[Trecho] "Zurvan", primeiro capítulo de "Danação", segundo volume de "Mundos em Conflito"

Zurvan é o deus do tempo (e espaço) infinito e é também conhecido como a divindade (o "um", o "único") da matéria. Zurvan é o pai dos dois opostos que representam o bom deus Aúra-Masda e o mau Arimã. Zurvan é considerado como um deus neutro, sem sexo e paixão, é aquele para quem não há distinção entre bom ou o mau. Zurvan é também o deus do destino, a luz e a escuridão, uma versão normalizada da palavra, que em persa médio aparece à vezes como Zurvan, Zruvān ou Zarvān. O nome deriva do persa médio avéstico zruvan-, "tempo" ou "velhice". [Wikipédia]

O primeiro capítulo, portanto, seria mais ou menos sobre esses elementos.

Forgetting by Sandra "Alexandoria" Hansen
Fomos levados para um salão amplo e vazio, onde os Anjos se apressaram a cuidar dos feridos, que eram numerosos. Com exceção de Phyreon, que fraturara a perna de maneira a expor os fragmentos alvos e criar uma poça vermelha em sua volta, nada muito grave acontecera ou com os Protetores ou Criativos; alguns dias de repouso, no mínimo, para cada um seriam o suficiente para curar as dores e os machucados.
— Lamento por seu amigo — disse meu duplo, Alastair, tocando meu ombro com firmeza.
— Acho que ele estava morto há dias, talvez semanas, não? — retruquei, sem fitá-lo, ainda com a cena da morte do falso Diogo fresca em minha memória. — Você apenas destruiu um corpo que abrigava um fantasma.
Ele ficou alguns segundos em silêncio.
— Vá tratar a mão! — pediu-me, por fim. — Ainda sinto suas dores, embora não mais viva sua vida.
— Certo — concordei, depois de um longo suspiro —, mas depois, quando tudo se ajeitar, quero conversar com você. Tenho a impressão de que possui algumas respostas para minhas perguntas.
— Talvez.
Fitei Vannora. Uma mistura de alegria e pesar se apossou de mim quando me deparei com seu rosto ainda estampando o choque de haver dois eus, embora o outro fosse visivelmente mais velho.
— Vai ficar tudo bem, ninfa — falei, beijando-a de leve nos lábios contraídos. — A gente vai...
Ela me abraçou com força, sussurrando para que eu não dissesse mais nada por ora. E chorou sobre meu ombro por um longo tempo, enquanto eu observava aqueles seres de asas coloridas tratando os feridos e os conduzindo por corredores.
Gariel veio até nós quando havia poucos ainda no salão; ele ainda era aquele ser que emanava autoridade, respeito e cordialidade misturados a frieza, temor e justiça, mas parecia não muito com o que me recordava de ele na Guerra dos Criativos; algo havia mudado. Não na aparência, pois ainda era alto e moreno, e ostentava aquela cicatriz sobre o olho direito, que o fazia ter a pálpebra semicerrada; seu único olho aberto ainda possuía aquela escuridão absoluta e luminosa. Era algo em seu espírito que estava diferente, e pensar nisso me inquietava.
— Há quanto tempo, Criativo — falou ele, naquele tom de voz baixo, mas que parecia completar qualquer vazio. — E bem-vinda de volta, Criativa.
Vannora enxugou como pôde as lágrimas antes de olhar para um dos nossos salvadores. Como nós dois estávamos em pé, quase no centro do lugar, ela se afastou alguns passos de mim, aparentando se atrapalhar quanto ao que fazer e como se comportar diante de um Anjo.
— Sua mão, Alex, deixe-me vê-la! — pediu ele, estendendo a mão delicada com a palma aberta e virada para cima. — Vamos ver esse corte antes que ele traga aquilo que não queremos.
 Compreendi o que “aquilo” significava. E pus minha mão aberta sobre a dele.
— A Marca da Corrupção ainda está em você tal como estava quando o vi pela primeira vez — falou, olhando o ferimento que vazava sangue e piche. — Mas você não é mais aquela mente criativa que esteve no Monte Celestial. Está se libertando do passado e aceitando o futuro, mesmo que ainda não saiba qual seja.
