[Trecho] "Yantra", segundo capítulo de "Danação", segundo volume de "Mundos em Conflito"

Yantra significa assomar, instrumento ou máquina. Na atualidade, um yantra é uma representação simbólica do aspecto de uma divindade, normalmente Durga. Ele é uma matriz interconectada de figuras geométricas, círculos, triângulos e padrões florais que formam um padrão fractal de elegância e beleza. Embora desenhado em duas dimensões, um yantra deve representar um objeto sagrado tridimensional. Os yantras tridimensionais estão se tornando incrivelmente comuns. Embora o yantra seja uma ferramenta usada na meditação por ambos sérios pesquisadores espirituais e escultores da tradição clássica, sua shakti é também disponível para pesquisadores iniciantes com sincera devoção e boas intenções.

Servindo como a representação matricial das manifestações, acredita-se que os yantras místicos revelam a base interna das formas do universo. A função dos Yantras é ser símbolo de revelação das verdades cósmicas. [Wikipédia]

Assim como no capítulo anterior, o título do capítulo faz referência a conceitos apresentados neste.

Sri Yantra Healing Mandala by Lilyas
— Deus teve um sonho — começou Gariel, naquela primeira manhã.
Bocejei, assim como a maioria. Ninguém estava recuperado para uma reunião com tantos envolvidos, mas o líder dos Anjos parecia impaciente o bastante para ignorar nossa necessidade de descansar.
— Foi o universo original, o primeiro, aquele que muitos de vocês devem conhecer como Éden ou Paraíso. Ninguém, nem mesmo os Anjos ou qualquer entidade acima de nós, sabe onde fica nem como acessar, pois faz parte de uma natureza que nos foge à compreensão. Pertence, portanto, à existência parafísica...
— “Superior à natureza”.
O sussurro do Professor me fez fitá-lo rapidamente. Ele estava concentrado demais nas explicações do interlocutor e nem percebeu meu breve interesse em seu comentário.
—... um plano que muitos creem ser semelhante ao nosso pela singularidade que é — continuou o Anjo, enquanto seus olhos percorriam o vasto salão cheio de Criativos e Protetores, alguns dos quais eu ainda não conhecia. — Independente disso, o universo primordial permanece escondido de tudo e de todos, como algo único e perfeito, diferente do que veio a seguir, quando Deus criou entidades poderosíssimas e as dotou de imenso conhecimento sobre Seu sonho. Eram os Ascendentes, sendo Lorde dos Lordes, nosso criador, o maior entre eles.
“A tarefa de cada um dos Ascendentes era multiplicar aquele universo surgido de um sonho. E por eras inimagináveis foi o que todos fizeram, gerando complexos conjuntos que se interligavam de maneira assombrosa. Surgiram mundos ricos em vida, seja animal ou vegetal, com criaturas interpretadas segundo a visão de cada uma das entidades mensageiras. Réplicas sem fim, com o propósito de preencher o vazio negro do Universo.
“Sistemas solares, galáxias, universos... e um dia, questionando seu papel naquela tarefa monótona, Lorde dos Lordes parou. Ele olhou suas criações, cópias sem identidade, semelhantes a todas as outras. Cada macroverso criado era composto de dezenas, centenas ou milhares de universos, que muitas vezes abrigaram microversos tão minúsculos quanto um grão de areia em algum mundo. E ele viu que estava se limitando, não usufruindo de todo o poder dado por Deus.
“E assim surgiu nosso mundo, aquele que alguns de vocês, por intermédio de Alec, conhecem como Mundo das Ideias...”
Quando ele pronunciou meu pseudônimo, senti quase todos os olhares direcionados para mim. Como instinto, apertei a mão de Vannora, que segurava a minha embaixo da mesa. Respirei fundo e mantive minha atenção em Gariel, que ainda estava em pé, tendo dois seguidores em cada lado, todos sentados e sérios.
— Em nenhum outro canto ou recanto do Universo existe um mundo como o nosso, um lugar que só é acessível por criaturas físicas dotadas de imaginação e poder criativo grandes o bastante para ir além deste mundo em que nos encontramos. E ali Lorde dos Lordes testou criações inéditas, povoando cada aspecto de um planeta. Ao se dar por satisfeito, replicou tudo aquilo no novo macroverso, interligando-o exclusivamente ao ponto de origem, para que o físico e o metafísico, os universos paralelos e o nosso mundo estivessem sempre lado a lado, separados apenas por uma energia peculiar, os Véus.
