[Arte do Dia #608] Bestiário #3: O Guia Brasileiro de Monstros

Anualmente, em outubro, artistas de todo mundo participam do Inktober, postando diariamente uma ilustração em suas redes sociais.

Ano passado, HET participou com uma série de criaturas e monstros de nosso folclore, pegando seres imaginários de origem indígena, afrobrasileira e europeia, formando um painel que ele intitulou O Guia Brasileiro de Monstros.

A seguir, seguem as criaturas e suas descrições, de acordo com o que foi postado pelo artista.

(Este ano, mais uma vez, HET traz novos seres imaginários, dando continuidade a um bestiário rico e muito brasileiro.)

Anhangá
É um espírito metamorfo, mas que geralmente se apresenta como um veado branco de olhos flamejantes. Ele defende filhotes e suas mães de caçadores, podendo desviar suas balas e flechas e até mandá-las de volta em quem atirou. Além disso, o Anhangá pode fazer com que as pessoas tenham febre, pesadelos e pode até deixar elas loucas, e talvez por isso tenha sido mal interpretado pelos colonizadores portugueses, que o consideraram um demônio ou até o próprio Diabo.

É interessante notar que o Anhangá só assume a forma do animal, então não se preocupe: se você se encontrar com um veado campeiro albino, o máximo que ele vai fazer é sair corendo.

Ao Ao
É o guardião das colinas e um dos Sete Monstros Lendários, filhos do espírito maligno Tau. Ao Ao tem esse nome por conta do som que faz ao perseguir sua vítima. 

Quando marca uma presa, a persegue incessantemente até que a devore, destruindo qualquer coisa que ficar em seu caminho. A única esperança para um alvo de Ao Ao é escalar um Buriti, árvore sagrada para os guarani. Qualquer outra árvore terá suas raízes arrancadas pelas garras e presas do monstro e será derrubada, não importa o quão grande a árvore seja ou o quão profundas sejam suas raízes.

Muitas pessoas comparam o Ao Ao com uma queixada, animal silvestre presente em grande parte da América Latina. Mas ao contrario do guardião das colinas, queixadas se alimentam apenas de frutos, raízes e insetos, sendo inofensivos.

(NOTA: Apesar de ser dito guarani, praticamente não existem fontes que comprovem que ele seja parte dos mitos, pelo menos em território brasileiro.)

Besta-Fera
Besta-fera é um demônio que surge depois que anoitece (alguns dizem que apenas durante a lua cheia) e galopa por vilas rurais até encontrar um cemitério, onde simplesmente desaparece. Durante esse percurso, é comum ser seguido por cães de rua que latem bastante. Esse barulho, entretanto, não se sobrepõe aos grunhidos altos e assustadores da criatura.

Dizem que ele vem para coletar almas penadas e levá-las para o inferno, então a princípio não causaria mal aos vivos. Porém, caso alguém cruze com ele e olhe para seu rosto, a pessoa acaba ficando confusa ou até louca por alguns dias.

Boitatá
Essa serpente de olhos flamejantes protege as florestas de caçadores que tentam incendiá-la, devorando seus olhos. O fogo que ela mesma produz possui propriedades mágicas e não é um perigo às matas.

Apesar de ser uma espécie de guardião, o Boitatá não deixa de ser um predador perigoso, animais e pessoas inocentes também podem ser vítimas dessa criatura. Para escapar desse destino terrível, a vítima precisa prender a respiração e fechar bem os olhos, até que a serpente vá embora.

Boi Vaquim
Dizem que nos pampas gaúchos vive um touro indomável, com asas e chifres feitos de ouro e olhos que brilham como diamantes. As pessoas tinham medo do animal, que diziam poder matar um ser humano com uma cabeçada, além de soltar fogo pelos chifres e narinas.

Alguns vaqueiros com coragem tentavam capturar a criatura, com seus melhores laços, selas e cavalos, mas aparentemente ninguém nunca conseguiu.

Boto cor de rosa
Em festas perto do Rio Amazonas, às vezes surge um moço bonito, de roupa branca e chapéu, que encanta as mulheres solteiras, as leva para o rio e as engravida. No dia seguinte, ninguém sabe para onde o rapaz foi, apenas desapareceu.

