19 de janeiro de 2017

"Fragmentos": o fracasso de um projeto pioneiro no Oeste Baiano

Da esquerda para a direita, sentados, Hulle Horranna (poesia), Letícia Giotti (poesia e ilustrações), Anton Roos (conto, crônicas e co-organização) e Gloria Tretin (conto).
Da esquerda para a direita, ao fundo, Gabriela Fagundes (fotografia de capa e miolo), Isaac Guedes (poesia), Uêmerson de Santana (colaborador), Jardel Reis (ilustrações), Ricardo Haseo (conto), Felipe Breuning (revisão), Alec Silva (conto e organização) e Guilherme Araujo (conto).
Alguns escritores, por motivos particulares, detestam falar ou admitir fracassos. Respeito o direito de cada em não assumir que uma ideia deu errada ou que um projeto fracassou de maneira espetacular.

Eu tive várias derrotas e inúmeros fracassos desde o primeiro romance até o momento: versões de histórias que não agradaram ninguém, projetos abortados porque já havia algo similar, lançamentos frustrados em diversos níveis...

Um em especial vale um detalhamento maior.

Na cidade em que moro atualmente, Luís Eduardo Magalhães, no Oeste da Bahia, sou um dos primeiros ficcionistas publicados, um feito modesto e alcançado por muita teimosia. Com a publicação de Zarak, o Monstrinho, em 2011, conheci outros escritores, além de poetas e ilustradores.

Com isso, tive a iniciativa de publicar um material com textos e imagens produzidos apenas por artistas da cidade. Nascia Fragmentos, uma coletânea lançada precariamente em meados de 2015, contando com um conto de cada autor, de fantasia, drama a horror, alguns poemas, ilustrações de dois artistas e fotografia em cada biografia. Como editor, dei ênfase total a cada um dos participantes, permitindo que se apresentassem e expusessem suas artes. Os textos de apresentação detalhavam o histórico da literatura luiseduardense, o motivo de a capa ser aquela, etc. Os trabalhos foram divididos em poesia, contos e extras, com biografia de demais colaboradores e crônicas do co-organizador, Anton Roos.


Sem modéstia, um trabalho dedicado e muito bom, criado para apresentar um pouco da literatura da cidade e agradar o máximo de leitores possível.

Ainda assim, para grande desgosto dos envolvidos, foi um fracasso imenso.

A começar que faltou apoio de todos os lados, inclusive de alguns artistas participantes, que não se engajaram em autopromoção o bastante para que o projeto fosse mais visto. Não, não estou culpando-os, afinal discordo quando dizem que o artista deve ser também um vendedor, mas a falta de amor à arte é um mal comum, infelizmente.

Sem incentivo público, Anton e eu investimos na impressão e todos os custos de editoriação. Estávamos cientes de que não haveria retorno total do investimento, mas pagamos todas as despesas sem dever nada a ninguém. E amargamos, por fim, um desdém absurdo e uma rejeição assustadora.

Da tiragem de 200 exemplares, menos da metade realmente foi vendida; a partir do visível fracasso, reduzimos os preços e começamos doações modestas. Cada autor recebeu sua cota e o pagamento dos direitos autorais de acordo com o que foi vendido.

Mas já era tarde. E desanimador.

Amargamos o descaso em cada evento que conseguimos ir. O nível de desprezo era tão grande que as pessoas chegavam a fechar os pontos de acesso à nossa humilde exposição sem qualquer ressentimento. Em momento algum, buscamos depender da prefeitura, e ela tampouco reconheceu o trabalho pioneiro que Fragmentos representava.

E assim dei adeus à publicação impressa, com um gosto amargo da derrota, mas satisfeito por ter dado a cada um que participou a alegria de ter um livro com seu nome, cuidadosamente editado e planejado, sem cobrar um centavo por isso.

As lições são muitas, mas a principal é: a arte independente é uma arte moribunda e teimosa.

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