Seus dedos envolveram minha mão, fechando-a por completo. Ele apertou, como se quisesse esmagar meus ossos. Segurei um grito de dor, percebendo que aquele líquido escuro escorria e respingava, sujando o chão com aquela imundície que me marcava. Quando o negro se tornou vermelho, Gariel afrouxou o aperto, mas me segurou.
— Que lugar é este, Gariel? — perguntei, enquanto a dor passava e o processo de cura parecia continuar.
— Num plano intermediário, mas falarei sobre isso depois, quando você e os demais estiverem recuperados, afinal o que tenho a contar é do interesse de todos, e não apenas do seu. Por ora, quero que ambos descansem e recuperem suas forças, pois temo que haja eventos catastróficos prestes a ocorrer.
Assenti.
— Acompanhem Tyel, que mostrará o aposento reservado para ambos! — pediu o Anjo, indicando uma jovem de pouca estatura e corpo franzino que estava nos olhando com serenidade. — Como vocês são namorados, creio que um quarto apenas seja o suficiente, certo?
 — Sim — respondeu a Intérprete.
Gariel soltou minha mão, que estava mais leve e com o corte cicatrizado. Agradeci a gentileza, enquanto Vannora se afastava.
— Alec — chamou-me o líder dos seres angelicais, quase num sussurro que apenas eu pude ouvir.
— Sim?
— Não a questione sobre as razões de estar abalada! Ela dirá quando se sentir preparada. Apenas espere com paciência, certo?
— Certo.
Ele sorriu, e foi um sorriso tão sincero quanto a certeza da vida de uma flor.
Apressei os passos para acompanhar minha namorada, que parecia mais calma do que há pouco, embora transparecesse em seu rosto avermelhado aquela sombra inquietante que começava a me preocupar. Peguei sua mão, que apertou a minha como se temesse que eu a deixasse; não falei nada, mas compreendi que estar ali trazia alguma lembrança, alguma recordação que a golpeara com muita força.
Na verdade, desde que cheguei naquele “plano intermediário”, captei alguma coisa diferente. Não era algo ruim, mas incomodava, como se despertasse demônios adormecidos e que precisavam ser vencidos; uma aura de sonhos pairava em cada canto, e a sensação de imprevisibilidade era presente em cada segundo de nossa permanência.
— Olá, Criativos Alec e Vannora! Sou Tyel, sua guia por ora — apresentou-se a jovem, esboçando um sorriso discreto e ainda assim tão sincero quanto o de seu líder.
Ela devia ter não mais do que um metro e meio; seu corpo era como o de uma adolescente que acabara de abandonar a infância, contudo seus olhos turquesa revelavam uma sapiência que transcendia os milênios.
— Acompanhem-me, por favor, e mostrarei onde permanecerão até que tudo seja restaurado! — continuou, depois de alguns segundos de assentimentos e breves sorrisos.
Andamos por quase dez minutos por um longo corredor, cujas paredes eram marcadas por signos familiares, apesar de não saber onde eu os havia visto antes; alguns eram como relatos de guerras antigas, nas quais anjos e diversas criaturas do mundo metafísico se uniram contra uma forma indefinida e gigantesca; outros eram apenas representações de conjuntos de universos regidos e as entidades que os regiam.
— Tyel, eu sei que Gariel deve ter pedido para não responder muitas das minhas perguntas e que minha fama de questionar os Lordes é bem conhecida...
— Até mais do que a de criador de Zarak — cortou-me a Anjo, mas sem soar rude.
— Então... como eu dizia... o que são esses homens e mulheres em cada conjunto de estrelas?
— Ascendentes, os mensageiros de Deus, os replicadores de um sonho.
— Hein?! — estranhou Vannora.
— Os universos que existem são cópias de um universo sonhado por Deus há infinitas eras. Foi algo tão belo e grandioso que Ele criou os Ascendentes e os dotou de um poder criativo imenso, pedindo que eles replicassem aquele sonho. O seu universo, por exemplo, assim como nosso mundo, tem o Lorde dos Lordes como Ascendente.