O Boto cor de rosa das lendas é uma criatura metamórfica, que pode tomar a forma de um homem bonito para seduzir suas "vítimas". A única falha em sua transformação é seu orifício respiratório, que se mantém no alto da cabeça e o leva a usar seu icônico chapéu.

Alguns o chamam de Uauiará, e dizem que ele também é o protetor dos peixes do rio e que ajuda pessoas que estão se afogando, levando elas até a margem.

O mito do Boto era tão forte em algumas comunidades ribeirinhas, que muitos dos botos reais eram caçados, seja por "vingança" de maridos traídos, quanto por acharem que conseguiriam roubar suas habilidades sedutoras. Uma dica: Não dá muito certo.

Capelobo
Dizem que essa criatura é o "lobisomem brasileiro", mas diferente do homem lobo, não existe nenhuma maldição ou humano por trás.

O capelobo é um ser antropomórfico, com garras enormes nas mãos e coberto de pelos. Ele vive no nordeste do país e costuma se alimentar de cães e gatos. Entretanto, ele pode atacar humanos também, geralmente pessoas que vão para a mata acampar. Ele usa suas garras para agarrar a vítima e abrir seu crânio, onde usa o focinho e língua compridas para sugar o cérebro dela.

O capelobo muito provavelmente tem sua origem nas preguiças gigantes pré-históricas, e depois comparados com tamanduás por conta das garras. Mas não se preocupem, tamanduás comem formigas e cupins, e não irão atrás de seus cérebros (a não ser talvez que você seja uma formiga)

Cobra Grande
Essa criatura primordial da Amazônia criou o Rio Amazonas e deu a noite aos seres vivos para que pudessem descansar.

Cobra Grande, ou Boiúna, é uma serpente gigantesca cuja existência é talvez tão antiga quanto a dos deuses. Algumas pessoas a chamam também de mãe d'água, já que é graças aos sulcos deixados na terra pelo seu rastejar que os rios existem.

Apesar disso, é um monstro feroz e destrutivo, que afunda barcos e devora aquilo que encontra. Seus olhos brilham com tanta intensidade que durante a noite são confundidos com lanternas de embarcações.

Outra lenda mais ao sul diz que as cataratas do iguaçu também foram criadas por uma grande serpente ancestral, chamada M'boi, provavelmente a mesma cobra gigante, e apenas mais uma amostra de seu poder.

O mito de Cobra-Grande surgiu provavelmente dos formatos ondulados dos rios e da sucuri, uma das maiores cobras do país. A sucuri verdadeira não tem olhos brilhantes nem pode se transformar em barcos. Mesmo assim, é uma boa ideia respeitar seu habitat natural e não importuná-la.

Corpo-seco e Bradador
Dizem que havia um homem tão mal e perverso que, quando morreu, nem Deus nem o Diabo o quiseram. A terra o rejeitou e seu corpo ficou condenado a vagar.

Corpo-secos e Bradadores são dois lados de uma única moeda. Pessoas cuja vida foi cercada de pecados terríveis e crueldades podem receber essa penitência. Rejeitados tanto pelo céu quanto inferno, seus corpos não podem ser enterrados e suas almas não são julgadas. Então, corpo e alma se separam na madrugada.

Corpo-seco, a parte física, vaga pelas estradas, atormentando as pessoas que encontra. O Bradador, a parte espiritual, corre pelas vilas, gritando e berrando como louco, acordando as pessoas e as deixando apavoradas.

Cuca
Quando uma criança não quer dormir na hora certa ou é muito malcriada, dizem que ela vem e a leva embora.

A Cuca é uma das criaturas mais famosas do nosso folclore. Descrita como uma bruxa velha e feia, com características de réptil e unhas afiadas de ave, ela tem um gosto por crianças desobedientes. O que ela faz com suas vítimas ninguém sabe, uma vez que ela apenas o captura e desaparece, sem deixar vestígios. A maioria das pessoas concorda que ela provavelmente devora as crianças.

Curupira
Acima de outras entidades que protegem áreas ou animais específicos, como Anhangá e Boitatá, o Curupira é o guardião de toda fauna e flora do país, sendo quase como um "chefe" dessas criaturas. É descrito como um jovem ou criança de cabelos vermelhos feito fogo e os pés virados ao contrário, sua "marca registrada".

Sejam para travessuras ou para punir caçadores, o Curupira usa uma série de artimanhas como assobios, trilhas falsas e suas clássicas pegadas invertidas para confundir as pessoas e fazê-los se perderem na mata.

