25 de julho de 2017

A hipocrisia da valorização da literatura nacional

Há alguns anos, não sei exatamente quando (e estou com preguiça de checar os arquivos), escrevi este texto. E ele ainda continua tão real e atual...

Este post vai dar merda, e das grandes, mas vai ser escrito assim mesmo.

E não serei hipócrita; também tenho culpa nisso aí.

Mas vamos com passos lentos, até o ponto.

Esses dias, na andanças ali e aqui, deparei com alguns posts, em outros blogs, que pregavam uma campanha linda, muito linda: INCENTIVO E VALORIZAÇÃO DA LITERATURA NACIONAL. Um dos textos, a meu ver, era muito ruim; outro, muito bom; e um estava na medida.

Nas sugestões de livros que deveriam ser lidos, inclusive, títulos de Carolina Munhoz, Raphael Draccon, André Vianco, Leonel Caldela e de um time que mesclava bons autores do underground com alguns nem tanto, mas estavam ali por serem nacionais.

Não, não vou entrar no mérito de termos ou não bons autores. Isso é tão objetivo quanto eu achar os filmes da Marvel infantilizados e gostar de alguns poucos livros de Dan Brown ou preferir os filmes do Michael Bay ao invés dos de Martin Scorcese.

Nesses três posts que li, sem nenhuma exceção, havia escritores por trás deles e, consequentemente, leitores, mas, se não me engano, NENHUM deles citou sequer um livro que não fosse de uma panelinha. "Ah, mas eram bons livros!" Sim, de fato a maioria era, mas é uma caixinha pequena, quando o tema é LITERATURA NACIONAL.

E aqui é que vem a hipocrisia nossa de cada dia: quantos autores nacionais novos lemos anualmente, desbravando títulos obscuros e na sorte? Eu tenho mania de comprar livros de ficção cujos autores nada sei, independente se são nacionais ou internacionais; e costumo ignorar, com todas as forças, sugestões de amigos, afinal alguns possuem gostos duvidosos e meus gostos são peculiares e vocês não entenderiam.

Na verdade, de uns anos para cá, desacelerei quanto à leitura de livros de ficção, concentrando-me mais em leituras mais didáticas e voltadas aos temas que escrevo; não por me achar superior aos colegas de escrita, e porque simplesmente não consigo ler mais histórias que não sejam capazes de me trazer algo a mais, seja conhecimento ou aprimoramento de algumas poucas técnicas que agrego ao meu estilo. Isso atrasou leituras de livros de amigos, autores talentosos...

Só que o fato de eu não ler tais livros não me impede de divulgá-los. É simplesmente natural e quase automático eu dedicar alguns minutos de meus dias indo num link, pegar a imagem da capa e fazer uma postagem; é normal eu montar e-books para alguns sem cobrar pelo serviço; arriscar dinheiro num projeto que a prefeitura local se recusou a ajudar; é o tal incentivo, é o que posso fazer.

Um amigo, esses dias, criticou que eu não leria os contos dele mesmo, então não fazia diferença o que ele faria ou não; nunca mais o lerei, é bem provável, mas isso não vai mudar o fato de que o continuarei incentivando a escrever e melhorar, assim como o fiz ao pedir a um amigo, mais experiente, para ajudá-lo a reescrever um livro que estava, em nível literário e comercial, bem medíocre.

Uma amiga tem grande potencial, mas se lamenta muito, critica os leitores brasileiros, mas será que ela é uma leitora da nossa literatura, seja ela consagrada, independente ou inteiramente experimental?

Outro amigo, com centenas de livros encalhados, pouco se promove ou se dispõe a entrar em campanhas loucas com amigos e colegas literatos; é ruim ter exemplares mofando num canto, contudo ajudar o próximo poderia ser benéfico para ele.

Um jovem aqui na cidade quer lançar um livro solo, porém mal consegue promover a coletânea que participa e não incentiva os colegas de projeto; ou sequer consegue ir a um evento numa cidade vizinha.

Há quem encha grupos de spams, com artes elaboradas, mas não consegue compartilhar um simples post do colega, para dar aquela forcinha. E há quem se dedique a apenas sua causa e tapa os olhos para alguém que, talvez, o ajude vez ou outra sem jamais pedir nada em troca.

Uma vez, com alguns amigos, estávamos pressionando uma editora a rever as capas com imagens usadas ilegalmente, pois isso prejudicaria os autores do selo; em momento algum, culpamos os escritores por tal crime, mas foi um deles que nos intimou com ameaças, porque aquilo estava manchando sua imagem como autor, imagem esta que nem sequer havia começado (e nem foi muito longe, permita-me ser bem direto). Ali eu notei, com extrema clareza, que é cada um por si e foda-se o grupo!

Por fim, esses dias rolou campanha para que deixássemos alguns e-books de graça e usássemos uma hashtag; eu esperava que todos fossem se ajudar e fiquei decepcionado quando vi só autopromoção, havendo poucas e mínimas exceções em casos de autores que compartilharam post do colega. Lamentável...

Todo mundo quer ser lido e enche a boca para defender a literatura nacional, mas, vamos ser sinceros, está pensando no próprio umbigo apenas, nos centavos angariados na venda daquele livro que se dedicou tanto a escrever, no bem-estar de ser lido. Eu mesmo penso muitas vezes assim, quando olho os números baixos de vendas ou leituras que consigo, sempre imaginando como melhorar aquilo.

Eu não fico com bandeiras, pois as odeio; acredito, sim, que nossas histórias possuem grande peso, até mais do que as que vendem milhares de exemplares; acho que alguns autores best-sellers são tão ruins quanto os amadores, inclusive brasileiros, o que reforça muitos preconceitos e atrapalha ao leitor alcançar os bons, os que merecem realmente visibilidade; e tenho convicção que ninguém conseguirá ir longe com essa desunião que noto entre a classe de escritores ou com essas panelinhas que só leem livros uns dos outros.

Como eu falei certa vez para uma amiga: você não precisa ler o livro de ninguém, mas ajuda na divulgação, indicar para quem pode se interessar ou simples e humildemente compartilhar um link não irá roubar seus leitores nem necrosar o dedo.

Ou podemos ficar com essa hipocrisia de pedir valorização da literatura nacional... que escrevemos... ignorando a dos colegas.

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