24 de agosto de 2017

[Trecho] "Lasciate ogni speranza, voi ch'intrate", prólogo de "Memento Mori"

Memento Mori nasceu de uma pergunta imaginativa bem boba: "E se A Guerra dos Criativos fosse uma história sobre pessoas jogadas num cenário macabro, onde monstros e pesadelos as espreitam e as caçam?". Então, após pensar um pouco, comecei a montar um plot em cima da premissa (grupo de pessoas que nunca se viram acorda em um mundo selvagem, onde todos precisam enfrentar estranhas criaturas e os piores medos enquanto buscam uma saída do inferno).

A primeira versão da história acabou sendo abortada por se parecer um pouco com um romance já existente, escrito por uma amiga, embora minha ideia seja um tanto quanto "doentia e perversa". Repensando o plot, alterei algumas coisas, como a ideia de brincar com o pós-morte, além de ampliar a escala de horrores para o projeto. Ou seja, a coisa vai ser ainda mais sombria.

Após essas mudanças, incluí um prólogo (cujo título remete a Divina Comédia, de Dante Alighieri), que já introduz uma das muitas criaturas que estarão na trama.

Arte de Zdzisaw Beksiski
O chão estava escorregadio por causa da mistura heterogênea de sangue, vísceras e carne dilaceradas, saliva pegajosa e água podre. Ao passar correndo pelo corredor, com a coisa urrando logo atrás, o corpo da garota não encontrou equilíbrio a tempo de evitar a queda. A pancada a desnorteou alguns segundos, enquanto o filete vermelho escorria por detrás do pescoço. Engatinhando desesperada, foi se agarrando à parede esquerda, erguendo-se ainda zonza. Escutou os tentáculos roçando o piso e as patas se movimentando pelo teto.
Ela virou à direita, empurrando a porta semiaberta com estrondo. Uma sala com poucos móveis, todos mofados e ensanguentados — sangue já velho, a julgar o tom escurecido que as manchas tinham. O cheiro acre misturado ao odor de madeira podre. Ali não havia muita umidade, então a fugitiva não teve problemas em correr, ainda que cambaleante, atravessando o curto espaço até a janela de vidro que dava acesso à liberdade que buscava para seu sofrimento.
Fechou os punhos e socou a vidraça. Os ossos da mão esquerda se deslocaram com a violência do impacto. Apesar do grito de dor que deixou escapar, a garota não se importou com as falanges quebradas e alguns metacarpos expostos: correu até uma cadeira enferrujada, agarrou-a com a mão ainda inteira, e dolorida, girou o corpo, levando o braço para trás, e impulsionou para frente, arremessando o móvel contra a janela. A força não foi o suficiente para causar o estrago desejado, mas o som de vidro trincando a animou por um breve momento. A cadeira quicou e caiu não muito longe.
Antes que pudesse repetir a ação, a coisa entrou no aposento.
Um corpanzil oval, molenga e coberto de chagas, cujos tentáculos e as patas aracnoides se agitavam para todos os lados, atravessou vorazmente o limiar, arrebentando a porta, e avançou na direção da presa que tentava escapar.
Sem olhar para trás, a garota correu e se jogou contra a vidraça. Os fragmentos cristalinos arranharam seu corpo, algum osso pareceu se partir em pedaços, mais dor... e a queda. Qualquer coisa era melhor do que ser capturada e devorada lentamente enquanto agonizava, inclusive encontrar a morte após cair doze andares. Fechou os olhos, sentindo alívio e um leve resquício de medo.
O alívio, contudo, logo desapareceu, e o medo se tornou insuportável. O aperto potente do tentáculo em volta de sua cintura a fez gritar e se debater, lágrimas caindo e rosto tomado pelo horror, enquanto era levada de volta para cima, onde o predador rosnava vitorioso.

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