Gorjala
Gorjala é um gigante que vive nos sertões, em áreas rochosas por onde gosta de passear. É descrito como um gigante negro com uma boca escancarada, que captura pessoas que se perdem em trilhas e as devora lentamente. Ele as coloca debaixo do braço e as leva consigo, devorando um pedaço por vez.

Alguns pesquisadores dizem que ele "veste" uma armadura feita com cascos de tartaruga.

Iara
Dizem que Iara certa vez foi humana, uma índia muito habilidosa que vivia em uma tribo próxima ao Rio Amazonas. Essas habilidades eram motivo de inveja de seus irmãos mais velhos, que certa vez tentaram matá-la. Iara não só conseguiu se defender como matou os dois irmãos na briga, sendo injustamente acusada por seu pai, que a jogou no rio. Jaci, a Lua, apiedou-se dela e a transformou em uma mulher metade peixe, que passaria a viver nas águas.

Essa sereia desde então vive nas águas, encantando homens com sua voz e os atraindo para o rio, onde os mata afogados.

Ipupiara
Essa criatura precede a Iara nas lendas, aterrorizando os indígenas que precisassem navegar pelos rios. Foi descrito por historiadores como um "homem marinho, com presas e um bigode comprido".

Ipupiara é uma versão agressiva e selvagem da sereia do amazonas. Ataca barcos pesqueiros, na tentativa de virá-los e, quando consegue, agarra suas vítimas e as estrangula para que morram sufocadas. Apesar de poder simplesmente matar as pessoas por matar, as vezes come os olhos e narizes delas.

Jaci Jaterê
O nome Jaci Jaterê pode ser traduzido como "pedaço da lua". É um rapaz pequeno, de pele e cabelos claros como a Lua. Está sempre carregando um cajado mágico que parece feito de ouro, com o qual hipnotiza crianças que não dormem no meio da tarde, no período da sesta. Ele costuma levá-las para um lugar secreto, onde brincam até cansar, deixando os pais em desespero pelo sumiço da criança.

Dizem que se você conseguir pegar seu cajado, ele se joga no chão e grita, feito criança, e fará e encontrará o que você quiser em troca de ter seu objeto de volta. Alguns dizem que a fonte de seus poderes vem de seu colar.

No Paraguai, o Jaci Jaterê é muito conhecido como o quarto filho do espírito maligno Tau, e o senhor das sestas (o ato de cochilar após o almoço).
Enquanto todos os seus irmãos tem formas monstruosas, ele seria o único que preserva a forma humana.

(NOTA: Apesar de ser dito guarani, praticamente não existem fontes que comprovem que a versão dele como filho de Tau seja parte dos mitos, pelo menos em território brasileiro.)

Kurupi
O quinto filho de Tau é completamente diferente de seu irmão anterior, sendo um anão feioso e cabeludo. Kurupi é o senhor da fertilidade, cargo visualmente representado por seu longo (bem longo) órgão genital, que costuma ficar enrolado em sua cintura.

Assim como o Boto no norte do país, Kurupi também é dito responsável por mulheres misteriosamente grávidas mas, ao contrário do homem encantado do Amazonas, não conta com o consentimento das moças, usando o tamanho de seu membro para invadir casas e fecundá-las enquanto dormem ou simplesmente as atacando em florestas.

(NOTA: Apesar de ser dito guarani, ele é muito mais comum no Paraguai, enquanto no Brasil costuma ser uma variante do Curupira, sem qualquer relação com os sete monstros Lendários e Tau.)

Labatut
Labatut é um monstro conhecido nas regiões do Rio Grande do Norte e Ceará. Tem presas como as de elefante e um pelo grosso e espinhoso como um porco espinho. Dizem ser mais feroz e perigoso que o lobisomem, com quem compartilha alguns hábitos.

Sai durante a noite, principalmente nas de lua cheia, para tentar suprir sua fome insaciável. Apesar de qualquer pessoa poder acabar como seu jantar, Labatut costuma preferir a carne de crianças, por ser mais macia que a de adultos. Por isso, essa criatura também é vista como um "bicho-papão" feito a Cuca.

