Resenha #12: O Culto [D. A. Potens]

Ano: 2017
Páginas: 200
Editora: Produções BlackGoat
SINOPSE: Meu nome não será dito. Você não verá meu rosto. Só peço que escute e não respire. Não tire seus olhos de mim e não disperse seus pensamentos, pois minha atenção é sua, somente sua, para que conheça aquilo que me persegue; de onde ela veio e quem a criou. Por quê? Porque ela pode estar na sua casa e, se estiver, tenha certeza de que precisará de ajuda.

Meus sonhos me trouxeram até aqui para enxergar o que a magia, a igreja e seitas ocultistas podem fazer em tempos de caos e escuridão. No Acre, em 1921, o mal que eu conheci teve início a partir do nascimento de cinco crianças com cabeças de cabras pretas que foram perseguidas pelo Vaticano. O que aconteceu após isso somente os fortes de coração podem ouvir. Você é um deles? Uma delas?

O grito de louvor será dado. Conheça a história da besta consagrada. A Cabra Preta lhe espera soltar gritos de pavor. Já eu... Bom... Eu espero que você tenha coragem de conhecê-la.



Nunca mais leio nada para comprovar um ponto.

O horror (e o terror) é um gênero literário complicado. O escritor que se aventura por ele precisa saber bem onde pisar, quando e o porquê. Não é apenas jogar uma cena violenta ali, uma morte sinistra mais acolá e ter criaturas demoníacas tocando o pavor. O horror é feito de personagens sob uma trama bem feita.

D. A. Potens, contudo, falha em tudo e além.

Começando que O Culto mais parece um breve tratado do que não fazer numa história de terror (e horror). Quase todos os capítulos (que são poucos e, com exceção de um, tão curtos quanto a memória de quem o escreveu) são como contos isolados que foram, posteriormente, reunidos e costurados com uma linha frágil demais. E as poucas páginas da obra são recheadas de tantos elementos que ficamos diante de um show de horrores perverso ao bom gosto.

Na trama, o narrador é um homem misterioso, que tem sonhos estranhos sobre eventos passados e recentes envolvendo figuras caprinas, e parece ser parte de algo maior. O mistério aqui é quem é esse homem e qual a origem da tal Cabra Preta (cujo poder ora parece grandioso, ora se torna reduzido a derrubar portas e paralisar pessoas com o berro).

E enquanto acompanhamos seus sonhos, somos apresentados a um padre ocultista genérico, um thelemita genérico, cenas de gore genérico, eventos genéricos de canibalismo e crueldade genérica.

A impressão é que o autor apenas pegou cada ideia que teve e apenas jogou, convencido de que agradaria quem busca apenas cenas sem sentido e sangrentas. O efeito causado, todavia, é de risada ou repulsa (e no pior sentido), pois, em nome do choque, o autor não economiza na descrição de um pai matando, esquartejando e devorando a filha de oito anos, uma cena que não serve para nada além de provocar horror no leitor, que fica impressionado por alguém ter pensado em algo tão grotesco. Aliás, canibalismo, segundo Potens, é uma ação tão corriqueira que uma garota consegue, em poucas horas, devorar de três a quatro corpos sem esforço, inclusive os ossos.

O Culto ainda sofre de ausência de verossimilhança interna gravíssima; em determinada cena, um grupo de pessoas dança até a morte, mas não por exaustão, e sim por desgaste literal: conforme vão dançando, seus pés são consumidos como um lápis esfregado no chão, até não sobrar mais do que apenas resquícios das coxas. Não bastasse essa morte bizarra e impossível, o padre chega ao local e, abismado, questiona-se se aquilo não foi ação da criatura que ele zela numa caverna — e até vai ao local que ela vive, para se certificar que o monstro não escapou; o problema é que, perto do final, o thelemita revela que foi o padre quem causou a histeria dançante! Como o padre causou isso se ele próprio questiona se não foi uma das cabras?

Noutra cena, digna das animações dos Looney Tunes, um par de indivíduos removem peles humanas de suas cabeças humanas e revelam cabeças caprinas. Se tivesse uma fala de humor, combinaria muito com qualquer cena de algum desenho animado de tão bizarra que foi.

Outro grande problema, além da escrita medíocre, é como a mulher geralmente é representada: se não é uma virgem que serve de receptáculo para as crias infernais (um tropo típico de qualquer filme trash), é a vadia que merece e deve morrer (a velha de vagina murcha que saciava sexualmente uma das criaturas ou Catarina, que morreu por ter muitos amantes). As mortes mais brutais são exclusivamente femininas, todas descritivas e longas. Há um estranho senso de justiça e punição em “O Culto”, uma contradição que reforça a necessidade de se desenvolver os personagens, pois acompanhamos muito a visão de quem pune (e quase todos soam esquizofrênicos ou de índole duvidosa), numa glorificação à morte lenta e torturante. O leitor apenas deve aceitar que é assim e pronto, pois é o que o autor diz que é.

Escritores de horror de verdade, como Stephen King e Lovecraft, costumam pensar em detalhes (cenários, personagens, clima, acontecimentos) de maneira a enriquecer a história, levar o leitor de um ponto seguro ao desconforto completo; Potens não, ele apenas joga tudo lá, esperando chocar, mas apenas entedia o leitor mais experiente. Seu desconhecimento de psicologia ou falta de aptidão em lidar com pessoas atrapalha, a alegação de conhecer algo de magia (em especial a Goetia e a Thelema) cai por terra pela repetição de crenças retiradas de filmes trash. A narrativa é automática e desprovida de emoções, ainda que algumas frases soem dignas de Tumblr. As tentativas de justificar ações com revelações oportunas incomodam e soam falsas, uma vez que a primeira impressão é de alguém mentalmente perturbado — então por que o leitor acreditaria que ele foi estuprado a mando de uma garota ou possui um passado traumático?

Lendo a obra inteira, sou forçado a apoiar a primeira frase usada na divulgação da obra: trata-se, sim, de uma piscina de merda, então, com todas as forças, evite cair nela.

Mas, se tem algo que eu posso elogiar, é a capa, a única coisa realmente livre de críticas, pois, da escrita à revisão — que deixou passar erros pontuais e palavras trocadas e sem acento —, nada mais se salva.

NOTA: 0,5