[Trecho] "Mors certa, hora incerta", terceiro capítulo de "Memento Mori"

Bem, último capítulo postado no blog. Em breve, estarão todos no Wattpad, assim como a continuidade da trama. E as postagens seguirão o padrão irregular, e continuarão sem revisão, pois só reviso quando concluo tudo ou saio relendo para entrar no clima.

Este capítulo é curto, meio que serve para apresentar mais do mundo e continuar com a proposta de matar personagens das formas mais variadas possíveis. Um amigo quem decidiu o desfecho desta parte, aliás; não do jeito que eu fiz, mas a forma de morrer, sim.

Ah, nem é spoiler!

Wayne Barlowe
A vida, para Adam, era uma sucessão de erros e fracassos, mesmo quando as coisas pareciam ir bem.
No início, ele havia tentado se estabelecer no mundo dos filmes e comerciais, vendendo-se como um ator em ascensão, e até contratou um amigo, que se passou por agente e acabou não rendendo tanto quanto o esperado. Era difícil convencer quem era formado na arte de enganar, e os produtores sempre percebiam que diante deles estava não um artista completo e dedicado, com grande potencial, e sim um joão-ninguém sem quaisquer perspectivas quanto a futuro.
Então, meio ao acaso, descobriu um submundo onde suas habilidades de trapaceiro poderiam ser bem empregadas e favorecê-lo bem mais do que a atuação; não foi complicado adentrá-lo e conquistar espaço, embora fosse, desde o início, um jogo perigoso e incerto. Quando o escândalo estourou, perdeu tudo: dinheiro, status, mulheres... e viu-se num beco estreito, com uma saída distante.
Mais ou menos como aquele que andava espremido pelas paredes imundas, sob um céu esquisito. Contudo, o beco da situação vergonhosa em que se meteu após falar mais do que deveria para uma repórter disfarçada de aspirante a atriz era uma figura de linguagem, e aquele em que sujava sapatos, calça e camisa era tão palpável quanto os muitos seios siliconados que apertou ao longo dos anos.
O corpo estava dolorido, como se tivesse levado uma surra de algum agiota a quem devia muita grana; ou de algum marido cuja mulher, fogosa e insatisfeita com as broxadas do cônjuge, foi ter com Adam um sexo de verdade. Mas, como não havia hematomas em lugar algum, logo descartou ambas as suposições; apenas havia acordado num pátio deserto, cuja única saída se dava depois de percorrer um estreito vão entre dois prédios de portas e janelas trancadas e soldadas.
Por ser magro, a passagem apertada não era um obstáculo tão grande; e não era tão longo quanto imaginou: em três ou quatro minutos de percurso, já estava na rua. Olhou em todas as direções, a desolação espalhada por cada canto, pelo asfalto rachado e esburacado, pelos prédios de vidros quebrados ou ausentes, pelos veículos abandonados em toda parte, entregues à ferrugem e ao mato acobreado que os cobria...
— Que maldito lugar é este?
Sempre lhe diziam que as drogas que consumia acabariam o levando a uma overdose; nunca receou qualquer problema do tipo, pois não era de excessos, e sim doses moderadas ao longo do dia. Contudo, diante da paisagem pós-apocalíptica em que se encontrava, talvez estivesse em algum delírio alucinógeno após exagerar ou na cocaína ou no LSD, que experimentava algumas poucas vezes ao ano.
Caminhou a esmo, pensando até que ponto a alucinação iria e se isso afetaria seus compromissos quando o efeito passasse. Lembrou-se da entrevista que cederia a uma rádio, para falar sobre as denúncias que o envolviam e dedurar alguns colegas, vários deles famosos e influentes; seria uma maneira de amenizar seu lado e forçar acordos que o favoreciam, sob os panos quentes de empresários e agentes desesperados por preservarem as imagens públicas de seus clientes tão lucrativos.
As divagações eram muitas, e não demorou para Adam falar sozinho e rir dos comentários e piadas que escapavam a cada novo pensamento e possível solução que tomaria para um dos inúmeros problemas em que estava metido; de um jeito ou de outro, queria e iria dar a volta por cima, recuperar o que lhe foi tomado e chutar para o mais longe possível toda a maré de azar que devastava sua vida.
Distraiu-se mais do que deveria e não notou para onde ia, um erro que foi a sorte de um grupo de cinco criaturas pequenas e reptilianas; de réptil cada indivíduo tinha as escamas salientes numa coloração entre o verde e o azul, uma cabeça que se assemelhava a de um lagarto e um enorme cauda que se agitava de um lado a outro; do resto, contudo, estavam mais para primatas, como versões menores de gorilas, pois se moviam com as pernas curtas arqueadas, os joelhos dobrados para fora, apoiando-se nas mãos volumosas, de quatro dedos, sem polegares, pois os braços eram longos e musculosos. Não houve mais do que seis ou sete segundos para Adam parar de falar sozinho e de andar, o cérebro processar o que via e tomar a decisão mais sensata diante de animais tão extraordinários: fugir.
Ele correu afoito e adentrou a primeira casa cuja porta não estava trancada; nem porta tinha, aliás, mas não era algo que alguém fugindo de monstros pensaria em fechar atrás de si num momento de desespero. Apenas entrou, quase tropeçando em algo que, num vislumbre rápido sob a penumbra, assemelhava-se a um corpo humano ressecado; passou pela sala, corredor e cozinha, saindo num quintal cujo capim cresceu bastante e secou. Sem hesitar, enfiou-se no emaranhado de vegetais dourados, impulsionando o corpo para a frente e abrindo passagem com as mãos; o capim o feriu superficialmente e produziu coceiras na pele. Mas não parou a jornada, pois logo atrás os estranhos primatas reptilianos o perseguiam, emitindo sons estranhos, como silvos de ofídios.
