9 de setembro de 2017

A situação da literatura fantástica no Brasil: um breve histórico


Desde que me encontrei na literatura fantástica, há muitos anos, tive uma pequena dificuldade nas bibliotecas: encontrar obras que me saciassem a sede por histórias sobre reinos distantes, cavaleiros enfrentando monstros, criaturas oriundas de sonhos e pesadelos... Porque em parte o acervo escolar/colegial é composto por obras ou brasileiras ou portuguesas, preferindo, em geral, títulos recomendados pelo governo e que façam parte do currículo estudantil, dando pouco espaço a livros mais contemporâneos e de autores que não estejam, por sua vez, ligados a movimentos e escolas literárias.

Então, já em cima disso temos um dos motivos de a literatura fantástica brasileira ser tão "marginal": por séculos, ela esteve marginalizada, vista como de pouca qualidade ou inferior ao que estava vigente na Europa, por exemplo (o que é irônico, uma vez que a literatura europeia é abundanente em autores que se esbaldaram no fantástico, mesmo quando inseridos em seus definidos movimentos literários). E a situação piora quando observamos o contexto histórico dos ditos autores clássicos: muitos homens, boa parte de família nobre, e quase sempre voltados às tendências estrangeiras/portuguesas/europeias. Ou seja, literatura elitista e, portanto, culta, erudita, limitada a poucos por anos. Não que fosse restrita, proibida a pobres (e mulheres), mas ela sempre foi algo muitos patamares acima com a realidade brasileira, que teria, se bem aproveitada, rendido muito mais do que rendeu nas mãos de alguns bons autores que aprendemos alguma coisa durante os anos de estudantes.

Além disso, a literatura reflete seu povo (ou parte mais "importante" do povo). A Inglaterra, por exemplo, preservou ao máximo suas origens, mesmo quando invadida e saqueada; no período mercantilista, espalhou-se pelo mundo, desbravando culturas, ampliando território e alimentando os escritores sedentos por boas histórias e fascinados pelo desconhecido. Li, certa vez, que quando não havia mais terras na Terra a se conquistar, os ingleses começaram a explorar outros mundos (e talvez isso explique a rica literatura de fantasia da Inglaterra). E a Revolução Industrial, ao mesmo tempo que arruinou superstições que alimentavam contos de fantasia e horror, impulsionou a produção de ficção científica (e havia, sim, lugares no mundo para os ingleses desbravarem: o mar e o centro da Terra. E depois a lua e os planetas vizinhos).

Pode-se observar como o fantástico se desenvolveu nos EUA, em especial para o horror, nos primeiros anos de fundação, graças ao histórico de guerras entre homens brancos e indígenas, casos de bruxas que, uma vez perseguidas na Europa, vieram para as Américas. E a ficção científica, por fim, desenvolveu-se sobretudo em períodos de Primeira e Segunda Guerras Mundiais, alcançando o ápice e se definindo com a Guerra Fria.

A Rússia e a Alemanha souberam extrair de seu folclore a inspiração, assim como países da América Central e do Sul, vizinhos do Brasil, inclusive, usufruíram do folclore em produções de realismo mágico.

Voltando ao Brasil, como já mencionado, encontramos uma literatura quase toda elitista (enquanto Inglaterra e EUA, por exemplo, tinham rica literatura popular, a custos ínfimos), com histórias saindo em jornais, de fato, mas o índice de analfabetismo era elevadíssimo entre a população. As culturas indígena e afrobrasileiras foram constantemente sufocadas pelo racismo, preconceito e dogmas cristãos, e a influência europeia (acadêmica) era fortíssima. Os períodos mais conturbados de nosso país foram civis, sendo o mais marcante a ditadura militar, que alimentou a safra de poetas e escritores que escreviam e denunciavam através de textos realistas, sem espaço para o fantástico.

E aqui estamos.

Ou seja, o fato de a literatura fantástica brasileira ser marginal é porque ela sempre esteve marginal, e eu posso provar isso mostrando parte do material que possuo salvo para editar pro Primórdios do Fantástico Brasileiro, apontando o quanto de obras foram jogadas ao esquecimento, inclusive de autores renomados. E a situação piora quando, nas últimas décadas, diversos escritores se espelharam em obras datadas, que mostram uma cultura que não nos diz respeito em absolutamente nada. Há, claro, movimentos tentando mudar isso, resgatar nossas raízes, mostrar que nossa cultura tem força e poder para inspirar, porém é algo lento e demorado, sobretudo quando, culturalmente, fomos ensinados desde a fundação do país a sempre vermos a cultura estrangeira como superior à nossa.


2 comentários:

  1. Presente, Senhor Alec!

    Como você sabe eu estou na mesma luta, tentando nos reconectar ao nosso passado. Temo que, talvez, seja tarde demais, visto que as gerações de hoje já enxergam o século 19 como se fosse uma outra cultura, a qual não se sentem pertencentes.

    Mas estamos aí, "errando y herrando" como diziam os espanhóis....

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  2. Muito pano pra manga, querido Alec... Não é só a literatura fantástica que está à margem das ações e reações culturais nessa terra de tupininguém. E sim. Concordo. O processo é lento. O descaso com a Literatura é amplo, geral e irrestrito rsrs E já vem de décadas e décadas. Alguém fez um bom trabalho.

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