"Contos de fadas são mais que verdade; não porque nos dizem que dragões existem, mas porque eles nos dizem que dragões podem ser derrotados." G. K. Chesterton

28 de setembro de 2017


27 de setembro de 2017

[Trecho] "Mors certa, hora incerta", terceiro capítulo de "Memento Mori"

Bem, último capítulo postado no blog. Em breve, estarão todos no Wattpad, assim como a continuidade da trama. E as postagens seguirão o padrão irregular, e continuarão sem revisão, pois só reviso quando concluo tudo ou saio relendo para entrar no clima.

Este capítulo é curto, meio que serve para apresentar mais do mundo e continuar com a proposta de matar personagens das formas mais variadas possíveis. Um amigo quem decidiu o desfecho desta parte, aliás; não do jeito que eu fiz, mas a forma de morrer, sim.

Ah, nem é spoiler!

Wayne Barlowe
A vida, para Adam, era uma sucessão de erros e fracassos, mesmo quando as coisas pareciam ir bem.
No início, ele havia tentado se estabelecer no mundo dos filmes e comerciais, vendendo-se como um ator em ascensão, e até contratou um amigo, que se passou por agente e acabou não rendendo tanto quanto o esperado. Era difícil convencer quem era formado na arte de enganar, e os produtores sempre percebiam que diante deles estava não um artista completo e dedicado, com grande potencial, e sim um joão-ninguém sem quaisquer perspectivas quanto a futuro.
Então, meio ao acaso, descobriu um submundo onde suas habilidades de trapaceiro poderiam ser bem empregadas e favorecê-lo bem mais do que a atuação; não foi complicado adentrá-lo e conquistar espaço, embora fosse, desde o início, um jogo perigoso e incerto. Quando o escândalo estourou, perdeu tudo: dinheiro, status, mulheres... e viu-se num beco estreito, com uma saída distante.
Mais ou menos como aquele que andava espremido pelas paredes imundas, sob um céu esquisito. Contudo, o beco da situação vergonhosa em que se meteu após falar mais do que deveria para uma repórter disfarçada de aspirante a atriz era uma figura de linguagem, e aquele em que sujava sapatos, calça e camisa era tão palpável quanto os muitos seios siliconados que apertou ao longo dos anos.
O corpo estava dolorido, como se tivesse levado uma surra de algum agiota a quem devia muita grana; ou de algum marido cuja mulher, fogosa e insatisfeita com as broxadas do cônjuge, foi ter com Adam um sexo de verdade. Mas, como não havia hematomas em lugar algum, logo descartou ambas as suposições; apenas havia acordado num pátio deserto, cuja única saída se dava depois de percorrer um estreito vão entre dois prédios de portas e janelas trancadas e soldadas.
Por ser magro, a passagem apertada não era um obstáculo tão grande; e não era tão longo quanto imaginou: em três ou quatro minutos de percurso, já estava na rua. Olhou em todas as direções, a desolação espalhada por cada canto, pelo asfalto rachado e esburacado, pelos prédios de vidros quebrados ou ausentes, pelos veículos abandonados em toda parte, entregues à ferrugem e ao mato acobreado que os cobria...
— Que maldito lugar é este?
Sempre lhe diziam que as drogas que consumia acabariam o levando a uma overdose; nunca receou qualquer problema do tipo, pois não era de excessos, e sim doses moderadas ao longo do dia. Contudo, diante da paisagem pós-apocalíptica em que se encontrava, talvez estivesse em algum delírio alucinógeno após exagerar ou na cocaína ou no LSD, que experimentava algumas poucas vezes ao ano.
Caminhou a esmo, pensando até que ponto a alucinação iria e se isso afetaria seus compromissos quando o efeito passasse. Lembrou-se da entrevista que cederia a uma rádio, para falar sobre as denúncias que o envolviam e dedurar alguns colegas, vários deles famosos e influentes; seria uma maneira de amenizar seu lado e forçar acordos que o favoreciam, sob os panos quentes de empresários e agentes desesperados por preservarem as imagens públicas de seus clientes tão lucrativos.
As divagações eram muitas, e não demorou para Adam falar sozinho e rir dos comentários e piadas que escapavam a cada novo pensamento e possível solução que tomaria para um dos inúmeros problemas em que estava metido; de um jeito ou de outro, queria e iria dar a volta por cima, recuperar o que lhe foi tomado e chutar para o mais longe possível toda a maré de azar que devastava sua vida.
Distraiu-se mais do que deveria e não notou para onde ia, um erro que foi a sorte de um grupo de cinco criaturas pequenas e reptilianas; de réptil cada indivíduo tinha as escamas salientes numa coloração entre o verde e o azul, uma cabeça que se assemelhava a de um lagarto e um enorme cauda que se agitava de um lado a outro; do resto, contudo, estavam mais para primatas, como versões menores de gorilas, pois se moviam com as pernas curtas arqueadas, os joelhos dobrados para fora, apoiando-se nas mãos volumosas, de quatro dedos, sem polegares, pois os braços eram longos e musculosos. Não houve mais do que seis ou sete segundos para Adam parar de falar sozinho e de andar, o cérebro processar o que via e tomar a decisão mais sensata diante de animais tão extraordinários: fugir.
Ele correu afoito e adentrou a primeira casa cuja porta não estava trancada; nem porta tinha, aliás, mas não era algo que alguém fugindo de monstros pensaria em fechar atrás de si num momento de desespero. Apenas entrou, quase tropeçando em algo que, num vislumbre rápido sob a penumbra, assemelhava-se a um corpo humano ressecado; passou pela sala, corredor e cozinha, saindo num quintal cujo capim cresceu bastante e secou. Sem hesitar, enfiou-se no emaranhado de vegetais dourados, impulsionando o corpo para a frente e abrindo passagem com as mãos; o capim o feriu superficialmente e produziu coceiras na pele. Mas não parou a jornada, pois logo atrás os estranhos primatas reptilianos o perseguiam, emitindo sons estranhos, como silvos de ofídios.
