[Trecho] "El sueño de la razón produce monstruos", primeiro capítulo de "Memento Mori"


De lá pra cá, pensando e repensando, sobretudo após algumas conversas, resolvi rebootar a história, investindo mais em conceitos e elementos de fantasia pulp com o horror de sobrevivência, numa trama de dark fantasy mais direta, violenta e aventuresca.

A história gira em torno de algumas pessoas que acordam, por motivos diversos, num mundo cujo sol está eclipsado constantemente e tribos de criaturas monstruosas caçam cada novo ser humano que aparece ali; lutando para sair do planeta infernal, um grupo composto por sobreviventes de um sacrifício a um deus de loucura e corrupção atravessará desertos, florestas, pântanos e ruínas de antigas civilizações, onde cada um descobrirá horrores primitivos e faces ainda mais perigosas do que os monstros mais abomináveis daquele mundo.

Então, quero apresentar o primeiro capítulo, que introduz Mariana, personagem presente já na primeira versão, mas que sofreu algumas modificações. Trata-se de um textão sem revisão nem edição final, então perdoem-me erros; e sugestões são sempre bem-vindas.

Arte de Anastasios Gionis
O sol era negro.
Talvez a constatação não fizesse sentido quando contada a outra pessoa, mas, para Mariana, fazia um macabro e surpreendente sentido, como se fosse algo natural, presente em seu cotidiano desde o nascimento. Ela olhou ao redor, primeiro para as cruzes velhas e apodrecidas, que ostentavam ossos amarelados e rachados; depois para as ruínas que se estendiam por toda parte: antigos prédios, todos desmoronados e assustadores, postes que se dobravam em ângulos horrendos e cujos pedaços de concreto eram mantidos suspensos por barras enferrujadas.
Ela já havia passado da fase clichê de se beliscar e se certificar de estar sonhando ou não. O braço estava marcado pelos dedos e unhas, atestando que, se estivesse dormindo, só poderia ser um coma profundo, pois não despertou nem quando um filete de sangue surgiu de um pequeno corte no local que se beliscou.
Lembrava-se de ter ido dormir, cansada de um longo dia de trabalho, após recusar o convite para uma festa. Queria aproveitar o final de semana e pôr as leituras em dia, ficar em casa um pouco e não pensar muito na rotina estressante que voltaria a encarar na segunda-feira. E acordou ali, deitada sobre a areia vermelha, sob um céu em chamas e quase sem nuvens, com um sol negro saindo no horizonte.
Ao menos não estava com o pijama. Detestava sonhar que andava por aí com pouca ou nenhuma roupa, pois se sentia invadida em sua própria privacidade; geralmente acordava arfando, procurando alguém nas sombras, e custava alguns minutos a se acalmar, convencendo-se de que estava bem, não havia porque temer.
Indecisa, voltou a olhar as cruzes. Imensas, formavam uma floresta de madeira podre e caindo aos pedaços, tendo um espaço entre as ruínas da civilização que as ergueu. Ou foram erguidas por outras criaturas? Sim, criaturas. Monstros, talvez, pois coisas daquele tamanho não eram feitas para torturar e castigar corpos humanos: cada cruz caberia até dez homens robustos, todos espalhados em sua extensão, e os ossos presos em pregos e arames enferrujados não eram menores do que os de um elefante.
Vislumbrar um passado enterrado sob eras de dias e noites num mundo como aquele provocou um calafrio em Mariana. Olhando ao redor, tentou afastar a estranha sensação de estar sob vigilância. Não era exatamente medo, e sim incertezas e inquietações. Respirou fundo, esquecendo-se das carcaças crucificadas e pensando no que deveria fazer até que, finalmente, despertasse daquele sonho bizarro.
O sol negro não era negro literalmente; sua coloração era de um intenso tom rubro nas bordas, enquanto no meio uma esfera negra se mantinha fixa. Era como um constante eclipse. Foi outra constatação seguida de absolutamente certeza. Um eterno eclipse que dava forma ao sol negro. Um sol eclipsado que deixava tudo com tons lúgubres, com sombras alongadas e coloração rubro-alaranjada na terra e manchas ensanguentadas no céu de poucas nuvens ígneas.
Mariana resolveu não escolher um rumo a seguir; apenas deixou que o destino a guiasse pelo tempo que o sonho durasse. Era um sonho lúcido, ela tinha consciência de que nada ali era real, afinal não existia, no mundo em que vivia, um sol daquele tipo que iluminava um lugar como aquele, onde imensas cruzes um dia aprisionaram monstros elefânticos e uma cidade inteira era somente restos abandonados.
