"Contos de fadas são mais que verdade; não porque nos dizem que dragões existem, mas porque eles nos dizem que dragões podem ser derrotados." G. K. Chesterton

20 de setembro de 2017

[Trecho] "Nomen est omen", segundo capítulo de "Memento Mori"

Provavelmente você deve ter lido o primeiro capítulo; se não leu, tudo bem. Vai consegui entender o que vem a seguir sem qualquer problema.

O capítulo aqui presente é mais curto do que o primeiro, e foca na segunda protagonista do romance, Mavra, que eu já tinha apresentado na versão original, então achei injusto descartá-la. Mudei-a um pouco, inclusive na aparência, porém deixo isto para outro momento.

É aqui também que tomei algumas decisões quanto às cenas de violência, perversidade e crueldade (acho que é redundante isso tudo, mas...). Tive um ligeiro sonho com a cena do canibalismo e achei que combinaria bem com este momento.

Arte de Paolo Girardi

Seu nome era Mavra.
Quando nasceu, eram tempos sombrios para a mãe e o pai, então eles quiseram chamá-la por um nome que lembrasse aqueles dias, pois ela, assim como todos os acontecimentos e pessoas daquele ano, era mais uma desgraça a se somar. Morreram ambos alguns meses depois, vítimas de um atentado terrorista, deixando a órfã aos cuidados dos parentes, que pareceram compactuar da tese de que ela era um grande infortúnio.
Com o passar da idade, ciente das origens de seu nome e cansada da maneira como era tratada pelos tios e os primos, Mavra honrou a maldição que carregava. E a cada novo acréscimo, fosse em sua personalidade ou em sua aparência, mais desgosto causava e mais se isolava da família. O ápice foi quando se juntou a um pequeno grupo anarquista contrário ao governo russo; expulsa de casa e quase sem dinheiro, dependeu algum tempo dos amigos e dos namoros casuais, os quais mantinha, sem qualquer pudor, somente com o intuito de sobreviver.
— Não há vergonha em se deitar com as pessoas visando algum lucro — dizia entre bebidas de vodca e cigarros, toda vez que alguém a perguntava se não estava sendo uma prostituta agindo daquela forma.
Mavra não era promíscua; relacionava apenas com quem queria e, se não estivesse disposta, não dava o braço a torcer. Em suas veias, talvez, ainda corresse sangue das mais valentes estirpes que pisaram na Rússia, homens e mulheres determinados e violentos, que se adaptavam ao calor extremo e o frio rigoroso. Seus parceiros sexuais entenderam isso quando souberam, através de suas palavras, entre vodca e risadas, como ela lidou com um homem que acreditou ter algum domínio sobre seu corpo.
Aos vinte e um anos, a russa já era líder de um pequeno e eficiente grupo anarquista, coordenando ataques precisos ou oferecendo apoio importante a ações de outras equipes. Mavra, a descendente de Márya Morévna, ou Mavra Morévna, cuja carreira teria sido ainda mais gloriosa se não tivesse acordado no inferno. E o inferno era uma sala pequena, enfeitada de corpos humanos dissecados e expostos como mercadorias num açougue.
A cabeça doía, e a vontade de vomitar nem foi tão grande; resistindo com bravura ao medo que cutucava a cada segundo as têmporas, livrou-se das cordas que a prendiam precariamente numa mesa bastante enferrujada e se pôs de pé. Sobre uma mesa ensanguentada e com pedaços de ossos e falanges, encontrou algumas ferramentas rústicas feitas de ferro e o que pareceu um tipo estranho de pedra; manuseou uma e outra, optando por uma espécie de facão, mais leve e de corte afiado.
Mais calma do choque inicial, examinou o aposento e os corpos. Havia homens e mulheres, poucas crianças, todos nus e invariavelmente mutilados, como se o açougueiro tivesse os estudado um a um, das mais variadas maneiras: abrindo crânios para extrair cérebros intactos, arrebentado tórax para analisar órgãos vitais, descarnado cadáveres para saber as formas dos esqueletos...
