[Conto] Rube se apaixonou

Muitos me perguntam sobre Rube.

Tá, alguns me perguntam sobre Rube.

Ela está bem. Transita em um limbo entre a idade que a conheci e a idade que tem no conto abaixo, mas ainda não estou preparado para explorar essa fase importante de sua vida. Como um pai, não estou preparado para ver minha filha crescer e alcançar aventuras além da biblioteca de nossa casa.

Mas, ei, hoje é Dia dos Namorados e ela se apaixonou!

E este conto é como as coisas começam.

Boa leitura.

Little green bird by ArtofOkan
Sr. Coelho não entendeu quando, naquela gostosa manhã de domingo, Rube lhe perguntou se ele já havia se apaixonado. Não era uma das muitas e muitas perguntas típicas que a agora, com recentes treze anos completados, costumava fazer; não era complexa e tampouco usual. Era estranha, como a vez em que ela perguntou sobre pensamentos, como surgiam, de onde vinham e para onde iam. O que ela não aprendia lendo, tentava aprender perguntando, como uma filósofa sedenta por conhecimento e respostas cada vez mais metafísicas.
— Uma vez ou duas, há muito tempo — disse o coelho de pelúcia, que passava a maior parte do tempo sobre a cama, já que há muito Rube o deixara de carregar para cima e para baixo.
— E como é a sensação?
— Não tem como descrever direito, Rube. Você apenas sente tudo diferente. E gosta disso. Algo muda em você, no mundo, no modo como vive e vê as coisas... o modo como sente.
— E isso é bom, não é?
— O quê? Apaixonar-se?
— Sim.
E Sr. Coelho notou que Rube havia mudado. Não era mais como a menina que jurou proteger eternamente. Não era uma mudança corporal ou hormonal; e tampouco tão fácil de ser notada se não prestasse bastante atenção — e ele prestava bastante atenção na sua protegida.
Mas a conversa não rendeu, e a garota, agora uma adolescente, dedicou-se a ler e pesquisar sobre as coisas relacionadas a apaixonar-se. Ela não teria conseguido, ao final do domingo, saber muito, porém não obter soluções imediatas nunca foi um problema para Rube, que estava acostumada a improvisos; só que a questão não permitia muitas improvisações, por mais que fossem criativas e elaboradas. Poderia desenhar e pintar e, com um toque certo, fazer a magia acontecer, entretanto não achava que aquilo fosse o suficiente.
Era estranho, assim como o ato de se apaixonar, ficar perdida em pensamentos confusos, sentir as mãos suarem e tremerem ou o coração bater mais forte ao se lembrar do rosto que a encantava. Queria entender o que sentia, assim como buscou entender tantas coisas que sentira ao longo dos anos; apreciava compreender também as emoções alheias, e fez isso diversas vezes com a mãe — a quem, por timidez, não procurou saber como foi quando se apaixonou pelo homem que seria, anos depois, seu marido e pai de sua filha.
O domingo seguiu assim, com Rube lendo e pesquisando, com pequenas pausas para algumas coisas. Ficou pela biblioteca, e não era incomum, se alguém passasse por ali, encontrá-la suspirando bem baixinho, sob os olhares de tantos personagens que costumavam passear pelas prateleiras quando ela estava por ali. Rapunzel, inclusive, adorava jogar suas tranças douradas para baixo, onde ficava algumas ninfas, para que elas penteassem e enfeitassem parte dos cabelos.
À noite, já deitada, ela conversou um pouco com Sr. Coelho e Cupido, um garotinho que se dizia deus do amor, mas que quase nada falou, distraindo-se com as mariposas no lado de fora do quarto e algumas corujas mais distantes, que ele prontamente disparou suas flechas de ouro. Meio desanimada e ainda mais confusa sobre se apaixonar, Rube adormeceu pensando no rosto de quem a encantou.
Acordou mais leve, como se tivesse encontrando nos sonhos parte das respostas que precisava. Banhou-se cantarolando, vestiu o uniforme escolar, agarrou Cupido, menino travesso que continuava flechando os pássaros que apareciam pela janela, e o pôs de volta no livro de mitologia greco-romana; o café estava quente e mais saboroso, assim como a torrada com uma sutil fatia de queijo.
— Viu o passarinho verde, filha? — comentou a mãe, com um sorriso meigo.
— Ainda não, mãe.
No caminho para a escolha, a bolsa a tiracolo, perdeu-se em pensamentos sobre pequeninos pássaros de penas verdes sobrevoando campos imensos de roseiras, cujas flores, quando desabrochassem, seriam de um tom róseo agradável de se ver. Cantavam melodias incompreensíveis a ouvidos não-apaixonados, pois eram aves mágicas, e o canto, para Rube, tinha apenas um nome, e esse nome fazia seu coração acompanhar a canção.
Estudar de manhã era algo que deixava a garota inspirada, pois acompanhava o nascer de um novo dia, cheio de promessas que talvez não se realizariam, mas ainda assim eram promessas, e essas coisas deveriam ser sempre valorizadas quando oriundas de almas sinceras. Também era divertido olhar todas aquelas expressões quase sempre cansadas e despreparadas para as aulas matutinas de uma segunda-feira, gente que não gostava de acordar cedo e ia dormir muito tarde.
Mas naquele dia, enquanto os pássaros verdes cantavam o nome, a atenção de Rube foi toda para uma figura. Assim como ela, corpo magrelo, que passava despercebido demais, uma vez que pessoas da faixa etária começavam a se desenvolver os sinais do que seriam daqui alguns anos; usava óculos redondos e enormes, mas seus olhos azuis eram visíveis, e era um lindo par de mar calmo, de poesia ainda bruta. E a jovem precisou fazer um esforço acima do normal para não estremecer quando houve a aproximação.
— Bom dia, Rube — disse —, você fez a lição de geografia? Acabei esquecendo e achei muito difícil aquelas questões todas sobre...
Ela não prestou tanta atenção nas palavras. Sequer ouviu quais eram as tais questões difíceis. Apenas os pássaros cantando o nome, os lábios finos e rosados se movendo, o vento ameno balançando os longos cabelos castanhos da colega. O coração batia forte, dando certezas mesmo sem respostas.
Rube havia se descoberto completamente apaixonada, e agora tinha um novo desafio pela frente. Não para aquela segunda; não para aquela semana; talvez demoraria mais do que gostaria que demorasse, mas ela tinha paciência.
Os pássaros verdes, sobre sua cabeça, cantavam apenas um nome.
“Eliana. Eliana. Eliana.”