Andou por algum tempo, observando o que podia do cenário devastado. As ruínas eram, aparentemente, de uma cidade comum, há muitos séculos habitada por seres humanos provavelmente, uma metrópole que não diferia das muitas que existiam na Terra; o abandono apagou quase tudo escrito, restando rabiscos ilegíveis e placas que, se não fosse o risco de tétano, a peregrina teria pegado e confirmado o esfarelamento ao menor toque.
Por algum motivo, lembrou-se de um poema em inglês. Havia decorado os versos de tanto que ouvia a recitação de um dos agora ex-namorados, um ator norte-americano de uma pequena companhia de teatro.
— “Nothing beside remains: round the decay of that colossal wreck, boundless and bare, the lone and level sands stretch far away”[1] — sussurrou, enquanto contemplava os edifícios vazios e horrendo da rua, cujo asfalto já não existia.
Quem seria o Ozymandias daquele lugar, o orgulhoso regente que se achou superior e maior do que qualquer outro que viveu ou viveria após ele? O tempo, que devorou a cidade e o cemitério de cruzes, teria o devorado também? Como seria o rei dos reis daquele mundo morto? Um homem? Ou uma mulher? Um gigante de proporções elefânticas?
Ela dedicou-se a procurar estátuas quebradas ou quaisquer monumentos que retratassem a aparência do povo que construiu a cidade. Aproximou-se de um prédio, analisando-o atentamente; o que sobrou de uma porta denunciava que a altura média da raça extinta não era tão elevada, logo os ossos crucificados não poderiam ser de ninguém que ergueu uma civilização tão moderna. Foi até outra construção decadente; ali, teve a impressão de que fora uma loja, embora não conseguiu identificar de que tipo.
Conforme adentrava a metrópole, pequenas mudanças no ambiente se fizeram presentes. Primeiro, as ruas e os prédios não estavam tão deteriorados como os outros, como se o poder que os destruiu tivesse perdido força conforme avançava; a seguir, havia alguns letreiros desgastados e placas retorcidas, contudo tudo escrito num idioma que Mariana não sabia qual era. E pequenos arbustos brotavam aqui e ali; talvez por causa da luz ou por um fenômeno químico daquele mundo, as folhas tinham um tom acobreado, mas não aparentavam doença ou morte.
Ela arrancou algumas folhas e as levou ao nariz. Tinham um cheiro acre, não muito intenso e estranhamente familiar. Olhou ao redor. Estava no que antes deveria ser uma avenida movimentada, com veículos de um lado a outro, pessoas apressadas... e naquele instante era apenas entulho, pedaços precários de asfalto esburaco, de onde saíam a vegetação cor de bronze. A sucata amassada em alguns pontos já foram os carros daquela gente.
O sol negro já estava alto, e o sonho continuava se desenrolando. A sensação de que o tempo se arrastava era forte, e não havia indícios de que fosse despertar logo. A hipótese de estar em coma a assombrou. Tentou refazer os passos antes de dormir: nada fora do lugar, tudo tão rotineiro que era um clichê da vida cotidiana. Sem drogas ou bebidas alcoólicas, sem excessos ou desvios.
Chegou em casa pouco depois das sete horas da noite; bastante cansada, recusou o convite de um amigo para sair para uma suposta festa em algum lugar, leu um pouco, fez uma sopa rala com algumas sobras e dormiu antes das dez. Foi um sono tranquilo até que...
Mariana recostou-se num arbusto maior, aproveitando a sombra e protegendo-se do sol negro, cujos raios não produziam incômodo ou calor, porém lhe parecer, por um momento, tão nocivos quanto estar exposta aos efeitos de uma intensa radiação nuclear. O tronco da árvore curvou-se um pouco graças ao seu peso, mas não cedeu, mostrando-se mais forte do que o aspecto disforme indicava.
Ela pensou um pouco, forçando a mente a se recordar de algo vago, que estava entre a hora que foi dormir e o despertar ali, naquela paisagem de sonho ruim. Era um detalhe pequeno, porém que talvez possuísse importância para o que lhe acontecia. O esforço foi em vão; o que estivesse na mente, entre camadas de imagens confusas, lá pretendia ficar.
Abaixou a cabeça, decepcionada, e a ergueu ao ouvir o barulho de algo se chocar no chão arenoso. O coração acelerou sem ritmo ao vislumbrar um homem entre sucatas e escombros, rastejando-se em desespero; ele estava coberto de lodo e sangue e, ainda que a quase duzentos metros de Mariana, o osso exposto da perna esquerda era bastante visível. Quando ele a avistou, gritou por ajuda.
A ajuda não foi possível.
Se o choque não fosse o suficiente para paralisar todo o corpo da mulher, o aparecimento da coisa foi. Num impulso primitivo de sobrevivência, Mariana se jogou no chão, entre os arbustos menores, que formavam uma pequena parede espinhenta; com as mãos na boca, observando através das frestas entre galhos, assistiu à cena de horror que se desenrolava tão perto. E lá ficou, em paralisia quase total.
