[Trecho] "Xantungue", terceiro capítulo de "Danação", segundo volume de "Mundos em Conflito"

Xantungue é o nome pelo qual é comercializada a seda tecida à mão com fios irregulares, apresentando uma superfície desigual e áspera. O tecido era originalmente produzida na província de Shandong (antigamente grafada Xantung), no leste da China. O mesmo nome é dado a tecidos naturais ou sintéticos com características parecidas com as deste tipo de seda, nomeadamente os tecidos macios de seda, algodão ou linho, que tenham entremeados fios mais grossos. [Wikipédia]

Mais um capítulo que explora sobre o plano intermediário e seus personagens.

Veil by kelogsloops
Vannora dormia tranquilamente. Eu, contudo, pensava a respeito do sonho que ela me contou. Um de nós morreria. Era o meu temor também, embora não quisesse dividi-lo com ninguém, nem mesmo com a mulher que amava.
Sentado na beirada da cama, estava confuso demais tanto para ler o sinistro diário do louco quanto para formar quadros mentais da situação. A reunião com Gariel e os demais não foi bem o que eu esperava, e um misto de frustração e empolgação me invadia os pensamentos. Havia coisas nas entrelinhas, no comportamento do trio principal — o Anjo, a Iconoclasta e o Juiz problemático — que me incomodavam severamente. Eles pareciam, ao meu ver, deter mais informações do que aquelas que nos passaram; William as teria dito, se não fosse Sephora detê-lo.
“Ailith a olhou estranho”, pensei. “Por quê?”
Na hora, um lampejo de suposição me veio à mente, mas o afastei por julgar pertencer ao heterônimo, que vinha demonstrando uma capacidade assombrosa de bloquear os pensamentos mais superficiais, dificultando aquela ligação que tivemos durante a Guerra dos Criativos. Contudo, refletindo longe de tantos olhares e pessoas, fazia sentido aquela suposição.
Durante todo aquele dia, enquanto todos nos conhecíamos melhor e processávamos as migalhas de informações adquiridas. Minha cabeça estava distante, pensando no sonho de minha namorada, apesar de ela me passar poucos detalhes, como se aquilo fosse um tabu; respeitei seu espaço, mas não me agradava a aura de mistério acerca de algo que julguei tão crucial.
Vannora conversou com Kale, que também era uma Intérprete, ambas falando inicialmente sobre Minas Gerais, estado de origem da jovem que estava sempre sorrindo e era protegida por um homem calado e de aspecto sereno, sempre num canto, com uma flauta emitindo um som suave e baixíssimo. Depois, como era de se esperar, dividiram as experiências mais esotéricas e místicas, relatando sobre eventos sobrenaturais, os quais ouvi mais atentamente.
A conversa rendeu mais do que o esperado, e logo outros Criativos se juntaram, relatando pequenos acontecimentos “Antes da Colisão”, como alguém denominou o tempo, dividindo-o em “Antes da Colisão”, “Durante a Colisão” e “Depois da Colisão”. Eram coisas estranhas, mas que, vistas sob um olhar qualquer, desprovido do conhecimento que muitos começavam a carregar, não passavam de crendices idiotas.
Foi bom aquela roda de conversa imensa que se formou. Primeiro, porque quebrou o que restava de resistência entre nós, facilitando as interações e a construção do que eu poderia classificar como amizade ou companheirismo. Segundo, por mais que minha amada preferisse não se prolongar em falar, aquele momento descontraído a fazia bem, afastando qualquer chance de pensamento ruim. E terceiro, que era o mais importante para mim, permitia que minha mente confusa compreendesse a presença de cada um ali.
— Alguém mais achou aquele papo do Anjo meio enrolado? — perguntou Leonel, depois de olhar para os lados.
Estávamos apenas nós, os Criativos. Não todos, talvez, mas éramos numerosos e ocupávamos cadeiras, bancos e nos amontoávamos num lado apenas da mesa retangular, como aquelas turmas colegiais que vemos nos filmes estrangeiros. Claro que não debatíamos futilidades ou perdíamos tempo com besteiras, e sim confabulávamos acerca de nossa situação.
— Também achei — respondeu o Professor, com seriedade. — Tudo bem que eles nos contou uma mistura de lendas, mas algo ali está incompleto.
— Mistura de lendas?! — estranhou Cíntia.
