"Contos de fadas são mais que verdade; não porque nos dizem que dragões existem, mas porque eles nos dizem que dragões podem ser derrotados." G. K. Chesterton

[Poema] Mel I, II e III

Os 3 poemas a seguir foram escritos há alguns anos, em momentos diferentes; não foram feitos para serem bons e tampouco possuírem qualquer valor, e sim deixar escapar um pouco o que me incomodava. Os textos de apresentação são das datas de suas publicações no antigo blog.


Um pequeno exercício poético que fiz hoje, na hora do jantar, enquanto ouvia repetidas vezes a versão do Hydria para Ana's Song, que fala sobre anorexia e tal. Como já devo ter mencionado aqui ou ali, tenho depressão e imaginei esses versos simples aí, digitando direto no celular e postando no Facebook.


Mel, eu te respeito,
Mas tu me perfuras o peito
Com teus dedos finos
E me provoca desatinos.

Mesmo que tu digas me amar,
Não posso confiar
Em alguém que me deseja sorte,
Mas só me causa morte.



Outro poema, feito para minha amante constante... 



Mel, a cada dia que passa
Mais este amor que tu tens me mata,
Uma parte de mim deixa de existir
E tu apenas rires de mim.

Tu juraste me trazeres calma,
Mas só perfuraste minha pobre alma
Com pensamentos de dor
E me fez acreditar que era amor.

Como pode, Mel, brincares com o que sinto,
Se diante de tuas mentiras não minto?
Acaso, Mel, és tu uma farsa,
És o princípio de toda minha desgraça?


Outro poema, feito pouco depois de simplesmente travar a garganta na hora de jantar. Enfim...


Este amor, Mel, chegou ao limite,
Arrancou todo meu fraco apetite,
Pois não consigo parar de pensar em ti;
Este amor me tirou a vontade de sorrir.

O que fizeste comigo?
Acaso isto é algum castigo
Por algo que devia ter feito,
Por amar demais, por faltar com respeito?

Como posso continuar esta vida,
Quando em meu peito há uma ferida
Que me queima e me enlouquece,
Que de minha pouca alegria carece?

Ah, Mel, tu és ingrata amante,
Lembrando-me a todo instante
- Ah, pobre de mim! Pobre de mim! -
Que é melhor morrer do que viver assim!



Adeus, Vannora e os Mundos em Conflito!


Este ano estou meio ao acaso em meus escritos, enquanto reformulo algumas coisas e decido os rumos para o que eu já tinha planejado para o Lordeverso. A cada mês, por exemplo, sinto menos vontade de continuar com diversas histórias e até as abandono completamente pelo tempo que precisar. Foi assim que despubliquei e engavetei Ariane, pois é um livro que já não corresponde mais ao que sou como pessoa e escritor.

E estou fazendo algo semelhante com outros dois projetos.

As aventuras de Vannora, a Senhora da Espada Vitoriosa chegam ao fim bruscamente. E A Guerra dos Criativos passa a ser, por ora, o único livro sobre os Lordes, Juízes, Pilares e Criativos: a então trilogia Mundos em Conflito já não faz mais tarde de meus planos, sendo Colisão, o primeiro volume, despublicado.

Há diversos motivos para uma decisão tão repentina, mas parte dela é essa: estava cansado de remanejar ambos os projetos, adequá-los e dedicar tanto tempo quando, na verdade, os resultados continuavam abaixo do esperado, os esforços só me desgastavam e desviavam de algumas partes mais importantes.

Vannora descansa sua espada sangrenta e imbatível; Ailith talvez viva outras histórias; e eu devo um sincero pedido de desculpas a cada um que adquiriu, leu e deu um feedback sobre essas histórias.

Enfim, é isso.

[Conto] A Estrela Mais Distante

A Estrela Mais Distante é um dos contos que mais gostei de ter escrito. Nasceu de uma ideia simples, acho que parte de algum diálogo que realmente aconteceu com a vontade de sair um pouco de minha zona de conforto. Dizer mais do que isso seria estragar a experiência da leitura.


