consome, no valor de uma carta registrada ou PAC, observe a situação do país e, por Deus, lembre-se que a edição que ele conseguiu fazer pode ter lhe custado meses de salário.

8 comentários:

  1. Nunca foi barato :P

    A propósito, aconteceu uma coisa bem interessante comigo. Meu primeiro livro, Línguas de Fogo, lancei com papel offset. Vários leitores reclamaram, dizendo que queriam a "folha amarelinha". No segundo livro, Tempestade de Areia, fiz com papel pólen. Então, certo dia, uma senhora de 90 anos veio conversar comigo e disse que, como ela tem problemas de visão, preferiu a leitura das páginas brancas, já que dão mais contraste com o texto preto. Pois é. Tudo é uma questão de ponto de vista.

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    1. Então, Karen, nunca foi, contudo houve um aumento em quase tudo ultimamente, e se tornou ainda mais complicado.

      E como eu apontei: quem tem problema de vista tem suas preferências, mas no geral é só fetichismo cor de papel mesmo... =\

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  2. Eu acredito que em parte isto decorre de nosso fetiche pela qualidade. Talvez por insegurança ou por desejo de ostentar, o brasileiro parece exigir sempre "primeira qualidade" (de preferência com preços de terceira). Observe bem, quando for ao mercado: você já viu venderem "manteiga de segunda qualidade"? Consegue achar arroz tipo 2 para vender? Algum açougue vende carne de terceira? No máximo de segunda, e olhe lá, e já vi gente comprar filé minhom para moer... (kill them with fire).

    Isso, claro, se transfere ao livro. Ninguém se contentará com uma edição de capa mole ("paperback") em papel jornal, como sempre foram (e ainda são majoritariamente) os livros impressos nos EUA e na Grã Bretanha.

    O que também se transfere ao leitor. Por falta de cultura (sim, eu acho que o caso é mesmo de incultura), muito leitor acha que o livro bom tem que ser luxuoso. Afinal, o livro não é só para ler, é também para enfeitar a estante e para ostentar que leu. Daí a obsessão do povo por capas fodas (mesmo que roubando imagens e artes de ilustradores gringos).

    Muitos desses livros, porém, padecem de má revisão, defeitos grosseiros de formatação do leiaute (e eu já vi cada coisa...), e nem falemos da má qualidade intrínseca à obra.

    Como dizia o Quintana, "uma das coisas mais lamentáveis da arquitetura moderna é a durabilidade de seu material". Ele se referia, nas entrelinhas, à força do concreto armado...

    Esta é apenas mais uma de inúmeras maneiras através das quais um povo culturalmente subdesenvolvido idolatra a forma acima do conteúdo, a aparência acima da essência, o acessório mais do que o essencial.

    E explica também as baixas vendagens de ebooks. Afinal, livro também tem que ser cheirado...

    Fetichismo, puro.

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    1. Concordo, Geraldo!

      Eu ainda pensei em citar casos de editoras e livros que vi que capricham ou dizem caprichar na aparência externa, mas pecam em traduções, revisões... até na diagramação. E vendem um produto caríssimo, com qualidade de papel e capa excelentes, mas pobre em diversos aspectos.

      Muitos dos livros que tenho são a tal "edição econômica", e não me envergonho disso nem um pouco. É um detalhe que eu nunca reparo quando compro; a única coisa que não gosto num livro é descaso, adaptações e versões resumidas.

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  3. Eu costumo imprimir minhas publicações porque grande parte das minhas vendas eu faço fisicamente em eventos, mas cada vez que faço um orçamento na gráfica dá um desânimo...

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    1. Sim, as vendas que fiz de físicos eram em eventos e palestras, mas como aqui as coisas são meio restritas demais por ser interior da Bahia, acabei deixando de lado.

      E cada vez que orço um livro de alguém que edito, dá uma tristeza imensa... =\

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