[Trecho] "A rakshasi entra num bar", primeiro capítulo de "Incantatrix"

Incantatrix, inicialmente, seria uma noveleta de fantasia urbana, com toques de horror, sobre três feiticeiras, de diferentes círculos de magia (afrobrasileira, celta e nórdica), que se uniriam contra uma quarta, de origem indiana, conhecida como rakshasi. Com o tempo, as coisas foram demorando e ganhando mais elementos, acabando por se tornar uma novela, o que exigiu deixar a trama um pouco mais complexa e estudar mais um pouco, para desenvolver as magias e criaturas presentes na história.

Então, por ora, fiquem com o primeiro capítulo, sem revisão (o que implica que o texto final terá algumas melhorias e sutis mudanças).

M A L I A by smojojo
Amira nunca havia visto uma fada antes.
E muito menos algo ainda mais raro, que não poderia ser chamado de fada, embora, para todas as possíveis classificações fosse: uma tuatha dé danann.
No geral, ela conhecia as histórias: fadas eram mulheres belíssimas e de natureza peculiar, nascidas de uma antiga linhagem europeia, filhas da mais pura magia do mundo, senhoras dos destinos e pertenciam às poucas criaturas que poderiam carregar o título de soberanas das artes mais profundas. Havia crescido ouvindo, com admiração e assombro, sobre como as fadas eram capazes de alterar vidas apenas por deixarem determinadas emoções prevalecerem: se alegres, davam sorte a homens e mulheres por quem nutrissem afeto; e se irritadas, o azar poderia se estender até a morte. As lendas sobre serem criaturas pequeninas não tinham quaisquer fundamentos, sendo mais uma forma de zombar delas do que outra coisa. Compará-las a duendes ou silfos, chamando-as de baixinhas por não possuírem grande estatura na maioria das vezes, era um ato extremamente ofensivo.
E também ouviu algumas histórias sobre os tuatha dé dananns. Na verdade, mais lendas do que histórias, pois havia muitas gerações que os remanescentes da raça se isolaram em lugares invisíveis até aos mais poderosos manipuladores de magia. Havia machos entre o povo oculto; ninguém se importava em ser chamado de fada ou elfo — ou qualquer termo inspirado em velhas fábulas europeias. E eram extremamente orgulhosos de seus feitos do passado, além de infinitamente mais caprichosos do que qualquer criatura nascida da magia.
Ela respirou fundo, controlando a ansiedade. Desviou um pouco o olhar, tentando não pensar no que acabara de ver, com receio de chamar a atenção da tuatha dé danann. Pensou na longa viagem que faria dali dois dias, nas horas de voo de Brasília a Manaus, onde ainda encararia longas e torturantes horas em algum transporte fretado até chegar ao destino, um sítio arqueológico recém-descoberto que revelaria, um dia, os mistérios de uma tribo além de qualquer coisa já imaginada por mentes limitadas ao eurocentrismo e impregnadas de descaso com a cultura brasileira — com ênfase à intimamente ligada aos indígenas.
Incapaz de controlar a curiosidade, suspirou derrotada e olhou mais uma vez a tuatha dé danann.
Sozinha numa mesa, com um copo transparente contendo uma bebida esverdeada, era como um oásis naquele bar cheio de pessoas desinteressantes. A luz ambiente era suave, então Amira pôde notar melhor os detalhes da mulher que lhe chamou tanto a atenção.
Ela era ruiva e tinha olhos azuis, duas belas e intensas safiras. Era o que a diferia das fadas comuns: jamais uma fada tinha os cabelos e os olhos de cores diferentes. Os cabelos eram curtos, mal tocando os ombros, volumosos e bem cacheados, e o tom avermelhado fazia contraste com a pele alva igual porcelana. Usava um vestido preto com detalhes floridos, algo tão casual e impróprio para o ambiente que revelava que ela não era muito de sair de seus domínios secretos.
“Uma típica fada celta”, pensou e esboçou um breve sorriso, que logo foi contido quando a tuatha dé danann a notou.
As duas se encararam sem demonstrações de rivalidades ou intimidações. Eram de raças e linhagens diferentes, duas criaturas que não nutriam rancor ou ódio uma pela outra, mas seguiam tradições, e uma delas era se manterem distantes por causa de tenebrosos eventos do passado que uniram sob olhos preconceituosos fadas, bruxos, magos, feiticeiros e toda a sorte de praticantes de magias. Quando se encontravam, num dos muitos acasos da vida, era comum se ignorarem, indiferentes às existência e presença umas das outras. Mas Amira e a tuatha dé danann não pareciam dispostas a repetir velhos costumes.
Algo estava para acontecer naquele bar.
Bebendo devagar o refrigerante que pedira, a jovem manipuladora de magia buscou na memória os encantamentos de percepção de realidade e os de proteção; recitou-os apenas movendo os lábios, sem emitir sons, sob o olhar firme da mulher no outro lado do salão. Os pelos dos braços estavam eriçados, o jantar de horas antes agora embrulhava o estômago, causando uma ânsia horrível de vômito.
