[Trecho] "Ficção e Realidade"

Hoje é 1º de abril (ou não, se você estiver lendo isto depois ou antes da data), e me lembrei de uma passagem em Colisão em que abordo um pouco sobre realidade e ficção, que é uma linha bastante tênue no Lordeverso, pois as histórias se cruzam o tempo todo e personagens se encontram aqui e ali.

Então, para aqueles que não leram ou que já leram e não se lembram mais, resolvi postar o trecho, a título de mera curiosidade. Noutra ocasião, abordarei a parte técnica deste assunto.


Vannora e eu nos agasalhamos com tudo o que tínhamos ainda, permanecendo próximos; comemos biscoitos e fatias de pães secos e bebemos cada um uma caneca de água. A filha de Zarak também jantou, porém em instante algum demonstrou abaixar a guarda, sempre atenta aos sons da noite, que eram muito assustadores. O sono tardou como nunca antes, e fiquei contando para as duas companheiras de fuga sobre o primeiro livro de Monteiro Lobato que li muitos anos atrás.
— Nunca ouvi falar dessas chaves — disse a Juíza, quando concluí o que pude recordar da trama maravilhosa que aquele autor que me cativava desenvolveu.
— Então, Ailith, é porque é uma história de ficção — apontou a paulista, sorrindo com graça.
— Toda ficção tem um quê de verdade em alguma realidade adjacente àquela em que a história é contada como uma mentira.
Ergui a sobrancelha direita, fitando tanto uma quanto a outra, esforçando-me a enxergá-las bem com a pouca luz lunar que atravessava a camada de folhas e flores compridas.
— Como é? — questionei.
— As visitas de meu pai não serviram para nada, ?
— Bem, serviram para muita coisa, mas em nenhuma delas ele mencionou que minhas histórias fabulosas tinham um fundo de realidade. Na verdade, até pouco antes da Guerra dos Criativos, tudo o que ele me mostrou eram ideias surgidas em minha mente.
— Tudo provém do Lorde dos Lordes — falou a garota dos olhos safira. — As ideias e os conceitos que pairam no universo vêm de sua mente poderosa. As histórias contadas em todos os cantos surgiram de sua imaginação primordial, sendo a verdade e a mentira para cada povo que as ouve. Tudo está interligado, e somente ele sabe os mistérios das coisas.
— Então, como eu consigo saber das coisas que acontecem em outros mundos e realidades? — desafiei, inconformado com a possibilidade de a única qualidade que me orgulhava não significar tanto assim.
— Gariel nos contou certa vez que há milhares de anos, quando o Lorde dos Lordes pairava sobre os mundos criados, viu uma criatura peculiar entre inúmeras outras; era capaz de observar e aprender com extrema facilidade, de inteligência potencialmente avançada e uma facilidade imensa em se adaptar. Fascinado, observou não apenas uma, mas várias daquelas criaturas que se mostravam diferentes das demais, decidindo presenteá-las com um dom que era exclusivo apenas aos primeiros seres criados por ele e que ainda se mantinha exclusivos ao nosso mundo: a criação. Com isso, aquela raça frágil pôde se desenvolver e erguer as cidades e os impérios, determinar o curso da vida na Terra e acessar, por meio de sonhos e visões, mundos distantes. Quando o Lorde dos Lordes deixou para trás os mundos criados, determinou que aquela criatura atuasse também na Guerra dos Criativos, ao lado das criações que residiam no nosso mundo. Assim surgiu a interação entre os muitos mundos e as realidades, o nosso mundo sem nome se tornou o Mundo das Ideias, pois é lá que residem as origens de tudo, sendo o ponto inicial de toda criação universal e onde repousa a essência maravilhosa de nosso supremo senhor.
— Deus? — perguntou Vannora.
— Todos os deuses são conceitos criados pelos homens. Não há um nome quando se fala em fé, pois tudo é questão sobre o que se acredita ou não.
— Mas você ainda não me respondeu — observei.
— Quando você foi para a Última Guerra, o que lhe disseram?
— Pelo que me recordo, a Guerra era uma chance única dada para poucos. Há muitos Criativos na Terra, contudo nem todos são convocados.
— Humrum. Somente os artistas em geral, mas ninguém, além de você, lembra-se do que viveu lá.
— E o que isso tem a ver com o fato de eu saber o que se passa em outros mundos e realidades? Ou que todos os autores consigam essa façanha?
Ailith arfou, como se estivesse desapontada por eu não acompanhar sua lógica.
— O fato de os artistas conseguirem acessar meu mundo já explica isso — respondeu, com um tom firme. — Independente se lembram ou não, a mente viaja a mundos diversos e retornam com imagens; alguns a transformam em música, outros em histórias que julgam ficcionais ou em pinturas que comovem gerações. É a conexão que o Lorde dos Lordes fez com as criaturas que ele tanto apreciou, embora eu ache que tenha sido um desperdício, visto que vocês usam esse dom mais para a destruição do que para a criação.
Abaixei a cabeça.
— E como você explica as más ideias e as péssimas histórias? — indagou minha amiga, surpreendendo-me.
— Incapacidade de interpretar o que viu.
Não me parecia uma boa justificativa, mas era melhor do que pensar que havia muita gente sem talento que se achava capaz de escrever.
— E se formos personagens de algum autor, em algum lugar? — não pude conter a pergunta.
— Talvez sejamos. E neste momento alguém esteja lendo o que estou dizendo agora — concordou a Juíza. — Os universos são complexos demais para serem entendidos. E nós somos apenas grãos de areia perdidos na praia.
Tal pensamento chegava a ser angustiante.