A [Medíocre] Jornada do Escritor [Mediano]


Há quem poste ou compartilhe, com certo orgulho, a imagem abaixo. Já vi várias vezes a comparação ser legendada como "fórmula de sucesso". Se concorda com tal afirmação, sinta-se desde já ofendido e advertido a não continuar a leitura deste texto.



Antes, contudo, de iniciarmos a crítica ao sistema, devemos saber de onde veio, por onde andou e quando se perdeu. E tudo começa com o antrópologo Joseph Campbell, que estudava há anos e anos as culturas de vários cantos do mundo e apresentou, em 1949, no livro O Herói de Mil Faces, o termo "monomito" (ou "jornada do herói). Ele tomou emprestado o termo monomyth do conto Finnegan's Wake, do autor irlandês James Joyce (segundo consta na Wikipédia).

Apoiando-se em diversas leituras e conhecimento sobre mitologia comparada, Campbell desenvolve, ao longo dos capítulos do livro, um magnífico tratado sobre como os mitos possuem elementos em comum, fazendo uso, inclusive, da psicologia junguiana ao usar termos como "arquétipo" e "consciente coletivo". É um trabalho maravilhoso e gostoso de ser lido, com foco, principalmente, na autodescoberta, pois, para Campbell, conhecer um mito é autoconhecer-se.

Eu recomendo sem pestanejar a leitura de O Herói de Mil Faces a qualquer pessoa, seja artista ou apaixonado por mitologias e simbologias (assim como eu), mas advirto acerca da banalização das etapas apresentadas e exaustivamente explicadas por Campbell, o que nos leva ao instante em que tudo veio por água abaixo.

Slide creditado a Karen Soarele, que deu uma palestra sobre o assunto (clique na imagem, para mais detalhes). Ela ressalta um ponto interessante acerca do assunto: "NÃO É uma fórmula, NÃO É obrigatória. Então, apesar de conhecê-la, não se prenda totalmente a ela. É apenas uma ferramenta."
Diz a lenda que George Lucas, impressionado pelo trabalho de Campbell, empregou o monomito já no primeiro filme da franquia Star Wars. Particularmente, não duvido que ele já tivesse conhecimento acerca do monomito, mas arrisco que é mais inconsciente coletivo do que conhecimento consciente. O fato é que o filme fez um tremendo sucesso, e a jornada do herói usada (de maneira forçada) nos demais filmes da série.

Christopher Vogler, um roteirista e executivo de Hollywood, elaborou um memorando para os estúdios Disney. Posteriormente, claramente visando lucros, ampliou o memorando para o livro maldito atualmente conhecido como A Jornada do Escritor: Estrutura Mítica para Escritores. De qualquer forma, seu trabalho influenciou diversos filmes do estúdio entre 1989 e 1998, além de dezenas de outros, como Matrix (que é uma colcha de retalhos de conceitos copiados e retirados de diversas fontes).



Com tantos exemplos de sucesso, a jornada (já corrompida) do herói passou a ser a bíblia sagrada de qualquer pretenso roteirista e escritor ansiando sucesso. Por um lado, é interessante que a indicação de algo ruim possa gerar interesse pela obra original; por outro, a leitura de O Herói de Mil Faces requer algum conhecimento prévio de psicologia, simbologia, história e mitologia, além de Campbell não ser muito fã de escrever para leigos, por mais fácil e gostosa que sua escrita seja.

Então, iniciou-se um culto ao medíocre (eu uso muito este termo, espero que se acostumem).


Tornou-se uma obrigação ao escritor (em especial de literatura fantástica) conhecer e seguir a jornada do herói (a partir daqui, não confundam com o monomito). E passaram a ignorar outros caminhos, desenvolvidos, de fato, por narratologistas, estes realmente voltados para a escrita e o desenvolvimento de histórias (ainda que nenhum deles dite tais fórmulas como regras a serem seguidas).

