"Contos de fadas são mais que verdade; não porque nos dizem que dragões existem, mas porque eles nos dizem que dragões podem ser derrotados." G. K. Chesterton

28 de junho de 2017

[Conto] Não Pode Chover o Tempo Todo

O conto a seguir foi originalmente publicado em 2015, para um concurso literário. Pode ser encontrado na Amazon, onde possui uma boa avaliação.


"Não pode chover o tempo todo. O céu não pode cair para sempre. E embora a noite pareça longa, suas lágrimas não podem cair para sempre."
[The Crow, 1994]

— Mor, me abraça bem forte? — ela pediu, assim que nos abrigamos sob o teto da lanchonete já fechada.
Abracei-a bem forte, tremendo até mais do que ela. Mais baixa do que eu, era uma bonequinha de porcelana de tão delicada e frágil, e tomá-la em meus braços era como segurar a coisa mais preciosa do mundo. Pode parecer besteira, e talvez o seja, assim como muitas coisas do amor, mas aquela garota era meu mundo, tudo o que eu precisava para suportar a vida.
Os dois encharcados. Irresponsáveis, adolescentes entregues às loucuras e promessas do amor juvenil. Era uma segunda, não mais do que dez da noite, e tínhamos acabado de sair do colégio quando veio a chuva. Forte, intensa e imparcial. Corremos quase um quarteirão até ali, ficando ambos molhados, com frio e com o material didático quase em perda total, as folhas com a tinta borrada, os livros com as páginas estragadas, as mochilas pesando.
Mas, quer saber? Foda-se! Eu estava com minha namorada, que só me pedia um abraço bem forte. O mundo poderia acabar no segundo seguinte. Eu só precisava daquele corpo pequeno perto ao meu, enquanto as gotas d’água faziam a trilha sonora perfeita, caindo tanto no telhado acima de nossas cabeças quanto em poças generosas ou sobre algum caco de vidro ou pedaço de metal.
— Chuva forte, né, mor? — comentei, retirando os cabelos de seu rosto, ao me distanciar alguns centímetros mínimos, para observá-la melhor.
— Um pouquinho.
O dia tinha sido complicado. Bem complicado. E estar juntos, após um dia assim, era o que nos consolava e trazia um pouco de tranquilidade. Uma de nossas promessas era essa: seríamos o refúgio um do outro, como aquela área vazia da lanchonete, cujo única noite que não abria era na segunda-feira. O problema talvez fosse quando nós dois estivéssemos mal, pois apenas nos abraçávamos, chorávamos e ficávamos caladinhos, até a tristeza passar.
E estar chovendo tão forte era como se a natureza refletisse nossas dores e chorasse junto conosco. E aquele ponto em que apenas o frio nos atingia era a materialização de nossa certeza: de que um seria o refúgio do outro.
— Mor, não pode chover para sempre, né? — indagou ela, encarando-me com o olhar lacrimejado, buscando em meus olhos a resposta.
Arfei, unindo com força os lábios, pensando naquela citação parcialmente retirada de um filme. Com toda minha força, alma e espírito eu acreditava que não choveria para sempre. Aquela chuva poderia durar trinta minutos, uma hora, um dia, uma semana ou um mês, mas os céus, em algum momento, iriam secar, as nuvens estariam escassas, escorridas e espalhadas pelo mundo e o sol voltaria a brilhar. Era minha fé, ainda que eu fosse agnóstico. Era a dela, embora raramente deixasse isso claro. E foi o que expressei em meus olhos.
— A chuva não pode durar para sempre, mor — respondi, apertando-a novamente num abraço gostoso, tentando aquecê-la um pouquinho que fosse. — As nuvens não podem chorar para sempre. A gente também não, tá? Nossa tristeza uma hora vai ter que dar lugar ao sorriso. A noite não é eterna.
Sua cabeça recostou em meu peito. Senti sua mão roçando em minhas costas. Ela era tão frágil e delicada, uma boneca de porcelana. Tentava ser forte, e conseguia muitas vezes, mas continuava sendo sensível demais ao toque. Levei um bom tempo para aprender a não feri-la, e eu queria tanto que a vida e todas as demais pessoas aprendessem isso também.
— Não me deixa, tá? — implorou, entregando-se às lágrimas completamente, a voz carregada de tudo aquilo que nos sufocava naquele dia horrível.
Não era apenas a chuva. Não era o fato de termos perdido cadernos, livros e meses de atividades colegiais anotadas em folhas. Não tinha a ver com dinheiro que gastaríamos comprando material novo. Não eram as horas que perderíamos revendo os assuntos para a prova semana que vem, correndo atrás das informações que perdemos com a chuva.
— Nunca vou te deixar — repliquei, também chorando e a apertando tão forte, mas tão forte que teria feito a porcelana que ela era feita trincar. — Sempre estarei segurando sua mão, não deixando que você caia. E, mor, a chuva não pode durar para sempre.
— Obrigada, mor, obrigada por não me deixar.
Ficamos ali, abraçados, protegidos da água gelada, mas expostos ao vento frio. O tempo passou devagar, bem devagar, enquanto a chuva caía sem dar trégua. E esperamos pacientes, de mãos dadas, sentados no chão, bem próximos, com palavras de poucas sílabas vez ou outra. Nossos pensamentos tinham muitas incertezas, medos, anseios e emoções, contudo apenas uma única certeza: aquela tempestade que nos assolava teria que parar e um novo dia iria chegar.

