Resenha #9: O último desejo [Andrzej Sapkowski]

Ano: 2015
Páginas: 318
Editora: WMF Martins Fontes
SINOPSE: Geralt de Rívia é um bruxo sagaz e habilidoso. Um assassino impiedoso e de sangue-frio treinado, desde a infância, para caçar e eliminar monstros. Seu único objetivo: destruir as criaturas do mal que assolam o mundo. Um mundo fantástico criado por Sapkowski com claras influências da mitologia eslava. Um mundo em que nem todos os que parecem monstros são maus nem todos os que parecem anjos são bons...

O irônico, cínico e descrente Geralt de Rívia perambula de povoado em povoado oferecendo seus serviços. Em seu caminho vai driblar intrigas, escolher o mal menor, negociar preços, alcançar o confim do mundo e realizar seu último desejo: assim começam as aventuras do bruxo Geralt de Rívia.

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Nunca tive muito interesse em livros de fantasia épica por diversos motivos, sobretudo por ser um gênero cujas histórias estão cheias de estereótipos, jornada do herói, maniqueísmo puro e simples e todo aquele modelo tolkeniano maçante. Há suas exceções, claro, e a saga do bruxo (ou witcher) Geralt de Rívia é uma das que mais se destaca.

Em O último desejo, Andrzej Sapkowski nos introduz a um mundo muito parecido com o nosso, em especial com a região do Leste Europeu, e é de lá que ele bebe com prazer para desenvolver a mitologia das histórias, além de criar versões para contos de fadas bem conhecidos. Trata-se, portanto, de uma coletânea com sete contos (seis isolados e interligados pelo sétimo, que foi fragmentado e distribuído ao longo do livro, funcionando como interlúdios entre um conto e outro) anteriormente publicados em revistas, onde se tornaram populares e deram fama ao autor polonês.

Após a primeira parte de A voz da razão, segue-se o conto mais ágil do livro, O bruxo. Na trama, Geralt se oferece para quebrar uma maldição que transformou uma princesa em estrige. Há breves vislumbres de intrigas palacianas, mas o conto é quase todo um belo exemplar do gênero espada e feitiçaria.

O terceiro conto, Um grão de veracidade, pega inspiração no conto A Bela e a Fera, contudo possui diferenças que, gradativamente, vão nos afastando do material original, inclusive tendo um final sangrento envolvendo o bruxo, a fera e a última das belas que se abrigaram temporariamente em sua morada.

O mal menor é vagamente inspirado em Branca de Neve, mas se distancia bastante (até mais do que a história anterior) quando a "Branca de Neve" revela-se uma assassina impiedosa, uma sobrevivente num mundo cruel e vítima de um terrível experimento. E Geralt, infelizmente, vê-se em uma encruzilhada que o marcaria para sempre.

O quinto conto, Uma questão de preço, eu achei um dos mais fracos, sendo, inicialmente, uma intriga palaciana rica em diálogos e situações que vão, pouco a pouco, revelando elementos que serão revisitados já no segundo volume de histórias, A espada do destino.

Assim como o anterior, Os confins do mundo inicia-se fraquíssimo, com situações que beiram o ridículo e nos faz questionar se o bruxo é realmente isso tudo que a fama prega. Contudo, de todos os contos, pareceu-me, a partir de determinado momento, aquele que melhor apresenta a situação sócio-política do mundo em que vive Geralt.

Já o título que empresta o nome ao livro, O último desejo, é, assim como o segundo, O bruxo, muito interessante e conclui muito bem a introdução à saga e alguns de seus personagens, além de dar início ao principal tema dos próximos contos, o destino.

Por fim, após seis interlúdios, A voz da razão é concluído satisfatoriamente, deixando um mau presságio sobre o futuro do protagonista. Durante toda a sua fragmentação é possível notar temas interessantes, além de nos permitir vislumbrar como Geralt carrega seus dilemas e convive com as consequências de suas decisões e ações.

Enfim, é uma leitura muito boa, embora possua alguns problemas quanto a ritmo e como algumas ações são inicialmente apresentadas, mas basta o leitor insistir e será recompensado com reviravoltas muito interessantes, reflexões sobre a condição humana, preconceito, vida e amor. É uma fantasia épica competente em sua concepção e no desenvolvimento, com amálgama de contos de fadas, literatura pulp e alguns gêneros fantásticos e de aventura.

NOTA: 9,5