[Trecho] "Watt", quarto capítulo (incompleto) de "Danação", segundo volume de "Mundos em Conflito"

O watt (símbolo: W) é a unidade de potência do Sistema Internacional de Unidades (SI). É equivalente a um joule por segundo.

A unidade recebeu este nome em homenagem a James Watt, pelas suas contribuições para o desenvolvimento do motor a vapor, e foi adotada pelo segundo congresso da associação britânica para o avanço da ciência em 1882. [Wikipédia]

E aqui chegamos ao final desta pequena jornada.

Nikola Tesla by Greg-Opalinski
Após o desjejum, que foi cheio de conversas e diversão para a maioria, cada um de nós dedicou a liberdade que tínhamos para alguns passeios; alguns foram sozinhos, outros na companhia ou de seus Protetores ou com seus pares. A intenção era explorar o máximo possível do palácio que nos hospedava, cujo proprietário ainda não nos foi apresentado. Vannora e eu fomos na direção do jardim, o qual contei para ela os detalhes fantásticos, omitindo, por bom senso, meu voyeurismo que resultou numa pequena descoberta sobre o passado de Ailith e seus interesses amorosos.
Percorremos os corredores cobertos de heras nas paredes; em alguns deles, as plantas trepadeiras possuíam flores lindas, em tons variados, seguindo um padrão curioso aos meus olhos atentos. Uma flor branca, uma rosa, duas vermelhas, três amarelas, cinco violetas, oito alaranjadas... em fileiras paralelas, alternando cores nas unidades que compunham a sequência de Leonardo de Pisa.
Mas meu encanto pela geometria durou menos do que um suspiro. Havia algo mais impressionante acontecendo.
— Veja, A!
Minha namorada mostrou uma área mais escura do jardim, onde consegui, com certa dificuldade, distinguir um vulto se movendo. Agarrando em sua mão, num gesto automático de proteção, forcei a visão, na tentativa de enxergar melhor aquilo.
Era um homem de altura considerável, talvez mais alto do que eu — e tão magro quanto. Ele ia de um lado a outro, agachando-se algumas vezes, colocando pequenos objetos no chão, parando e os analisando antes de repetir os passos anteriores noutros pontos; estava tão concentrado que não nos notou ou preferiu não nos dar qualquer importância.
— Será um Criativo? — perguntei.
— Acho que sim, mas não me lembro de vê-lo nas reuniões que tivemos.
Fosse o que estivesse fazendo, chegamos quando estava acabando, pois se retirou para as sombras, uma câmara adjacente ao corredor largo em que espalhou os objetos.
— Vamos lá ver? — sugeriu Vannora, puxando-me sem esperar resposta.
Aquele jeito desbravador dela era fantástico! Havíamos sofrido tantas desventuras poucas semanas antes, e ali estava ela querendo descobrir algo e ver se rendia uma aventura simples. Eu a segui; primeiro porque fui arrastado; depois porque estava curioso para saber o que eram aquelas coisas distribuídas no piso alvo do corredor.
— São lâmpadas — falou a Intérprete, abaixando-se para tocar uma.
Mal os dedos roçaram a superfície cristalina, um brilho frágil brotou do interior.
— Ui! — exclamou ela, afastando-se.
— Choque? — indaguei, preocupado.
— Não. Susto — respondeu-me, abrindo um sorriso tão largo que a fez fechar os olhos.
E como era linda aquela ninfa de cabelos dourados!
Todas as lâmpadas foram se acendendo, uma após outra sem seguirem qualquer ordem. E eram coloridas as luzes, avermelhadas, amareladas e azuladas, nove de cada.
— Está sentindo? — perguntou Vannora, enquanto olhava as mãos e esfregava os dedos uns nos outros.
— O quê?
Ela não replicou. Não precisava dizer nada. Eu vi os fios loiros de seus cabelos se erguerem, serpenteando no ar. E senti meus pelos se eriçarem, como se uma corrente elétrica percorresse todo meu corpo.
— Jovens, se não for pedir muito, poderiam passar para o lado de cá ou irem para o lado de lá? — questionou o homem que havia espalhado os lumes ali. — Receio que não sobrevivam a descargas maiores de eletricidade.
Com unanimidade, fomos para a penumbra em que ele estava, ainda maravilhados com aquela apresentação luminosa que se desenrolava. Pude perceber que era uma figura excêntrica na aparência — e muito familiar, como se já o tivesse visto em algum lugar, em algum momento, embora não lembrasse onde ou quando. Cabelo negro e bem penteado, sem um fio fora de ordem, pele pálida e um generoso bigode, não me pareceu ser um “homem do meu século”.
