[Conto-Entrevista] Chá de Cogumelos com Laísa Couto

Desenterrando postagens de um antigo blog, encontro este conto-entrevista que fiz com a Laísa Couto, autora da série Lagoena, atualmente sem edições físicas ou virtuais. Fico na torcida que logo ela publique o livro, numa versão mais completa do que a que saiu anteriormente, assim como a conclusão da série.


Arte de Frank William para a capa de Lagoena, quando em edição pela Draco

Existem muitas terras e muitos mundos a serem conhecidos. Sou daqueles que acreditam em mundos paralelos, em realidades distintas coexistindo lado a lado, e que a mínima mudança basta para alterar tudo e criar possibilidades diversas, opostas e interessantes.

E que prazer é ser convidado para um chá de cogumelos com Laísa Couto num campo de grama baixa, numa tarde amena, sob a sombra de uma árvore de copa vasta! Eu amo essas coisinhas malucas, sabe? E chás de cogumelos são sempre maravilhosos, sobretudo quando acompanhados de uma boa conversa sobre um mundo novo, que ainda não conheço.

Estranho como Laísa consegue se esconder tão bem, e ainda assim estar perto. E mais estranho é que durante nosso bate-papo eu pouco pude saber sobre ela. Tento saber quem é a minha anfitriã, afinal, é o mínimo depois de um convite tão tentador.

"Um fantasma", ela responde sem titubear, mas logo percebe que aquilo pode ter sido uma grosseria sem intenção. "Como diz o lema do meu perfil lá no Confissões Desajustadas: '... agora não sou nada, sou apenas um ponto final numa história que nunca foi contada'. Em mim não há nada de especial a ser revelado, e as pessoas já tiveram a oportunidade de me conhecer de modo muito particular, que é lendo meus textos..."

Sorri e bebe um gole de sua bebida.

"Um autor fala muito de si quando dá vida a seus personagens", deixo escapar, enquanto desvio o olhar para o céu anil, salpicado de nuvens brancas. "Então, parte você está no que você escreve, certo? Talvez como um enigma esperando ser decifrado."

"É inevitável uma criação não possuir a identidade do criador. Do contrário, tudo soa artificial e a verdade perde credibilidade. Não é à toa que os manuais de como escrever um livro estimulam o autor iniciante a acessar suas memórias para construir seus próprios textos", responde Laísa, e eu a olho para vislumbrar algo familiar e inédito, num paradoxo.

Ela arfa, de leve, sem ruído e conclui:

"O enigma também pode estar numa simples frase, longe de uma complexidade extra ou hiperespetacular. A novidade dentro das camadas de um texto depende muito do entendimento do leitor. Há segredos em um livro que nunca serão relevados, faz parte do encanto da literatura."

Eu a entendo, afinal, uso muitos símbolos em meus livros, camadas e camadas de  mistérios e pistas sobre quem sou e quero ser, meus medos e sonhos.

"Mas Lagoena é incrível, pelo que posso notar. Um mundo fantástico, Laísa", comento, e ela agradece o elogio com um sorriso. "Quando e como surgiu? Como você criou algo tão fantástico?"

Tudo bem que eu estou apenas num campo, e não havia passeado pelas florestas, pelas estradas, pelas vilas e pelos reinos, havia a ser visto ainda, mas Zarak me ensinou a me encantar com o pouco, pois é no pouco que se inicia o muito.

"Lagoena surgiu sem querer, escrever pra mim foi sem querer, e os dois surgiram ao mesmo tempo, de braços dados. O tempo dado para conhecer Lagoena foi o mesmo tempo dado para conhecer o que era escrever (o que tenho muito a aprender)."

Um gole rápido.

"Lagoena nasceu sem a mínina pretensão de ser o que é hoje. É estranho voltar anos atrás e pensar em como tudo começou. Não acredito que tenha surgido. A história já existia e estava perdida em algum lugar no espaço, eu só fiz parar, afinar os ouvidos e escutar. Claro que houve 'ruídos' nesse meio tempo, tempestades colossais, ventanias que quase me derrubaram, mas tive de me manter em pé para escutar uma voz rara no meio disso tudo e ver tudo passar como um filme na minha mente. Apenas escutei e descobri Lagoena..."