— Sim. O Velho Tempo me lembra uma divindade do zervanismo, uma tradição indo-iraniana que relatava um deus supremo que teve dois filhos, um de trevas e outro de luz.
Recordei-me das palavras de Ailith quando a questionei sobre uma religião se basear em outra, ter um vislumbre de algo além da compreensão. Se o zervanismo, em nosso mundo, falava de Velho Tempo, era porque o legado de sua desgraça havia nos atingido direta ou indiretamente. “A religião é uma arte de interpretação das coisas que a mente conhece, mas não consegue entender acordada. É uma forma de dar forma ao que é disforme, uma limitação interpretativa que os povos ditos racionais impuseram sobre suas vidas, esquecendo-se da essência dos que os criaram” foi o que ela me respondeu. Fazia sentido.
— Desconfio que há algo relacionado ao Alec — sugeriu Elric, mexendo naquela pedra. — E duas pessoas, William e Sephora, sabem muito bem no que estamos metidos. Gariel nos esconde informações por receio de discordarmos ou algo assim, mas aqueles dois... Bom ficar de olho, viu?
— E você? Também não nos esconde algum segredo? — provoquei, com um riso cínico, algo que fez Alastair gargalhar em meus pensamentos.
— Certamente, assim como cada um de nós. E saberemos da maioria, conforme as coisas forem se complicando. Por ora, nossas preocupações são continuar aprimorando os usos dos cristais, pois já que fomos classificados por nossas habilidades, creio eu, é nosso dever as desenvolvermos à exaustão para que nossas vidas valham as que se perderam e, quando morrermos, que nossas mortes sejam por uma boa causa.
— Então — começou Cassandra, que não fazia parte do grupo de Protetores, assim como o irmão, apesar de terem ajudado Cíntia e Aquiles a escaparem dos Perseguidores —, fomos salvos para morrermos mais à frente?
— Algum problema em adiar a morte? — cutucou meu heterônimo, inclinando o corpo para a frente, apoiando o cotovelo esquerdo na mesa.
Arfei.
Ele havia usado o fato de tanto ela quanto Neville serem imortais gerados por meio de avanços científicos para caçar confusão. Contudo, antes que a garota pudesse reagir, a voz de Phyreon ecoou pelo salão amplo e ocupado apenas por nós.
Tomar no rabo! — gritava ele, enrolado em panos encharcados de sangue, mancando devido ao ferimento na perna. — Ninguém mais mexe em mim! Pode ser a Anjo mais gostosa ou peituda, mas me recuso a encarar outra sessão de terapia com corpos com najas se esfregando em mim!
Dois Anjos, ambos altos e de pele marcada por símbolos rúnicos luminosos, vinham logo atrás. Apenas uma túnica branca lhes cobriam os seios e virilhas, enquanto demais partes de seus corpos delicados e aparentemente femininos estavam nus, revelando uma perfeição inexistente no plano físico. As asas coloridas, com predominância dos tons azulados, esverdeados e avermelhados, estavam rentes às costas, mas com as penas eriçadas.
— O que foi, velho?! — berrou Kari, levantando-se e indo ao encontro de seu amigo e Protetor.
— Essas coisas... esses Anjos! — vociferou Phyreon, e tive a nítida impressão de ouvir sons estáticos em cada sílaba pronunciada. — Elas são eles!
Quase todos gargalharam, o que fez o Lorde liberar uma descarga elétrica que atingiu o centro do local, assustando-nos.
— Como você sabe? — indagou a Estrategista mineira, visivelmente se deliciando com a situação embaraçosa em que o companheiro de jornada havia se metido. — Por acaso você tentou alguma gracinha com elas... eles... os Anjos?
— Não! Nunca! Jamais! Eles... eles que tentaram abusar de mim num momento de fraqueza!
Apesar do susto que tomamos, era muito divertido as caretas que aquele homem, que transitava entre a juventude e a velhice, num estranho paradoxo, fazia a cada tentativa de se explicar.
— Não foi nossa intenção abusarmos de você, senhor — defenderam-se os dois Anjos, que deviam ser gêmeos de tão parecidos que eram. — Apenas estávamos limpando sua artemagia carregada, permitindo que o senhor não mais dependesse de nós para se curar.
— E precisava me despir todo e esfregar essas...? Pelos deuses!