Que mente doentia faria tudo aquilo? Não havia a menor dúvida de que todos os experimentos foram feitos em pessoas ainda vivas, sofrendo e agonizando, enquanto eram cortadas e perfuradas. E ela era a próxima, se não fizesse algo para mudar a situação.
Mavra aproximou-se devagar da entrada sem porta; um corredor escuro, diferente da sala, que era banhada por uma luz natural e alaranjada, oriunda de alguns buracos no teto rachado. Olhou para um lado e depois para o outro, apurando os ouvidos também; sem movimentos e sem ruídos, um silêncio mortal e mais assustador do que os passos do carrasco de todos aqueles corpos destroçados.
A russa arfou e arriscou; moveu-se com as costas rente à parede, mantendo o cabo do facão firme na mão esquerda e a lâmina suja sobre a palma aberta. Estava às cegas, mas havia aprendido algumas coisas desde que abraçou o anarquismo e a guerrilha urbana; era preciso confiar nos instintos mais primitivos e, ao mesmo tempo, ser esperta o bastante para improvisar, se o plano inicial falhasse; era a diferença entre estar viva e acabar numa vala qualquer.
Diversos corredores se sucederam, a maioria ou em total escuridão ou na penumbra, o que reforçava os cuidados da garota; atravessou algumas salas, quase todas vazias ou com alguns móveis tão antigos e devastados quanto as paredes mofadas e rachadas do lugar. Quando ouvia o que parecia um pio estridente, vindo da área externa, centenas de metros acima de sua cabeça, parava a incursão e aguardava, como se algum perigo fosse surgir logo em seguida. Como nada acontecia, não tardava parada; sempre em movimento e sempre atenta eram lemas constantes para alguém que vivia num submundo de caos, traições e jogos de poder.
Ao chegar num pátio, escondeu-se atrás de um monte de concreto gasto e pedras negras, assistindo à uma cena pavorosa; não era uma pessoa de nervos fracos, como a maioria das mulheres de sua idade e de seu tempo, pois já havia testemunhado um pouco de cada coisa que uma mente perturbada e intenções malignas eram capazes de produzir, porém não estava totalmente preparada para aquele evento.
Sob o esqueleto petrificado de uma enorme árvore, um grupo de homens, mulheres e crianças era mantido cativo, todos presos por grosseiras correntes escuras, tão pesadas que alguns prisioneiros tinham os ombros deslocados, os braços pendendo para baixo, e outros mal conseguiam se mexer direito, ficando ou sentados ou deitados, soltando gemidos de dor e lamentação. Não havia guardas por perto, aparentemente, mas aqueles infelizes escravizados estavam tão magros e debilitados que nem as correntes se faziam tão necessárias assim; mas mal a russa supôs não haver ninguém os vigiando, um monstro de três braços surgiu, trazendo sobre o ombro o que um dia foi um homem.
Jogando a carcaça deformada diante dos cativos, grunhiu em tons diferentes e gesticulou, ora mostrando a clava grande e com pregos numa das extremidades, ora batendo no peito imberbe com orgulho; Mavra já tinha visto gorilas num zoológico, e os achava animais assustadores e não desejava jamais confrontar um sem uma grade de proteção, contudo nenhum era tão feio e macabro quanto aquele espécime deformado e desprovido de pelos que subjugou homens e mulheres à força dos golpes de seu porrete.
Concluído o discurso barulhento, a besta deu dois chutes no cadáver mutilado e se afastou, desaparecendo por um dos diversos pontos do prédio que se conectavam ao pátio; sua retirada significou o consentimento para os escravos se alimentarem dos restos mortais do companheiro que havia tentado fugir, mas foi caçado e recuperado, ainda que já sem utilidade aos planos sinistros do gorila.