Ao alcançar a grade da cerca enferrujada, estava todo coberto de poeira, pedaços de gramíneas e filetes de sangue; escalou-a com urgência, caindo no outro lado, sobre um solo macio. Levantou-se e, mancando, percorreu metade de um quintal arenoso; os pés afundaram de repente e, antes que pudesse compreender o que acontecia, foi sugado para debaixo da terra.
A queda foi breve; e a água morna amorteceu o impacto. A areia caiu ao redor, produzindo sons baixos, mas com força o suficiente para fazerem eco na caverna.
Adam respirou aliviado quando, ao olhar para cima, não viu quaisquer sinais de seus perseguidores; um alívio momentâneo, pois estava com um novo problema para resolver: sair dali. Nadou com vigor de um atleta, com medo de haver monstros sob seus pés, ocultos nas águas escuras e mal iluminadas pelos poucos feixes de luz que adentravam por frestas do teto, dezenas de metros acima. Quando chegou à margem íngreme, subiu-a com dificuldade, escorregando e se ralando até encontrar degraus de uma velha e gasta escada esculpida na pedra negra.
Cansado, ele amaldiçoou a tudo e a todos, enquanto examinava as águas calmas que se perdiam de vista, até se fundirem às trevas do subterrâneo, quase um quilômetro à frente; a seguir, olhou ao redor, deparando-se com resquícios do que foi um porto rústico em meio e, centenas de metro tanto à esquerda quanto à direita, paredes tortuosas e impossíveis de serem escaladas. Virou-se para trás; vários túneis terminavam ali, e nenhum possuía placas ou qualquer coisa que o ajudasse a escolher um para seguir.
Por longos minutos, Adam ficou parado em cada uma das entradas, às vezes adentrando alguns passos e logo retornando; alguns túneis cheiravam a podridão extrema ou possuíam um odor repulsivo e sufocante; outros, estavam com o chão cheio de ossos humanos ou carcaças de estranhos animais decorando as paredes. Nenhuma alternativa lhe pareceu boa, mas ficar ali, perto de um lago debaixo da terra, onde a escuridão das águas e adiante poderia ocultar aberrações ainda piores do que os primatas reptilianos, era muito mais arriscado.
Escolheu o túnel menos repugnante e entrou, levando nas mãos um pedaço de tábua que encontrou ao acaso. Inicialmente estreito, centenas de passos depois a passagem se alargou até se bifurcar; impaciente, o ator escolheu continuar desbravando pela esquerda; e centenas de metros adiante, outra bifurcação; e depois outra; e mais outra... E a luz cada vez mais fraca, deixando de ter o tom alaranjado característico do da superfície para se tornar algo pálido, como se fosse produzido por um tipo de cristal fosforescente.
Os fragmentos do capim irritavam a pele e provocavam coceiras intermináveis; de início, não passavam de incômodo, uma coçada aqui e ali; contudo, após a água começar a secar no corpo, ficando apenas as roupas úmidas, a coisa foi se intensificando, tornando-se insuportável. Quanto mais se coçava, mais a coceira parecia se espalhar, tornar-se mais forte, e mais exigia o atrito de seus dedos e unhas na epiderme; quando a violência aumentou, pedaços finos de pele foram arrancados, criando ferimentos, o que piorou ainda mais a provável alergia.
Adam xingava como nunca havia xingado antes enquanto o suor caía nas feridas e os terríveis comichões continuavam provocando a angústia desesperada de se aliviar logo; livrou-se da camisa ao chegar em outra das várias bifurcações que existiam naquele maldito inferno subterrâneo, deitou-se no chão e se comportou como um animal, esfregando-se e rolando de um lado para outro, em meio a gritos de dor e sofrimento.
Ele estava tão concentrado na tentativa estúpida de se livrar da sensação de formigas andando abaixo da pele que não notou a aproximação de um imenso e horrendo animal semelhante a um anuro; possuía um corpanzil oleoso, como se coberto de graxa até por causa do tom e da viscosidade da pele, que era composto por quatro pernas robustas e similares a de um lagarto, e por isso seus passos eram quase silenciosos e sutis, uma cabeça pouco destacada, como a de um sapo, e uma pança que quase arrastava conforme se movia como um réptil.
Antes que o homem percebesse qualquer coisa, foi atingido por uma gosma amarelada, escarrada com urgência pelas glândulas salivares do anfíbio colossal. E foi um deleite aquela substância nojenta e pegajosa, pois a coceira parou quase imediatamente; gargalhando de alegria, com a pele toda arranhada e escavada, algumas partes com nacos de pele e carne pendurados, a carne viva bastante visível e ensanguentada, pôs-se de pé e encarou o monstro oriundo das entranhas da terra. A gargalhada continuou, num delírio de loucura, quando escutou as falanges caindo na poça sob seus pés, que lentamente afundavam; não sentia mais a coceira, ou dor, porém tinha consciência de que mais uma vez a vida o enganou e o pôs numa situação de azar. O último azar.
Sob os olhos impassíveis e pacientes do sapo infernal, Adam encontrou seu destino, derretendo-se lentamente, caindo sobre a sopa gelatinosa que sua carne e seus ossos formaram, rindo ensandecido, amaldiçoando-se por ter feito tantas escolhas infelizes. Quando não restou mais nada, exceto um amontoado róseo-amarelado, o anuro iniciou seu banquete, lambendo com deleite o delicioso sabor que apenas os humanos tinham.