Nota: Labatut na verdade existiu, apesar de não ser nenhum monstro. Pedro (Pierre) Labatut foi um francês que serviu no Brasil como general no período entre 1822 e 1842. Lutou contra guerrilheiros no Ceará nesse periodo e ficou conhecido por sua perversidade e brutalidade nas batalhas. Seu comportamento levou as pessoas a incorporarem ele no folclore nacional, dando a ele uma aparência monstruosa para combinar.

Lobisomem
A maldição do lobisomem no Brasil recaía sobre aquele que nascesce como sétimo filho homem, sempre lembrando em aparência ao sétimo filho amaldiçoado de Tau, o espírito do mal.

Em sua forma humana, lobisomens estão constantemente doentes, magros, pálidos ou amarelados, com olheiras profundas e tossindo sangue volta e meia. Esse estado moldava o seu comportamento ao se transformar na besta.

Nas noites de quinta para sexta, fora de si, o lobisomem vai até uma encruzilhada, onde abandona suas roupas e se transforma em animal. É interessante notar que o lobisomem brasileiro tem uma característica interessante: A de pegar emprestado características de animais que passaram por aquela encruzilhada. Por isso, muitas pessoas dizem ter visto um lobisomem em forma de porco, macaco, touro, ou até mesmo uma quimera negra com características de várias criaturas misturadas.

Depois de transformado, sai em busca de vítimas para sugar seu sangue, como um vampiro, tentando assim repor o que perde com suas doenças.

Dizem que para livrar alguém da maldição do lobisomem, basta fazer com que ele sangre, por menor que seja o machucado. Entretanto, em circunstâncias normais ele é completamente invulnerável, precisando de armas abençoadas por rituais específicos para afetá-lo.

Este loisomem aqui provavelmente passou pela mesma encruzilhada que um lobo-guará, pegando sua forma emprestado. O guará real, entretanto, não tem a menor necessidade de sugar sangue, se alimentando de frutas e pequenos animais.

Luisón
Luisón é o sétimo e último filho de Tau, e de certa forma o ancestral de todos os sétimos filhos amaldiçoados como Lobisomens.

Ele é o senhor da morte, assim como um ceifador europeu, e encontrar com ele ou mesmo vê-lo à distância indica que logo você deixará este plano.

O "pai dos lobisomens" costuma aparecer em território humano apenas em cemitérios, onde come os cadáveres lá enterrados, ou outro local onde exista carne apodrecida.

Assim como seus "descendentes", Luisón costuma aparecer em noites de sexta-feira, em especial aquelas onde a Lua está cheia.

(NOTA: Apesar de ser dito guarani, praticamente não existem fontes que comprovem que ele seja parte dos mitos originais, pelo menos em território brasileiro.)

Mapinguari
Se você acha que monstros só são um perigo durante a noite, melhor pensar de novo. Assim como humanos e outros animais diurnos, o Mapinguari dorme durante a noite, aterrorizando as florestas durante o dia.

É como um grande primata, com pêlos negros (às vezes descritos como vermelhos) que cobrem todo o seu corpo e são tão espessos que o tornam à prova de balas. Sua característica mais marcante, porém, é sua boca: Uma grande abertura que segue de seu nariz até a barriga, uma das últimas coisas que alguém verá se capturado por ele, sendo decapitado em seguida.

Matinta Pereira
Matinta Pereira, também chamada de Rasga-Mortalha, é uma bruxa que atormenta as pessoas durante à noite, gritando no telhado de suas casas.

Assim que escurece, Matinta toma a forma de uma ave e parte para vilas e aldeias, escolhendo uma casa para pousar e ficar gritando. Faz isso até que os moradores aceitem fazer um trato: Ela desaparece e, em troca, ganha tabaco ou fumo, os quais ela vem buscar no dia seguinte, na forma de uma senhorinha.

Dizem que sua forma pássaro é um indicador de que uma desgraça está para acontecer, na verdade, é apenas um método sujo de conseguir o que quer, e caso a neguem, aí sim ela traz a desgraça em muitas formas.

Matinta Pereira como é hoje, é provavelmente baseada visualmente em corujas, harpias e bacuraus, que assustam as pessoas, seja pelo tamanho (harpias) ou pelos sons que fazem a noite (coruja e bacurau). Ao contrário da matinta, não há nenhuma desgraça que eles possam trazer, fiquem tranquilos.

Mboi Tu'í
A serpente-papagaio é o segundo filho de Tau. É o senhor dos pântanos, das nuvens, zonas com mais humidade. É o protetor de animais aquáticos.

