9 de julho de 2017

[Conto] Momento

Assim como o conto Não Pode Chover o Tempo Todo, o conto a seguir encontrar-se à venda na Amazon.


I close my eyes
Only for a moment
And the moment's gone
All my dreams
Pass before my eyes, in curiosity
Dust in the Wind, Kansas

Ela me mostrou os três pontos brilhantes no céu.
— A luz mais brilhante é Marte — explicou, num sorriso empolgado. — Logo abaixo, Saturno. E à direta está Antares, que faz parte da constelação de Escorpião.
Era quase madrugada, e o vento frio me incomodava um pouco; ela, contudo, parecia à vontade, com os olhos perdidos naquele manto celestial acima de nossos corpos sentados no tapete aberto na laje da casa. Os cabelos esvoaçantes, ora ou outra cobrindo parte do rosto; enquanto falava, mantinha o olhar fixo no conjunto de dois planetas e uma estrela; quando terminou, olhou-me e deu risada, pois eu fazia — tenho certeza que fazia! — uma cara de bobo apaixonado.
— Você ouviu o que eu acabei de falar? — perguntou-me naquele instante.
— Sim, ouvi — respondi, sorrindo.
— E...?
— Marte brilhante. Saturno logo ali — respondi, indicando cada ponto mencionado. — E tem aquela estrela também. Antares, né?
Ela riu.
— Sim.
— É de Escorpião.
O vento veio mais forte, como se risse de minha situação.
— É, prestou atenção mesmo — disse ela, voltando a contemplar o céu.
Meus sentidos eram adaptados à presença dela: a visão se perdia em sua beleza, admirando cada expressão e interpretando cada gesto; o olfato captava seu perfume suave, e às vezes atrapalhava os olhos, que se fechavam, e era o único momento que tudo poderia — e costumava — se perder; e a audição se mantinha apurada, ouvindo sua voz, recolhendo cada palavra em intervalos silábicos.
— Claro que estou, oras — repliquei.
— Você sempre parece aéreo, distante.
— É, mas estou aqui, ouvindo você e aprendendo.
Desviei o olhar para o lado oposto de onde ela estava; dava para ver a copa de algumas árvores pequenas. Arrepiei-me tanto pelo frio quanto pela altura. Voltei a fitá-la.
— É que acho engraçado ouvir você falando sobre estrelas e planetas... — continuei.
— Engraçado?! — ela me encarou com uma leve seriedade no semblante.
— Não de graça... é... gracioso! Sim, gracioso combina mais com você.
— Gracioso, é?
A seriedade se desmanchou num sorriso sincero. Meu coração acelerou um pouco mais.
— Sim — confirmei. — Você fala com firmeza, com empolgação, com... ânimo. E isso é lindo, sabe?
— Sei, sim.
Ela se deitou, suspirando.
— Quando eu era criança, com uns seis ou sete anos, as pessoas me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse. Geralmente as meninas respondem “médica”, “enfermeira”, “bióloga”, “veterinária”... essas coisas mais comuns, né?
Assenti, embora ela não pudesse enxergar.
— Quando me perguntavam, eu respondia “astrônoma” — continuou, rindo um pouco. — Todo mundo me olhava com cara de espanto e perguntava que raios era aquilo.
— E onde vem essa paixão por astronomia?
— Não sei. Talvez dos livros. O céu e eu sempre tivemos uma relação de fascínio. Pelo menos, eu por ele. Astronomia, astrologia... gosto dessas coisas. As estrelas e os planetas me fascinam.
Era um momento sublime.
O céu acima de nós, cheio de estrelas e alguns planetas, como testemunha. O vento que me castigava e ondulava os cabelos de minha companheira. Ao longe, miados sobre os muros e os cricricris irritantes de grilos sob pedras. Ainda havia movimento nas ruas adjacentes: carros, pessoas, cachorros...
Mas era um momento sublime.
Uma poesia urbana, sem versos e métricas, sem rimas e decorações. Era algo nascido da alma, do coração que pulsava a cada palavra dita, toque trocado, segredo compartilhado. Se era amor, eu não saberia dizer, mas me fazia bem.
Ela me fazia bem.
E momentos como aquele, em que ficávamos apenas conversando, tinham o poder de neutralizar os efeitos de um dia ruim, de uma semana péssima, de um mês horrível. Aquela garota que olhava os céus com paixão indescritível tinha o poder de me acalmar e me agitar ao mesmo tempo; e pegar apenas uma dessas partes e abraçar.
Eu estava cansado do mundo, das pessoas, de tudo. Mas não dela. Nunca me cansaria de alguém como ela. E acho que ela sabia disso; se não soubesse, eu afirmava e reafirmava — e confirmava — todas as vezes que a situação pedisse.
Deitei-me ao seu lado, ainda sem ação ou reação. Encontrei os três pontos, o conjunto formado por Marte, Saturno e Antares. O perfume dela me atingiu com mais intensidade; fechei os olhos. Parecia que eu a ouvia respirar, e sua respiração era uma melodia.
Senti seus dedos se entrelaçarem aos meus; foi um aperto firme, mas não apertado. Sorri.
— Está esfriando rápido — falou. — Podemos entrar, se quiser.
— Não, vamos ficar aqui só mais uns minutinhos. Não quero perder este momento.
Ouvi-a suspirar e sorrir. Sim, seu sorriso era uma melodia diferente, que eu reconheceria em qualquer lugar.
Não sei quanto tempo foi os minutinhos que pedi.
Sei apenas que nossas mãos não se separaram.
E aqueles três pontos nos observaram.

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