"Os Outros" e os significados forjados

Skull brush by Art-of-Animalpark
Muito do que eu escrevo é carregado de simbolismos.

Em A Guerra dos Criativos, por exemplo, a cena em que determinado personagem morre, é a ruptura da adolescência para a fase adulta. Em Anamélia, o tempo todo a protagonista-título flerta com a possibilidade de morrer, e cada tarefa que realiza sempre a encaminha para uma certeza e a faz reviver partes de sua vida. O conto A Casa de Praia, por sua vez, mostra um relacionamento fadado ao fracasso e as tentativas do protagonista em mantê-lo, mesmo ciente do resultado irremediável.

E podemos notar símbolos em muitas coisas ao nosso redor, inclusive na publicidade.

Nos filmes que assistimos, por mais banais que vários possam ser; nas músicas que ouvimos; nas pinturas que admiramos sejam em museus ou redes sociais; nos livros que lemos; nos trocadilhos e conversas cotidianas. Tudo está tão preso a símbolos e seus infinitos significados que negar tal fato é como negar parte de nós.

Somos criaturas simbólicas, e nos expressamos por um código de fala e de escrita, por gestos e por pensamentos.

Então, por um simples processo de lógica ou de intuição, esperamos que os escritores tenham esse senso de símbolos e significados, que eles possam não apenas passar sua mensagem da melhor e mais fascinante forma como também comprrenderem um pouco o que outros escritores fizeram ou tentaram fazer.

Certo?

Errado!

Hoje, por exemplo, fui bombardeado por uma sequência impressionante de interpretações abomináveis feitas em cima do filme Os Outros, de 2001. A trama é bem simples, contendo uma reviravolta muito boa: os personagens que são assombrados estão mortos e os que assombram estão vivos. Nisso, uma cena do filme foi debatida e tanto quem propôs o debate quanto quem o aceitou iniciariam um show de horrores digno dos piores pesadelos, pois, mesmo diante da informação mais crucial, que permitiria um olhar novo sobre as cenas, as interpretações beiraram ao cult mais exibido e pedante possível, negando as inspirações do filme, que vão de livros (num exemplo, A volta do parafuso, de Henry James, que possui uma adaptação cinematográfica também, Os Inocentes, de 1961) à doutrina espírita.

Nisso, só para ficar no que consigo lembrar e me enojar, temos os empregados eram os traumas da protagonista, o molho de chaves e as correntes remetem ao estado de mortos que se encontram os personagens e, minha preferida, o grito inicial da personagem remete ao fato de ela ter matado os filhos.

Não!

Não!

E não!

Há significados em cenas e diálogos, mas com certeza não estão nos empregados que aparecem nos minutos iniciais, pois eles estão todos mortos também. O fato de a protagonista detestar piano e comentar que isso a deixa com enxaqueca, então ela pede que não deixem seus filhos tocarem, por sua vez, dá uma pista sobre o crime que ela cometeu em vida. O surgimento inesperado dos três empregados, sem bagagens, denunciam algo anormal (eles a recepcionam no pós-morte). Não ter qualquer meio de comunicação (com os vivos) também é uma pista. E o filme iniciar com seu grito, por fim, deixa bem claro a chave do mistério: após ela assassinar os filhos (se não me engano, enquanto eles dormiam, então nenhum deles sabe que morreu), entra em desespero e se mata (acho que com uma espingarda, mas posso estar enganado). Daí seu grito desesperador, a desorientação (e o choque foi tão grande que ela simplesmente se esquece que matou os filhos e se matou logo depois) e a recepção dos três empregados (já mortos há mais tempo e moradores da casa).

E não, o grito dela não significa nada sobre o que ela não pode controlar. Esqueça isso também!

Simples.

Não tem que complicar nada.

Símbolos podem ser herméticos ou não.

Às vezes, contudo, é só deslize de maionese de quem quer achar pelo em ovo mesmo.