Embora enfraquecidos, a fome reavivou o que ainda restava de ânimo naquelas pessoas, que avançaram sobre o cadáver, entre tapas, socos, empurrões e chutes; as crianças foram as mais agredidas, pois, menores e mais frágeis, eram facilmente repudiadas e deixadas de lado, para que os mais fortes, homens ou mulheres, alcançassem as melhores partes do alimento cru. O estômago da russa revirou um pouco com a selvageria da cena, nacos de carne e vísceras humanas mastigadas com fúria, sangue escorrendo pelo piso duro e sendo desesperadamente sorvido por bocas sedentas e de lábios completamente cortados; o odor de fezes se mesclou ao de urina e sangue, e ela, com cautela, retornou pelo corredor logo atrás, podendo respirar um pouco mais tranquila o ar mofado do edifício labiríntico.
Apesar do horror presenciado, havia obtido algumas informações preciosas sobre a situação: independentemente de onde estava, fosse na Terra ou realmente no inferno, as pessoas mais debilitadas se tornaram canibais, existia um tipo de gorila de duas pernas e três braços, totalmente imberbe e cheio de chagas pela pele escura... e o facão que portava não seria de muita serventia num combate contra uma criatura como aquela.
Não havia muito o que fazer; estava num terreno desconhecido, presa e perdida no que parecia um prédio cujo térreo era imenso, estendendo-se por quadras e mais quadras. O jeito era perambular, atrás de uma saída, tomando cuidado para não ser capturada por alguma coisa assassina, humana ou não.
O facão lhe deu confiança para desbravar os corredores à esquerda; primeiro, seguindo por um mais próximo do pátio, contornou parte do espaço aberto onde seres humanos agiam como feras selvagens e teve acesso quase que total ao lado oposto de onde veio; depois, andando por salas vazias e corredores entulhados de lixo em decomposição, que exalavam gases fedorentos e empesteavam o ar, distanciou-se bastante do pátio, adentrando regiões ainda mais imundas e abandonadas. Andou por diversos lugares, e tentava decorar, sempre que possível, qualquer sinal que diferenciasse um local do outro, até mesmo naqueles mais escuros; e assim conseguiu manter uma rota quase fixa, embora a impressão que tivesse era de que nunca saía do lugar e o prédio parecia interminavelmente longo.
Enquanto andava sem saber para onde ia, teceu muitas teorias. As primeiras delas eram sobre o ambiente e seus habitantes, gorilas mutantes e humanos canibais; deduziu que algum tipo de radiação nuclear, talvez, uma guerra atômica ou algum acidente químico tenha causado a devastação da cidade e as transformações nas pessoas e nos animais; descartou a teoria de guerra, pois a estrutura da construção estava no estado esperado para algo há muito abandonado, e não havia traços de destruição por qualquer espécie de bombardeio. Mutações como a do primata levariam décadas, ou séculos, para se manifestarem e se tornarem um padrão “natural”; não era como num filme, que bastaria alguns dias ou meses: espécimes morreriam, os mais fortes sobreviveriam e passariam os genes modificados, gerando, posteriormente, o equilíbrio para a nova raça.
Quando refletia acerca de como foi parar ali, notou um vulto mover-se adiante; cessou os passos e, aproveitando as trevas que a envolviam naquele instante, ficou imóvel, observando a forma humanoide cambalear, indo de um lado a outro, como se não aguentasse o peso do corpo e as pernas ameaçassem se partir ao meio; a cada sequência de movimentos para se locomover, pendia ou para a direita ou para a esquerda, apoiando-se na parede com o ombro. Na mão direita, trazia um pedaço de pau, que balançava e cairia em breve, se não fosse ajeitada entre os dedos trêmulos.
Mavra apertou o cabo do facão, estreitou os olhos, na esperança de enxergar um pouco melhor, e aguardou a aproximação do ser humano oculto ainda em sombras. Sim, a silhueta era de uma pessoa, mas restava saber se era alguém normal, assim como ela, ou uma maldita canibal; e se representasse perigo, a russa não hesitaria em matar. Já havia feito isso antes; faria de novo sem remorso.


19 de setembro de 2017