29 de março de 2017

#MovidosPorHistórias


Eu moro numa cidade sem livrarias. Tem uma ou duas, mas são ligadas a produtos focados ao público gospel. Havia, é verdade, uma livraria, mas, aos poucos, foi deixando de vender livros e focando em produtos de papelaria e informática. Havia uma papelaria que vendia revistas; com o tempo, parou de vender revistas e ficou apenas em papelaria. Havia uma papelaria na rodoviária; fechou. Resta apenas uma banca na praça, que resiste muito bem; parte do que tenho de revistas e livros comprei lá. E na filial das Lojas Americanas (olha o merchan!). O restante veio de amigos e compras na Submarino (mais merchan!).

Antes de poder comprar livros, catava o que encontrava na escola que frequentei por quatro anos. Li de tudo que me interessou, levei enciclopédias para casa para devolver depois, copiava o que pudesse em cadernos. Enchi vários cadernos com conhecimento. No colégio, no ensino médio, a biblioteca estava abandonada, poucos livros, pouco conhecimento, quase sempre fechada. Quando reformaram, ajudei a organizar as prateleiras, devorei o que encontrava.

Há ainda uma quase abandonada biblioteca comunitária, no centro da cidade, na mesma praça em que fica a banca de revistas e jornais. Li muita coisa por lá, levei pouco para casa para devolver depois, pois moro quase no outro lado da cidade.

Quando publiquei meus livros, apenas uma vez tive apoio da prefeitura. Tiragem pequena, cem livros, doei quase tudo. O foco aqui sempre foi música, dança e um péssimo teatro amador. A literatura foi, por algum tempo, apenas eu. Outros vieram e desapareceram por falta de apoio. Fragmentos encalhou, prefeitura não quis distribuir em escolas o material feito por artistas locais.

Editoras que cobram o valor de um carro popular para publicar. Péssimas edições. Editores que possuem listas negras. Ditadura de opinião: ou você engole desaforo ou não publica. Amazon foi o que me salvou. E salvou outros.

A literatura se tornou mais democrática para leitores e autores, para os bons e os ruins, para os ricos e os pobres. Quem tem Kindle, pode ler nele; ou no computador ou no celular. É um mundo enorme numa tela pequena.

Mas a Amazon é uma empresa. Ela não tem obrigação nenhuma para com a sociedade. Doar livros, computadores, o que for, ela faz se quiser. Mas é tudo propaganda. Quem tem que lidar com a educação e a cultura é a iniciativa pública, fazendo parcerias, incentivando artistas. A Amazon não é perfeita, mas, após desprezos por todos os lados e um mercado editorial que me enoja, ela foi minha única alternativa. E tem se mostrado muito boa.

Numa guerra política e por ideologias imbecis, quem perde não é quem detém o poder, é quem precisa de um espaço para sobreviver. Ou seja, todo mundo que luta uma batalha enquanto os poderosos lucram.

11 comentários:

  1. Concordo plenamente! Não estou acompanhando em detalhes a treta, mas acho uma grande palhaçada esse negócio de querer empurrar a Amazon para doar livros e computadores. Se ela fizer, ótimo, mas nenhuma empresa vai dar algo em troca de nada - mesmo que seja divulgação, marketing, etc. O pessoal embarcando nisso só está mesmo querendo algo de graça, na minha nada abalizada opinião.

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    1. Sim, é pegar a responsabilidade que deveria ser do prefeito e seus secretários e jogar na empresa. E se a empresa não embarca nisso, ficam a culpando... tsc

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    2. Pois é. Até acho possível e bastante fácil de entender (embora ainda ache idiotice) que o próprio prefeito tente empurrar essa responsabilidade para outra pessoa. Mas ver um bando de alienados concordando e pressionando a empresa só me faz concluir que, como coletividade, estamos ficando cada vez mais fáceis de manipular por qualquer motivo que seja.

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    3. Aqui na cidade tá rolando mais ou menos isso.

      As pessoas endeusam demais os políticos e depois dá merda; mas a culpa não é do prefeiro, claro, porque ele sabe se apresentar publicamente, é bom de papo...

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    4. Exatamente assim. Confesso que - sem ter grandes esperanças - esperava ao menos que o Doria fosse terminar os anos dele sem fazer nenhuma merda épica. Preciso ser menos otimista ainda.

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    5. Ele vai se candidatar para a presidência ano que vem. Nem vai terminar o que deveria começar.

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  2. O responder não vai nem por reza brava. ¬¬
    Mas então, e isso porque estava dizendo que não ia. Ou seja, mais do mesmo.

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    1. É tradição em São Paulo...

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    2. Verdade, nem tinha pensado nisso. E do jeito que a coisa anda bagunçada, não duvido que ele vença. A menos que apareça um pior ainda.

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    3. Entre Lula e Bolsonaro, Doria tem chances enormes de ganhar.

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    4. Não duvido! Acho melhor já ir acostumando com a ideia.

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