29 de dezembro de 2016

Sua cultura não é melhor do que a do outro


Recentemente, numa dessas caminhadas pelas redes sociais, vi algumas postagens classificando o que era e o que não era cultura: literatura de entretenimento não é cultura, enquanto a acadêmica (ou a alta literatura, dita elitista) é; funk brasileiro não é cultura, enquanto rock é. E por aí vai.

Noutras palavras, sua cultura é inferior à minha cultura.

Particularmente, não gosto de funk, não consigo ouvir um minuto daquilo sem me incomodar; as exceções são as de cunho social, com o teor crítico. Ainda assim me incomoda a batida, o ritmo... Eu não consigo também, por mais que queira, gostar de 3/4 dos livros que as pessoas gostam.

Contudo, meus gostos não me dão o direito de rotular o que é ou não cultura.

Na verdade, gosto particular nenhum dá o direito disso.

Se formos prestar atenção, ao longo da História, em qualquer época, um povo se achou superior ao outro de diversas formas, sobretudo no nível cultural; com isso, a cultura considerada inferior precisava ser aniquilada, apagada do mundo. E muito se perdeu porque alguém definiu o que era e o que não era relevante.

E é o que fazemos quando rotulamos algo como importante e cultural e alguma coisa como estúpida e material de imbecilidade. Você pode até estar certo ao comparar e qualificar dois elementos, mas isso não lhe dá o mínimo direito de dizer "Ei, isto é cultura e isso não!".

Consultando o Dicionário Básico de Filosofia, de Hilton Japiassú e Danilo Marcondes, li algumas definições sobre o verbete cultura que podem nos dar pistas sobre o assunto.

"Conceito que serve para designar tanto a formação do espírito humano quanto de toda a personalidade do homem: gosto, sensibilidade e inteligência" (negritos meus), assim como também é "tesouro coletivo de saberes possuído pela humanidade ou por certas civilizações", surgindo daí termos como "civilização helênica, a cultura ocidental, etc".

No sentido antropológico, "é o conjunto das representações e dos comportamentos adquiridos pelo homem enquanto ser social", ou seja, designa "não somente as tradições artísticas, científicas, religiosas e filosóficas de uma sociedade, mas também suas técnicas próprias, seus costumes políticos e os mil usos que caracterizam a vida cotidiana" (negritos meus), como define Margaret Mead. Pode-se dizer que é um "processo dinâmico de socialização pelo qual todos esses fatos de cultura se se comunicam e se impõem em determinada sociedade, seja pelos processos educacionais [...], seja pela difusão deas informações em grande escala, a todas as estruturas sociais, mediante os meios de comunicação em massa". Sendo assim, "a cultura praticamente se identifica com o modo de vida de uma população determinada [...], com todo o conjunto de regras e comportamentos pelos quais as instituições adquirem um significado para os agentes sociais e através dos quais se encarnam em condutas mais ou menos codificadas" (negritos meus).

Já no sentido filosófico, "a cultura pode ser considerada como um feixe de representações, de símbolos, de imaginário, de atitudes e referências suscetível de irrigar, de modo bastante desigual, mas globalmente, o corpo social".

Por fim, a expressão cultura de massa, "de uso ambíguo", é "frequentemente utilizada para designar a possibilidade de uma população ter acesso aos bens e obras culturais produzidos no passado e no presente".

Então, da próxima vez que julgar algo como cultura ou não, engula seu preconceito (ou conceito formado), pegue seus bens culturais e os consuma em paz, deixando que o outro, que você considera menos envolvido em cultura do que você, usufrua de seu conjunto cultural.

E vale sempre o reforço da mensagem: sua cultura não é superior ou inferior a de ninguém, e sim diferente, o que não significa também que seja especial.

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