— Cada estrela já foi uma alma que habitou a Terra.
Ele sempre me dizia isso. Queria que eu acreditasse nisso.
Era importante para ele.
Eu, idiota, nunca levei muito a sério.
— Todo mundo sabe que as estrelas são esferas gasosas incandescentes.
Não sei se era a informação correta, mas era o que eu sempre dizia. No começo, apenas para irritá-lo; posteriormente, no intuito de provocá-lo — e era quando ele me abraçava forte e me beijava, falando o quanto eu era irritante com aquele papo científico.
— Pô! Você sabe que estou tentando ser romântico, não?
Sim, eu sabia. Deus, como aquele garoto era romântico!
Ele era como um poeta, embora nunca tenha me escrito versos; ele manejava as palavras como um poeta sem versos e sem rimas, apenas com símbolos, e aquilo me bastava, era o suficiente para me fazer suspirar. Num mundo cada vez mais frio e caótico, encontrar alguém como ele era um oásis que relutava a deixar.
— Ah, tá! Prossiga então!
Éramos um casal feliz, apesar de tudo. Apesar de o mundo conspirar constantemente contra nós. Quando a barra ficava pesada, ele me abraçava forte e dizia que nada nos derrubaria ou nos separaria, que éramos predestinados a ficar juntos para sempre. Além de poeta, era um motivador, um otimista com a vida, um crente de dias melhores.
— Como eu dizia, cada estrela já foi uma alma que habitou a Terra. Quando alguém morre, nasce uma estrela. Se prestar atenção, notará que cada estrela tem uma característica única, o que a torna especial.
Nunca vi nada de especial em nenhuma estrela. Todas brilhavam, todas possuíam cores distintas, todas estavam distantes. E havia grande chance de quase todas ali estarem mortas, como eu deveria estar, se ele não tivesse me encontrado e me nutrido com amor.
— Talvez você pense que elas estão distantes — disse-me, algumas noites atrás —, e realmente estão. Talvez pense que são reflexos do passado, e certamente são. Talvez você não as note todas as noites e tampouco dê importância ao que vivo dizendo sobre estrelas e almas, mas elas estarão sempre ali, por toda a parte, brilhando e piscando, entre as nuvens, em noites de chuvas, ofuscadas pelo Sol ou pelo luar mais intenso... Elas sempre estarão lá. E eu acredito, sim, que são almas de vidas que já se foram, de amigos meus, de parentes meus, de parentes seus, de gente que nunca conhecemos... Não é como um cemitério, sabe? É um paraíso, onde não importa quem brilha mais ou brilha menos, qual tem um brilho diferente e qual não tem. Até a estrela mais distante, cujo brilho nós só percebemos após horas e horas de contemplação, tem o mesmo valor que a mais brilhante e próxima da Terra.
Embora fosse poeta, ele não era de chorar tão fácil — ao contrário de mim.
Mas naquela noite ele chorou.
Abracei-o com força. Uma força que eu achei que não tinha. E que vinha dele, dos anos ao lado daquela pessoa especial, e me mantinha como uma planta agarrada a um solo que se desmanchava com as chuvas torrenciais.
Ficamos assim por muito tempo.
Pela última vez.
Quando ele foi embora, já tarde da noite, eu senti um arrepio.
Se eu tivesse pedido, ele teria ficado. E estaria agora comigo, abraçando-me e me dando um pouquinho de sua força, como sempre fazia. Roçaria sua barba volumosa em meu rosto, seguraria minha mão quando eu acordasse de um pesadelo, cumpriria as promessas de vivermos juntos até envelhecer e morrer.
Mas eu o deixei ir, assim como uma folha carregada ao vento. Ou uma palavra dita sem pensar.
Morto.
Aquele que me devolveu as razões de viver já não vivia mais.
E eu estava preso em uma promessa.
— Esses cortes — falou, tocando meus pulsos feridos repetidas vezes —, eles são os últimos que você fará em seu corpo. Agora estou aqui e cuidarei de você, Rodrigo. Não deixarei que o mundo o machuque de novo. Mas preciso que me prometa nunca mais fazer isso. Preciso que comece a ser forte. Eu dou minha força para você, mas um dia terá que ser autossuficiente. Prometa-me que tentará, dia após dia, ser forte.
Chorei apenas, aninhando-me em seu peito.
Eu saía da adolescência. Era difícil ainda para minha família me aceitar. Era um fardo pesado para mim suportar os olhares das pessoas, as piadas ofensivas. Cortar meus pulsos parecia a única solução para aliviar minhas frustrações, abreviar minha vida...
Até que eu o encontrei.
Camilo era minha fortaleza.
E foi arrancada de mim por alguém sem rosto, sem nome. Dois tiros no peito. E nada mais.
Não pude ir em seu velório. A família dele nunca aceitou quem ele era. Culpavam a sociedade, as más companhias... me culpava por ter um filho diferente, que vivia um amor com outro rapaz.
Ele sempre foi um otimista. Era sua forma de lidar com as mesmas coisas que eu.
Enquanto eu me mutilava, sem encontrar nada pelo que viver, Camilo se agarrava às crenças mais simples, almas se transformando em estrelas, para continuar vivendo, confiante que dias melhores viriam.
Talvez ele também fosse uma alma desajustada num mundo cheio de regras sobre como devemos ser e agir. Talvez nossos encontros, em minha casa, onde eu morava apenas com Bob, um cachorro que ele me deu no dia de meu aniversário, ou em qualquer outro lugar que nos respeitava como pessoas, fossem as válvulas de escape da realidade.
Éramos, afinal, dois sobreviventes de anos carregados de preconceitos e ódio, duas metades ainda boas que se encontraram e se completaram. Dois fugitivos que gostavam de olhar o céu noturno, ainda que um visse apenas pontinhos luminosos, estrelas e planetas, às vezes algum cometa, e o outro fosse mais sonhador.
Camilo havia me feito prometer uma coisa.
— Promete viver até o fim?
— Prometo — respondi, antes de me afastar um pouco de seu peito e roçar nossos lábios no prelúdio de um beijo, a barba volumosa dele roçando em minha pele imberbe.
Deitei-me no tapete, como antes fazia todas as noites quando acompanhado, e procurei algo naquela noite. Meus olhos estavam marejados de saudade e pesar, a mente ainda sem saber o que fazer.

Eu viveria da melhor maneira possível, pois sabia que lá do alto, ainda que fosse a estrela mais distante do conjunto pontilhado, Camilo olharia com orgulho para a alma que ficou na Terra. E eu nunca decepcionaria o homem que me trouxe de volta à vida.