[Conto] O Homem que Atropelou um Minotauro

O conto a seguir (e sua versão estendida, criada exclusivamente para um concurso o qual não passei, e que pode ser lida no e-book à venda na Amazon) foi, sim, inspirado num acontecimento real, narrado por um amigo de um amigo meu, meses antes de eu escrever. Mas não tinha o minotauro e tampouco a história do afortunado Ananias é a mesma de quem me contou; o atropelamento, sim. Foi de um boi grande, um touro, e parte disso está presente no conto, inclusive os detalhes tanto do acidente quanto o desfecho que teve a criatura nos segundos seguintes.

Antes da história ter este formato, eu havia testado cinco diferentes modos de contar isso, pois eu precisava contar, queria dar meu toque fantástico a um evento que, por si só, já era fantástico demais. Não é todo dia que alguém conta algo do tipo para mim e me desperta o anseio por recontar. E das duas versões, a original, menor, é minha preferida, embora a seguinte, quase duzentas palavras mais longa, tenha me permitido explorar mais um pouco da fantasia que inseri ao ocorrido.

Minotaur by LiamSharp

Ananias praguejou quando a bateria do celular acabou durante a ligação.
Estava no meio do nada, entre uma cidade pequena e uma menor ainda, atravessando uma área sem vivalma para passar qualquer informação que o ajudasse saber se estava ou não no lugar certo.
A vida agitada numa metrópole serviu para deixá-lo a par das novidades tecnológicas e também fazê-lo dependente de cada uma delas. Portanto, sem GPS ou celular, estava tão perdido quanto uma criança num enorme parque de diversões. Mas ali não havia nada de parque nem de diversão; era um aglomerado de pastos infindáveis cortados apenas pela estrada asfaltada e com alguns buracos maiores do que os bueiros de São Paulo.
Para onde quer que Ananias olhasse, e por mais que se esforçasse para vislumbrar algo diferente, apenas capim alto, bois pastando, rios distantes e a escuridão brigando com o luar por espaço.
Segundo sabia, era comum os fazendeiros soltarem os rebanhos bovinos por aqueles campos, sem receio de furtos; diziam que havia alguém que protegia tudo aquilo, e ninguém, em sã consciência, iria se atrever furtar uma cabeça sequer.
O atalho, que, até minutos antes, era uma solução para o atraso na viagem devido a uma parada num posto e a distração ao conversar com uma linda jovem que seguia em direção oposta, para um lugar mais próximo de onde Ananias vinha, agora se mostrava um problema dos maiores e mais perigosos.
Sem saber exatamente onde estava, no meio do nada, cercado por rebanhos de dezenas ou centenas de bois e vacas, ele era presa fácil de quaisquer criminosos que assaltavam desavisados pelas rodovias e sumiam com os corpos, deixando mistérios para a mente dos sensacionalistas.
Se retornasse, perderia muito mais tempo e a irmã, que iria casar com um rico fazendeiro, provável proprietário de parte daquele gado todo que pastava rente aos acostamentos, jamais o perdoaria por perder um momento tão importante.
Talvez não tivesse sido boa ideia deixar para ir no último instante e perdido a carona do cunhado.
O aparelho de música do carro tocava Werewolf of London, de Warren Zevon.
Ao longe, sob um luar pálido, cabeças e mais cabeças bovinas, num mar, ora ou outra, marcado por pares de chifres.
A imaginação de Ananias voou solta por alguns segundos, numa distração arriscada numa rodovia mais movimentada.
Os olhos, cansados de uma viagem que parecia interminável, vislumbraram algo correr pelo pasto à esquerda. Ou melhor: alguma coisa. Não pôde distinguir exatamente o que era a coisa, embora se assemelhasse a um homem robusto; noutro momento, parecia um touro imenso e furioso, que conseguia passagem entre os demais. Fosse o que fosse, tinha pressa para chegar em algum lugar.
Antes que ele pudesse identificar que criatura era aquela, um clarão logo à frente o despertou do transe hipnótico que o vulto distante causou; desviando-se de um caminhão que estava na mão certa, enquanto ele, no descuido, invadiu a contramão, o motorista voltou sua atenção para a irritação.
Estava contente pela irmã, porém não esconderia dela o incômodo por ter de viajar quase meio Estado para prestigiá-la num casamento matutino no meio do nada. Ananias havia insistido em se casarem na capital, onde era mais confortável e poderia ser oferecido um conjunto com ótimos serviços de buffet e festa; haveria mais convidados também, em especial os amigos do irmão da noiva. E evitaria aquela odisseia noturna ao desconhecido.
Se ainda tivesse o GPS, pensou ele, desviando o olhar para o painel do carro, onde a música de Warren Zevon chegava ao final...
Um mugido alto trouxe seus olhos para a estrada.
Ananias não soube o que fazer.
Freou, rodou o volante para a direita, puxou o freio de mão... ou achou que fez isso.
O lado esquerdo do veículo se chocou com um corpanzil negro e branco, que mugiu e se agitou, jogando-se para o meio da estrada. O vidro do para-brisa trincou; o da porta se despedaçou, atingindo o rosto desesperado do motorista, que ainda tentava controlar o carro e entender o que acontecia. Filetes de sangue escorriam pela bochecha e testa quando tudo se acalmou. O cinto de segurança não permitiu ao corpo franzino ir de encontro ao para-brisa e, quiçá, voar pelo capô e cair no asfalto, já sem vida.
