A Chave da Fantasia: a importância de Monteiro Lobato para minha escrita

Monteiro Lobato by drakonos85
Tudo teve início porque Dona Benta andava arrasada com os horrores da guerra e a sua tristeza entristecia o Sítio do Picapau, outrora tão alegre e feliz. E foi justamente por causa dessa tristeza que Emília planejou e realizou a mais tremenda aventura. Querendo acabar com a guerra, por um triz a boneca não acabou com a humanidade inteira.

Essas poucas linhas me conduziram por uma história fantástica e muito divertida, com altas doses de aventura e crítica social. Publicada em 1942, por Monteiro Lobato, continuava tão atual e cativante para mim, um garoto na primeira década do seculo XXI, quanto deveria ter sido atual para os garotos e garotas que leram na época de sua publicação.

A Chave do Tamanho me marcou profundamente, antes de tudo, como leitor, pois foi a primeira obra de Lobato que eu havia lido. Eu já tinha outras leituras de fantasia feitas anteriormente, mas nenhuma delas conseguiu deixar marcas tão profundas quanto esse livro; o tom fantasioso ali fazia fronteiras com diversos assuntos: a guerra, o pior e o melhor do homem, uma sociedade utópica, moldada após eventos surreais, cenas um tanto violentas, etc.

E me marcou eternamente como escritor. Em especial de literatura fantástica.

Há quem veja na fantasia, em especial, um gênero escapista, cujo enredo se faz em cima de eventos fabulosos e com pouco apego à realidade, descompromissado com a lógica... e isso provoca olhares tortos quando, por exemplo, eu digo que escrevo, acima de tudo, fantasia. Em parte, talvez, deva-se ao preconceito em cima da literatura fantástica (fantasia, horror e ficção científica e toda a infinidade de subgêneros dos três); em outra, aos meus contemporâneos literários, que agarram os tropos e os clichês de forma irresponsável, buscando efeitos nada mais do que passageiros, sem um cuidado seja com a linguagem, mensagem e algo mais, por mais que seja uma literatura de entretenimento ou escapistas (coisas que faço e não é elemento desmerecedor de nada e tampouco retira qualidade do material).

Mas Lobato me mostrou que é possível entreter, oferecer uma fuga da realidade ao leitor, e ainda assim fazê-lo refletir e pensar sobre a realidade em que vive... e sem ficar algo entediante, desprovido de graça ou emoção. Não é simplesmente buscar construir uma crítica social foda para lacrar, é espelhar-se ao nosso redor, nos problemas de nosso tempo, para montar uma história poderosa e verossímil, capaz de cruzar os tempos e as gerações. Algo que curso algum ensinará a fórmula, creio eu.

Existem outros autores, é verdade, com tal habilidade, em diversos países, idiomas e gêneros, mas, dentro do que leio, encontrei algo assim na trilogia Fronteiras do Universo, de Philip Pullman, e no livro Sete Minutos Depois da Meia-Noite, de Patrick Ness, por exemplo.

Só que, durante minha formação inicial como escritor, encontrar em Monteiro Lobato os pilares para moldar-me como pessoa e escritor foi essencial, pois definiu tudo o que viria a culminar em A Guerra dos Criativos e Anamélia.