A ruiva piscou sutilmente o olho direito.
E então algo aconteceu.
Era um bar de classe média, então havia muita gente ali com dinheiro no bolso para gastar com bebidas, petiscos e quaisquer coisas vendidas — e pouco se importariam com os valores das contas. Amira estava ali porque queria se divertir, saber qual a sensação de pertencer a um pequeno mundo que, no cotidiano, não poderia frequentar. A latinha de refrigerante que demorava a esvaziar era o máximo que pretendia e poderia gastar; e não tinha intenção alguma de enveredar-se nos prazeres das bebidas alcoólicas, uma vez que estava sob proibição severa.
Até então, exceto ela, todos ali pareciam dispostos a esbaldar; e todos, com exceção da tuatha dé danann, que se vestia como se tivesse saído de casa para ir na padaria, estavam devidamente vestidos para o ambiente.
A mulher que adentrou o bar, contudo, não aparentava ser de qualquer família nobre brasiliense, não parecia mera curiosa e tampouco vestia-se minimamente bem. O sentimento imediato que sua aparição causou nos humanos foi de repulsa e horror inominável, como se eles soubessem de sua verdadeira natureza. Maltrapilha, as roupas estavam sujas de cinzas e lama e sangue secos; os cabelos negros, bagunçados e completamente imundos, estavam presos numa enorme trança; andava descalça, e seus passos deixavam um rastro de sangue fresco para trás.
Amira engoliu em seco, o corpo vibrando diante de tamanha representação de energias negativas. Já havia ficado diante de bruxas que praticavam artes negras antes, mas nada se comparava àquilo. Era como contemplar não uma manifestação do mal, e sim o próprio mal, os demônios que nutriam as feiticeiras que escolhiam praticar os segredos profanos e abissais. Havia crueldade e pensamentos homicidas pairando aquela mulher; suas emoções eram obscuras e as mais agradáveis de serem percebidas carregavam luxúria e decadência.
Embora causasse visível desconforto nas pessoas, ela andou livremente pelo bar, indo até a mesa em que estava a única mulher negra do lugar; sentou-se diante dela, ocultando a figura ruiva que era objeto de interesse da outra. Encararam-se com frieza e rivalidade. Quando identificou a natureza mágica da brasileira, sorriu com malícia, exibindo dentes alvos e pontiagudos e uma língua enegrecida, quase viperina.
— Feiticeira também — falou, e sua voz lembrava o rosnado de um tigre.
— Iyalorixá — corrigiu Amira, lutando para manter o contato visual.
Havia apenas um fosso profundo e escuro naqueles olhos sem brilho.
— Rakshasi — disse a mulher maltrapilha.
— Bruxa.
A rakshasi aumentou o sorriso, abrindo mais a boca. O hálito fedia putrefação.
Em geral, os feiticeiros evitavam se referir a outros como “bruxos” por causa do legado pejorativo da palavra, que remetia aos tempos da Inquisição — e ficara restrita a praticantes de magia de origens consideradas demoníacas, independentemente se era uma arte branca, cinzenta ou negra. Nem mesmo quem praticava a mais sinistra das magias gostava de ser chamado de bruxo ou bruxa, exceto os praticantes espanhóis, que exibiam com grande orgulho os termos “brujo” e “bruja”, mesmo quando manipulavam a cinzenta ou branca.
Quando Amira chamou a rakshasi de bruxa, ofendeu-a profundamente.
— Diga-me, iyalorixá, é verdade que sua magia se baseia em elementos, espíritos e deuses caídos?
— Veio até aqui com intenção de me provocar? Você é indiana, não? E estamos em minha terra, onde eu possuo certa autonomia para me proteger e proteger quem eu quiser de tipos como você.
A feiticeira indiana gargalhou, e sua risada chamou a atenção de todos ali presentes. As unhas longas, negras e duras como aço arranharam a superfície da mesa, e o som do vidro riscado incomodou a brasileira. Voltando a ficar séria, lançou um olhar desafiador para a garota, que sentiu um encantamento adversário ser desfeito.
— Sorte sua, iyalorixá, que não tenho tempo para me divertir com praticantes de nível tão baixo — falou, e a língua sibilou como a de uma naja. — Eu não perderia a chance de conhecer uma das poucas feiticeiras legítimas do Brasil, alguém que dizem ser capaz de incorporar deuses caídos.
— Os deuses que sirvo não são caídos! — exclamou Amira, batendo os punhos na mesa, que rachou um pouco, mas sem se quebrar..
Metade dos corpos do bar trincou, inclusive o que a tuatha dé danann acabava de esvaziar.
A rakshasi se levantou.
— Foi um prazer conhecê-la, jovem bruxa — finalizou, num tom de zombaria.
E se afastou, passando pela ruiva sem lhe dar qualquer atenção, como se ela não estivesse ali. O ar, antes carregado de energias negativas, foi aos poucos se limpando, as cores que pareciam desbotadas retornaram e as sombras que passeavam pelas paredes desapareceram.