A leitura de A Jornada do Escritor tornou-se uma maneira de separar o escritor que quer conquistar leitores e alcançar o sucesso dos que estão fadados a escrever para uma minoria. Porque o escritor, atualmente, quer ver sua obra ser quase tão memorável quanto O Senhor dos Anéis ou Star Wars, ganhar a tela de um cinema, com um elenco milionário. O escritor quer a fama, e a jornada do herói promete isso, o sucesso e a empatia do leitor.

E produz mediocridade ao extremo.


Se você chegou até aqui, deve ter prestado atenção nas imagens que ilustram este texto. Perceberam como diversas obras, de várias mídias, seguem a jornada do herói. Arrisco a afirmar que muitas delas seguem sem nem saber o que estão fazendo; e o inconsciente coletivo é algo interessante por isso, pela graça de fazermos atos inconscientes que nos conectam a outrem.

Agora, imagina, por um segundo, que sensação estranha e incômoda é ler uma história ou assistir a um filme e não parar de pensar "Ei, eu já vi isto antes!". Todos nós já passamos por algo assim e poderíamos dar exemplos claros tanto de obras quanto do que sentimos. Imagina, então, a um escritor que se propõe a escrever igual a dezenas de outros, seguindo as regras exaustivamente expostas nas imagens logo acima (e algumas abaixo).


Aceitar a jornada do herói como regra de sucesso e submeter-se a ela só torna sua escrita medíocre e repetitiva, desprovida de criatividade e atrativos cativantes. Por que alguém leria uma história tão parecida com O Senhor dos Anéis ou Harry Potter, se pode ler as obras originais? Por que eu compraria um livro que se propõe a contar uma história que já foi escrita mil vezes antes?

Se o preço do tal sucesso que o culto da abominação criada por Vogler proclama existir é ser vazio de estilo e identidade, sinto-me feliz por não seguir conscientemente nem mesmo o monomito original, que possui muito mais riqueza e elementos que abrangem um todo (expus sobre isso no e-book Star Wars e o Monomito, escrito após eu assistir O Despertar da Força e reler O Herói de Mil Faces).

Sim, estou admitindo que não há como fugir dos elementos (não confundam com subverter, que é outra bobagem medíocre que alguns defendem e justificam quando incentivam a leitura do livro do Vogler), mas segui-los como uma bíblia é reduzir seu potencial criativo a zero.

Como podem ver acima, a jornada do herói ignora muito mais elementos enriquecedores, destrói a semente da autodescoberta e incentiva a mediocridade a favor de um sucesso em cima da repetição do que deu certo.

Desculpa se ainda ofenderei alguém (mais do que já devo ter ofendido), mas ser escritor é muito mais ousar e liderar do que seguir um flautista como um ratinho desmiolado.

NOTA: Após uma conversa amistosa com alguns escritores, foi-me pedido a indicação de obras de alguns narratologistas. Citarei apenas dois, os quais li e aprecio suas obras. Vale ressaltar que não é para seguir suas estruturas ou regras, embora um deles seja amplo em sua análise sobre arquétipos literários.

Morfologia do conto maravilhoso, de Vladimir Propp, que estudou centenas de contos folclóricos russos e elaborou uma estrutura com dezenas de tópicos em comum; é uma leitura bastante densa, e altamente recomendada para escritores de contos e novelas de fantasia, principalmente.

Os Arquétipos Literários, do mitólogo e semioticista russo Eleazar Meletínski, que analisa dezenas de obras, traçando perfis de personagens comuns em narrativas míticas e da literatura russa; recomendo mais a leitura deste do que do anterior por ser uma obra mais prática e livre de estrutura ou fórmula; para quem leu ou pretende ler O Herói de Mil Faces, é um complemento à altura.

Um acréscimo à lista seria o livro O Homem e Seus Sìmbolos, organizado por Carl Jung, cujo trabalho influenciou muito os estudos de Campbell.