8 de junho de 2017

"Deuses são reais se acredita neles"


Deuses Americanos, de Neil Gaiman, traz, entre tantas coisas, um conceito que eu particularmente adoro: o poder da crença. É algo relativamente comum, em diversas áreas humanas: na religião, nos livros de autoajuda, na ficção, na crendice popular... O simples fato de acreditar/crer/pensar/pronunciar pode possibilitar a concretização de algo/alguma coisa.

Limitando-se ao que conheço, nos filmes Clash of the Titans (2010), remake de um filme homônimo de 1981, e Wrath of the Titans (2012), por exemplo, "Zeus criou os humanos, cuja fé era o que dava poder aos deuses", mas, com o tempo, os mortais passam a questionar as divindades e deixar de acreditar nelas, o que provoca lentamente o enfranquecimento dos deuses... e a extinção.

Mas trata-se de um conceito antigo, já debatido por alguns autores e filósofos, como Cícero, que viveu no século I a.C., que afirmava algo que deixava sonhos e deuses num mesmo patamar:


Provavelmente, seja um trecho de uma de suas obras mais importantes, De Natura Deorum (Sobre a Natureza dos Deuses). Embora pareça, não é de teor ateísta, assim como não é o pensamento de Xenófanes, filósofo grego que viveu entre os séculos VI e V a.C., a quem se atribui a seguinte estrofe:

Mas se mãos tivessem os bois, os cavalos e os leões
E pudessem com as mãos desenhar e criar obras como os homens,
Os cavalos semelhantes aos cavalos, os bois semelhantes aos bois,
Desenhariam as formas dos deuses e os corpos fariam
Tais quais eles próprios têm.

Em termos gerais, ambos defendem a existência de um Deus impessoal, diferente dos apresentados nas lendas da mitologia greco-romana, sem características humanas ou antropomórficas.

Mas, retortnando ao conceito de poder da fé, tenho em minha estante uma coleção (incompleta) bem antiga sobre psicologia, parapsicologia e autoajuda (sim, uma mesma coleção de livros com todos esses temas mesclados). Parte dos volumes podem ser resumidos em "se você acredita em algo, algo vai acontecer" e dão exemplos riquíssimos (talvez não verdadeiros, mas servem muito bem para ilustrar as mensagens). É um dos maiores principais para a mitologia de Paracosmos.

Noutra coleção (completa e bem menor), num dos volumes menciona-se as tulpas, "entidades ou objetos que, segundo o budismo tibetano, podem ser criados unicamente pela força de vontade, envolvendo meditação, concentração e visualização intensas. Em outras palavras, a tulpa seria um pensamento tornado tão real pelo praticante que chegaria a assumir uma forma física, material". Descobri sobre elas pouco tempos de escrever A Guerra dos Criativos, aliás, e acabei englobando-as em obras posteriores, no Lordeverso.

Forma pensada (tulpa) da música de Charles Gounod,
de acordo com Annie Besant e C.W. Leadbeater em Thought Forms (1901).
De modo geral, tal conceito de pensamentos moldando ou dando formas chama-se forma-pensamento e é bem amplamente explorado na teosofia. As "formas-pensamento são criações mentais que utilizam a matéria fluídica ou matéria astral para compor as características de acordo com a natureza do pensamento. Deste ponto de vista, encarnados e desencarnados podem criar formas-pensamento, com características boas ou ruins, positivas ou negativas. As formas-pensamento são supostamente criadas através da ação da mente sobre as energias mais sutis, criando formas que correspondem a natureza do pensamento gerado". A trilogia de fantasia Dragões de Éter, de Raphael Draccon, é baseada nessa crença, fazendo uso de contos de fadas e lendas folclóricas.

No Lordeverso, por fim, a artemagia age de maneiras diferentes, mesmo quando se baseia em forma-pensamento/tulpa/materialização de pensamentos. Há um pouco de Platão, quando determino que primeiro as coisas surgem no plano metafísico para, em seguida, nascerem ou serem criadas no físico.

Ou seja, a ideia de que deuses dependem de nossa fé para existirem não é um conceito novo ou original, estando presente em pensamentos filosóficos com mais de dois mil anos de idade, religiões e culturas diversas, correntes esotéricas e afins. Afinal, quem não ouviu falar do livro-fenômeno O Segredo, que pregava e afirmava cientificamente (por meios duvidosos) o poder da força do pensamento e da crença? Ou nunca ouviu que a fé (re)move montanhas ("Porque em verdade vos afirmo que, se alguém disser a este monte: Ergue-te e lança-te no mar, e não duvidar no seu coração, mas crer que se fará o que diz, assim será com ele”, em Marcos 11:23)?

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