“Não pretendo entrar em detalhes sobre o funcionamento de tudo, e sim que saibam sobre as origens do que enfrentamos. Portanto, em determinado momento, sentindo-se solitário, Lorde dos Lordes cometeu seu primeiro e único erro: gerou seis pares de filhos, dividindo pela metade seu poder e distribuindo igualmente uma metade entre os doze, para que cada um deles não se achasse superior ao outro. De um Ascendente surgiram os Descendentes.
“O pai continuou se dedicando apaixonadamente na ampliação de suas criações autorais, conhecendo entidades que não eram de sua natureza, como o Velho Tempo, que recebeu um pouco de poder criativo e fez surgir o Limbo, um mundo que pertence a este plano em que nos encontramos, o intermediário, a fronteira entre o físico e o metafísico, e dois filhos, Branco e Negro. E os filhos, que deveriam zelar pelas obras paternas, iniciaram facções gananciosas por mais e mais poder, desejosos por futilidades.
“Os doze foram se matando por eras incontáveis. Nenhum Anjo ou qualquer criatura interferiu naquela guerra, mas sabíamos que não tardaria para que fôssemos ou atingidos ou completamente envolvidos, afinal o palco era onde morávamos. E nos envolvemos quando apenas um Descendente restou e ele se voltou contra o pai. Éramos, contudo, fracos, apesar de numerosos e bem-intencionados; e nosso inimigo recebeu uma ajuda externa: Branco, o filho de Velho Tempo.
“Lorde dos Lordes não pôde atuar nas batalhas, pois, se ele viesse a morrer sob a mão do filho, todo seu poder passaria para o assassino e milhares de macroversos entrariam em colapso, os demais Ascendentes seriam igualmente perseguidos e exterminados e... bem... o que impediria de alcançar Deus?”
Houve um pequeno alvoroço entre alguns Criativos diante da pergunta. Olhei para onde vinham aquelas exclamações e expressões de espanto, constatando que havia cristãos no grupo.
“Cada vez fica melhor!”
O pensamento de Alastair veio repentinamente, e o vi sentado de qualquer jeito na cadeira, como se aquilo tudo o entediasse. Ele me olhou e piscou, sem emitir mais qualquer pensamento, demonstrando que controlava nossa ligação psíquica e eu só saberia o que fosse permitido.
— Sem poder se envolver diretamente, Lorde dos Lordes buscou ajuda nos mundos criados, recrutando criaturas com forte poder criativo para resistir e combater de igual o filho, que já era conhecido como Corruptor, aquele que converteu algo ordeiro em caótico. Negro, por sua vez, envergonhado pela atitude ambiciosa do irmão, uniu-se à nossa causa. Não éramos mais apenas habitantes de um mundo metafísico enfrentando um oponente poderoso; éramos agora um exército vindo de muitos mundos garantindo que o amanhã fosse preservado.
“Branco e Negro morreram ao mesmo tempo, instantes antes de destruirmos o corpo de Corruptor, realizando um ataque que custou milhares de vidas e me deu esta cicatriz no olho direito. Mas logo nos deparamos com um grande problema: aquela energia acumulada pelo filho ingrato não poderia retornar ao dono ou ao progenitor nem tampouco deveria circular livremente pelo macroverso, afinal um dia se uniria e traria de volta quem havíamos acabado de matar.
“A solução foi extrema, mas a única que nos pareceu justa naquele momento: milhares de Anjos, incluindo um filho meu, ofereceram-se para portar em seus interiores um pequenino fragmento daquela força corrompida, transmutando-se em novas entidades, seres que não poderiam mais conviver conosco por causa da natureza ambígua que adquiriram. E foi criado este mundo intermediário, uma ponte entre o plano físico e o metafísico, onde viveriam por eras infindáveis.
“Mas nem todos habitam este lugar, e alguns deles estiveram ou ainda estão em mundos, sendo deuses e demônios, profetas e salvadores. Por ainda possuírem origem angelical, quase todos são de boa índole e...”