A coisa que pulou do prédio de onde escapou o homem era uma versão grotesca de um gorila; desprovido de pelos, ostentava uma pele necrosada e purulenta, com cicatrizes pálidas e ferimentos que vertiam filetes grossos de sangue. Trazia numa das três mãos um porrete com a ponta cravejada de pregos enferrujados; gotas de líquido vermelho fresco respingavam pela madeira e metal, denunciando o uso recente. O único braço direito agarrou a perna fraturada da vítima e, com força extraordinária, puxou-o para cima e o atirou para o alto. O homem parecia feito de pano, e seus membros se agitaram desengonçados no ar, em meio a gritos de medo, dor e desespero; não subiu muito, apenas numa altura que permitiu ao horrendo gorila imberbe ajeitar a clava nas mãos, para, segundos depois, acertar o corpo em queda nas costelas, destruindo ossos, perfurando pulmões e arremessando-o mais alguns metros à frente, na direção de onde se escondia Mariana.
O monstro grunhiu, saltando empolgando; mostrou os dentes amarelados e quebrados; bateu algumas vezes no peito estufado com as mãos esquerdas fechadas, enquanto balançava para cima e para baixo o porrete ensanguentado. Por fim, caminhou até a vítima, agora um boneco mutilado e de barriga para baixo, com várias perfurações e pontas brancas saindo pela maioria do corpo.
Conforme a aberração primata se aproximava, mais monstruosa e grotesca era sua forma. Deveria ter em torno de dois metro e meio, no máximo, além de um porte avantajado, distribuído em músculos tão poderosos que eram capazes de atirar um homem para o alto e golpeá-lo com vigor; não era obeso nem magro, portanto sua dieta deveria ser regular, não passando fome e tampouco se banqueteando em abundância.
Mariana se encolheu como pôde, receando chamar a atenção da besta; as mãos sobre a boca, enquanto lágrimas escorriam pela face, soluços e choro abafados e sufocados, o corpo tremendo de horror e pânico. Que tipo de sonho horrendo sua mente produziu e a prendeu? E por que o medo de ser descoberta e ter destino igual ou pior do que aquele pobre homem tratado como objeto pelo animal bestial?
O gorila andou em círculos, olhando a vítima agonizando; divertia-se com a dor e o sofrimento, com as débeis tentativas de escapar, que consistiam em movimentos desajeitados, seguidos de gritos de dor, tosses e sangue jorrando por ferimentos e boca. Quando se cansou, levantou o porrete e desferiu dois golpes; o primeiro atingiu o meio da coluna, produzindo um estalo alto; mal o infeliz gritou, foi acertado na cabeça. As pontas estraçalharam o crânio, espalhando miolos ao redor, e ficaram cravadas no chão duro.
Exceto pelo vento fantasmagórico, deslizando pelas estruturas arruinadas, balançando as folhas acobreados dos arbustos e carregando a poeira vermelha, tudo se tornou quieto. Nem a criatura emitiu som algum, apesar de a boca se retorcer de um lado a outro, abrir e fechar, enquanto as imensas narinas farejavam o ar. Os três braços se agitaram, o corpo imberbe e ferido se tornou rijo... na direção em que a mulher estava deitada e lutava para não sair correndo e pôr em risco a própria vida!
Ele a teria percebido ali? Talvez não, pois seus olhos amarelados iam de um lado a outro, enquanto o olfato tentava identificar a origem do cheiro característico da raça humana. Mas Mariana não poderia ficar oculta para sempre de um caçador impiedoso e formidável como aquele.
O gorila agarrou a clava com uma das mãos esquerdas, levantando-o e o encostando no ombro, numa pose intimidadora. O gesto fez o coração da humana acelerar e o sangue gelar; ela fechou os olhos e rezou, algo que não fazia desde os quinze anos. Nacos de couro cabeludo, cérebro e ossos e gotas generosas de sangue despencavam dos pregos, caindo parte no chão vermelho e parte na pele marcadas por chagas do animal.
Uma ave piou ao longe. O predador voltou-se para trás, grunhindo baixo. Estreitou os olhos. A seguir, pôs o cadáver sobre o outro ombro e se dirigiu para a esquerda, adentrando por um buraco entre entulhos e sucatas.
Mariana suspirou aliviada. Beliscou-se três vezes, na esperança de acordar do pesadelo e nunca mais voltar. Assim como horas antes, apenas conseguiu se machucar. Agora, além da dor no braço, sentiu uma angústia desesperadora. Ainda deitada, posicionou-se com as costas contra o chão duro. O céu avermelhado, as nuvens alaranjadas e o sol negro, eclipsado. Que maldito inferno era aquele?