— Interessante... — deixei escapar, voltando minha atenção para todos aqueles desenhos, signos e grafias antigas e tão familiares.
Reconheci as espirais que tanto apareciam em meus sonhos e apenas com a leitura de um trecho do diário de meu eu louco pude entender o significado; vi parte da história da criação de um ou dois mundos tão semelhantes ao planeta Terra, que agora era uma lembrança na mente de quem sobreviveu.
— Ei! — exclamei, parando de andar.
Meu coração estava acelerado diante daquela figura encapuzada que lançava um olhar penetrante para mim, sondando minha alma. No lado direito, uma forma de luz e beleza, um homem tão altivo quanto um Anjo; no esquerdo, o oposto do primeiro, as trevas e o feio, contudo ainda assim altivo.
— Algum problema, menino? — indagou a Intérprete.
— É... ele é...
— Velho Tempo e seus dois filhos, Branco e Negro — falou Tyel.
— Uma trindade sagrada ou algo assim?
— Gariel falará sobre eles quando for a hora.
Arfei.
— Foi com ele, o de capuz, que você sonhou? — perguntou minha namorada, aproximando-se e observando aquelas três figuras humanoides e imponentes.
— Sim.
— Parece muito com um ceifeiro, não? Digo, a Morte.
Concordei. Era a impressão que tive quando o vi pela primeira vez, ainda em São Paulo.
— Criativos, poderíamos continuar?
— Ah, sim, podemos — falei, dando uma última olhada para aquela família peculiar.
A Anjo nos mostrou uma porta de madeira decorada com detalhes em ouro e prata, que formavam ramificações harmônicas e simétricas; havia cessado os passos, explicando que o quarto de um hóspede não era acessível a um Anjo.
— Encontrarão tudo o que precisam para o repouso e a higienização. Hoje, a pedido de Gariel e o anfitrião, o jantar será servido nos aposentos, pois os Juízes, Lordes e Anjos irão se reunir no salão principal para decidir o que será discutido com vocês, Criativos e demais Protetores — completou ela, curvando a cabeça levemente e se retirando, seguindo à esquerda de uma bifurcação.
A porta abriu sem que tocássemos nela, revelando um luxuoso quarto. Amplo, as paredes eram cobertas por prateleiras cheias de livros; nos intervalos entre uma e outra, quadros surrealistas cobriam o espaço vago. Uma cama de casal que nunca imaginei ver antes em minha vida ficava no centro do aposento; era grande, equivalendo a quatro ou seis de uma normal, e cercada por tecidos transparentes e coloridos que pareciam formar uma tenda para proteger quem ali dormisse; acima, no teto, que era decorado por objetos que identifiquei como apanhadores de sonhos dos mais variados formatos, tamanhos e cores, um grande anel dourado sustentava toda aquela estrutura de panos finíssimos e sedosos, como descobri ao tocá-los.
— A, este lugar... você não o acha muito familiar? — perguntou Vannora, ao sentar na cama e se livrar da mochila.
Eu franzi as sobrancelhas.
— Você também teve essa sensação?
— Desde que chegamos aqui, Vannora — respondi, sentando-me ao seu lado. — Mas não me lembro de ter vindo para cá em qualquer momento em que estive na Guerra dos Criativos.
— “Plano intermediário”... foi o que aquele Anjo, o Gariel, disse, não?
— Sim.
— Seria como um além-túmulo ou algo assim?
— Não sei. Desconfio que não. Talvez seja um mundo metafísico ou algo semelhante. E aqui estão todos os Criativos, Lordes e Juízes salvos, além dos Anjos. É como um acampamento de guerra. Gariel logo nos falará sobre isso. Outra coisa, contudo, está me intrigando.
— O Velho Tempo?
— É.
Arfei, sentindo-me esgotado. Pensei em Alastair. Onde aquele heterônimo estaria àquela hora? E por que eu não conseguia acessar seus pensamentos como fazia no Mundo das Ideias?