25 de setembro de 2017

Resenha #10: A espada do destino [Andrzej Sapkowski]

Ano: 2015
Páginas: 379
Editora: WMF Martins Fontes
SINOPSE: Geralt de Rívia é um bruxo sagaz e habilidoso. Um assassino impiedoso e de sangue-frio treinado, desde a infância, para caçar e eliminar monstros. Seu único objetivo: destruir as criaturas do mal que assolam o mundo. Um mundo fantástico criado por Sapkowski com claras influências da mitologia eslava. Um mundo em que nem todos os que parecem monstros são maus nem todos os que parecem anjos são bons...

No caminho para Brokilon, Geralt tropeça no corpo de um garoto, que provavelmente não tinha mais de quinze anos. O garoto foi morto por uma flecha, obviamente atirada com destreza, que ainda se vê cravada no seu crânio. Por experiência, o bruxo logo percebe o que aconteceu: certamente o garoto tinha se extraviado e entrado no território das dríades. Como outros que padeceram antes de igual sorte, provavelmente tinha acontecido o mesmo. Uma história triste, repetida com frequência.

A Shard of ice by Kisarra
Após me surpreender positivamente com O último desejo, tentei, o quanto antes, ler o segundo volume de contos da série; embora não tenha sido uma experiência parecida com o livro anterior, neste fui agraciado com momentos de partir o coração.

Em A espada do destino, Andrzej Sapkowski continua as aventuras do bruxo (ou witcher) Geralt de Rívia e começa a preparar o terreno para os próximos volumes, além de dar sequência a alguns poucos eventos vistos nos contos anteriores. Ao contrário do volume inicial da série, as histórias não são tão focadas em combates contra monstros; eles ocorrem, sim, mas são tão em segundo plano que servem apenas para complementar uma coisa ou outra. O emocional e os dramas dos personagens são o principal foco aqui.

O limite do possível, por exemplo, começa como uma divertida e empolgante caçada a um dragão; admito que lia com facilidade, mas me perguntava onde tudo aquilo iria me levar, pois somavam-se páginas e páginas de situações das mais diversas. Quando finalmente a coisa mostra ao que veio, temos divertidas batalhas entre cavaleiros e dragão, algumas reviravoltas e o tom meio pessimista e preciso de Sapkowski, que já deixa evidente o principal tema da maioria dos contos: o destino.

O segundo conto, Um fragmento de gelo, é outro que possui reviravoltas curiosas, pois inicia-se com a disputa entre Geralt e um feiticeiro pelo amor de Yennefer, que é incapaz de se decidir por um dos dois. É deste conto, aliás, que brota uma citação que me deixou inquieto por semanas: "— A verdade — disse o gavião — é um fragmento de gelo".

