#MovidosPorHistórias


Eu moro numa cidade sem livrarias. Tem uma ou duas, mas são ligadas a produtos focados ao público gospel. Havia, é verdade, uma livraria, mas, aos poucos, foi deixando de vender livros e focando em produtos de papelaria e informática. Havia uma papelaria que vendia revistas; com o tempo, parou de vender revistas e ficou apenas em papelaria. Havia uma papelaria na rodoviária; fechou. Resta apenas uma banca na praça, que resiste muito bem; parte do que tenho de revistas e livros comprei lá. E na filial das Lojas Americanas (olha o merchan!). O restante veio de amigos e compras na Submarino (mais merchan!).

Antes de poder comprar livros, catava o que encontrava na escola que frequentei por quatro anos. Li de tudo que me interessou, levei enciclopédias para casa para devolver depois, copiava o que pudesse em cadernos. Enchi vários cadernos com conhecimento. No colégio, no ensino médio, a biblioteca estava abandonada, poucos livros, pouco conhecimento, quase sempre fechada. Quando reformaram, ajudei a organizar as prateleiras, devorei o que encontrava.

Há ainda uma quase abandonada biblioteca comunitária, no centro da cidade, na mesma praça em que fica a banca de revistas e jornais. Li muita coisa por lá, levei pouco para casa para devolver depois, pois moro quase no outro lado da cidade.

Quando publiquei meus livros, apenas uma vez tive apoio da prefeitura. Tiragem pequena, cem livros, doei quase tudo. O foco aqui sempre foi música, dança e um péssimo teatro amador. A literatura foi, por algum tempo, apenas eu. Outros vieram e desapareceram por falta de apoio. Fragmentos encalhou, prefeitura não quis distribuir em escolas o material feito por artistas locais.

Editoras que cobram o valor de um carro popular para publicar. Péssimas edições. Editores que possuem listas negras. Ditadura de opinião: ou você engole desaforo ou não publica. Amazon foi o que me salvou. E salvou outros.

A literatura se tornou mais democrática para leitores e autores, para os bons e os ruins, para os ricos e os pobres. Quem tem Kindle, pode ler nele; ou no computador ou no celular. É um mundo enorme numa tela pequena.

Mas a Amazon é uma empresa. Ela não tem obrigação nenhuma para com a sociedade. Doar livros, computadores, o que for, ela faz se quiser. Mas é tudo propaganda. Quem tem que lidar com a educação e a cultura é a iniciativa pública, fazendo parcerias, incentivando artistas. A Amazon não é perfeita, mas, após desprezos por todos os lados e um mercado editorial que me enoja, ela foi minha única alternativa. E tem se mostrado muito boa.

Numa guerra política e por ideologias imbecis, quem perde não é quem detém o poder, é quem precisa de um espaço para sobreviver. Ou seja, todo mundo que luta uma batalha enquanto os poderosos lucram.