O pio foi mais perto. E estridente.
A mulher se sentou num sobressalto e olhou em volta; a paisagem continuava a mesma, sem presença de gorilas macabros ou homens fugindo deles. Contudo, um medo avassalador a dominou. Lembrou-se do caçador que se apressou em recolher a caça e ir embora ao ouvir o pio; se ele, que lhe pareceu tão forte e cruel, optou em partir, ela, que não possuía quaisquer meios de se defender, deveria fazer o mesmo.
Não foi difícil esgueirar-se pelos arbustos, que serviram de breve escudo a olhos aéreos, ora se movendo agachada, ora de quatro, até adentrar um edifício à direita. Não teve tempo de analisar se era um abrigo seguro ou não; apenas entrou e se afastou o máximo que pôde da rua, atravessando salas vazias e imundas, corredores com paredes rachadas e cobertas de camadas escuras de sujeira acumulada ao longo de eras imensuráveis. Parou quando os pios se tornaram abafados lá fora, acompanhados por um bater de asas gigantescas e garras arranhando alguma coisa.
Mariana achou um galho retorcido após adentrar uma sala pequena; testou a resistência fazendo força para quebrá-lo dobrando. Levemente aliviada por encontrar uma arma improvisada, decidiu-se por explorar o lugar, numa busca por respostas para os mistérios de sua presença num mundo de horrores saídos dos sonhos mais bizarros.
O térreo do prédio era muito largo, maior do que qualquer edifício que a mulher esteve antes ou conhecia a existência; a sucessão de salas e corredores que não se repetiam dava uma sensação de labirinto, como se a construção fosse um conjunto de alas e aposentos feito para confundir qualquer um que não tivesse um mapa dali. Logo estava perdida, sem saber para onde ir e por qual direção havia percorrido; não ouvia mais os pios da criatura alada que sobrevoava a cidade e tampouco vislumbrava, pela singela claridade alaranjada trazida pelas rachaduras, vultos de quaisquer naturezas, humana ou monstruosa.
Por mais que caminhasse a passos lentos e precavidos, os ecos se espalhavam pelo edifício, em sons baixos e denunciadores; se algum predador estivesse por ali, não teria dificuldade em encontrá-la e, emergindo das sombras que abundavam em cantos e salas mais preservadas, torturá-la das formas mais hediondas que a mente assustada de Mariana pôde conceber. Se num mundo dito civilizado, uma mulher solitária já estava à mercê de horrores palpáveis, carregados por corações doentios, que crueldades existiam numa terra de pesadelos, onde gorilas deformados caçavam e brincavam sadicamente com homens?
Ela lutou contra os pensamentos de derrota e sofrimento antecipado, com as visões de bestas humanoides saindo de algum local despercebido por seus olhos e a levando para regiões infernais, onde a estuprariam por horas e horas, até que seu corpo desistisse de tudo e a mente abraçasse a loucura completa e reconfortante. Começou a chorar, o peito doendo e as pernas trêmulas. Mil vezes morrer como o infeliz sob a clava perversa do gorila do que passar por outro momento como aquele!
A ânsia de vômito a dominou. Largando a arma improvisada, caiu de joelhos e liberou o que havia no estômago; tossiu e chorou, quase numa convulsão incontrolável, enquanto as lembranças malditas dançavam ao seu redor, uma dança funesta e zombeteira de um velho sobre uma adolescente que tinha os sonhos violentados. Tentou se levantar, mas estava paralisada, assim como esteve horas antes, assistindo ao jogo sádico de presa e predador; e como esteve, anos e anos atrás, sob efeito de álcool e drogas ilícitas.
O que estava entre a hora que se deitou e a que despertou naquele inferno? Era crucial se lembrar, saber a resposta. Ela precisava compreender o que estava acontecendo, se estava viva, dormindo em sua cama ou num hospital, em coma, ou morta, e ali era o purgatório para almas atormentadas pelos traumas e mutiladas pelos pecados.
Respirava com dificuldade. O ar tinha cheiro de sangue apodrecido e mofo o tempo todo, independente para onde ia, e era complicado raciocinar em um ambiente carregado de morte e corrupção. O suor frio molhava a testa, escorrendo pelo rosto e molhando a blusa; a angústia dando um nó insuportável na garganta, às vezes sufocando gritos e choros mais altos.
Presa em um mundo desgraçado e perdida num prédio arruinado. Um belo desfecho para alguém que, por tantos anos, teve algum controle sobre a rotina que seguia e as coisas que fazia.


[1] Numa tradução literal, seria algo como “Nada resta: junto à decadência das ruínas colossais, ilimitadas e nuas as areias solitárias e inacabáveis estendem-se à distância”.

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