PseudoCrítica #1: Askeladden - I Dovregubbens hall (2017)


SINOPSE:
Espen "Askeladden", filho de um pobre agricultor, embarca em uma missão perigosa com seus irmãos para salvar a princesa de um troll conhecido como o Rei da Montanha — para ganhar uma recompensa e salvar a fazenda da sua família da ruína.

O cinema fantástico é uma caixinha de surpresas. Nunca se sabe o que se esperar de um filme, seja no terror/horror, na ficção científica ou na fantasia. Dependendo do estúdio, e sobretudo hollywoodiano, a chance de sair uma porcaria é infinitamente maior.

Mas... e quando se trata de uma produção saída da Noruega, que saiu por aqui como O Rei da Montanha, e numa dublagem muito mediana?

Antes de tudo, como era de se esperar, a escolha do título nacional fez o favor de ignorar um elemento que me chamou a atenção: o que é um "Askeladden"? A resposta me levou a um post, no Facebook, escrito por Tiago Quintana, o qual reproduzo, (quase) na íntegra, por achar deveras interessante e muito útil:

GATO BORRALHEIRO?

Askeladden é um vocábulo norueguês criado pelo folclorista norueguês Moltke Moe no séc. XIX para se referir ao protagonista de vários contos folclóricos da Noruega; quando o tradutor inglês George Webbe Dasent traduziu esses contos, ele optou pela tradução literal do vocábulo, Ash Lad (algo como “rapaz das cinzas”). Nesses contos, o Askeladden é sempre o filho mais novo de uma família camponeses que usa de astúcia (e apenas de astúcia, nunca de força ou perícia com armas) para derrotar criaturas fantásticas (geralmente trolls, um monstro do imaginário escandinavo; costuma ser traduzido como “troll”, mas também pode ser traduzido como “ogro” ou “trasgo” devido às associações folclóricas entre esses monstros), enganar pessoas cruéis ou arrogantes e conseguir riqueza e prestígio.

Tanto Ask quanto Ash podem se referir à árvore freixo, mas neste caso ambos significam “cinzas”: Moe construiu a palavra, usando uma etimologia pré-existente, baseando-se em uma função dentro do núcleo familiar escandinavo medieval na qual uma pessoa era responsável por cuidar da fogueira para que ela não se apagasse; essa pessoa era geralmente uma criança ou um idoso, isto é, uma pessoa que não podia fazer serviços mais pesados.

Isso significa que o nome Askeladden traz consigo algumas conotações intrínsecas: a de fraqueza ou incapacidade (pois o serviço de cuidar da fogueira era feito pelas pessoas que não eram capazes de fazer serviços mais pesados), a de preguiça (pois o Askeladden, nos contos, não é uma criança ou um idoso; portanto, uma possível explicação para ele ser responsável por um serviço de tão pouca importância é sua preguiça, uma característica que muitas vezes é explicitada nas histórias), a de pobreza (pois faz referência também a roupas sujas de cinzas da fogueira) e a de falta de importância (membros importantes do núcleo familiar não receberiam um serviço tão baixo).

Levando em conta a imagem da pessoa suja de cinzas, a conotação de fraqueza e incapacidade, e que nessas histórias o Askeladden é sempre o terceiro filho (portanto, o mais novo e o menos importante), proponho a princípio duas traduções para o português que trariam para o leitor brasileiro todas as conotações que o vocábulo tem para o leitor norueguês: “Cinderelo” ou “Gato Borralheiro”, fazendo referência ao conto de fadas da Cinderela (ou Gata Borralheira).


Isso é bem verdade.
Então, só o nome do protagonista já carrega uma forte carga folclórica noruegusa, e é exatamente o tipo de coisa que encontraremos ao longo dos quase 100 minutos de duração. Trata-se de uma aventura que se inspira em contos sobre um protagonista chamado Askeladden (cujo nome verdadeiro é Espen) se aventurando floresta adentro com seus irmãos para resgatar uma princesa de um troll e, assim, se redimir com o pai. E mais: é a adaptação de diversos contos de fadas noruegueses, a maioria protagonziados por um caçula chamado... Askeladden!

Então, infelizmente, parte da tardição norueguesa se perde para nós, brasileiros, tanto na dublagem (que é bem ruinzinha, por sinal) quanto na tradução das legendas (o que fica evidente, por exemplo, na adaptação do termo huldra para ninfa da floresta ou no descaso com o apelido dado ao protagonista pelo pai). Mas qualquer leitor de fantasia, em especial contos de fadas, ou que já tenha assistindo às adaptações de alguma obra de Tolkien, vai reconhecer a figura do troll tido como o rei da montanha.

"Corre!"
As belas paisagens norueguesas são atraentes, e o diretor soube valorizar seu país com belas tomadas aéreas e a fotografia capta o fantástico de uma simples floresta verde; os cenários, ainda que poucos, são bem representados, o que me faz crer que sejam locações reais. O mesmo cuidado é notado nos figurinos.

As atuações estão, para o nível de uma produção de orçamento moderado, dentro do aceitável, com alguns personagens caricatos sobretudo para o lado dos antagonistas humanos. Aliás, o orçamento fez a equipe optar por maquiagem na velha nariguda e nas huldras, o que deixa um tom de amadorismo na produção, porém acabou tornando o troll o mais realista possível, num CGI que não agride os olhos.

Sábio conselho.
Ainda que o roteiro seja simples e opte por algumas situações preguiçosas, deixando de lado a tensão que a cena poderia ter, Askeladden - I Dovregubbens hall é gostoso de se assistir se você for pelo idioma original da película e tiver uma queda por contos de fadas e folclore estrangeiro. Um dos pontos altos é, sem dúvida, como o interesse de Askeladden por objetos achados ao acaso se torna uma habilidade que permite que ache soluções simples para problemas que vão aparecendo, em especial quando estão na montanha.

No geral, não será uma obra memorável, mas o roteiro sequer tenta ser pretensioso. Como uma fantasia de aventura, contudo, funciona muito bem.

O amor, aqui, nasce de forma sutil e move, ingenuamente, o protagonista.

Um comentário:

  1. Gostei do filme. Não deixa de ser interessante, melhor que muitas produções por ai.

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