O fogo eterno eu considero o mais caricato e fraco de todos; não sei o motivo, mas cheguei ao seu final sem sentir provocado nem qualquer coisa. Apenas li e entendei (e gostei da reviravolta) e só.

Já o quarto conto, Um pequeno sacrifício, causou efeito semelhante ao provocado em Um fragmento de gelo, mas aqui temos Geralt tentando conciliar um príncipe e uma sereia, derrotar uma legião de criaturas marítimas assasinas e decidir-se em um novo relacionamento, ainda que restem lembranças de Yennefer e tal novo interesse amoroso possa estar findado ao insucesso. Eu achei, de todos, o mais melodramático, o que é um elogio, aliás.

Em A espada do destino, que empresta o título ao volume e serve de sinopse, continua os eventos de um conto do volume anterior, quando Geralt reencontra alguém que, embora lhe tenha sido prometida, ele se negou, posteriormente, a aceitar. E essa história é completada em Algo mais, que prepara as bases para os acontecimentos seguintes, além de continuar alguns eventos das histórias anteriores do volume.

Ainda que tenha sido uma ótima leitura, acabou ficando aquém do que foi O último desejo; é uma característica do autor, ao que parece, que adora oscilar e passear entre gêneros, levando seus personagens ao sabor de um destino que se mostrará impiedoso e cruel.

NOTA: 8,5




[Conto] O Homem que Atropelou um Minotauro

O conto a seguir (e sua versão estendida, criada exclusivamente para um concurso o qual não passei, e que pode ser lida no e-book à venda na Amazon) foi, sim, inspirado num acontecimento real, narrado por um amigo de um amigo meu, meses antes de eu escrever. Mas não tinha o minotauro e tampouco a história do afortunado Ananias é a mesma de quem me contou; o atropelamento, sim. Foi de um boi grande, um touro, e parte disso está presente no conto, inclusive os detalhes tanto do acidente quanto o desfecho que teve a criatura nos segundos seguintes.

Antes da história ter este formato, eu havia testado cinco diferentes modos de contar isso, pois eu precisava contar, queria dar meu toque fantástico a um evento que, por si só, já era fantástico demais. Não é todo dia que alguém conta algo do tipo para mim e me desperta o anseio por recontar. E das duas versões, a original, menor, é minha preferida, embora a seguinte, quase duzentas palavras mais longa, tenha me permitido explorar mais um pouco da fantasia que inseri ao ocorrido.

