6 de junho de 2017

[Texto Aleatório] Somos feitos de momentos

somewhere near, but far in time. by megatruh
Há quase três semanas, tento resumir as emoções que me assolam. Eu não queria, por diversos motivos, tornar este blog mais pessoal do que já é, mas creio que, por alguma razão, o texto nascido após tanta reflexão deva ficar registrado publicamente.

Enfim...

Somos feitos de momentos.
Eu sou feito de momentos.
Sou feito do momento em que uma colega me ensinou a desenhar, ensinando truques para desenhar um cabelo convincente, uma mão menos estranha, olhos mais simétricos e nivelados um com o outro.
Sou feito do momento em que uma garota me mandou um bilhete — encontre-me na saída, no banheiro feminino, para trocarmos uns beijinhos — e do momento seguinte, que não pude ir porque a carona me esperava na porta da escola já.
Sou feito do momento em que permitir a uma garota me tratar como um animalzinho de estimação. E do momento em que eu disse basta, já deu, hora de terminarmos e a fiz chorar e se desesperar.
Sou feito do momento em que não entendi que a amiga que zelava tanto por mim me amava, preferindo me iludir com aquela que me via como objeto de exibição apenas.
Sou feito do momento em que ignorei aparências e vivi amores sutis e juvenis, tive amizades verdadeiras e aprendi importantes lições.
Sou feito do momento em que uma colega de classe acreditou em meus textos tortos e foi minha representante e incentivadora, ajudando-me a vender livretos feitos de folha sulfite, todos a mão, sem nunca esperar nada em troca além de me ver fazendo o que eu gostava. E do momento em que, por falha de memória, só gravei seu primeiro nome e nem sei direito a grafia — e apenas me lembro de seus olhos castanhos e cabelos dourados, sorriso de anjo e altura de fada.
 Sou feito do momento em que descobri a existência de sentimentos mútuos, dois jovens que se atraem e se apaixonam. Do momento em que um beijo realmente fez sentido, um abraço tornou-se acolhedor e uma despedida, dolorosa. E do momento em que o coração — malditas sejam suas incertezas! — apaixonado desapaixonou e apaixonou de novo — justamente pela amiga de quem antes era amada.
Sou feito do momento em que amores antigos retornam para nos destruir antes de nos moldar em novas formas. Do momento em que escrevi meu primeiro livro — sobre um amor idealizado — e amaldiçoei para sempre meu futuro pelas letras. E do momento em que escrever se tornou rotina, hábito viciante e motivo de surpresas — boas e ruins.
Sou feito do momento que é esquecido e lembrado posteriormente, quando o amor — cupido travesso e odioso! — persiste e sobrevive e me encontra — ou reencontra. Do momento em que ignorei boatos e zombarias porque jamais imaginei viver algo como aquilo. Do momento em que, atrás de uma pilastra, coração — este maldito! — acelerado e mãos trêmulas — não precisa ficar nervoso, relaxa! — me propus a algo — vamos ver no que isso vai dar? —, a um momento completamente oposto do que era comum a mim. E do momento em que marquei novo encontro.
Sou feito dos momentos que se repetiram até que meu peito já estava inflado — eu te amo, quer namorar comigo? — e era hora de acabar com as incertezas. E dos momentos sempre marcados, expectativas, brigas, risadas, abraços, beijos, brigas e todas aquelas coisas de namoros sérios e que duram algum tempo — dois anos e alguns meses, nossa!
Sou feito do momento em que ela segurou minha mão com força na montanha-russa — nunca vou te soltar, prometo — ou do beijo que me deu na roda-gigante. Do momento em que dançamos, num sábado, sob um lindo céu estrelado e trocamos juras e promessas de amor — todas não-cumpridas e perdidas. E do momento em que o amor — dela por mim — se acabou.
Sou feito do momento que se tornou dias, semanas, meses e anos. Do momento em que paixões platônicas nasceram e foram sufocadas. Do momento em que algo em mim foi mudando. E do momento em que eu já nem sabia mais o que sentia ou o que pensava.
Sou feito do momento em que teoria do caos se manifestou e o amor — maldito seja, anjo cupido! — voltou. Do momento em que minha dor e minha depressão pareceram encontrar seus pares naquela garota. E dos momentos que se seguiram — bons e ruins.
Sou feito do momento em que sou erro. E do momento atual.
E eu sou um momento.
Um momento de qualquer um, de qualquer evento maior.
Somos todos feitos de momentos, de recortes de vidas alheias que se cruzam, como caminhos entrelaçados, unidos e, posteriormente, ramificados e bifurcados, separados e divididos. Cada qual para seu lado, amigos ou amantes, restam fragmentos desses encontros, pedacinhos tão frágeis que, um dia, tendem a desaparecer ou se tornar matéria dos sonhos até que, finalmente, nada mais sobre além de um saudosismo — irritante.
Não há nada de errado nisso, em ser um momento de alguém ou viver um momento. Mas também não é bom ser só isso, um momento que passa e se perderá num mar de outros, afinal todos querem ser caminhos longos e, de preferência, eternos, e não apenas um trecho acidental, um atalho que logo será abandonado.
No final, sabendo que somos todos — compostos de — momentos, restando-nos contemplar a vida, esse trecho singular da eternidade, pois, assim como um piscar de olhos, ela não dura mais do que um breve instante. E aproveitar, à nossa maneira, cada breve peça desse quebra-cabeças sem visualização prévia, onde cada parte é vivido de improviso, de erros e de acertos, de alegrias e de tristezas, de chegas e despedidas.
No fim, apenas seja o momento — o seu, de preferência.
E desfrute.

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