— Mas pensarei sobre isso depois — completei, fitando o rosto tristonho de minha companheira de aventuras e desventuras. — Precisamos descansar.
Não havia ainda quatro meses que nos encontramos em meio a tantos livros naquele evento em São Paulo, mas era como se nos conhecêssemos há muito mais tempo. Eu tinha a nítida sensação de que nos vimos em algum sonho, em outra existência, numa vida que se perdera em meio às areias da ampulheta; e sabia que a perderia em algum momento por vir.
Toquei sua face, contornando sua bochecha esquerda e tocando o polegar no queixo, enquanto buscava em minha mente algo, uma palavra a ser dita, uma ação a ser executada, qualquer coisa; não consegui, limitando-me a beijá-la e abraçá-la forte.
Em meu coração apenas uma certeza: eu morreria por aquela mulher.
Vannora estava adormecida. O dia fora muito intenso e exigira demais de sua força criativa, além daquele estranho abalo emocional ocorrido assim que chegamos ao “plano intermediário”, e o sono talvez fornecesse alguma tranquilidade.
Eu lia o diário de minha versão louca, desejando encontrar em meio a relatos paranoicos e confusos as respostas para minhas incertezas e inquietações. Ele não era seletivo quanto ao que contar nem obedecia um padrão; apenas escrevia o que vinha à mente, muitas vezes desenhando grotescamente algo para representar os sonhos que teve, as experiências vividas e as ilusões aparentemente esquizofrênicas.
Numa página, entre anotações cheias de números avulsos, que me pareceram registrar datas que tinham alguma importância para minha versão louca, encontrei a lista de Criativos que a Dama mencionou. Alguns eram conhecidos ainda do período da Guerra; outros eu conheci em Akakor; e havia uma parte que dividiu espanto e estranheza, pois era uma mistura de nomes conhecidos e desconhecidos.
— Só pode ser piada! — deixei escapar.
Fechei o caderno, respirando fundo.
— Alex! — a voz de Ailith me chamou.
Era uma das poucas ocasiões em que ela não se teletransportou ou foi invasiva.
Quando abri a porta, tomando o cuidado para não despertar minha namorada, encontrei a filha de Zarak a uns cinco ou seis passos de distância; trajava roupas leves, que lhe cabiam perfeitamente naquela forma humana que já se mostrava tão comum para ela.
— Algum problema? — perguntei, saindo do quarto.
— Não, nenhum — respondeu a jovem, com um leve sorriso. — Apenas queria lhe mostrar uma coisa antes que Gariel e os outros comecem os treinamentos. Isso, claro, se você quiser.
Arfei. Fazia um bom tempo que não conversávamos desde que pisamos em Akakor e ela foi para junto de seus companheiros; vimo-nos apenas na transição de mundos, quando a Terra encontrou seu fim de maneira pavorosa. Não conseguia imaginar o que Ailith teria para me mostrar, mas não poderia recusar a chance de entender alguma coisa sobre minha atual situação.
— Só me deixa ajeitar uma coisinha e já vou, certo? — repliquei, olhando de relance para Vannora dormindo na cama. — Eu convidaria você para entrar, mas...
— Tudo bem — cortou a filha de Zarak. — Também eu nem poderia, pois é proibido a qualquer um adentrar o quarto de um casal, sob pena de ser lançado ao Limbo.
“Casal”, pensei. Era uma palavra com certo poder e importância.
— Esperarei aqui fora, sem problemas.
Agradeci e corri para aquele material de pesquisa que me tomaria mais algumas noites e madrugadas; ajuntei tudo e pus num canto mais reservado, onde não seria encontrado com tanta facilidade. Olhei mais uma vez para minha ninfa, aquela figura feminina e loira que era literalmente a razão de eu estar vivo, o fio que me prendia a um jogo de interesses de proporções cósmicas. E um arrepio medonho percorreu meu corpo, trazendo um sussurro distante, embora familiar.
Voltei a mim no segundo seguinte, prostrando-me para beijar a testa de Vannora, prometendo mentalmente voltar e ficar ao seu lado, protegendo-a de qualquer sonho ruim. Eu sabia, contudo, que nenhum pesadelo nos visitaria enquanto estivéssemos sob aquele teto sagrado.
