Resenha #1: O Ascendente [Ceres Marcon]

Ano: 2016
Páginas: 271
Editora: Cafeína Literária
SINOPSE: Sua alma foi forjada entre dois mundos opostos. E, por toda sua vida, sentiu arder em seu âmago estas partes conflitantes. Apenas na prática do exorcismo encontrava tanto um propósito quanto um punhado de paz. Os seus desígnios, no entanto, viriam, cedo ou tarde, imporem-se sobre seu destino. E, logo, céu e inferno estariam contra ele, tornando-o, além de pária, um fugitivo. Junto a ele, como única aliada, o amor de sua juventude em quem ele não pode confiar. Esta é a saga de Thomas, o ascendente.


Antes de mais nada, preciso deixar avisado que fui um dos leitores críticos da obra e apenas estou fazendo esta resenha tanto por dever moral para com a autora, Ceres Marcon, que é uma das mais antigas amigas escritoras que tenho, quanto pela qualidade da história. Ainda assim, serei imparcial quanto aos pontos aqui apresentados.

E eu não gosto de histórias com anjos e demônios. Contudo, é o segundo romance de uma amiga escritora que me faz ir até o final sem largar tudo ou ficar entediado durante a leitura. Desculpa, Spohr, mas seus anjos são um porre.

O Ascendente mostra, antes de tudo, que nem todo anjo rebelado caiu com Lúcifer. E, embora tementes  a Deus, alguns querem apenas um poder cada vez maior para combater o mal, ainda que isso implique se aliar ao inimigo.

Histórias com anjos, depois de Spohr, deixaram de ser interessantes por alguns motivos. Um deles é que, embora tenham devolvido a aura belicosa dos anjos, um elemento muito antigo e presente inclusive nas Escrituras Sagradas, mas esquecidas ao longo dos séculos, as histórias os tornaram quase deuses de outras mitologias, criando ou um "judaico-cristocentrismo" perigoso ou unificando as crenças religiosas numa só base, como se tudo fosse uma raiz somente, o que acaba obrigando a jogar Deus num canto e tirar parte de Seus atributos.

Um dos motivos de eu não curtir a série Supernatural é esse vai-e-vem maluco de Deus e anjos o tempo todo. E novamente: desculpas, Spohr.

Então, quando comecei a ler o livro da Ceres, meu maior medo foi que ela seguisse um dos dois caminhos, contudo fiquei contente por estar enganado: embora beba demais de Spohr, provavelmente uma de suas muitas inspirações, a autora consegue conduzir a trama mais perto da fonte primária judaico-cristã, mesclando rituais de exorcismos, angelologia e demonologia numa aventura cheia de ação e poder. E quando digo poder, refiro-me a lutas bem narradas, personagens poderosos, mas que não se assemelham aos de anime, como já me deparei noutras obras, ainda que os efeitos de seus golpes sejam devastadores para o ambiente.

Sempre digo e repito: os melhores livros que já li na literatura fantástica brasileira vieram de mulheres, e Ceres Marcon é uma dessas mulheres que me cativaram já no primeiro texto longo que leio. E não digo isso porque fui pago para ler, pois leitura crítica é massacre cruel e violento, sem qualquer sinal de piedade.

Recomendo não apenas para quem ficou órfão de Spohr; recomendo para qualquer um que goste de histórias com anjos e demônios lutando por um poder inefável. E que não queira anjos 100% bondosos, claro.

Os pontos mais negativos são, como já falei, a aproximação com o que Spohr estabeleceu desde A Batalha do Apocalipse, o pouco espaço para alguns personagens se desenvolverem, sobretudo o interesse romântico do protagonista (se houver continuação da trama, quero ver essa mestiça descendo o cacete em mais gente!), e a capa, que infelizmente não faz jus ao potencial que é O Ascendente.

NOTA: 7,5