1 de dezembro de 2016

Tatiana Belinky: Como escrever para crianças?

Há alguns anos, ainda no Ensino Médio, numa revista que não me recordo o nome, li uma entrevista muito legal com a escritora russo-brasileira Tatiana Belinky, autora de centenas de histórias infantojuvenis. Como eu não podia ficar com a revista, pois era parte do acervo do colégio, transcrevi as respostas dela, reunindo tudo em tópicos, os quais reproduzo abaixo, com pequenas alterações. Provavelmente será de interessante de diversos colegas escritores, em especial quem quer se aventurar na tarefa de escrever para crianças.


Produto de qualidade
O fato de ser bem feito, bem apresentado e ter um conteúdo interessante para a criança. Com conteúdo e bom aspecto, o objeto livro vira um genuíno brinquedo cultural. E isso só vai acontecer se o adulto expuser a criança ao livro e deixá-la escolher.

Contar histórias
A linha a seguir continua a mesma: contar bem uma história, ser acompanhado e entendido. Nos últimos anos, tudo ficou muito rápido. A TV e os meios de eletrônicos não dão tempo para ninguém parar para pensar. O autor precisa se adaptar. Mas criança, propriamente, não mudou. Escrever continua a ser como conversar com elas, só que por escrito. E conversar com elas pode ser fácil para um adulto ou muito difícil, às vezes até impossível. Não basta aprender a escrever para crianças, entrar no ritmo da velocidade da narrativa da época se não se consegue levar a cabecinha dela a funcionar. Só é possível tentar compreender a criança tendo contato com ela. Quem faz isso não sente tanto a diferença entre públicos infantis de épocas distintas.

Cuidados ao escrever
Primeiro, respeitar a inteligência da criança. Elas entendem tudo muito bem, não são bobinhas. Muitas das clássicas fábulas com bichos se comportando como gente não eram escritas de olho no público infantil; eram antes críticas disfarçadas aos governos. Na Europa, fábulas eram muitas vezes metáforas, comentários sobre o mundo. E caíram no gosto das crianças. Segundo, e sem cair num papo politicamente correto, é preciso evitar que aspectos físicos, religiosos e étnicos de seus personagens sejam associados a maus instintos. Não é preciso falar nisso, mostrar um corcunda mau, uma madrasta ruim. Foi por isso que uma vez escrevi um livro sobre dois corcundas, um bom e um mau. É preciso, afinal, evitar a todo custo a mania de dar moral à história.

Mensagem e moral da história
Claro que não é preciso empurrar uma verdade goela abaixo. Dizer à criança que ela tem de entender isso, que algo é certo ou errado. Muito faz quem não atrapalha, com seu dedo moralista. Aprendi bem cedo que tudo na vida tem vários aspectos. Tive um pai muito religioso, espiritualista, e uma mãe feminista, ateia e comunista. Eram tão diferentes, com opiniões muito diversas um do outro, mas eu percebiao quanto era comum ver que ambos tinham razão sobre a mesma coisa. Cada assunto comporta vários aspectos. Quando descobri Lobato, de cara quis ser Emília; ela também contesta a moral das histórias. Há uma passagem do Sítio, ao ouvir uma história em que a moral era "Fazer o bem sem olhar a quem", Emília saltou indignada: "Fazer o bem a quem merece, isso sim". Não é preciso querer ensinar algo à criança, porque ela no fundo não gosta de estudar, gosta é de aprender e apreender o ambiente, o mundo, a vida em volta. Quem não atrapalha já ajuda muito.


Evitar palavras difíceis?
Não, pois nada é difícil para a criança. E, se a gente não usar, ela não vai conhecer nunca. Criança não precisa pesquisar dicionário, entende tudo pelo texto e pelo contexto, pesca de cara uma palavra desconhecida. De quebra, a segunda vez que encontrá-la já saberá o que é.

E palavras estrangeiras?
Os brasileiros sempre usaram. E é preciso inventar palavras numa era de tantas mudanças como a nossa.

Autores novos
Há alguns autores muito bons. Ainda mais depois da virada que o Lobato deu. Ele instituiu o humor e o senso crítico, como mostra a atitude da Emília de defender a própria opinião. Os melhores autores de hoje aprenderam com ele. Do modo de falar, de reagir. Sei que brasileiro lê pouco, mas nos últimos anos publica-se muita literatura para crianças. Editoras que nunca pensaram nisso descobriram o mercado. As crianças se interessam e gostam de ler, se você der a oportunidade.

Grave problema dos livros
Falta de assunto interessante, de estilo interessante de contar e uma apresentação ruim. Um livro em papel couchê, caro, brancão e brilhante, só atrapalha. Em livro bom até tamanho da letra, da margem e do entrelinhamento deve ser pensado. Hoje em dia muitos caíram nesta bobagem de fazer textos só com letras maiúsculas. É feio e indica que se jogou a toalha e se desistiu de ensinar a escrever.

Quando os pais sabem se um livro é bom?
Quando se lembram quando foram crianças e interessando-se de fato pelo filho.

Crianças ainda interagem com os livros?
Crianças letradas, sim, agem como as de meu tempo. Mas é preciso dar-lhes a chance, expô-las, deixar que peguem o livro em casa, na escola, na livraria. Tem gente que não deixa o filho chegar perto de um livro para não sujá-lo. O livro é um brinquedo que não acaba, pois toda vez que se lê é diferente. Livro é um bicho tão bom que, uma vez descoberto, não se deixa mais.

Literatura infantil é "mais fácil"?
Não é verdade. É preciso talento para fazer algo bem feito, um ouvido para o ritmo. Pensar que criança é boba é bobagem. Quem diz isso não se lembra de si mesmo ou foi tão reprimido que desistiu de ser.

Método de criação
Como diria Millôr Fernandes, sou escritora sem estilo, pois escrevo o que falo. Não penso muito. Não sei o que é essa coisa de escrever para uma faixa etária. O coração é maior que o útero, como se diz. Cabe sempre mais. É preciso observar. E se deixar ser. Abrir os olhos, os ouvidos, o nariz, ser curioso. Ao aceitarmos só o que nos dão, ficamos molengas. É preciso enxergar e ouvir; ser Emília, enfim.


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