Minotaur by LiamSharp

Ananias praguejou quando a bateria do celular acabou durante a ligação.
Estava no meio do nada, entre uma cidade pequena e uma menor ainda, atravessando uma área sem vivalma para passar qualquer informação que o ajudasse saber se estava ou não no lugar certo.
A vida agitada numa metrópole serviu para deixá-lo a par das novidades tecnológicas e também fazê-lo dependente de cada uma delas. Portanto, sem GPS ou celular, estava tão perdido quanto uma criança num enorme parque de diversões. Mas ali não havia nada de parque nem de diversão; era um aglomerado de pastos infindáveis cortados apenas pela estrada asfaltada e com alguns buracos maiores do que os bueiros de São Paulo.
Para onde quer que Ananias olhasse, e por mais que se esforçasse para vislumbrar algo diferente, apenas capim alto, bois pastando, rios distantes e a escuridão brigando com o luar por espaço.
Segundo sabia, era comum os fazendeiros soltarem os rebanhos bovinos por aqueles campos, sem receio de furtos; diziam que havia alguém que protegia tudo aquilo, e ninguém, em sã consciência, iria se atrever furtar uma cabeça sequer.
O atalho, que, até minutos antes, era uma solução para o atraso na viagem devido a uma parada num posto e a distração ao conversar com uma linda jovem que seguia em direção oposta, para um lugar mais próximo de onde Ananias vinha, agora se mostrava um problema dos maiores e mais perigosos.
Sem saber exatamente onde estava, no meio do nada, cercado por rebanhos de dezenas ou centenas de bois e vacas, ele era presa fácil de quaisquer criminosos que assaltavam desavisados pelas rodovias e sumiam com os corpos, deixando mistérios para a mente dos sensacionalistas.
Se retornasse, perderia muito mais tempo e a irmã, que iria casar com um rico fazendeiro, provável proprietário de parte daquele gado todo que pastava rente aos acostamentos, jamais o perdoaria por perder um momento tão importante.
Talvez não tivesse sido boa ideia deixar para ir no último instante e perdido a carona do cunhado.
O aparelho de música do carro tocava Werewolf of London, de Warren Zevon.
Ao longe, sob um luar pálido, cabeças e mais cabeças bovinas, num mar, ora ou outra, marcado por pares de chifres.
A imaginação de Ananias voou solta por alguns segundos, numa distração arriscada numa rodovia mais movimentada.
Os olhos, cansados de uma viagem que parecia interminável, vislumbraram algo correr pelo pasto à esquerda. Ou melhor: alguma coisa. Não pôde distinguir exatamente o que era a coisa, embora se assemelhasse a um homem robusto; noutro momento, parecia um touro imenso e furioso, que conseguia passagem entre os demais. Fosse o que fosse, tinha pressa para chegar em algum lugar.
Antes que ele pudesse identificar que criatura era aquela, um clarão logo à frente o despertou do transe hipnótico que o vulto distante causou; desviando-se de um caminhão que estava na mão certa, enquanto ele, no descuido, invadiu a contramão, o motorista voltou sua atenção para a irritação.
Estava contente pela irmã, porém não esconderia dela o incômodo por ter de viajar quase meio Estado para prestigiá-la num casamento matutino no meio do nada. Ananias havia insistido em se casarem na capital, onde era mais confortável e poderia ser oferecido um conjunto com ótimos serviços de buffet e festa; haveria mais convidados também, em especial os amigos do irmão da noiva. E evitaria aquela odisseia noturna ao desconhecido.
Se ainda tivesse o GPS, pensou ele, desviando o olhar para o painel do carro, onde a música de Warren Zevon chegava ao final...
Um mugido alto trouxe seus olhos para a estrada.
Ananias não soube o que fazer.
Freou, rodou o volante para a direita, puxou o freio de mão... ou achou que fez isso.
O lado esquerdo do veículo se chocou com um corpanzil negro e branco, que mugiu e se agitou, jogando-se para o meio da estrada. O vidro do para-brisa trincou; o da porta se despedaçou, atingindo o rosto desesperado do motorista, que ainda tentava controlar o carro e entender o que acontecia. Filetes de sangue escorriam pela bochecha e testa quando tudo se acalmou. O cinto de segurança não permitiu ao corpo franzino ir de encontro ao para-brisa e, quiçá, voar pelo capô e cair no asfalto, já sem vida.
Ananias gritou, sentindo a perna pressionada pela porta amassada. Procurou, com urgência, uma pequena lanterna do porta-malas; ao encontrá-la, acendeu a luz e iluminou o próprio corpo. Apesar da dor, nenhum osso exposto. Com um pouco de esforço, livrou-se da pressão.
E, então, veio à mente uma pergunta: o que ele atropelou?