— Não é bem assim, Gariel — interrompeu uma voz feminina, que carregava uma mistura poderosa de serenidade e autoridade, capaz de me provocar uma estranha sensação de dèja vú. — E não creio que devesse mentir ou omitir tantos fatos para aqueles que irão nos ajudar a corrigir nossos erros do passado.
Não apenas eu, mas cada um dos ali presentes, Criativos, Juízes e Protetores, procuraram por alguns segundos a senhora daquelas palavras que calaram o líder dos Anjos. Quando os olhares foram se fixando numa figura ruiva, soube que era ela, a Iconoclasta que Ailith me contou existir, a mesma que eu conheci durante a Última Guerra dos Criativos, embora não sob o nome de Esfinge.
Os cabelos eram curtos, pouco acima dos ombros, num corte irregular que deixava algumas pontas maiores do que as outras; uma franja cobria a testa e dava um ar enigmático aos olhos que, de longe, emitiam um brilho violeta severo. O tom vermelho dos fios era muito vivo, numa coloração que lembrava uma cereja bem madura. A pele era alva, tão branca que parecia porcelana, e sem qualquer manchinha ou marca visível, e o contraste com o rubro-cereja das madeixas era perfeito e harmônico demais para não ter sido notado antes por qualquer um de nós. E era muito, muito linda! Os traços faciais eram femininos, mas portavam uma aura masculina, o que não faria o menor sentido no nosso mundo, mas ali, naquele lugar, era a androginia comum aos Anjos, apesar de algo me dizer que ela não era um.
Naquela ocasião, usava uma armadura leve em tons cinzentos, com símbolos estranhos sobre os ombros e toda a extensão dos braços. Em momento algum em que estivemos ali, pareceu-me que aquele metal a incomodasse ou pesasse — talvez ela já fosse acostumada com aquele peso.
 — Sephora — falou Gariel —, sempre querendo ultrapassar a minha autoridade.
— Apenas quando o assunto é de meu interesse. Ou se esqueceu do que enfrentei quando alguns dos seus tentaram mexer com algo que não lhes cabe qualquer direito, nem mesmo a você, que é...?
— Entendi, entendi!
— Então, não omita o fato de que alguns Transcendentes tenham se rebelado e tentado algum golpe ou ataque ao que deveriam defender! Nem negue que um deles tenha ensinado sobre Branco e Negro a um humano! E respeite acima de tudo os que aqui estão dispostos a corrigir nossos erros!
Observei o rosto do líder dos Anjos se contorcer um pouco, mas foi um lampejo fugaz demais para que mais alguém notasse; com exceção de mim, que estava mais interessado em entender cada camada da confusão em que estava metido, as atenções estavam sobre aquela mulher que conseguia calar e desafiar Gariel, fazendo-o rever seu jeito enigmático de falar.
— Houve Transcendentes, os Anjos com fragmentos de poder do Corruptor, que se revelaram perigosos. Muitos deles foram lançados num mundo avulso, que não foi criado por nenhum Ascendente, o Limbo, e de lá jamais deveriam retornar. Por isso este mundo foi criado, para que as coisas ficassem restritas aqui, mas tantos anos de liberdade forjaram ligações com o plano físico. Os sonhos que os humanos e outras diversas criaturas físicas têm surgiram aqui, por exemplo.
— Estamos num mundo de sonhos? — perguntou Vannora.
— Sim, é para cá que muitos vêm quando adormecem — confirmou o Anjo. — Mas não pretendo explicar sobre isso, afinal temos prioridades no momento.
Olhei para minha namorada, ciente de que deveria investigar o que a perturbava desde a chegada ali.
— Pois bem, Criativos, Juízes e Protetores — continuou ele, voltando para aquela postura antes de ser repreendido por Sephora —, Lorde dos Lordes partiu para algum lugar, sem promessas de retornar ou de nos zelar, mas deixou nosso mundo sob os cuidados não apenas dos Anjos, mas de Juízes e seres criativos que deveriam governar. Não apenas humanos, mas qualquer criatura física capaz de criar com a força da imaginação ou que fosse dotada de enorme poder. Os Lordes, aqueles que muitos de vocês defenderam anos atrás, na Última Guerra.
