Não é "mimimi"!


Uma leitora, que morava na Alemanha, me disse que a leitura de A Guerra dos Criativos a ajudou a repensar um pouco a vida. Antes, ela se sentia sozinha, como se ninguém entendesse seus pensamentos e sentimentos. Não se sentir excluída ou isolada com sua dor evitou que ela se jogasse na frente de um trem.

Outra leitora, aqui do Brasil, se encontrou nas páginas de Anamélia e A Guerra dos Criativos. Ela tinha cicatrizes no pulso e um histórico de tentativas de suicídio.

E uma namorada, certo domingo, me mandou mensagem se despedindo. Iria se matar. Levei horas e horas conversando com ela até convencê-la mudar de ideia.

Diariamente, de alguma forma, encontro histórias de garotas que se suicidam. Motivos? Vários. Os mais "comuns" envolvem intimidade vazada, mentiras espalhadas, confiança abalada. Garotos também se suicidam. Os motivos variam. Os principais envolvem sexualidade, bullying, machismo.

Eu, por exemplo, já sofri bullying pesado por alguns anos, até aprender que os valentões não me atacavam se eu estivesse com algum grupo. Com o tempo, o bullying deixou de ser problema. Mas eu já estava atolado em depressão, com a autoestima destruída. Pensei em suicídio algumas vezes, mas não levei adiante.

Hoje, sou um adulto inseguro com relacionamentos, que se veste numa carapuça de sarcasmo e humor negro. Posso ser uma criatura detestável. Em minha visão, o mundo não é um lugar seguro. Talvez eu esteja certo, talvez errado.

Minhas experiências e as experiências que acompanhei me ajudaram em algumas histórias.

A Guerra dos Criativos é minha obra mais pessoal. Anamélia trabalha temas delicados: suicídio, abuso sexual, depressão. E Bullying mostra um pouco de tudo, em histórias curtas e um tanto incomôdas.

Como escritor, eu sou responsável pelo que escrevo. E abordar temas polêmicos ou delicados envolve tato. Não posso classificar um problema como "mimimi"; um personagem pode, assim como outro pode ser compreensivo. Não cabe a mim julgar ninguém. O leitor quem deve tirar suas interpretações em cima do que me proponho a escrever.

O mundo está cheio de pessoas insensíveis ("isso é frescura", "só transar que passa", "você devia sair mais") e de pessoas que acham que possui uma solução ("assiste algo na Netflix", "você precisa transar", "você precisar sair mais"); faltam pessoas que nos ouçam, nos sintam, nos façam no sentir menos bizarros, desajeitados, deslocados. Não é preciso apontar nada, nem o que pensa ou acha, nem o que faria em nosso lugar; apenas ouça, entenda e conforte. Apoio é fundamental para qualquer passo seguinte, seja qual for.

Reduzir um sofrimento ou menosprezá-lo não ajuda também.

O motivo que levou uma jovem a se matar pode soar bobo, por exemplo, perto do cara que está desempregado e tem seis filhos para cuidar. Mas a cabeça dela funciona diferente da dele. São mundos diferentes, com suas peculiaridades. E há outros fatores envolvidos na questão.

A literatura tem se mostrado um dos principais recursos para se espalhar alguma esperança, pois, se depender da sociedade, da família e do círculo de amizades, mais vidas serão ceifadas por causa de uma dor menosprezada, desprezada e ridicularizada. Almas pequenas silenciando almas sofridas.

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