"Contos de fadas são mais que verdade; não porque nos dizem que dragões existem, mas porque eles nos dizem que dragões podem ser derrotados." G. K. Chesterton

O cordel "Quando a Morte recusou Pedro Malasartes"

Arte de Almeida Júnior
Há anos eu conheço as histórias de Pedro Malasartes, e acho que muitos também as conhecem. Ele está presente no imaginário popular brasileiro, representando a astúcia e a esperteza que tudo pode vencer e enganar.

Então, enquanto pensava num conto para um concurso (história que ainda não escrevi, por sinal), ocorreu-me que a simbologia do Judeu Errante (personagem que, por ser tão detestável, segundo contam as lendas, foi recusado de entrar no Céu e no Inferno, passando a vagar pela Terra) caberia perfeitamente para Malasartes. Afinal, se um sujeito engana todo mundo e não tem qualquer senso moral, com certeza bem recebido no Céu ou no Inferno ele seria, certo?

Foi quando apareceu a oportunidade de ressuscitar meu lado poeta e arriscar no cordel.

E assim como ocorreu com o conto A zoomagista, que foi um teste para explorar uma classe de personagem, o cordel intitulado Quando a Morte recusou Pedro Malasartes foi selecionado para uma antologia da Cartola Editora!

Nunca escrevi cordel antes. Tinha vontade, cheguei a ler sobre os versos, a métrica, estrófes... mas nunca havia me arriscado até aparecer o desafio. Desafio porque, além de eu não ter experiência alguma, sou baiano, portanto precisava garantir ingresso numa antologia sobre uma literatura tipicamente nordestina.

Fiquei feliz tanto por ter passado quanto por, em Quando a Morte recusou Pedro Malasartes dar a introdução para o conto que quero escrever, sendo um separado do outro, sem necessidade de ler um para entender o outro, mas ambos, juntos, formam um quadro da nova versão do fascinante personagem que é Pedro Malasartes.


[Trecho] "A zoomagista"

A antologia Olimpo: deuses, heróis e monstros ainda está com o financiamento coletivo aberto. Editado e a ser lançado pela Cartola Editora, reúne dezenas de escritores (incluindo eu) contando histórias inspiradas na mitologia grega.

Anteriormente, já falei um pouco sobre A zoomagista, mas ainda não mostrei nada, certo?

Para dar um gostinho, além de pedir para que apoiem (até mesmo compartilhando o link da campanha ou desta postagem), segue os primeiros parágrafos do conto.

Boa leitura.


Minha mãe é uma zoomagista. O nome é meio estranho, talvez até engraçado, mas é melhor do que “uma maga que dedica sua vida a estudar os monstros e os animais fabulosos do mundo inteiro e impedir que pessoas supersticiosas e ignorantes os matem”. Ela também aceita que a chamem de bióloga ou zoóloga, mas, em termos corretos, é zoomagista, pois ela pratica o zoomagismo, uma ciência pouco falada atualmente, mas que teve grande prestígio em épocas mais antigas, quando a mente humana aceitava melhor a existência de criaturas peculiares, apesar de o preconceito em relação a elas ser tão ou mais forte do que nos dias de hoje.
O zoomagismo, como o nome pode deixar margem para supor, é uma interessante combinação de estudos de magia antiga e conhecimentos zoológicos. Segundo contou minha mãe, ela precisou primeiro se destacar como maga, provar ser apta a manipular a realidade, conhecer sobre elementos naturais, saber nomes de planetas, constelações, encantamentos e textos fundamentais; somente depois, por possuir excelentes notas nos estudos de criaturas mágicas e animais fabulosos, pôde se especializar em zoomagismo.
Por ser um ramo um pouco mais científico da magia, não era incomum as correspondências entre minha mãe e cientistas de todo o mundo. Até porque ela conhecia a natureza como poucos, então acabava servindo de consultora a casos inteiramente corriqueiros e fora do campo do zoomagismo: um dragão-de-komodo que tinha problemas em se alimentar por má formação da dentição era um assunto menos grave do que tratar ferimentos causados pelo excesso de veneno de uma hidra, por exemplo. Em troca dessas consultorias, biólogos de inúmeros países acabavam avisando-a de suspeitas de seres fabulosos, embora fossem poucos que conhecessem realmente a profissão de minha mãe.