— Para onde vamos? — perguntei, quando saí do quarto, fitando Ailith.
— Tyel me contou que você queria saber sobre Velho Tempo e seus dois filhos — respondeu ela, caminhando pelo corredor que nos levaria para aquele espaço em que aparecemos após a intervenção dos Anjos. — Não sei se é certo, mas me senti na obrigação de contar logo para você. Talvez possa ajudá-lo a entender o quão importante é para nós e justifique algumas ações que os Lordes tomaram.
— Se está se referindo ao que supostamente fizeram com Vannora e eu, saiba que a gente se entendeu quanto a isso e...
— Pouco importa se vocês dois se amam ou não, Alex. Desculpa a grosseria, mas as coisas estão muito além desse assunto mesquinho.
— Certo. Nada de falarmos mais sobre isso. Mas, Ailith, o que tem a me dizer sobre o Velho Tempo e seus dois filhos?
— A história das coisas anteriores ao meu mundo é muito extensa e cheia de versões, mas uma versão conta que quando o Lorde dos Lordes alcançou uma porção do Universo para criar tudo, encontrou uma entidade jamais vista ou imaginada: o Tempo. Sem entender quem era aquele ser único, perguntou o que representava sua existência; sapiente, Tempo contou sobre os segredos anteriores à essência do Lorde dos Lordes, revelando saber sobre os propósitos de replicar um sonho de Deus, algo que tenho certeza que Gariel contará amanhã ou depois, portanto não me pergunte sobre. Surpreso com aquilo, Lorde dos Lordes convidou o Tempo para ocupar um dos mundos criados, o qual ficou conhecido como Limbo, pois se situava entre o tudo e o nada, o cheio e o vazio, e o dotou com um fragmento de seu poder de criação, explicando que ele poderia fazer o que quisesse com aquele dom raro. Feliz, Tempo gerou dois filhos para governar aquele mundo novo. Como não havia muito material para sustentar seus corpos, o primogênito foi feito de todas as cores e luzes existentes, ganhando uma aparência jovial, bela e invejável; e assim nasceu o Branco, senhor de boa aparência, sempre cheio de luminosidade e carregado de todos os tons coloridos que se possa imaginar. O caçula, por sua vez, não teve a mesma sorte: seu corpo foi feito de sombras, de cores sem luzes, tornando-se feio e pavoroso, embora igualmente jovial; e seu nome era Negro, o senhor da aparência horrenda, sempre cheio de trevas e carregado de cores sem brilho.
“Tempo se mostrou incapaz de ficar num lugar apenas e saiu viajando de mundo em mundo, provocando o surgimento de estações, anos, meses, semanas, dias, horas, minutos... e passou a datar todas as criações, determinando a duração da vida, alinhando os astros. O poder dado pelo Lorde dos Lordes permitiu que ele se tornasse presente em tudo; quanto mais a influência de Tempo crescia, mais velho e cansado ele ficava, compreendendo coisas muito além de qualquer criatura. Ele formou profetas, inspirou profecias e assistiu seus dois filhos lançarem Limbo a um nível semelhante ao que você deve conhecer como Inferno. Nada fez para impedir que ambos se matassem quase simultaneamente, numa guerra que explica o que estamos enfrentando. Não que fosse um péssimo pai, mas a velhice o tornou ainda mais sapiente, e a sapiência muitas vezes resulta na justiça indiferente e imparcial, mesmo que signifique abandonar os filhos à sorte.
“Negro, por ser leal ao pai e ao que é bom, teve o corpo preservado e guardado em nosso mundo pelos Anjos, transformando-se numa armadura que entidade nenhuma deveria usar; e Branco, por ser ganancioso, ficou vagando eternamente pelos universos, perdido e esquecido. Contudo, alguém capturou a cerne que compunha um e a absorveu, proclamando-se como o Lorde Branco, aquele que faria o nosso mundo ser convertido em caos e trevas, pois apenas ele era luz.”
— Lorde Branco?! Ele...