Um touro grande, talvez aquele mesmo que avistou segundos antes, quilômetros atrás. Direcionou o fiapo de luz para onde ainda estava caído o que foi atropelado; não se arriscou a sair do carro.
Era uma criatura estranha, nem touro, nem homem.
Ananias se lembrou das lendas gregas sobre o Minotauro, o monstro que vivia preso num labirinto em Creta e, de tempos em tempos, era alimentado com sacrifícios de jovens atenienses.
Riu da situação absurda.
Um minotauro no Brasil? Melhor: um minotauro? Um homem formado numa das melhores faculdades do país estava realmente acreditando em uma fábula contada por um povo supersticioso e de imaginação fértil? Havia batido a cabeça tão forte assim?
A risada fez o machucado acima do olho esquerdo doer.
A fera se mexeu, pondo-se de pé. Sim, era um minotauro! E devia ter quase três metros de altura! Robusta, ostentava músculos bem definidos, como um fisiculturista; os chifres eram grossos e levemente curvados para a frente, embora curtos. Os pelos negros tinham algumas manchas brancas, e algumas delas estavam salpicadas com sangue e cacos de vidro. Bufando, a criatura se sacudiu e se livrou dos destroços, movimentando o ombro que bateu na lataria; ao notar a luz sobre o corpo, encarou Ananias, que se encolheu no assento e rezou para um deus que nunca acreditou. Os olhos transmitiam fúria e ardiam como brasa; as narinas expeliam um vapor que parecia fumaça àquela hora da noite, quando o frio já era mais forte.
Mas a criatura nada fez contra o atropelador; parecia atrasado para um compromisso mais importante. Era o dia de sorte daquele imprudente. Pondo as mãos no asfalto, o minotauro mugiu o mais alto que pôde e correu para o pasto oposto de onde saíra, onde era possível ver, muito distante ainda, luzinhas que denunciavam uma cidade.
Após se recuperar do pavor que o paralisou por bastante tempo, Ananias ligou a ignição e continuou o percurso, sempre olhando para os lados e indo devagar, receando outro encontro como aquele.
Foi um final de viagem tranquilo, ainda que rondasse a imagem fantástica do homem-touro.
Quando a irmã o viu naquele estado, ficou assustada, mas ele a acalmou, afirmando que estava bem e havia atropelado um boi na estrada, contudo nem um nem outro saiu gravemente ferido do acidente; não era preciso médico nem boletim de ocorrência naquele momento. Sorrindo, alegou que já estava pensando em trocar de carro mesmo, então aquele animal estúpido fez um favor.
Cansado, avisou que iria descansar. A irmã o deteve para apresentar o noivo, Bento, que ele ainda não conhecia pessoalmente. Era um homem de aparência forte, alguém acostumado com os afazeres do campo, embora usufruísse de boa vida na pequena cidade interiorana.
Cumprimentaram-se e se entreolharam. Uma sensação de que já se conheciam e se esbarraram noutra ocasião.
Ananias deixou escapar que o cunhado tinha um aperto forte, como um touro. Se não fosse o ombro machucado, aceitaria o elogio, respondeu Bento, num sorriso enigmático.
Naquela madrugada, antes de dormir, Ananias riu de toda aquela história.
Quem imaginaria que ele, tão cético com tudo, encontraria um minotauro vivendo no interior do Brasil, correndo entre a boiada? E o mais espantoso e inacreditável de tudo: assim como um lobisomem, a criatura tinha uma vida dupla, e era o homem que se casaria com sua irmã pela manhã? Será que ela sabia? Se ele contasse, ela acreditaria?
Tantas perguntas resultaram em sonhos esquisitos com uma igreja cheia de bois e vacas, todos mugindo enquanto a noiva, uma bela jovem vestida de branco, entrava e era recepcionada por um minotauro de terno e gravata, cujo rabo longo e com ponta felpuda balançava de um lado a outro, com grande alegria; até pôde ver, naqueles lábios taurinos, um sorriso apaixonado.
Ananias ainda sonhou sendo tio de bezerrinhos, pequenos animais que berravam cada vez que sentiam fome; e ele os levava para pastar no campo, sob os olhares de uma mãe humana orgulhosa e um pai minotauro sério, enquanto o rebanho que ele protegia se aproximava de um rio não muito longe dali.
Mas o tio Ananias não reclamava de passear com os bezerrinhos, que saíam correndo atrás de borboletas e mastigando flores coloridas. Era num daqueles lugares, sob a sombra de um ipê muito alto, que ele paquerava uma ninfa das flores campestres, cuja beleza o encantava: pele dourada, cabelos negros e olhos azulados, sempre cheirando rosas silvestres.
E por que não se enamorar por uma ninfa? Se ali havia um minotauro, por que não poderia haver outras criaturas fantásticas oriundas da Grécia Antiga?