— Qual o critério exato para saber se alguém pode ou não ser um Lorde, já que são, praticamente, gente como qualquer um de nós, e não deuses? — perguntou Elric, quase no final da outra extremidade da mesa, enquanto segurava uma pedrinha incolor na mão esquerda. — Baseiam-se em quociente de inteligência? Ou inteligência emocional? Algum distúrbio mental? Quais as características que tornam alguém capacitado para liderar todo um mundo estrangeiro e ser aceito como uma divindade, se os relatos de Alex estiverem certos?
— O plano físico é movido por aparências, por uma superficialidade que oculta o que importa: a essência das coisas. Quem olha um mendigo dormindo numa calçada, não o imagina como uma criança feliz ou que teve uma família, mas a viu ser brutalmente assassinada e enlouqueceu. A loucura, muitas vezes, é uma forma sadia de esquecer uma dor. E qual é o melhor recipiente para ocultar tanto poder criativo em mundos de formas concretas?
— Num corpo debilitado, creio eu.
— Sim, Elric. Ou numa mente que fuja da normalidade, que esteja aparentemente aquém daquilo que as sociedades julgam ser normal.
— Savants?
Gariel assentiu.
“O que diabo é isso?”, perguntou Alastair.
Era a dúvida da maioria ali. Eu já tinha ouvido ou lido a respeito, mas não me recordava claramente do conceito naquele momento.
— Interessante — falou Elric, esboçando um sorriso breve. — Isso explica a preferência em resgatá-los antes de tudo, afinal, em nosso mundo são fracos demais para se protegerem, mas... uma vez em Akakor... vocês pensaram em tudo mesmo, hein?
— E o que são esses savants que vocês estão falando? — perguntou um homem alto e robusto, cuja barba negra descia até metade do peito.
— J. Langdon Down diagnosticou uma condição muito rara em que pessoas com deficiências mentais sérias, retardos mentais ou doenças mentais graves, como autismo e esquizofrenia, apresentam fragmentos fantásticos de genialidade ou habilidades acima do comum. Ele chamava os portadores dessa condição de idiot savant, “idiota prodígio”, mas o politicamente correto fez o termo ser alterado para síndrome de Savant ou savantismo — explicou Celine, com um jeito didático que me fez prestar muita atenção nela.
Havíamos nos encontrado em São Paulo ainda, antes de tudo aquilo explodir e querer nos matar.
— Há relatos de savants que decoraram milhares de livros, até os números das páginas de determinados trechos, se questionados onde poderia ser encontrados — continuou ela, sem nos fitar diretamente —; outros que desenhavam uma paisagem como se estivessem diante dela, embora só tivessem visto uma única vez; uns conseguiam tocar qualquer música após ouvi-la uma vez ou saber as horas com precisão ou de mover por um ambiente sem esbarrar em nada, apesar de serem cegos...
— Então, seus deuses são retardados mentais?! — debochou William, que estava ao lado de Alastair.
Os dois gargalharam, mas foi breve. Num movimento brusco, Tyel apareceu ao lado do insolente, encostando uma adaga em seu rosto marcado por cicatrizes negras e pressionando a cabeça de meu heterônimo na mesa; as asas coloridas estavam totalmente abertas, com penas eriçadas.
— Tyel! — exclamou o líder, sem alterar a expressão.
— Mas, senhor...
— William é conhecido por não medir palavras, mesmo que desrespeite muitas regras de convivência e leis sagradas, mas não é um motivo para atacá-lo, visto que somos todos aliados numa mesma causa.
— Certo, sen...
Talvez irritado por ser confrontado, o Juiz renegado agarrou o braço da Anjo e desferiu um soco em seu estômago, arremessando-a longe. Ignorando o que acabou de fazer, pegou o copo com aquela bebida que nos foi servida mais cedo e esvaziou num gole demorado, sob nossos olhares assombrados.
— Nenhum Anjo me toca — disse, por fim, quando notou nosso assombro.
Tyel se levantava, mas não me pareceu disposta a revidar o ataque; apenas curvou a cabeça, num sinal de respeito ao superior, e se retirou.
“O clima hoje está ótimo para tretas”, comentou Alastair.
