[Trecho] "Anafélia", a sequência de "Anamélia"

Evre Başak
Quando escrevi Anamélia, a ideia era uma pequena coleção de histórias relacionadas com a Morte, Um conto antes de morrer. A noveleta ganhou ares de conto de fadas, num tom sombrio, violento e angustiante em alguns momentos. E veio a ideia para mais duas histórias com a protagonista de olhos heterocromáticos, ambas mesclando fantasia e horror, real e imaginário, a luta de uma mulher/garota contra um mundo opressor.

Enquanto a primeira história explorava temas delicados, como suicídio, violência sexual e aborto, e Anamélia visitava vários pontos de uma cidade, numa longa madrugada, para realizar sete difíceis tarefas, encontrando criaturas fantásticas e revelando significados profundos de sua vida no percurso, a ideia para sua sequência (por muito tempo denominada apenas Anamélia 2) abandona o caráter de sonho e abraça o de folclore.

The Wolf Girl by IvonaVasileva
Oficialmente, a noveleta será intitulada Anafélia e apresentará a história de uma garota que está descobrindo a sexualidade e os perigos de ir contra uma sociedade supersticiosa. Paralelo a isso, ataques constantes de uma criatura lupina ameaçam a vila, provocando uma caçada a lobos que fará Anafélia escolher entre a humanidade que a julga ou os animais que a protegem.

Portanto, a história será sobre uma fada dos lobos (ou peeira). Além da presença de lobisomens, podem ter certeza de que terá uma variedade interessante de outras criaturas, oriundas de alguns cantos do mundo.

Por ora, uma amostra não revisada do primeiro capítulo.

Ah, o nome da trilogia é Saga das Anas.

Girl with wolf by LolosArt

Anafélia era estranha.
Toda a sua vida, ainda que breve — talvez dezoito invernos, se levar em conta os cálculos de um médico que a tratou quando chegou à vila —, foi de grande estranheza. Seu nome teria sido Ana Ofélia, mas o homem que a registrou era fanho e o escrivão, cansado de anotar nomes e nomes, não compreendeu bem a pronúncia. Ana Ofélia, para ouvidos sonolentos, era o mesmo que Ana’félia.
E as estranhezas continuavam de maneira incrível.
De beleza quase pueril, uma garota saindo da puberdade, ainda se formando como mulher; talvez os primeiros anos, vividos entre feras, tenham contribuído para seu retardo físico. Mas estava se desenvolvendo, e já chamava a atenção dos rapazes, que a olhavam com certo desejo — que durava pouco a maioria das vezes, pois se lembravam das histórias sobre onde e como fora encontrada.
Os cabelos ruivos, num tom alaranjado tão intenso que lhe valeu o apelido de “menina-raposa”, eram compridos e lisos, exceto nas pontas, que ondulavam suavemente. E possuía uma pele pálida, tão alva que parecia translúcida — e ficam visíveis os caminhos que o sangue circulava — e a impediam de se prolongar ao sol, sob risco de adoecer.
O corpo era esguio, com seios levemente médios, que vinham se formando melhor no último ano, mas nada que fosse ficar chamativo, como as demais garotas de sua idade, nem fosse discreto em sua estatura mediana; todavia, ainda que suscetível a olhares luxuriantes, ela era inocente em aparência, com um semblante quase de criança, de menina tímida.
E, por fim, os olhos. O esquerdo era verde, num tom intenso e chamativo, sendo comparado ao brilho de uma esmeralda; e o direito, azul acinzentado e gélido, de pouca expressão. Se estava alegre demais, o verde ocultava a tristeza do outro; se estava deprimida, o azul fazia o outro se apagar terrivelmente. Era como se seu corpo frágil apenas pudesse suportar uma emoção por vez, uma coisa de cada vez.
A rotina de Anafélia era regulada pelos dias da semana: de segunda a sexta, ocupava-se com os afazeres de sempre — cuidar da horta, alimentar galinhas, ordenhar vacas e cabras, limpar os quartos da estalagem onde vivia desde criança, ou lavar roupas de hóspedes... —; no sábado, acompanhava as crianças que iam pastorear no lugar dos adultos, uma tradição que ninguém sabia explicar a origem; e no domingo, tinha o dia livre para fazer o que quisesse, já que era proibida de adentrar a igreja.
Como quase ninguém — com exceção de os que a adotaram inicialmente a contragosto e um rapaz tímido, que a observava discreto e calado, sem nunca ir conversar com ela — se preocupava ou se importava o bastante com sua existência, a garota seguia trilhas e campos, desbravando distâncias e lugares, conhecendo os arredores da vila. E compreendendo que havia mais do que os olhos comuns eram capazes de enxergar.
Anafélia era, sem qualquer vestígio de dúvidas, uma menina selvagem; os anos vividos na floresta haviam a marcado não na pele, que era imaculada, mas sim em sua alma, enraizando um espírito que parecia descansar — e vez ou outra se mexer, para mostrar que ainda estava ali.
Corajosa, ia para a cachoeira, onde banhava-se nua e sem pudores, ou subia nas árvores mais altas, onde conseguia ter uma visão ampla da floresta rodeando a vila e as pequenas fazendas. Se era inverno, não tinha problemas com o frio; até gostava mais das épocas invernais do que quaisquer outras, pois andava com passos leves sobre a camada razoável de gelo que formava no lago mais afastado e os lobos apareciam com mais frequência.