Ananias gritou, sentindo a perna pressionada pela porta amassada. Procurou, com urgência, uma pequena lanterna do porta-malas; ao encontrá-la, acendeu a luz e iluminou o próprio corpo. Apesar da dor, nenhum osso exposto. Com um pouco de esforço, livrou-se da pressão.
E, então, veio à mente uma pergunta: o que ele atropelou?
Um touro grande, talvez aquele mesmo que avistou segundos antes, quilômetros atrás. Direcionou o fiapo de luz para onde ainda estava caído o que foi atropelado; não se arriscou a sair do carro.
Era uma criatura estranha, nem touro, nem homem.
Ananias se lembrou das lendas gregas sobre o Minotauro, o monstro que vivia preso num labirinto em Creta e, de tempos em tempos, era alimentado com sacrifícios de jovens atenienses.
Riu da situação absurda.
Um minotauro no Brasil? Melhor: um minotauro? Um homem formado numa das melhores faculdades do país estava realmente acreditando em uma fábula contada por um povo supersticioso e de imaginação fértil? Havia batido a cabeça tão forte assim?
A risada fez o machucado acima do olho esquerdo doer.
A fera se mexeu, pondo-se de pé. Sim, era um minotauro! E devia ter quase três metros de altura! Robusta, ostentava músculos bem definidos, como um fisiculturista; os chifres eram grossos e levemente curvados para a frente, embora curtos. Os pelos negros tinham algumas manchas brancas, e algumas delas estavam salpicadas com sangue e cacos de vidro. Bufando, a criatura se sacudiu e se livrou dos destroços, movimentando o ombro que bateu na lataria; ao notar a luz sobre o corpo, encarou Ananias, que se encolheu no assento e rezou para um deus que nunca acreditou. Os olhos transmitiam fúria e ardiam como brasa; as narinas expeliam um vapor que parecia fumaça àquela hora da noite, quando o frio já era mais forte.
Mas a criatura nada fez contra o atropelador; parecia atrasado para um compromisso mais importante. Era o dia de sorte daquele imprudente. Pondo as mãos no asfalto, o minotauro mugiu o mais alto que pôde e correu para o pasto oposto de onde saíra, onde era possível ver, muito distante ainda, luzinhas que denunciavam uma cidade.
Após se recuperar do pavor que o paralisou por bastante tempo, Ananias ligou a ignição e continuou o percurso, sempre olhando para os lados e indo devagar, receando outro encontro como aquele.
Foi um final de viagem tranquilo, ainda que rondasse a imagem fantástica do homem-touro.
Quando a irmã o viu naquele estado, ficou assustada, mas ele a acalmou, afirmando que estava bem e havia atropelado um boi na estrada, contudo nem um nem outro saiu gravemente ferido do acidente; não era preciso médico nem boletim de ocorrência naquele momento. Sorrindo, alegou que já estava pensando em trocar de carro mesmo, então aquele animal estúpido fez um favor.
Cansado, avisou que iria descansar. A irmã o deteve para apresentar o noivo, Bento, que ele ainda não conhecia pessoalmente. Era um homem de aparência forte, alguém acostumado com os afazeres do campo, embora usufruísse de boa vida na pequena cidade interiorana.
Cumprimentaram-se e se entreolharam. Uma sensação de que já se conheciam e se esbarraram noutra ocasião.
Ananias deixou escapar que o cunhado tinha um aperto forte, como um touro. Se não fosse o ombro machucado, aceitaria o elogio, respondeu Bento, num sorriso enigmático.
Naquela madrugada, antes de dormir, Ananias riu de toda aquela história.
Quem imaginaria que ele, tão cético com tudo, encontraria um minotauro vivendo no interior do Brasil, correndo entre a boiada? E o mais espantoso e inacreditável de tudo: assim como um lobisomem, a criatura tinha uma vida dupla, e era o homem que se casaria com sua irmã pela manhã? Será que ela sabia? Se ele contasse, ela acreditaria?
Tantas perguntas resultaram em sonhos esquisitos com uma igreja cheia de bois e vacas, todos mugindo enquanto a noiva, uma bela jovem vestida de branco, entrava e era recepcionada por um minotauro de terno e gravata, cujo rabo longo e com ponta felpuda balançava de um lado a outro, com grande alegria; até pôde ver, naqueles lábios taurinos, um sorriso apaixonado.
Ananias ainda sonhou sendo tio de bezerrinhos, pequenos animais que berravam cada vez que sentiam fome; e ele os levava para pastar no campo, sob os olhares de uma mãe humana orgulhosa e um pai minotauro sério, enquanto o rebanho que ele protegia se aproximava de um rio não muito longe dali.
Mas o tio Ananias não reclamava de passear com os bezerrinhos, que saíam correndo atrás de borboletas e mastigando flores coloridas. Era num daqueles lugares, sob a sombra de um ipê muito alto, que ele paquerava uma ninfa das flores campestres, cuja beleza o encantava: pele dourada, cabelos negros e olhos azulados, sempre cheirando rosas silvestres.
E por que não se enamorar por uma ninfa? Se ali havia um minotauro, por que não poderia haver outras criaturas fantásticas oriundas da Grécia Antiga?

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