Sobre o que publiquei de janeiro a junho de 2017


Primeiro semestre de 2017 quase concluído. Seis meses bem complicados para o mundo... e para mim. Mas me sinto contente de ter conseguido cumprir metade de meu objetivo como escritor: publicar, mensalmente, ao menos um e-book na Amazon.

Eu não sei se conseguirei repetir a façanha nos meses seguintes por diversos motivos e fatores, porém é gratificante, nesta pequena fase de minha vida, nessa transação de um momento a outro, de desapego a algumas coisas, de buscas por novos rumos, ter alcançado um objetivo tão... significativo.

Este blog também teve papel importante nos primeiros meses, e agora posso desacelerar suas publicações, mesmo que isso signifique perder drasticamente números de acessos diários. Há postagens aqui o bastante para muitos, além de conter coisas que gosto e queria compartilhar, e deve vir mais, contudo num ritmo mais sossegado.

De janeiro a junho, que está quase se encerrando, a vida foi se encarregando de me apresenar os títulos a serem publicados.

Em janeiro, teve A sombra do Cão, noveleta que faz parte de um romance fix-up, O Cão Negro, que enrolo há anos para concluir; tem um quê de horror sobrenatural e gore com lembranças de minhas visitas à fazenda de meu falecido avô paterno. Aproveitei para publicar dois contos com temática steampunk/western com elementos fantásticos e sobrenaturais em Westlich, além de publicar Esclera, primeiro conto da série Paracosmos, que estava em uma antologia de contos cospiratórios.

Fevereiro começou com o conto infantil Rube ganhando tradução para os idiomas inglês e italiano. Estudos Hospitalares, um conto de suspense e horror também teve uma tradução, podendo ser lido por países de língua espanhola. E publiquei o conto O Jardim Celestial de Guilherme, um dos primeiros trabalhos meus publicados, em 2011, num livro de contos e noveletas.

Para março, publiquei Doces Sonhos, um conto de fantasia sombria que surgiu após eu ouvir muito Sweet Dreams e ficar fascinado com uma arte de Luis Royo. E mostrei meu lado humorístico com O Ataque dos Zumpiros, uma história que estava inacabada que surgiu alguns anos atrás, depois de uma conversa hilária com uma (ex)amiga. E Westlich ganhou tradução para a língua inglesa.

Em abril, publiquei uma nova história de A Senhora da Espada Vitoriosa, um conto sobre fins e recomeços, O Templo da Mãe-Negra.

Maio teve novo título do projeto Primórdios do Fantástico Brasileiro, que é uma parceria com Samuel Cardeal: lançamos Nelumbia, de Narcisa Amália de Campos, numa edição inédita. E dois títulos de Paracosmos foram publicados: Subversão, que tem alguns elementos lovecraftianos, e Fragilidade, escrito após eu me sentir incomodado com uma série da Netflix. E ainda deu tempo para sair um e-book em parceria com Samuel, Gótico, Impassível e Picante.

E em junho publiquei, por fim, uma pequena coletânea de contos, A Sublime Elegância do Caos.

23 de junho de 2017


20 de junho de 2017


19 de junho de 2017



17 de junho de 2017