— Não o de agora, mas o anterior. Houve um antes daquele que você conhece. Ele foi muito poderoso, mas não conseguiu controlar tanta energia e acabou encontrando a morte de forma bizarra em seu mundo. Mas deixou um discípulo, e é ele quem você conhece muito bem.
Estávamos diante daquela representação da trindade: o pai e os dois filhos. Velho Tempo, Branco e Negro, a tríade que regeria toda a cadeia de eventos porvir.
— Negro teve uma reencarnação apenas, mas foi numa época não tão turbulenta quanto a de agora — continuou a Juíza, após curvar a cabeça de forma respeitosa para as três figuras. — Ele não é um guerreiro, mas o irmão é. Negro é a escuridão mais avassaladora de nossos corações, quando a esperança se perde para voltar mais forte. Quando ele surgiu, concluiu aquilo que o Lorde dos Lordes deixou pela metade, elegendo os homens, a sua espécie, Alex, como herdeiros aos Pilares, assim como era da vontade de nosso criador. Um dia, quando não havia mais o que fazer, ele se foi.
— E ele vai voltar — falei, suspirando. — E eu sou ele?
— Sim. Mas agora é diferente. Você vai enfrentar sua contraparte, tudo aquilo que você talvez seja, mas não é. É uma longa jornada até conseguirmos isso, pois cada reencarnação é diferente. Na primeira, a armadura encontrou quem a usaria, e isso foi feito sem que ninguém soubesse precisar. Agora, todavia, sabemos que precisamos, sabemos quem é o Criativo, contudo a armadura não pode ser encontrada. 
— Como assim? — perguntei, encarando minha Protetora, que arfou e curvou a cabeça, demonstrando desânimo.
— A armadura é protegida por uma Iconoclasta, uma entidade que surge quando uma ordem natural é desfeita por forças desconhecidas. Há muito tempo, antes de minha mãe nascer, alguns Anjos e Juízes tentaram usurpá-la, acreditando que conseguiria despertar o poder de Negro e usá-lo para tomar os Pilares, pois não aceitavam que Criativos fossem os regentes de nosso mundo. Houve muitas lutas, quase todas realizadas pela Iconoclasta, que assassinou legiões de Anjos e aliados, algo que a marcou para sempre. Quando o último oponente tombou, ela mudou de nome e desapareceu, levando junto a armadura, a qual selou com canções poderosas o bastante para que nem mesmo o destinado a usá-la pela segunda vez a encontrasse sem passar antes por uma longa e penosa jornada.
Percorri o olhar pelas demais pinturas, observando a riqueza de detalhes, localizando diversos Anjos, todos com asas coloridas e armas das mais variadas formas, Juízes e uma guerreira ruiva os enfrentando; ao lado dela, uma figura conhecida: William!
— É ela ali? — perguntei, indicando a cena.
— Sim.
— E aquele é...
— William?! Sim, é. Ele foi o único Juiz que desafiou Anjos e companheiros para ajudá-la. Dizem que ambos tinham um relacionamento e... bem... Gariel era contra, pois amava-a mais do que amou o próprio filho.
— Gariel tem um filho?!
— Sim, e estamos em sua morada neste momento.
Respirei fundo, surpreso diante daquelas revelações. Continuei observando as cenas que ilustravam as batalhas da Iconoclasta contra os usurpadores.
— Então, eu preciso encontrar a armadura? — tentei resumir, num comentário simplista.
— Sim, mas não será uma jornada fácil como foi a que você fez na Última Guerra. Aliás, segundo a Iconoclasta, desde sua chegada em meu mundo a jornada para cumprir seu destino começou.
— Um momento! Como assim “segundo ela”? Você não disse que ela desapareceu?
— Sim, mas retornou após a morte de meu pai, contudo jamais mencionou os motivos do retorno até que começássemos os resgates. Quando uma entidade metafísica muda o nome, ela muda tudo. Foi o que a Iconoclasta fez por tanto tempo. Você a conhece, afinal se encontraram no Deserto.
Ergui a sobrancelha direita, encarando Ailith.
— Naquela época, todos a conheciam como Esfinge — completou ela, sem me fitar.