20 de setembro de 2017

[Trecho] "Nomen est omen", segundo capítulo de "Memento Mori"

Provavelmente você deve ter lido o primeiro capítulo; se não leu, tudo bem. Vai consegui entender o que vem a seguir sem qualquer problema.

O capítulo aqui presente é mais curto do que o primeiro, e foca na segunda protagonista do romance, Mavra, que eu já tinha apresentado na versão original, então achei injusto descartá-la. Mudei-a um pouco, inclusive na aparência, porém deixo isto para outro momento.

É aqui também que tomei algumas decisões quanto às cenas de violência, perversidade e crueldade (acho que é redundante isso tudo, mas...). Tive um ligeiro sonho com a cena do canibalismo e achei que combinaria bem com este momento.

Arte de Paolo Girardi

Seu nome era Mavra.
Quando nasceu, eram tempos sombrios para a mãe e o pai, então eles quiseram chamá-la por um nome que lembrasse aqueles dias, pois ela, assim como todos os acontecimentos e pessoas daquele ano, era mais uma desgraça a se somar. Morreram ambos alguns meses depois, vítimas de um atentado terrorista, deixando a órfã aos cuidados dos parentes, que pareceram compactuar da tese de que ela era um grande infortúnio.
Com o passar da idade, ciente das origens de seu nome e cansada da maneira como era tratada pelos tios e os primos, Mavra honrou a maldição que carregava. E a cada novo acréscimo, fosse em sua personalidade ou em sua aparência, mais desgosto causava e mais se isolava da família. O ápice foi quando se juntou a um pequeno grupo anarquista contrário ao governo russo; expulsa de casa e quase sem dinheiro, dependeu algum tempo dos amigos e dos namoros casuais, os quais mantinha, sem qualquer pudor, somente com o intuito de sobreviver.
— Não há vergonha em se deitar com as pessoas visando algum lucro — dizia entre bebidas de vodca e cigarros, toda vez que alguém a perguntava se não estava sendo uma prostituta agindo daquela forma.
Mavra não era promíscua; relacionava apenas com quem queria e, se não estivesse disposta, não dava o braço a torcer. Em suas veias, talvez, ainda corresse sangue das mais valentes estirpes que pisaram na Rússia, homens e mulheres determinados e violentos, que se adaptavam ao calor extremo e o frio rigoroso. Seus parceiros sexuais entenderam isso quando souberam, através de suas palavras, entre vodca e risadas, como ela lidou com um homem que acreditou ter algum domínio sobre seu corpo.
Aos vinte e um anos, a russa já era líder de um pequeno e eficiente grupo anarquista, coordenando ataques precisos ou oferecendo apoio importante a ações de outras equipes. Mavra, a descendente de Márya Morévna, ou Mavra Morévna, cuja carreira teria sido ainda mais gloriosa se não tivesse acordado no inferno. E o inferno era uma sala pequena, enfeitada de corpos humanos dissecados e expostos como mercadorias num açougue.
A cabeça doía, e a vontade de vomitar nem foi tão grande; resistindo com bravura ao medo que cutucava a cada segundo as têmporas, livrou-se das cordas que a prendiam precariamente numa mesa bastante enferrujada e se pôs de pé. Sobre uma mesa ensanguentada e com pedaços de ossos e falanges, encontrou algumas ferramentas rústicas feitas de ferro e o que pareceu um tipo estranho de pedra; manuseou uma e outra, optando por uma espécie de facão, mais leve e de corte afiado.
Mais calma do choque inicial, examinou o aposento e os corpos. Havia homens e mulheres, poucas crianças, todos nus e invariavelmente mutilados, como se o açougueiro tivesse os estudado um a um, das mais variadas maneiras: abrindo crânios para extrair cérebros intactos, arrebentado tórax para analisar órgãos vitais, descarnado cadáveres para saber as formas dos esqueletos...
Que mente doentia faria tudo aquilo? Não havia a menor dúvida de que todos os experimentos foram feitos em pessoas ainda vivas, sofrendo e agonizando, enquanto eram cortadas e perfuradas. E ela era a próxima, se não fizesse algo para mudar a situação.
Mavra aproximou-se devagar da entrada sem porta; um corredor escuro, diferente da sala, que era banhada por uma luz natural e alaranjada, oriunda de alguns buracos no teto rachado. Olhou para um lado e depois para o outro, apurando os ouvidos também; sem movimentos e sem ruídos, um silêncio mortal e mais assustador do que os passos do carrasco de todos aqueles corpos destroçados.
A russa arfou e arriscou; moveu-se com as costas rente à parede, mantendo o cabo do facão firme na mão esquerda e a lâmina suja sobre a palma aberta. Estava às cegas, mas havia aprendido algumas coisas desde que abraçou o anarquismo e a guerrilha urbana; era preciso confiar nos instintos mais primitivos e, ao mesmo tempo, ser esperta o bastante para improvisar, se o plano inicial falhasse; era a diferença entre estar viva e acabar numa vala qualquer.
Diversos corredores se sucederam, a maioria ou em total escuridão ou na penumbra, o que reforçava os cuidados da garota; atravessou algumas salas, quase todas vazias ou com alguns móveis tão antigos e devastados quanto as paredes mofadas e rachadas do lugar. Quando ouvia o que parecia um pio estridente, vindo da área externa, centenas de metros acima de sua cabeça, parava a incursão e aguardava, como se algum perigo fosse surgir logo em seguida. Como nada acontecia, não tardava parada; sempre em movimento e sempre atenta eram lemas constantes para alguém que vivia num submundo de caos, traições e jogos de poder.
Ao chegar num pátio, escondeu-se atrás de um monte de concreto gasto e pedras negras, assistindo à uma cena pavorosa; não era uma pessoa de nervos fracos, como a maioria das mulheres de sua idade e de seu tempo, pois já havia testemunhado um pouco de cada coisa que uma mente perturbada e intenções malignas eram capazes de produzir, porém não estava totalmente preparada para aquele evento.