— Ainda bem que os vi antes de potencializar as correntes elétricas — falou, movendo os dedos num gesto estranho, que provocou o aumento da claridade produzida pelas lâmpadas.
Apesar de aparentar mais de quarenta anos, ficou evidente de que era um Criativo que detinha controle sobre suas faculdades de criação.
— O que o senhor está fazendo?
— Desde que cheguei aqui, minha jovem, descobri que posso controlar a eletricidade de meu corpo e canalizá-la em determinados pontos. É fantástico, não? O Sr. Edison ficaria “emputecido”, como vocês desta geração diriam. Eu me tornei um gerador de energia, por assim dizer, e estou testando as possibilidades, já que eles não quiseram trazer meus equipamentos antes daquelas máquinas dos infernos invadirem meu laboratório.
Enquanto falava, seus dedos se moviam, girando e contorcendo, orquestrando as três cores, que piscavam, apagavam e intensificavam o brilho, parecendo obedecer uma canção regida por um hábil maestro.
— Tesla? — deixei escapar.
— Sim, Nikola Tesla. E você é Alec Silva, certo? E ela, Vannora?
Aquilo me espantou.
— Como sabe quem somos, se nunca nos vimos antes? — indagou minha namorada.
— Realmente, nunca nos vimos antes, mas sonhei com ambos. Sonhei com o dia em que eu seria arrebatado por Anjos e levado para um mundo que precisasse mais de mim do que a Terra. Não imaginaria, claro, que seriam tantos mundos, mas fico feliz de que minha ciência possa ajudá-los no que está por vir.
— E o que estar por vir, Sr. Tesla?
— O horror sem proporções imagináveis, Sr. Silva. Um horror que homem algum deveria ter o desprazer de ver e continuar vivo...
As palavras finais foram como um lamento.
— Quando o trouxeram para cá, em que ano estava? — perguntei, querendo mudar de assunto, pois não me parecia um momento oportuno para falarmos sobre o jogo cósmico em que estávamos metidos até os olhos.
— 1919.
— Houve a Primeira Guerra Mundial?
— Primeira?! Haverá outras?
— Só mais uma, talvez a pior de todas.
— Alemanha?
— Sim.
— Algum líder populista?
— Por aí.
— Quando começa a Segunda Guerra?
— 1939, acho. Acaba em 1945. Muita coisa muda.
— E meu raio explorador? Aqueles bastardos resolveram usar?
— Hein?!
— Uma estação emissora de ondas exploratórias de energia que permite determinar com inacreditável precisão onde estão veículos inimigos distantes. O departamento de guerra zombou de meu invento, descartando-o como aquelas abominações do Edison. Miseráveis!
— Ah, o radar! A gente usa em nosso tempo, sabe?
— Eu sabia! — Tesla gritou, num sinal de triunfo.
As lâmpadas estouraram todas de uma vez, assustando-nos. Vannora agarrou meu braço com força, soltando um gritinho comum para o susto.
— Oh, céus! Desculpem! Sempre me esqueço de controlar meus impulsos — disse o cientista, recompondo-se, ajeitando o terno. — E é tão complicado achar lâmpadas neste lugar! Oh, céus!
— Tudo bem — replicou a Intérprete, sorrindo e me largando aos poucos, olhando para o corredor coberto de cacos de vidro quente.
— Sr. Tesla, a gente precisa ir. Acho que o senhor precisa ficar só, certo?
— De fato, meu caro, a solidão me agrada mais do que a companhia de vocês. Não que sejam imbecis como meus colegas acadêmicos, mas é que não conseguiriam aguentar minhas divagações ou acompanhar meu ritmo. Iremos nos ver noutras ocasiões, afinal estou aqui porque foi de seu desejo, Alec.
— Meu desejo?!
— Noutra hora, meu jovem, noutra hora.
Tesla se distanciou, parecendo se envolver noutra questão.
Nosso passeio continuou por muito tempo, e foi agradável ter aquelas horas tão amenas com Vannora; havíamos sobrevivido a tantas coisas e perigos que era mais do que justo aquela pausa antes de tudo recomeçar. Sob árvores de copas abundantes, cujas folhas eram de vários tons de cores, ficamos ora sentados, um oferecendo colo ao outro, ora deitados, nossos lábios se tocando vez ou outra.
— Há tantas coisas sem respostas nesse mun... — divaguei, fazendo uma pausa para me corrigir: — universo.
— Quais coisas, menino?
Ela estava com a voz suave, mantendo os olhos fechados, enquanto eu afagava seus cabelos.
— Não sei explicar. Só sensação estranha desde que chegamos aqui. Como se algo fosse acontecer.

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