Livros que li #3: Março de 2019

Abril complicou muito por aqui, mas ainda não acabou. Então vamos aos dois livros que li mês passado, pois daqui a pouco preciso fazer postagem sobre os que li por esses dias.

Só li dois, mas duas leituras muito bacanas.
A orelha de Van Gogh, de Moacyr Scliar, é uma coletânea de contos bem bacana. A maioria das histórias transitam no realismo, contudo algumas se encostam no maravilhoso e no absurso, lembrando um pouco a prosa fantástica de Murilo Rubião, um de nossos mestres do realismo mágico. Scliar, contudo, dá um viés mais especial aos seus textos: a rica simbologia judaica.

O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry, com tradução de Ferreira Gullar, completa a breve lista de março. Foi quase uma relida, na verdade, mas o poeta fez uma tradução com sua graça e reler essa fábula cheia de símbolos e moral é sempre uma boa pedida.


Pré-Venda: "Olimpo: deuses, heróis e monstros"

Há algumas semanas, divulguei que um conto meu, A zoomagista, foi selecionado para uma antologia da Cartola Editora. Hoje, quero anunciar que a antologia, intitulada Olimpo: deuses, heróis e monstros, enconta-se com a pré-venda aberta, como financiamento coletivo!

Herácles levando o totó pra vacinar.
Dentre as histórias e os personagens apresentados na antologia, tem minha zoomagista tentando convencer uma ninfa a sair de um lago amaldiçoado e um sileno, de tão apaixonado, é capaz de morrer com a criatura amada; há um mundo chamando Uddorra, onde uma ninfa se apaixona perdidamente por um príncipe, ambos vivendo um amor impossível; outro príncipe, ao retornar à sua terra natal, comete um crime que nem os deuses são capazes de perdoar; e uma princesa inocente e confiante será levada a um caminho de dor e vingança, o que a fará inimiga de mortais de imortais; um grupo de super-heróis, com poderes inspirados nos Titãs, parte atrás de uma hidra, visando lhe roubar os poderes; um rapaz fugitivo acidentalmente encontra o lendário minotauro, e os dois criam um laço incomum, através de um debate sobre exist~encia, medo, imagem e preconceito; um ser mágico que leva um rapaz para conhecer seus iguais; dois pastores que se deparam com um acontecimento tão inesperado, mas capaz de mudar completamente suas vidas para sempre; Caronte, o barqueiro dos mortos, acostumado a ser apenas respeitado, mas nunca querido, um dia encontra alguém que lhe trata com simpatia; uma dríade, coitada, vai se apaixonar por um humano, mas este é apaixonado por outra pessoa; o deus Éolos, entediado em sua cidade flutuante, consegue algum entretenimento com Odisseu, mas claro que toda ação tem suas consequências e uma punição; um ousado investigador mostrará ao leitor que os famosos Doze Trabalhos feitos por Hércules foram danosos ao meio ambiente, aos animais... e à cultura indígena; os  poderosos titãs um dia reinaram sobre o mundo e todos aqueles que ousassem desafiá-los estavam fadados à destruição, mas as coisas nem sempre são como se acredita; e, por fim, após ser atacado por harpias, um jovem fazendeiro tenta reunir forças para se vingar.

Claro que isso é só uma amostra dos quase 40 contos que compõem a antologia. E, a julgar pelas conversas que tive com a maioria dos escritores, tem história para todos os gostos e tipos de leitores.

Abaixo, a lista completa de autores e os títulos de suas histórias:

Alec Silva – A zoomagista
Aline Oliveira – Destino
Aline Oliveira – No esquecimento
Ana Carolina Machado – Minotauro
Ana Cristina Rodrigues – Forma de sonhar
Caliel Alves – A desolação de Argônios
C. B. Kaihato – O julgamento de Hades
Claudia Faga – Depois do escárnio
Darlan Veit – O triunfo de Cronos
Domenico Junior – Radiante
Érulos Ferrari Filho – A moeda dos mortos
Fabiana Prieto – As flores da dríade
Fabiana Prieto – Há boas almas para se transportar
Felipe Vieira – Esquadrão Titã
Fernando Martins – Não confie nos Deuses
Giovanna Tursi Catapani – Seja meu, mais uma vez
Humberto Lima – Quem semeia vento, colhe tempestade
Jenipher Cezarini – As doze batalhas de Hércules
João Solano – A vingança da pequena princesa
Jonatas Dias – O cão e os dois pastores
Juliane Vicente – A redoma de Perséfone
Leandro Thompson – Teseu e o Minotauro
Lucas Mendes – O garoto e o Minotauro
Lucas Miguel – O luto de Orfeu
Luis Felipe Mayorga – Os crimes de Hércules
Lunna Santos – Efeito solar
Matt Uchôa – A chama de Eliina e Arvo
Matheus SIlva – Um grito no céu
Meg Mendes – A flor de Baron
Nádia Santos – O senhor do mar
Naiane Nara – Medusa
Paulo Matheus Ferrari – Ascensão
Rodrigo Barros - O plano perfeito
Rozz Messias – A ninfa
Thais Rocha – Deusa da primavera
Thais Rocha – Deusa dos mortos
Victor Macário – Amor sem sentido
Walison Lopes – O senhor do tempo
William Eugênio – Espectros da morte

E agora, meu caro, corre lá e apoie: https://www.catarse.me/contosdoolimpo

Tenho certeza que o Olimpo que formamos neste livro está divertido, emocionante e cativante, com histórias de aventura, amor, drama e, claro, algumas tragédias.

"O Cão Negro": eleito um dos melhores livros de terror de 2018


O Cão Negro foi uma novela fix-up que iniciei sem muita pretensão, em 2012, baseando no meu pavor referente a cães negros. Saí costurando referências de horror e terror aqui e dali, incluindo cenas gore, pegando lembranças de minhas idas à fazenda de meus avós paternos... criando um mosaico variado de histórias interligadas, cujo elemento principal é o espírito de um cão vingativo.

Então o publiquei, após concluir o último conto (na ordem de escrita, não a que acabou sendo adotada, numa edição recente, depois de algumas críticas sobre a sequência de histórias).

E, para minha surpresa, tornou-se um relativo sucesso (não lembro números precisos, mas arrisco que ao menos 3 mil exemplares estejam por aí, entre vendidos, baixados gratuitamente e alugados pelo Kindle Unlimited).

Agora, o site Biblioteca do Terror elegeu meu livro, ao lado de nomes consegrados na literatura de suspense e de terror do Brasil e do mundo, como uma das melhores leituras de 2018! Eu fico realmente muito contente por ter agradado tanto com essa coleção de histórias de horror e suspense.

Para 2019, talvez, venha mais uma história para quem gostou de minha incursão no medo e na violência sobrenatural.


Livros que li #2: Fevereiro de 2019

Após atrasar um pouco, finalmente vamos ao post correspondente ao mês anterior.

Li menos do que havia lido em janeiro, contudo foi bastante produtiva e com uma diversidade muito bacana.

Como sou meio obsessivo, posto as duas edições de um mesmo livro porque sim.
Lendas, um projeto do Chiaroscuro Studios, foi a primeira leitura de fevereiro. É um bom livro, com ilustrações muito bacanas, assinadas por grandes artistas que prestam seus serviços a casas publicadas famosas, como a DC e a Marvel. Carece um pouco de mais profundidade, contudo a proposta é mais expor os talentos do estúdio do que servir de material profundo para pesquisas mais amplas.

Agora, se você curte H. P. Lovecraft, O Ciclo de Yg é uma excelente pedida. Para quem não sabe, Lovecraft foi ghostwriter, tendo escrito alguns contos encomendados por pessoas que tinham até mesmo uma linha apenas de ideia. Foi o caso das três histórias que compõem esta edição publicada pela Clock Tower. Eu particularmente apreciei bastante A Maldição de Yig, por fugir muito do que estamos acostumados a ler do estranho cavalheiro.

Recentemente, revi a adaptação cinematográfica do clássico Peter Pan, lançada em 2003, então fiquei com muita vontade de ler o original, mas não o tenho ainda em minha estante (uma falta que pretendo corrigir em breve). O jeito foi apelar pra versão escrita pelo Monteiro Lobato. Foi bacana, claro, mas só me fez ficar com mais vontade ainda de ler o original!

E, por fim, concluí a segunda leitura de O ùltimo desejo, que já resenhei aqui, inclusive. Conclua tão maravilhoso quanto foi na primeira vez.