“É.”
— Como eu dizia, os Lordes são savants em sua maioria, humanos vindos de vários mundos, escolhidos ao nascer e destituídos ao morrer — continuou Gariel, com firmeza. — Mas apenas eles não conseguem sustentar um mundo metafísico. Por isso existiram por tantos anos a Guerra dos Criativos. A movimentação constante de poderes criativos ajudava a manter tudo e contribuir para preservar e aumentar as formas viventes.
“O equilíbrio teria se mantido de maneira perpétua, mas um dos Criativos teve conhecimento sobre segredos que todos juramos não ser nem do conhecimento dos Lordes.
“Quando Branco morreu, seu corpo luminoso se perdeu no espaço, vagando sem rumo e condenado a nunca ser sepultado. Negro, por sua vez, foi transmutado em armadura, mas ficou decretado que ninguém jamais deveria usá-la sem ser o merecedor. Ele seria aquele que surgiria somente para restaurar o equilíbrio, o que aconteceu uma vez, ao eleger a humanidade como herdeiros dos Pilares, os Lordes, algo que obedecemos até os dias atuais, pois o Lorde dos Lordes criou empatia pelos humanos. E, assim como veio, foi embora.
“Sephora é uma entidade anômala, uma criatura que surge quando forças acima da compreensão se manifestam no plano físico e alteram a existência de um individuo, transformando-o em metafísico ou transcendental. Durante as eras, houve poucas criaturas assim, e Sephora é a única que se mantém em nosso mundo. Ela é uma Iconoclasta.”
O Anjo se calou, como se quisesse que a ruiva tomasse a palavra e se apresentasse melhor. Durante os segundos de espera, cada um de nós a observamos, atentos aos seus movimentos suaves e precisos. Quando me olhou de relance, tive a impressão de que ela sondava minha alma em busca de alguma coisa.
— Não tenho muito que dizer — principiou Sephora, sem se levantar da cadeira —, exceto que não posso prometer que venceremos nem que, se vencermos, vocês estarão vivos para a celebração. Mas confio que cada um possa nos ajudar a deter a ameaça que surgiu como consequência de inúmeras péssimas escolhas e decisões, o fruto de eventos aleatórios que foram se juntando até formar o maior exército atuante em dezenas de mundos e universos. O Lorde Branco que enfrentamos não é mais aquele que muitos combateram no passado. Ele está infinitamente mais forte, mais inteligente, mais influente do que um dia já foi. Não há meios possíveis de matar alguém que se tornou uma Ideia.
— Ideia?! — foi a exclamação geral, enquanto eu me mantive concentrado, formando o extenso quebra-cabeças com aquelas peças jogadas por todo o chão.
— Quando se vive muito tempo influenciando mentes e manipulando desejos e vontades, a ligação com o plano físico vai desaparecendo, a essência original vai se esvaindo até que, em certo momento, surge uma Ideia, um conceito perpétuo e forte o bastante para ecoar por eras. Por isso ele sobreviveu por milênios. Em algum mundo, um culto menor se iniciou, uma adoração a um deus que ninguém sabia de onde vinha ou quando surgiu. Ele se nutriu por tanto tempo de migalhas, mas foi paciente, adquirindo conhecimento e exercendo milagres baseados na crença. Ao se fortalecer, iniciou os ataques do futuro para o passado, espalhando horrores e mentiras, reunindo um exército tão colossal que destruiu os Véus.
— Como ele conseguiu isso? — perguntei, incapaz de me controlar diante de pistas tão valiosas. — Como destruiu os Véus?
— Sobrevivendo por gerações, contaminando as pessoas certas, como uma ideia contagiante, um vírus mental, ele descobriu as falhas nos Véus e as explorou a exaustão, criando elos entre o tempo em que vivia e o que os primeiros portadores existiam — respondeu Gariel, após uma rápida reverência para a Iconoclasta. — É tudo o que sabemos. Quem são eles ou como surgiram ainda é um enigma o qual estamos todos interessados em desvendar.
Arfei.
— E qual é o papel de cada um de nós nessa guerra contra o Lorde Branco? — perguntou Elric. — Até onde sei, apenas Phyreon e, potencialmente, Alex são capazes de enfrentar de igual as ameaças que vi.