— A artemagia circula pelos seres criados de diversas maneiras. Você, senhor, canaliza uma grande quantidade na testa, no peito e na virilha, regiões delicadas, pois a mente se abre aos mundos metafísico e intermediário, o coração aos mundos dos sentidos e das coisas abstratas e os órgãos genitais aos mundos dos prazeres e das coisas físicas. Queremos apenas equilibrar esses três pontos, pois são eles que o impedem de se curar sozinho, afinal detém em si grande quantidade de artemagia.
— E para que se esfregarem em mim?!
— O contato é uma forma de trocar energias — responderam os dois Anjos, com simplicidade. — Ou o senhor acha que o sexo é apenas para divertimento?
Phyreon fez uma expressão que nos fez gargalhar ainda mais alto. Ele cerrou os punhos, liberando mais energia estática.
— Deixe-os fazer o que tem que ser feito, oras! — zangou-se Kari, ficando cara a cara com o Lorde de cabelos longos e alvos. — Estou cansada de tratar esses seus ferimentos que nunca saram! Acha que é barato os curativos e tudo mais? Você acha que é fácil explicar para minha mãe de onde vem tanto sangue?
— Mas, Kari, eles têm...
— Quero nem saber! Volte agora para lá e só volte aqui curado! Ou conto pra todo mundo aquela vez que você agarrou...
— Chega! Entendi!
As risadas estavam estrondosamente altas e ficavam ainda mais no desenrolar daquele inusitado episódio.
— Se um de vocês tentarem alguma gracinha — advertiu Phyreon, apontando cada um deles com gravidade, os olhos cinzentos faiscando —, vão perder mais do que essas asas cheias de frescuras. Entenderam?
— Perfeitamente, senhor.
O trio se retirou, deixando-nos rindo um bom tempo ainda.
— Vocês prestaram atenção à palavra que eles usaram para designar a energia criativa? — perguntei Elric, voltando a ficar sério.
— “Artelagia”, ? — replicou Samekh, enquanto acariciava o pequeno dragão que continuava adormecido em seu colo, apesar do barulho que fizemos.
— Artemagia, “sábia habilidade”, numa tradução literal — corrigiu o Professor.
— Sim, por aí mesmo.
— E aqueles pontos que eles mencionaram, são os chacras, não? — acrescentou Kale, demonstrando acompanhar o raciocínio daquele Mentalista tão enigmático.
— Sim, exato. São sete chacras principais — respondeu Elric. — Chacra-base, na área pélvica; umbilical, no baixo-ventre; plexo solar, na região do baço e pâncreas; cardíaco, na caixa torácica; laríngeo, no pescoço; frontal, na testa; e coronário, acima da cabeça.
— É, temos que organizar essas informações ou nunca vamos compreender o jogo de xadrez em que nos metemos — observou Leonel, coçando os dedos.
— Tem razão, mas acho que hoje não é um bom dia para isso. Estamos todos ainda cansados e a reunião não foi lá grandes coisas. Acho que devemos descansar o máximo que pudermos e pouparmos energias para os treinamentos com os cristais. Se aperfeiçoarmos o uso criativo, poderemos ter meios de buscar resposta e até derrotar o exército que nos tirou tudo aquilo que amamos.
As últimas palavras do Mentalista nos atingiram com profundidade.
Aos poucos, fomos nos dissipando. Observei um a um, associando os nomes aos rostos, decorando os grupos que cada um se encontrava. Com o decorrer dos dias, pretendia conhecê-los melhor, saber mais sobre suas motivações, os medos que carregavam, coisas que os impulsionavam a se manterem de pé, mesmo após perderem tanto.
Vannora e eu permanecemos ali, em silêncio. Ela se deitou no banco largo, pondo a cabeça sobre minhas coxas, e ficamos nos olhando; eu acariciando seus cabelos loiros, ela expressando um turbilhão de emoções naqueles olhos castanhos. Em alguns momentos, notei que seus lábios se moviam, como se fossem deixar escapar alguma frase ou pedido, mas logo paravam e os olhos se desviavam dos meus. Quando não pôde mais me fitar, a Intérprete se ajeitou de maneira a ficar contemplando a parede decorada até adormecer. Como não queria acordá-la, apenas fiquei ali, esperando.
“Vocês dois foram induzidos a se aproximarem.”