"A Lição das Uvas" e as histórias dos Guardiões das Letras

Capa assinada pela Laura SaintCroix
Esta semana, a fábula A Lição das Uvas, escrita pela Bruny Guedes, que foi a editora de A Jornada para Encontrar a Felicidade da Mamãe, estreou na Amazon. Na trama, "Radolfo, o pequeno rato branco e Guardião das Letras, precisa cumprir uma importante e complicada missão: ajudar a raposa Yulli a saborear algumas uvas verdes. Incapaz de realizar tal tarefa sozinho e confiante na bondade dos animais de outras famosas fábulas, ele parte em uma pequena excursão, mas não imaginava que a coisa poderia ser mais difícil do que supunha".

Trata-se de uma história infantil com um dos personagens recorrentes nos contos e na novela protagonizada por Rube, bebendo de três fábulas antigas e muito conhecidas de inúmeros leitores. Sou suspeito demais para ficar aqui tecendo elogios, mas garanto que é uma leitura leve, divertida e com uma linda lição moral, afinal estamos falando de uma fábula contemporânea.

Meu desejo, inicialmente, era escrever apenas os contos da Rube e alguns dos Guardiões das Letras, para explicar melhor o conceito sobre os seres que guardam todas as histórias do Universo. Quando a primeira novela da trilogia infantojuvenil estava em desenvolvimento, ficou evidente que eu não conseguiria explorar muito dos conceitos dos Guardiões, então conversei com a Bruny sobre a vontade de expandir a mitologia literária em contos e noveletas. E ela se empolgou e me perguntou se poderia escrever algo.

Bem, eu não sei exatamente quantos contos a série Contos dos Guardiões das Letras terá, afinal já ando comprometido com Paracosmos, que ainda deve render mais três ou quatro histórias, além de alguns curtos derivados. Mas vai acontecer, até porque existem outros contos, já escritos, sobre outros personagens que devem dar as caras nos dois volumes seguintes da trilogia.

Por ora, deixei nas mãos de fadas da Bruny escrever algumas histórias, e, a julgar por essa estreia tanto do projeto quanto dela, vem muita coisa boa por aí.


PseudoCrítica #8: Mulgoe [Monstrum] (2018)


SINOPSE:
Yoon Gyeom é um sujeito leal do rei Jung Jong de Joseon. Ele luta contra um monstro que ameaça a vida do rei Jung Jong e um grupo de pessoas tentando depôr o rei.

O cinema sul-coreano anda, cada vez mais, expandindo as possibilidades de histórias, e uma tendência é a de mesclar gêneros para apresentar um conto específico. E mesmo quem não conhece quase nada ou absolutamente nada da história sul-coreana, ou seu folclore, pode ser brindado com produções muito interessantes.

Monstrum, como é conhecido internacionalmente, vale-se de um registro verdadeiro, sobre o estranho "caso real que ocorreu em 1527. O rei Jungjong mudou-se para outro lugar para evitar um monstro que apareceu no palácio". Aparentemente, ninguém sabe o que era a tal criatura, e é em cima desse mistério que o filme se sustenta.

Se correr, o Monstrum pea. Se ficar, o Monstrum come.
A meu ver o maior problema do filme está no contraste entre o que é apresentado em tela e o que foi vendido em trailers: se o primeiro e parte do segundo atos brincam com o espectador, fazendo-o duvidar da existência do monstro, a divulgação praticamente entrega muito da criatura (mas nem de longe revela as melhores cenas).

Tirando esse defeito, o que temos a seguir é uma história de ação, aventura, comédia e fantasia situada num período histórico, pelo que descobri, bastante próspero a superstições (a epidemia que aparece como pano de fundo no filme, por sinal, é a mesma que serve para a série Kingdom).

Se você já assistiu a algum filme sobre pessoas caçando animais selvagens e assassinos, Monstrum não foge muito dessa fórmula, mas entrega um material sólido e divertido, com cenas de combates quase sem cortes, num único plano, sanguinolência de primeira e um grupo de protagonistas que cada um se destaca por suas habilidades.

"Tá com a peste!"
Ainda que o final pareça um pouco covarde por buscar uma solução mais feliz, é um filme que indico bastante, mesmo que não seja o mais notório produto do cinema da Coreia do Sul.