Apesar do susto, não foi difícil me recordar da Esfinge: ruiva, de cabelos ondulados e tão rubros quanto o sangue derramado em Akakor, mas com mechas douradas, amarrados numa única e longa trança, que serpenteava até quase tocar o chão do Deserto em que eu e meus companheiros de viagem a encontramos. Era muito linda, com pele pálida e imaculada, que harmonizava com os olhos em tom turquesa, que pareciam vislumbrar minha alma nas vezes em que me fitaram.
— Por que eu? — indaguei, abaixando a cabeça. — Por que eu devo ser esse “messias” que todos depositam a salvação?
— Porque você se lembra, Alec, e a lembrança de um Criativo é o primeiro passo para a imortalidade. Acho que meu pai sabia disso quando pediu para os Lordes preservarem suas recordações.
— Eu queria saber o que fez Zarak pensar que eu seria capaz.
— Eu também, mas ele está morto — sussurrou Ailith, mudando o tom de voz —, e os mortos não podem nos responder nada.
Voltei minha atenção para ela, que chorava aquele luto que jamais passaria; abracei-a, sem medo de ser repreendido. A órfã aceitou, soluçando e me agarrando com força, enfiando as unhas em minhas costas, parecendo temer me perder. Quando as lágrimas se esgotaram, afastou-se educadamente, avisando que eu precisava voltar ao quarto, pois necessitava descansar e zelar de minha namorada. Não detectei desdém, como nas outras vezes, contudo havia uma pontinha de ciúme, o que deixei de lado, afinal não era o momento de cutucar algumas coisas.
— Não precisa se preocupar quanto à reunião com Gariel e os demais — falou a Juíza, enquanto fazíamos o percurso de retorno. — Vão esperar todos os feridos se recuperarem e a chegada de mais alguns Criativos e Protetores, que estão noutros mundos.
— Quantos mundos mais irão tentar os resgates?
— Logo atingiremos o limite permitido. Mais ou menos como foi o seu caso, sabe?
— Treze é o limite?
— Sim, em muitos casos. Noutros, não passam de sete ou cinco. Onze também é frequente.
— Números-primos?
— Aham.
— Interessante.
Pensei no diário de minha versão louca.
— Posso pedir uma lista dos que foram e estão sendo salvos e a quantidade de tentativas até o êxito? — perguntei, com um plano em mente.
— Tentarei providenciar, mas os Anjos quem controlam essas coisas.
— Obrigado.
Havíamos chegado ao quarto.
— Só mais uma coisa, Ailith.
— Sim?
— Aquele lance de a mente criativa viajar para outros mundos em sonhos é possível mesmo?
— Sim, é sim. Este mundo mesmo só é acessível em sonhos por vocês, apesar da atual exceção.
— Então, escritores, poetas, músicos e pintores conseguem interpretar o que veem noutros mundos em suas obras, certo?
— Certo.
— Isso poderia ser aplicado a... bem... religiões? Digo, uma religião pode se basear noutra, um vislumbre de outro lugar?
— A religião é uma arte de interpretação das coisas que a mente conhece, mas não consegue entender acordada. É uma forma de dar forma ao que é disforme, uma limitação interpretativa que os povos ditos racionais impuseram sobre suas vidas, esquecendo-se da essência dos que os criaram.
— Isso seria um “sim”, então?
Ela assentiu, esboçando um leve sorriso.
— Descanse bem, “vovô”! — pediu, beijando-me a bochecha esquerda. — E que o Velho Tempo o oriente para o que estar por vir!
— Amém... acho.
Observei a Protetora se distanciar, enquanto os pensamentos se perdiam em revelações, teorias e incertezas. Um plano mirabolante começava a ganhar forma, mas precisava de informações e bases para se apoiar. Eu desconhecia sobre meu papel como Lorde Negro, porém compreendi que cada um dos nomes citados no diário era importante para minha tarefa.
Ao me deitar, olhando para a beleza adormecida de minha amada, pedi a Deus que nenhum mal acontecesse com ela, pois Vannora era o motivo de meu viver. Literalmente.

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