Sob o esqueleto petrificado de uma enorme árvore, um grupo de homens, mulheres e crianças era mantido cativo, todos presos por grosseiras correntes escuras, tão pesadas que alguns prisioneiros tinham os ombros deslocados, os braços pendendo para baixo, e outros mal conseguiam se mexer direito, ficando ou sentados ou deitados, soltando gemidos de dor e lamentação. Não havia guardas por perto, aparentemente, mas aqueles infelizes escravizados estavam tão magros e debilitados que nem as correntes se faziam tão necessárias assim; mas mal a russa supôs não haver ninguém os vigiando, um monstro de três braços surgiu, trazendo sobre o ombro o que um dia foi um homem.
Jogando a carcaça deformada diante dos cativos, grunhiu em tons diferentes e gesticulou, ora mostrando a clava grande e com pregos numa das extremidades, ora batendo no peito imberbe com orgulho; Mavra já tinha visto gorilas num zoológico, e os achava animais assustadores e não desejava jamais confrontar um sem uma grade de proteção, contudo nenhum era tão feio e macabro quanto aquele espécime deformado e desprovido de pelos que subjugou homens e mulheres à força dos golpes de seu porrete.
Concluído o discurso barulhento, a besta deu dois chutes no cadáver mutilado e se afastou, desaparecendo por um dos diversos pontos do prédio que se conectavam ao pátio; sua retirada significou o consentimento para os escravos se alimentarem dos restos mortais do companheiro que havia tentado fugir, mas foi caçado e recuperado, ainda que já sem utilidade aos planos sinistros do gorila.
Embora enfraquecidos, a fome reavivou o que ainda restava de ânimo naquelas pessoas, que avançaram sobre o cadáver, entre tapas, socos, empurrões e chutes; as crianças foram as mais agredidas, pois, menores e mais frágeis, eram facilmente repudiadas e deixadas de lado, para que os mais fortes, homens ou mulheres, alcançassem as melhores partes do alimento cru. O estômago da russa revirou um pouco com a selvageria da cena, nacos de carne e vísceras humanas mastigadas com fúria, sangue escorrendo pelo piso duro e sendo desesperadamente sorvido por bocas sedentas e de lábios completamente cortados; o odor de fezes se mesclou ao de urina e sangue, e ela, com cautela, retornou pelo corredor logo atrás, podendo respirar um pouco mais tranquila o ar mofado do edifício labiríntico.
Apesar do horror presenciado, havia obtido algumas informações preciosas sobre a situação: independentemente de onde estava, fosse na Terra ou realmente no inferno, as pessoas mais debilitadas se tornaram canibais, existia um tipo de gorila de duas pernas e três braços, totalmente imberbe e cheio de chagas pela pele escura... e o facão que portava não seria de muita serventia num combate contra uma criatura como aquela.
Não havia muito o que fazer; estava num terreno desconhecido, presa e perdida no que parecia um prédio cujo térreo era imenso, estendendo-se por quadras e mais quadras. O jeito era perambular, atrás de uma saída, tomando cuidado para não ser capturada por alguma coisa assassina, humana ou não.
O facão lhe deu confiança para desbravar os corredores à esquerda; primeiro, seguindo por um mais próximo do pátio, contornou parte do espaço aberto onde seres humanos agiam como feras selvagens e teve acesso quase que total ao lado oposto de onde veio; depois, andando por salas vazias e corredores entulhados de lixo em decomposição, que exalavam gases fedorentos e empesteavam o ar, distanciou-se bastante do pátio, adentrando regiões ainda mais imundas e abandonadas. Andou por diversos lugares, e tentava decorar, sempre que possível, qualquer sinal que diferenciasse um local do outro, até mesmo naqueles mais escuros; e assim conseguiu manter uma rota quase fixa, embora a impressão que tivesse era de que nunca saía do lugar e o prédio parecia interminavelmente longo.
Enquanto andava sem saber para onde ia, teceu muitas teorias. As primeiras delas eram sobre o ambiente e seus habitantes, gorilas mutantes e humanos canibais; deduziu que algum tipo de radiação nuclear, talvez, uma guerra atômica ou algum acidente químico tenha causado a devastação da cidade e as transformações nas pessoas e nos animais; descartou a teoria de guerra, pois a estrutura da construção estava no estado esperado para algo há muito abandonado, e não havia traços de destruição por qualquer espécie de bombardeio. Mutações como a do primata levariam décadas, ou séculos, para se manifestarem e se tornarem um padrão “natural”; não era como num filme, que bastaria alguns dias ou meses: espécimes morreriam, os mais fortes sobreviveriam e passariam os genes modificados, gerando, posteriormente, o equilíbrio para a nova raça.
Quando refletia acerca de como foi parar ali, notou um vulto mover-se adiante; cessou os passos e, aproveitando as trevas que a envolviam naquele instante, ficou imóvel, observando a forma humanoide cambalear, indo de um lado a outro, como se não aguentasse o peso do corpo e as pernas ameaçassem se partir ao meio; a cada sequência de movimentos para se locomover, pendia ou para a direita ou para a esquerda, apoiando-se na parede com o ombro. Na mão direita, trazia um pedaço de pau, que balançava e cairia em breve, se não fosse ajeitada entre os dedos trêmulos.
Mavra apertou o cabo do facão, estreitou os olhos, na esperança de enxergar um pouco melhor, e aguardou a aproximação do ser humano oculto ainda em sombras. Sim, a silhueta era de uma pessoa, mas restava saber se era alguém normal, assim como ela, ou uma maldita canibal; e se representasse perigo, a russa não hesitaria em matar. Já havia feito isso antes; faria de novo sem remorso.