Ouvir o chamado... como eu entendo sobre isso.

"O único caminho que conheço para criar um mundo fictício é a verdade", continua minha amiga, sonhadora e indiferente aos meus pensamentos mediante suas palavras apaixonadas. "Simples e pura verdade."

"E quando foi que você ouviu o chamado?", indaguei, interessado em saber como foi a iniciação de Laisa naquele local escondido no centro de galáxias onde a magia ainda impera.

"Em 2005, quando li uma reportagem sobre livros de fantasia e sua repercussão. Eu era totalmente alheia a este tipo de literatura. Mas algo me deu um estalo e resolvi passar das costumeiras 30 linhas das redações escolares..."

"Aconteceu comigo também, ao dar vida a Zarak... e desde então tive de me controlar para não exceder o limite pedido nas redações."

Rimos.

"E faz um bom tempo já, hein?", emendo.

"Sim, e espero continuar me dedicando a esse projeto e que possa dar bons frutos...", concorda ela, ainda mais sonhadora.

"Dará sim, tenho certeza."

Tomamos mais uns goles de chá. Eu começo a sentir os efeitos dos cogumelos, e cada vez mais a beleza daquele lugar me invade a mente. Ou será culpa da bebida?

"Lagoena é um lindo nome. O que significa?"

"Vem do latim. Seu prefixo lago pode ser interpretado como parte de um todo, de um conteúdo ou continente. Por isso, um dos primeiros significados que encontrei foi pedaço de terra, mas o significado mais comum é garrafa, vasilha, ânfora."

Uma ânfora de segredos e aventuras, eu diria, mas prefiro me calar.

Arte de Frank William para uma das cenas mais tensas do livro.

"Já que você me chamou para tomar este maravilhoso chá", começo, com a voz embaralhada, as ideias voando no ar como bolhas de sabão, "conte sobre o que há aqui. Eu quero saber mais ou menos o motivo de você vir tanto para cá. E o que me espera aqui?"

"Podemos esperar de Lagoena nossos melhores sonhos e nossos piores pesadelos. Florestas almadiçoadas. Criaturas espectrais. Seres antigos e belos. A magia está impregnada em toda atmosfera. É difícil tentar desmembrar Lagoena e saber onde está enraizada sua magia. É magia em sua totalidade. É a magia de colher histórias banais e recontá-la de outra forma. É a magia de remexer o fundo do baú e polir a dor ao ponto de transformá-la em cristal puro."

O brilho de seus olhos me encanta, e me sinto leve como as bolhas que sobrevoam minha cabeça, logo sendo conduzidas pela brisa, para bem longe. Estou emocionado e ansioso para desbravar aquele mundo mágico criado não por uma autora estrangeira, e sim por uma brasileira. Mas eu precisava saber de mais uma coisa.

"Qual a importância de tudo isso, de Lagoena para você?"

"Refletir sobre a importância de Lagoena pra mim é muito difícil e pessoal... Vou tentar ser honesta. Lagoena me abriu as portas para a literatura, um mundo que me acolheu, me ofereceu sua amizade incondicional e deu voz ao meu constante silêncio. Esse projeto meu deu a possibilidade de enxergar mais longe, encontrar a verdade nas simples coisas, ser feliz sem ser."

Chá de cogumelos são bons, mas provocam na gente reações estranhas.

Quando Laísa termina de falar, eu voo longe, acenando para ela, afinal é quase fim de tarde e preciso correr para a faculdade. Ela retribui, com a mão coberta pela luva; bebe mais um gole da bebida servida em Lagoena por uma criatura esquisita e única, que conhece mais de cogumelos do que eu. Não há tristeza em seu rosto, e sim a certeza de que e voltarei, de que aquela terra fantástica ganhou mais um visitante.

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