— De fato — concordou Sephora. — Mas o destino de Alex não é nada sem a ajuda dos demais. Cada um aqui presente, seja físico ou metafísico... ou quase-físico... é garantir que Alex se prepare para ser a segunda reencarnação do Lorde Negro, aquele que nos mostrará como vencer o Lorde Branco.
 Muitos me olharam; alguns, contudo, não pareciam crer que eu significasse qualquer esperança para a salvação dos universos. Se eu fosse qualquer um deles, não acreditaria que um garoto franzino teria chances contra alguém tão superior. Nem eu ainda sabia como poderia ser tão importante nem como auxiliar aqueles guerreiros metafísicos e físicos.
— Em resumo, temos uma porra de problema para resolver, perdemos quase uma hora aqui ouvindo vocês falando sobre a merda que fizeram ao longo dos anos e agora teremos que resolver e — falou William, levantando-se e me encarando —, pelo Lorde dos Lordes, nossa esperança é o frangote aí. Estamos todos fodidos!
— Eu confio no frangote aí — retrucou Alastair, sorrindo enigmaticamente. — Não por ser meu “irmão”, mas porque sei o que ele é capaz de fazer quando bem pressionado. Além do mais, Alec tem motivos de sobra para querer derrotar o Lorde Branco.
“Ou a morte de Zarak será em vão?”, completou, piscando para mim.
— Certo — disse Elric, que mantinha aquele ar objetivo que o tornava respeitado mesmo sendo um humano comum. — Pelo que entendi, eu iniciarei os treinamentos, ensinando tudo o que sei sobre os cristais. E os demais?
Gariel não respondeu. Apenas fez um gesto, sinalizando o fim daquela reunião.
Qualé, Gariel?! — atiçou o Juiz de cabelos brancos e cicatrizes na face. — Vai esconder deles seus planos obscuros? Será que não aprendeu nada sobre trabalho em equipe após tantas batalhas?
— William, chega! — interveio Sephora, aparecendo ao lado dele, pousando a mão sobre o ombro esquerdo.
O mesmo poder de dominação que ela exercia no líder dos Anjos era sentido sob aquele homem marcado pelas feridas visíveis e invisíveis. Por um breve instante, pareceu-me que ele, tão orgulhoso e arrogante, era o mais impactado pela presença da Iconoclasta.
— Vocês quem sabem! — exclamou William, afastando-se, mas aparentando sem controle de alguns sentidos. — Apenas quero acabar algo que jurei ter acabado quando o velhote marcou meu rosto.
O velhote era Phyreon, que não estava presente na reunião por ainda depender de cuidados em relação aos ferimentos sofridos. Segundo Kari, havia umas maldições estranhas que não possibilitavam nem cicatrizações nem regenerações, o que foi rebatido por Tyel, que confiava no conhecimento tanto de sua raça quanto daquela que nos hospedava e eu ainda não tinha conhecido.
— Descansem! — pediu a ruiva, suspirando. — Todos vocês. Aos poucos, um a um será chamado para uma conversa comigo ou com Gariel, para sabermos sobre suas habilidades e como as ampliá-las para o que estar por vir. Por ora, apenas descansem!
Um a um, primeiro Criativos, depois Protetores e, por fim, Juízes, foram se retirando. Vislumbrei Ailith, que havia ficado bem distante, lançar um olhar estranho para a Iconoclasta, que pareceu notá-lo e esboçar um sorriso discreto, mas cujo significado era evidente para mim.
— Menino — chamou-me Vannora, apertando com força minha mão, que em momento algum soltara a dela.
— Sim?!
Seus olhos castanhos estavam hesitantes, carregados de um pavor que me angustiava.
— Eu já estive aqui antes — revelou, com a voz pesada, intensa.
— Já?! Certeza?
— Sim, certeza. Lembro dos detalhes, da aura que este lugar carrega... e foi um sonho recente. Na verdade, não foi um sonho, e sim um pesadelo.
Isso, talvez, explicava aquela descarga emocional do dia anterior.
— Como foi, ninfa? — perguntei, preocupado.
— Não lembro muito de como terminou, mas ao entrar aqui, um de nós acabou de assinar a sentença de morte.

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