Aquela afirmação de Ailith me assombrava ainda. Toda vez que olhava aquele belo rosto, beijava aquela boca ou abraçava aquele corpo mais me atormentava saber que os Lordes haviam brincado com nossos sentimentos. Se o amor que eu sentia por ela fosse uma sugestão hipnótica, o que mais seria mentira e ilusão? Minhas lembranças sobre a Guerra dos Criativos seriam frutos de hipnose também? E quem garantiria que eles não poderiam me obrigar inconscientemente a ser um guerreiro, um salvador, o Lorde Negro?
— Eu a amo, V — sussurrei, enquanto algumas lágrimas escorriam por meu rosto. — E não deixarei que nada aconteça a você ou nos separe.
Fechei os olhos, arfando.
Quando Vannora despertou, deveria ser final de tarde.
Fomos para nosso quarto e um jantar nos foi entregue na porta por uma jovem simpática e de pouquíssimas palavras. Agradeci, levando as bandejas para dentro, pois o tabu impedia que qualquer um adentrasse um aposento como aquele enquanto os hóspedes estivessem presentes.
A refeição foi tranquila. Tanto minha amada quanto eu economizamos na conversa. Ao terminarmos, como nos foi instruído por quem nos trouxe o jantar, deixamos tudo no lado de fora.
Deitamo-nos pouco depois, porém somente ela conseguiu dormir.
E ali estava eu, em plena madrugada, pensando em tantas questões confusas. Olhando para a porta, veio uma vontade de perambular pelos corredores, deixar a intuição me guiar um pouco. Faria bem para mim, para minha mente prestes a explodir.
Andei bastante, sem rumo, percorrendo alguns salões além daquele que estive horas antes, encontrando alguns Anjos concentrados em orações ali e aqui, curvando-se a cinco símbolos distintos: espirais, cruzes, quadrados, labirintos e círculos, predominando as cores vermelha, azul, violeta, dourada e preta em seus contornos. Um ou outro me olhou e fez o que pareceu uma reverência bem simples, mas logo retornando à atividade sagrada.
Descobri uma enorme biblioteca, todavia estava trancada pela porta de vidro, que possuía curiosos desenhos em alto-relevo, os quais dediquei alguns minutos passando os dedos, descobrindo que representavam criaturas disformes, cheias de braços, pernas, cabeças e aspectos repugnantes. Lembrei de Amaury, o lovecraftiano que conheci na Guerra dos Criativos; certamente ele apreciaria aquelas aberrações gravadas no material transparente.
— São pesadelos — disse uma moça que passava pelo corredor.
Virei-me para observá-la, mas logo ela desapareceu numa porta estreita, impossibilitando que eu visse seu rosto ou lhe perguntasse qualquer coisa. Deduzi que fosse uma dos Transcendentes citados pelo líder dos Anjos.
“Pesadelos”, pensei, voltando a encarar a porta e o que estava além dela. “Sonhos.”
Aquele era um mundo acessível normalmente por sonhos. E estávamos todos ali em presença física. Um lugar transcendental.
Continuando meu passeio, encontrei alguns Protetores numa pequena sala. Dracco, William e Dorian bebiam, os três em silêncio, num canto mais reservado; e aquele homem robusto e de barba negra comprida estava noutro extremo, saboreando alguns pães e bebendo a mesma coisa que os outros. De cabelos longos e com tranças em algumas partes, vestes de pele de urso, provavelmente, ele possuía uma aparência bárbara, típica de um guerreiro destemido.
— Aceita, garoto? — perguntou-me, erguendo a caneca, assim que me viu.
— Não, não bebo. Obrigado.
— Sou Nord, das Terras Glaciais do Oriente. Ou eram glaciais, antes de todo aquele gelo derreter quando os dragões despertaram.
— É um Protetor?
— Sim, mas meu protegido foi destroçado por uns lobos maiores do que um touro. Escapei por milagre, mas não sem antes ter minhas tripas postas para fora por dentes enormes. Cheguei aqui quase morto, mas os Anjos me salvaram.
Ele falava com naturalidade de alguém acostumado a lidar com a morte, sobretudo as que causava.
— Bem — disse eu, olhando para o corredor —, preciso voltar.
— Vá lá, garoto! Não deixe sua garota esperando! Mulheres odeiam esperar.
Sorri de leve, afastando-me.