Mboi Tu'í não é agressivo e é bastante tranquilo na maior parte do tempo, gostando de passar o tempo curtindo o clima úmido e apreciando flores, das quais gosta muito. Entretanto, não signifique que é uma boa idéia se aproximar dele. Seu olhar é o suficiente para deixar alguém aterrorizado e, caso necessário, pode gritar tão alto que qualquer um à quilômetros de distância consegue ouvir, não podendo fazer nada além de ser tomado pelo medo e do impulso de fugir.

(NOTA: Apesar de ser dito guarani, praticamente não existem fontes que comprovem que seja parte dos mitos, pelo menos em território brasileiro)

Moñai
O terceiro filho de Tau é o protetor dos campos abertos e senhor do vento.

Moñai é uma grande serpente com chifres de cor chamativa que o permite hipnotizar seus alvos. No geral usa essa habilidade para encantar aves, seu alimento, mas provavelmente também o usa em pessoas, já que sua personalidade é igualmente manipuladora.

Seu grande passatempo consiste em roubar pertences humanos, dos mais simples aos mais importantes. Ele os guarda em um esconderijo, sem intenção nenhuma de devolver ou barganhar pela devolução; apenas quer semear a discórdia, fazendo com que pessoas e tribos inteiras se desentendam por culparem uns aos outros pelo desaparecimento das coisas.

(NOTA: Apesar de ser dito guarani, praticamente não existem fontes que comprovem que seja parte dos mitos, pelo menos em território brasileiro.)

Mula sem cabeça
A mula sem cabeça é uma criatura famosa no país inteiro. Trata-se, na verdade, de uma mulher, amaldiçoada por ter relações com um padre. Se transforma em uma mula de pelagem escura, com a cabeça envolta em chamas, o que faz com que alguns digam que ela simplesmente não tem cabeça.

Ela tem uma sina similar ao lobisomem, aliás, é tão destrutiva quanto. Em noites de quinta para sexta, se transforma na criatura e sai cavalgando velozmente por vilas, sete, para ser exato. Mas assim como o homem lobo, o problema é que, além do percurso, ela causa danos por onde passa: Atropela pessoas e as rasga com cascos afiados, ou simplesmente as queima com o fogo que solta.

Existe uma maneira de livrar a mulher da maldição: A mula carrega um freio de ferro incandescente em sua boca. Se alguém for corajoso o suficiente para arrancá-lá, a Mula voltará a ser mulher, nunca mais se transformando.

Negro D'Água
Diferente das outras criaturas aquáticas, que tem como prioridade matar suas vítimas, o Negro D'água é mais um pregador de peças.

É visto em rios do nordeste ao sudeste fazendo as mais variadas "brincadeiras": Vira barcos, solta peixes dos anzóis ou os amarra em pedras, entre outras táticas para enganar pescadores. Vez ou outra pratica brincadeiras mais pesadas, como levar crianças distraídas para o meio dos rios, apavorando as mães.

É um adorador de bebidas, então quando um pescador não quer ter sua atividade atrapalhada pelo negro d'água, costuma trazer pinga ou cachaça numa garrafa e jogar no rio, para que a criatura fique satisfeita.


Onça Celeste (Charia)
A estrela vermelha de Aldebaran no céu nada mais é do que o olho direito desse monstro primordial cuja única missão é trazer a escuridão ao mundo.

Charia, a Onça Celeste, é uma entidade que se iguala aos deuses principais e está determinada à matá-los. Ela está praticamente todas as noites ao encalço da Lua, tentando abocanhá-la. As fases da lua nada mais são do que Charía conseguindo arrancar um pedaço de seu alvo, que precisa então desaparecer do céu por um tempo para que seu irmão, o Sol, a ajude a se recuperar.

Algumas vezes os ataques são mais claros, já que a lua via vermelha pelo sangue perdido. Nesses momentos, a Onça Celeste está bem mais perto de alcançar seu objetivo. Para tentar evitar a escuridão total durante a noite, as pessoas tentam gritar e fazer todo o barulho que podem, para assustar e atrapalhar a Onça.

Em algumas ocasiões mais raras, Charia tenta matar o sol também.