Curiosidade: segundo o Bloody Disgusting, o visual da criatura lembra bastante o do haetae. Admito que não o conhecia.

Por mais absurdo que pareça, gore não torna nenhuma história de horror uma obra-prima


Lembro-me quando completei 18 anos e me propus a escrever duas histórias, ambas altamente violentas e pesadas (ao menos para minha mente ainda adolescente), com cenas de tortura, mutilações e insinuações de sexo e estupro. Um amigo, que leu ambas, chegou a me pedir para maneirar na violência.

Com o tempo, conforme fui amadurecendo como escritor, fui aprendendo a dosar a quantidade de sangue derramada nas páginas de minhas histórias, pois compreendi que mais do que simplesmente banhar o leitor no precioso líquido da vida, o horror se faz de camadas mais profundas, coisas que nem sempre são vistas ou, na mais fina das vezes, sentida.

Não é de se admirar, por exemplo, que muitos jovens atualmente achem que violência e sexo bastam para tornar seus enredos clichês em obras adultas ou, quiçá, carregadas de um horror subversivo, pois o gore, como dizem os tais ousados escritores de horror contemporâneo, a maioria crianças encantadas com aquilo que não entendem, seria o horror primordial, sem as amarras do "politicamente correto".

A meu ver, creditar ao gore um papel fundamental na base do horror e do terror é assumir uma ignorância sem tamanho, uma vez que o horror gótico, por exemplo, pautava-se, em temas macabros, como magia negra, satanismo, zoofilia, canibalismo, violências sexuais, incestos, vampirismo e ocultismo para compor suas histórias. Mas não era incomum que muito da carnificina ficasse à cargo do leitor imaginar.

A literatura de horror é, em termos gerais, sobre o medo.

Se há o horror urbano de Poe, também há o cósmico de Lovecraft. Se há o horror ocultista de Machen, há ainda o horror perverso de Barker. Se há o horror sugestivo de Kipling, há o horror descritivo de Stoker. E conhecer essas variadas faces do horror e do terror permite ao escritor descobrir qual é o seu, auxilia na maturidade da escrita e na melhoria da ideia a ser produzida.

O gore, então, deixa de ser uma ferramenta, como anuncia o prefácio da medíocre coletânea Carnificina: Contos das Cidades Malditas, cuja resenha fiz recentemente, de ideias repulsivas e que buscam ofender o politicamente correto, ignorando os gatilhos psicólogicos (afinal, diz a turma da suposta subversão, tal coisa foi criada para tentar impedir a manifestação da arte sangrenta). Ele passa a ser um elemento complementar apenas, unindo-se a um estudo mais profundo do medo, seja do conhecido ou do desconhecido.

Escrever horror, portanto, é retratar personagens dançando não até a exaustão, caindo agonizando, suplicando por suas vidas, mas envolvidos numa histeria tão grande que acabam morrendo por não conseguirem parar de se mexer; e não uma patética cena de pessoas "gastando" suas carnes no chão, raspando-as até não sobrarem muito, como se nosso corpo fosse um pedaço de giz. Além de risível, achar que nos gastaríamos como grafite é de uma incompetência criativa muito infantil.

Horror também não é descrever, por páginas, cenas de tortura sem o menor cuidado com emoções, nem visar chocar o leitor com uma adolescente devorando completamente dois adultos e uma criança em menos de uma hora. Tal decisão apenas demonstra que o autor pouco importa com o universo de sua história e nada sabe sobre anatomia humana.

A maioria das histórias de Lovecraft consegue assustar sem derramar uma gota de sangue, pois trabalha o medo do desconhecido. Alguns contos de Poe surpreendem e amedrontam justamente pelas ações vingativas e cruéis de seus personagens. Boas histórias de fantasmas nos apavoram por nos dar respostas inquietantes sobre a vida após a morte.

Mas o patético escritor de horror gore acredita piamente que sua história só é boa se não fizer o menor sentido e tiver muitas vísceras, estupros, fezes e situações constrangedoras de tão absurdas e incoerentes com a realidade.

Por isso, em muitos casos, eu prefiro contemplar escritores de horror de verdade, e não crianças mimadas.

