Entretenimento ou escapismo não torna uma obra melhor ou pior do que a outra

Certa vez, após prestar leitura crítica para um romance, descobri que o autor que me contratou havia solicitado uma segunda opinião; não entrarei em pormenores acerca do conteúdo da segunda leitura crítica que o texto recebeu, mas fixarei um questionamento que me ocorreu após tomar conhecimento do que opinou o leitor crítico:

Qual é o problema de uma história ser uma mera obra escapista, escrita única e somente para o entretenimento do leitor?

A pergunta me gerou alguns debates com amigos e colegas escritores, e pude levantar alguns pontos simples (ou simplórios) sobre o tema.


Antes de tudo, não nos prendamos a um mero rótulo e sejamos genéricos, pois parte do problema está na generalização: fantasia é O Senhor dos Anéis, Harry Potter e As Crônicas de Gelo e Fogo; terror é Stephen King; ficção científica é Asimov... e por aí vai. Tudo é genérico, estereotipado, padronizado.

Nascem as comparações (às vezes sem sentido) logo que uma obra ou um autor se destaca. Quem nunca leu um "Game of Thrones encontra Jurassic Park" ou "Nasce um novo Stephen King"... ou "Asimov brasileiro" em alguma capa? Entendo que, ao generalizar e comparar ao que funciona, a atenção de possíveis leitores se torna maior. Mas cresce a chance da decepção em igual medida.

E permite a autores de fantasia perceberem expressões desgostosas, de espanto a desprezo, quando apresentam uma história (bem contada e muito mais interessante do que muitas do mainstream) que é puro e legítimo entretenimento. Ou possui elevado grau de profundidade em meio a camadas superficiais que parecem puro escapismo.

Eu desanimei imensamente de falar sobre minhas histórias porque cansei de olhares desdenhosos, comparações ridículas com autores que não gosto ou com os que gosto. Não, não é de meu intuito ser um "novo Lobato" ou um "Gaiman baiano"; adoro poder ser eu, Alec Silva, que gosta de escrever histórias que encontram seus leitores aos poucos. Apenas as escrevo, reviso, edito e publico; se me perguntam, respondo; se não, não me incomodo.

Sou leitor confesso de livros de entretenimento; e é o que mais escrevo. Entre os meus filmes preferidos, por sua vez, uma maioria expressiva é puro entretenimento com roteiros simples ou que, se fossem analisados friamente, seriam duramente criticados. E isso não me faz melhor ou pior do que ninguém. Assim como eu estudar arduamente para um projeto, lendo assuntos alheios aos meus gostos ou paralelos a eles, faz de mim um escritor superior a alguém.

Se bem escrita, por mais simplória que seja uma história, ela possui o poder de cativar pessoas e modificá-las. Se mal escrita, a ideia mais genial irá fracassar. Exemplos para os dois casos há aos montes: conheci uma trilogia (se não me falha a memória) que dizia inspirada nas obras de Tolkien e era uma abominação em todos os sentidos, com personagens sem carisma, temas copiados de diversas fontes e escrita pobre; e me deliciei com textos mais simples sobre um garoto que encontra um demônio com ótimos momentos e personagens divertidos.

Então, se você adora ler ou escrever textos escapistas e se diverte com isso, continue! Se prefere obras mais elaboradas, continue! Mas tenha em mente que o que torna um texto bom ou ruim, seja escrito para um adolescente ou para um adulto, para um leitor casual ou um culto, é a maneira que foi concebida.

Por experiência, aprendi que nem sempre a escrita de um autor, por mais que a história nos atraia, é garantia de que irá agradar. Isso, contudo, fica para outro debate.

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