Aliviada, a iyalorixá suspirou. Respirou fundo, buscando o controle das ondas mágicas que escaparam quando a indiana ofendeu os deuses que lhe emprestavam parte das habilidades que dispunham para conflitos e elaborações de feitiços. Fechou os olhos castanho-escuros, pensando nas ondas do mar, no rio correndo veloz após uma intensa tempestade, no fogo ardendo numa fogueira, nas pedras rolando montanha abaixo, no vento soprando as folhas dos coqueiros, os grãos de areia de praia entre seus dedos...
— Ei, garota, não é hora de dormir — disse uma voz doce e feminina, carregada de um sotaque impreciso, mas tão suave quanto a mais perfeita nota extraída de uma harpa. — Temos um grande problema para resolver esta noite.
Ao abrir os olhos, quase teve um infarto: a tuatha dé danann sentava-se onde segundos atrás estava a feiticeira indiana.
Tão próxima, a tuatha dé danann parecia ainda mais sobrenatural, como um espectro feérico, uma entidade saída de contos mitológicos que resistiam bravamente ao tempo. O vermelho de seus cabelos cacheados adquirira um tom mais vivo, escarlate, os olhos cor de safira resplandeciam como o mais profundo e misterioso oceano azul, a pele lembrava mármore de tão alva, e até mesmo a fada mais bela do mundo seria considerada a criatura mais horrenda perto dela.
Amira tinha consciência de que estava encantada, sob efeito de um dos dons naturais de diversos povos mágicos — como fadas, elfos, tuatha dé danann, duendes, anões e gnomos —, mas não demonstrou o menor interesse de resistir. Já havia sido cansativo se controlar diante da rakshasi, que emanava apenas o pior das coisas do universo, e não queria se desgastar contra algo que lhe fazia tão bem.
— O que sabe sobre rakshasas? — a ruiva perguntou.
— São feiticeiros indianos, quase todas ligados a magia negra de origem considerada demoníaca.
— O que acha que uma rakshasi iria fazer aqui, no Brasil?
— Bem... não sei. Temos pontos de grande concentração mágica, embora quase tudo seja elemental.
— Ela demonstrou interesse em você, uma iyalorixá. Por quê?
— Não sei. Ela só me provocou. Chamou os orixás de “deuses caídos”.
— Embora sejam praticantes de magia demoníaca, eles costumam zombar de todos os deuses. Não foi algo pessoal. Mas aparecer aqui, sob aquela forma, foi bem pessoal. Pense um pouco, garota! O que há em seu país que seja do interesse de uma poderosa feiticeira indiana? E qual a ligação disso com você?
A iyalorixá tentou se recordar de algo que fosse digno de atenção; lia de quase tudo sobre arqueologia, uma vez que era sua área de interesse acadêmico e mágico — e unir história e magia se mostrou satisfatório até o momento. Lembrou-se das conversas que mantinha com alguns espíritos e entidades, mas nada nelas parecia ter o peso que a mulher ruiva dava à questão. Por fim, com um leve pesar, respondeu que desconhecia o que fosse do interesse da indiana.
— Teremos que ir à caça então — sentenciou a tuatha dé danann, levantando-se.
— “Teremos”?
— Sim. Preciso de uma guia, alguém que saiba falar o português direito e conheça os costumes e os lugares. O encantamento linguístico que estou usando não me torna uma legítima brasileira.
— Não posso sair por aí com alguém que nem sei quem é e...
— Chelli. Uma tuatha dé danann, mas acho que isso você descobriu há algum tempo.
— E o que pretende, seguindo a indiana?
— Descobrir o que ela quer e, se for algo que ameace a trégua que os praticantes de magia e os humanos fizeram, séculos atrás, detê-la. Sou uma tuatha dé danann, minha função é zelar pelo anonimato de nossa atual existência, para que mais ninguém encontre a morte numa fogueira ou na forca.
Amira ficou tensa. Independentemente do país em que vivia, um feiticeiro sabia sobre sua história e a história de outros semelhantes. No Brasil, não havia sido diferente de outros lugares, havendo casos de interferência da Inquisição, e a escravidão imposta aos negros retirados de diversos cantos do continente africano apenas tornou tudo ainda pior. Proibidas de cultuarem seus deuses, as pessoas tiveram que adaptá-los, o que resultou em novas religiões, sendo o candomblé, que servia de modelo para a magia dela, uma delas.
— Eu tenho uma viagem daqui a dois dias — disse, por fim —, então não posso demorar muito nisso. Se vamos investigar o que aquela bruxa quer, temos que ser rápidas e eficazes.
— Estou de acordo.
— E como a seguiremos?
— Seguindo o cheiro de morte que ela exala por onde passa.
Havia um sorriso de satisfação e mistérios naqueles lábios finos e róseos, e a iyalorixá, pela primeira vez desde que viu a tuatha dé danann naquele bar, não apreciou o gesto.

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