Aquela morada era quase labiríntica, mas eu conseguia me localizar gravando pontos específicos, que me ajudariam a regressar ao meu aposento. Desde que cheguei no plano intermediário, minuto a minuto, meus sentidos iam se aguçando, sobretudo a memória. Constatei isso enquanto recordava, detalhe a detalhe, da longa jornada pelo Brasil até Akakor; e de Akakor até aquele mundo. Tudo estava em ordem cronológica, com todos os detalhes.
“A lembrança de um Criativo é o primeiro passo para a imortalidade.”
Alcancei naquela andança sem rumo um imenso jardim. Dividido em câmaras, corredores e espirais, com plantas de tantas variedades e cores... arbustos, árvores frutíferas, ervas penduradas no teto altíssimo, cobrindo paredes e parte do piso... Eu precisava mostrar para Vannora pela manhã.
Eu estava saindo por outro canto quando algo me chamou a atenção.
As duas estavam numa parte mais afastada do jardim, a qual descobri por mero acaso; eu teria passado por ali sem notá-las, mas ouvi uma voz conhecida falando algo inteligível. A câmara era pequena, dividida por paredes feitas de madeira e cobertas por plantas ornamentais, que se espalhavam como tentáculos espinhosos; as poucas flores que havia era de uma beleza impressionante, tão alvas que qualquer toque meu poderia sujá-las.
Andei com cautela, embora desconhecesse o motivo daquilo. Prendi a respiração, tentando ouvir com clareza quem conversava, mas cada vez mais o tom diminuía, sendo reduzido a um longo suspiro, como se algo ou alguém o provocasse.
“Ailith?!”
Foi um pensamento fugaz, estranho e poderoso. Aquela voz que ouvi era de minha Protetora!
Quando tive uma visão do que acontecia, parei. E a respiração foi suspensa por segundos, enquanto minha mente processava aquela informação surpreendente. O coração disparou muito, muito rápido; os sentidos ficaram num dilema que teria denunciado minha presença ali, o que causaria confusão e, provavelmente, algum problema.
Escondi-me atrás da parede, descuidando-me quanto aos espinhos, que perfuraram de leve minhas costas. Controlei como pude o ar que entrava e saía dos pulmões, tentando raciocinar.
Ailith não estava sozinha: Sephora estava ali.
E as duas estavam muito próximas, com os lábios se tocando!
Testemunhei a cena em poucos segundos, mas foi nítida o bastante para recordar, enquanto me acalmava. A Juíza estava encostada na parede, que naquela parte da câmara em que elas estavam era lisa, com as mãos para trás, como se quisesse escapar; a ruiva, por sua vez, segurava-a pela cintura com um braço e acariciava o rosto delicado da loira com a mão livre. E se beijaram.
No tempo que encarei aquela questão moral, que deve ter durado meio minuto, as duas se locomoveram pelo espaço, indo até um ponto em que uma pequena varanda deveria oferecer uma vista linda. Através de uma fresta entre os ramos espinhentos, observei-as.
Ailith contemplava a vista, os cabelos dourados esvoaçantes, assim como parte do vestido de um tecido que julguei ser seda; ela mantinha os braços sobre o peito, parecendo sentir frio. Eu havia visto aquele gesto durante nossa odisseia rumo a Akakor, e ele expressava muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo.
Sephora, que também usava aquele tipo de vestido, num tom mais forte do que o da Protetora, aproximou-se por trás, abraçando-a sem muita pressão, contudo o suficiente para que seus seios roçassem nas costas dela. Foi visível para mim o arrepio que aquilo causou.
Elas dialogaram por algum tempo. A filha de Zarak estava hesitante, resistindo como podia às investidas da Iconoclasta, porém não convenceu muito a outra, que, afastando os cabelos que cobriam a nuca, beijou o pescoço da Juíza, fazendo-a ofegar entre lábios.
Talvez empolgada com o sucesso daquela nova abordagem, a ruiva ousou mais ainda: movendo uma das mãos que agarrava a cintura delineada de Ailith, desceu-a por toda a extensão da coxa esquerda, tocando a borda, que ia subindo conforme os dedos a puxavam para cima, revelando aquela pele clara. As unhas fizeram trilhas róseas suaves, subindo e subindo...
Desviei o olhar, pensando no que estava ainda fazendo naquele lugar, agindo como um voyeur. Menos de onze metros, talvez, separava-nos; era uma loucura espiar a intimidade de duas guerreiras capazes de me matar com um movimento apenas. Fechei os olhos, pronto para sair.