A Onça é uma figura muito comum em mitos antigos, do Brasil até a américa central. Nem sempre são representadas como um ser maligno, tendo histórias onde ajudam pessoas ou até mesmo são deuses. Então não se deixe levar pela descrição de Charia, onças tem mais com o que se preocupar.

Papa-figo
Papa-figo é o velho-do-saco, ou homem-do-saco, um velho mal vestido que anda com um saco para poder colocar suas vítimas e levá-las para longe.

O que dizem é que o Papa-figo sofre de uma doença incurável, parecida com a hanseniase (lepra) em sua versão mais fantástica, que diz que torna seu sangue impuro e danifica permanentemente seu fígado. 

Em busca de uma cura, ele costuma atrair crianças, seu único alvo, com palavras bonitas e promessas de presentes e outras fontes de diversão. Ele então a sequestra para que possa comer seu fígado e tomar seu sangue, já que busca uma cura nos órgãos jovens e saudáveis das vítimas. 

Nota: Especula-se que o mito se alastrou junto a uma epidemia de lepra no país, onde pessoas, desesperadas por uma cura, acreditavam e eram capazes de buscar "curas" como essas.

Pisadeira
Ela espera em cima dos telhados, atenta a quem vai dormir de barriga cheia ou de barriga para baixo e então perturbar seu sono.

A pisadeira é a nossa manifestação física da paralisia do sono. Uma senhora magra e alta, com cabelos desgrenhados, unhas pontudas... Seus olhos focados te encaram ininterruptamente, enquanto mantém um sorriso macabro.

Achada a vítima, a Pisadeira vem e senta em seu peito, imobilizando e sufocando a pessoa, que acorda sem poder se mexer e entra em pânico.

Quibungo
Quibungo é como um primo do Mapinguari. Uma criatura esfomeada com uma enorme boca em um local inusitado.

Veio para o Brasil com os escravos negros, vindos do Congo e Angola, e aqui se estabeleceu na Bahia e manteve ali seu território. Alguns gostam de usá-lo como homem do saco ou Cuca, dizendo que ele gosta de comer crianças desobedientes, mas ele não tem necessariamente essa preferência, devora qualquer um que se apresentar a ele, pegando a vítima com a mão e a jogando para trás, onde a abocanha com a boca das costas.

Diferente de muitos outros monstros, não tem nenhuma invulnerabilidade ou super resistência, se ferindo como qualquer outro animal. 

Teju Jagua
Teju Jagua é o Primogênito de Tau, um híbrido de canídeo e réptil, senhor das cavernas e grutas e protetor das frutas.

Sua descrição física varia entre sete cabeças caninas e apenas uma, mas é consenso que ele é muito pesado e isso atrapalha sua locomoção. Seja por isso ou não, ele é o mais dócil e pacífico de todos os sete filhos, apesar de ser literalmente "filho do mal". Geralmente está relaxando em cavernas ou próximo a elas, comendo suas frutas ou mel, seu alimento favorito.

Dizem que pode ter um comportamento agressivo se tiver sua comida roubada, mas caso seja verdade, não é muito comum.

(NOTA: Apesar de ser dito guarani, praticamente não existem fontes que comprovem que seja parte dos mitos, pelo menos em território brasileiro.)

Saci Pererê
O Saci Pererê é provavelmente o maior ícone folclórico brasileiro, famoso por andar por aí criando redemuinhos e atazanando a vida de todas as pessoas e animais.

Dizem que nasce de brotos de bambu, um jovem rapaz negro, de uma perna só, que está sempre fumando um cachimbo e usando um gorro vermelho que lhe concede habilidades mágicas, como a criação de redemuinhos e poderes de teleporte ou invisibilidade.

Sai por aí fazendo todo o tipo de travessura, invade cozinhas e troca os recipientes de sal pelos de pimenta, faz a comida queimar. Do lado de fora, faz com que objetos sumam (ele não os rouba, vale ressaltar), assusta viajantes e gosta de trançar crinas de animais.

Poucos sabem, mas o Saci também é um expert se tratando de ervas medicinais, e costuma fazer o papel de protetor dessas plantas.

É possível capturar um Saci, preparando uma armadilha, retirando seu gorro e o prendendo em uma garrafa. A partir disso, ele atenderá seus pedidos como um gênio da lâmpada. Mas cuidado, se ele conseguir escapar e recuperar seu gorro, pode ter certeza que ele irá se vingar, e não será com suas brincadeiras inofensivas.

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