Ao alcançar a grade da cerca enferrujada, estava todo coberto de poeira, pedaços de gramíneas e filetes de sangue; escalou-a com urgência, caindo no outro lado, sobre um solo macio. Levantou-se e, mancando, percorreu metade de um quintal arenoso; os pés afundaram de repente e, antes que pudesse compreender o que acontecia, foi sugado para debaixo da terra.
A queda foi breve; e a água morna amorteceu o impacto. A areia caiu ao redor, produzindo sons baixos, mas com força o suficiente para fazerem eco na caverna.
Adam respirou aliviado quando, ao olhar para cima, não viu quaisquer sinais de seus perseguidores; um alívio momentâneo, pois estava com um novo problema para resolver: sair dali. Nadou com vigor de um atleta, com medo de haver monstros sob seus pés, ocultos nas águas escuras e mal iluminadas pelos poucos feixes de luz que adentravam por frestas do teto, dezenas de metros acima. Quando chegou à margem íngreme, subiu-a com dificuldade, escorregando e se ralando até encontrar degraus de uma velha e gasta escada esculpida na pedra negra.
Cansado, ele amaldiçoou a tudo e a todos, enquanto examinava as águas calmas que se perdiam de vista, até se fundirem às trevas do subterrâneo, quase um quilômetro à frente; a seguir, olhou ao redor, deparando-se com resquícios do que foi um porto rústico em meio e, centenas de metro tanto à esquerda quanto à direita, paredes tortuosas e impossíveis de serem escaladas. Virou-se para trás; vários túneis terminavam ali, e nenhum possuía placas ou qualquer coisa que o ajudasse a escolher um para seguir.
Por longos minutos, Adam ficou parado em cada uma das entradas, às vezes adentrando alguns passos e logo retornando; alguns túneis cheiravam a podridão extrema ou possuíam um odor repulsivo e sufocante; outros, estavam com o chão cheio de ossos humanos ou carcaças de estranhos animais decorando as paredes. Nenhuma alternativa lhe pareceu boa, mas ficar ali, perto de um lago debaixo da terra, onde a escuridão das águas e adiante poderia ocultar aberrações ainda piores do que os primatas reptilianos, era muito mais arriscado.
Escolheu o túnel menos repugnante e entrou, levando nas mãos um pedaço de tábua que encontrou ao acaso. Inicialmente estreito, centenas de passos depois a passagem se alargou até se bifurcar; impaciente, o ator escolheu continuar desbravando pela esquerda; e centenas de metros adiante, outra bifurcação; e depois outra; e mais outra... E a luz cada vez mais fraca, deixando de ter o tom alaranjado característico do da superfície para se tornar algo pálido, como se fosse produzido por um tipo de cristal fosforescente.
Os fragmentos do capim irritavam a pele e provocavam coceiras intermináveis; de início, não passavam de incômodo, uma coçada aqui e ali; contudo, após a água começar a secar no corpo, ficando apenas as roupas úmidas, a coisa foi se intensificando, tornando-se insuportável. Quanto mais se coçava, mais a coceira parecia se espalhar, tornar-se mais forte, e mais exigia o atrito de seus dedos e unhas na epiderme; quando a violência aumentou, pedaços finos de pele foram arrancados, criando ferimentos, o que piorou ainda mais a provável alergia.
Adam xingava como nunca havia xingado antes enquanto o suor caía nas feridas e os terríveis comichões continuavam provocando a angústia desesperada de se aliviar logo; livrou-se da camisa ao chegar em outra das várias bifurcações que existiam naquele maldito inferno subterrâneo, deitou-se no chão e se comportou como um animal, esfregando-se e rolando de um lado para outro, em meio a gritos de dor e sofrimento.
Ele estava tão concentrado na tentativa estúpida de se livrar da sensação de formigas andando abaixo da pele que não notou a aproximação de um imenso e horrendo animal semelhante a um anuro; possuía um corpanzil oleoso, como se coberto de graxa até por causa do tom e da viscosidade da pele, que era composto por quatro pernas robustas e similares a de um lagarto, e por isso seus passos eram quase silenciosos e sutis, uma cabeça pouco destacada, como a de um sapo, e uma pança que quase arrastava conforme se movia como um réptil.
Antes que o homem percebesse qualquer coisa, foi atingido por uma gosma amarelada, escarrada com urgência pelas glândulas salivares do anfíbio colossal. E foi um deleite aquela substância nojenta e pegajosa, pois a coceira parou quase imediatamente; gargalhando de alegria, com a pele toda arranhada e escavada, algumas partes com nacos de pele e carne pendurados, a carne viva bastante visível e ensanguentada, pôs-se de pé e encarou o monstro oriundo das entranhas da terra. A gargalhada continuou, num delírio de loucura, quando escutou as falanges caindo na poça sob seus pés, que lentamente afundavam; não sentia mais a coceira, ou dor, porém tinha consciência de que mais uma vez a vida o enganou e o pôs numa situação de azar. O último azar.
Sob os olhos impassíveis e pacientes do sapo infernal, Adam encontrou seu destino, derretendo-se lentamente, caindo sobre a sopa gelatinosa que sua carne e seus ossos formaram, rindo ensandecido, amaldiçoando-se por ter feito tantas escolhas infelizes. Quando não restou mais nada, exceto um amontoado róseo-amarelado, o anuro iniciou seu banquete, lambendo com deleite o delicioso sabor que apenas os humanos tinham.

0 comentários:

Postar um comentário