— Ainda pensando nele? — perguntou Sephora, num tom baixo, mas que pude ouvir melhor do que a conversa anterior.
— Eu... você... você fica me confundindo com esses jogos...
Foi instintivo: virei-me para tornar a observá-las.
Elas estavam frente a frente. E transbordavam uma sensualidade inacreditável, uma aura de desejo latente e reprimindo, duas partes opostas que, naquele instante, poderiam se completar.
Durante a reunião, eu havia notado como as duas se olharam; achei estranho, e agora entendia o motivo. Quando Ailith me beijou, ela não estava impulsionada a qualquer complexo freudiano por mim; na verdade, estava afastando o que era óbvio demais, renegando seus sentimentos, pois era Sephora que ela amava. Será que havia algum tabu naquele plano metafísico que proibia duas mulheres de se relacionarem?
— Não a confundo, Lith — replicou a ruiva, que deve ter sorriso, mas era impossível eu ver estando ela de costas. — Você quem está se confundindo, buscando em Alex aquilo que eu posso lhe dar.
A Protetora fechou os olhos e abriu suavemente os lábios quando os dedos da Iconoclasta alisaram o rosto, passando pelo queixo até o busto, passeando por cima do vestido, delineando um de seus seios.
— E William? — perguntou a garota loira, arfante.
— Ele está envolvido em sua vingança contra o Lorde, assim como Gariel anseia pelo equilíbrio dos mundos que estão em rota de colisão. Além do mais, ambos são uma parte de um passado distante, assim como minha vida antes de conhecê-la.
— E minha mãe?
Sephora parou as carícias e se afastou, voltando-se para minha direção. Vi seu rosto sereno ser rapidamente abalado, como se aquela pergunta carregasse uma culpa a qual ela era incapaz de suportar. Foi um lampejo de expressão, pois logo ela reassumiu a postura de autoridade e dominação característica e encarou a jovem que tentava seduzir.
— Não há um dia sequer que não me puno por tê-la deixado morrer — respondeu. — E não há um momento sequer que não lembre que eu falhei em protegê-la. Seu pai e seu avô fizeram o que podiam naquele dia, mas minha presença teria feito a diferença. Contudo, o que foi feito não pode ser desfeito. É como proferir palavras ofensivas e esperar que a pessoa a quem foram direcionadas não se ofenda. Somos todos culpados por nossas escolhas, e mudar nossa culpa é renegar aquilo que nos torna únicos perante a imensidão da Criação. O que me resta é cuidar de você, deter o assassino de sua família e impedir que os universos sejam tragados por uma força que não deveria ser manipulada por um ser humano. Devo isso para sua mãe, que morreu para proteger a filha que tanto amava. Devo isso para seu pai, que optou morrer do que viver e cuidar da filha. E devo isso para cada um que morreu e morrerá até que o Lorde Branco seja expurgado para sempre e reste apenas o Corruptor como peso oposto na balança.
Ailith estava emocionada e não fazia esforço algum para disfarçar.
— Eu a amo, Lith. E amar é arriscado, é um modo de vida muito perigoso, afinal ou você machuca alguém ou alguém machuca você. Mas é tão inevitável quando pensar ou viver. É o que nos aproxima dos físicos, daqueles que agora lutam pelo direito de existir, assim como lutamos pelo nosso.
E então teve o abraço. Foi sem qualquer tom erótico, sem qualquer segunda intenção. Apenas e unicamente um abraço apertado. A Juíza se jogou nos braços de Sephora e chorou copiosamente, apertando-a nas costas, amarrotando a seda; as lágrimas caíam sem pudor. A Iconoclasta afagou os cabelos da amada, consolando-a, sussurrando palavras que, embora eu não as ouvisse, sabia que eram de acalento.
Retirei-me dali com cuidado, tremendo um pouco. Andei até uma câmara distante, sentei-me no chão e chorei em silêncio, com o peito doendo terrivelmente. A dor foi tanta que parecia sufocar, queimar meus órgãos vitais, destruir meus sentidos... uma tortura que não fiz questão de parar. Deixei que durasse o tempo que precisasse.
Quando passou, levantei-me e fui para o quarto.
Vannora dormia como um anjo, indiferente, por ora, à sombra que se aproximava para selar nossos destinos naquele jogo de xadrez cósmico no qual servíamos de peças.

0 comentários:

Postar um comentário