"A zoomagista" e pequenos avanços em "Rube 2"

There are no strange creatures by kawacy
Há alguns dias, mostrei para minha atual editora as páginas iniciais da novela que compõe a segunda parte da trilogia infantil de Rube. Seu comentário, após olhar o título, foi exatamente este:

"Isso não é meio Animais Fantásticos e Onde Habitam?"


Um comentário bem animador (sarcasmo puro meu), uma vez que eu estou rodeado de pesquisas sobre bestiários, animais fabulosos e monstros folclóricos e mitológicos, buscando extrair, de cada livro e revista, algumas criaturas que estarão presentes na segunda grande aventura da filhota.

Eu olho para muita gente achando que foi ideia da Rowling escrever histórias sobre biólogos de criaturas míticas.

E não, não pretendo copiar Animais Fantásticos e Onde Habitam e tampouco acho que preciso copiar aquilo.

Até porque eu possuo inspirações muito melhores em minha biblioteca.

Mas é engraçado que dias após essa pergunta sobre o título (e que vai acontecer muito, tenho certeza), neste domingo, acabo de saber que um conto meu, A zoomagista, foi selecionado para uma antologia cujo tema é a mitologia grega.

É justamente meu desejo de testar uma profissão raríssima no meio mágico, um elemento que foi inspirado nos antigos estudiosos que escreveram bestiários, que me fez escrever a história de uma maga que se dedicou a estudar animais fabulosos e monstros míticos ao redor do mundo.

Foi uma forma de pôr à prova se minha ideia me afastaria ou me deixaria mais próximo do Newt Scamander, pois em Rube 2 (título provisório) será uma zoomagista que apresentará a maioria das criaturas que Rube encontrará em sua nova aventura.

Acho que consegui me afastar um pouco do bruxo Newt e me aproximar do naturalista Plínio, o Velho.

Sobre o conto A zoomagista: trata-se de um relato bem simples e objetivo sobre o que é um zoomagista, o que faz, como faz e como a mãe do narrador, que é esse tipo de maga, lidou com o caso de um fauno e uma ninfa de água doce, presa num lago envenenado.

A mesma editora que, acima, perguntou sobre as similaridades dos títulos e, talvez, das propostas, ajudou-me a melhorar e deixar o conto com mais recheio. Seria um sinal de que acertei o tom e consegui meu intento de contar minha história sem ler ou ouvir um fã chato me perguntar se quero copiar sua autora favorita?

"A Jornada para Encontrar a Felicidade da Mamãe": Onde comprar?

Foi uma longa espera, com imprevistos, mas finalmente a novela infantil A Jornada para Encontrar a Felicidade da Mamãe começou a chegar nas mãos dos compradores da pré-venda!


A recepção inicial tem sido extremamente positiva, com elogios à edição e às ilustrações em aquarela assinadas pela Laura, o que me deixa bastante contente por ter conseguido entregar um trabalho bonito e atraente a adultos e crianças.

E gatos também.


Agora, com os livros chegando às casas de quem prestigiou desde o começo, posso abrir as vendas para quem não comprou na época, seja por não ter dinheiro ou por preferir ver o material primeiro.


Portanto, para quem quiser ler o e-book, ele está na Amazon, por apenas R$ 5,99. É uma edição composta por todos os desenhos em nanquim da edição impressa, 5 aquarelas selecionadas (infelizmente o Kindle deixa tudo em tons cinzentos) e com uma capa especialmente feita para leitores digitais. Segundo o site, a versão possui média de 155 páginas.

Para quem prefere livro físico, a edição com 132 páginas, dezenas de ilustrações nanquim, 17 aquarelas coloridas, conto extra e marcadores de páginas inclusos pode ser adquirida diretamente comigo, por R$ 40,00 (com frete incluso)


Para breve, haverá uma edição vendida na Amazon.

E cogito, se houver interesse, numa edição simples, com as aquarelas em escala de cinza, o que deve baratear bastante o valor final do livro para o leitor.

*todas as fotos desta postagem fora fornecidas pelos compradores da pré-venda.

PseudoCrítica #7: Spider-Man - Into the Spider-Verse (2018)


SINOPSE:
Miles Morales é um jovem negro do Brooklyn que se tornou o Homem-Aranha inspirado no legado de Peter Parker, já falecido. Entretanto, ao visitar o túmulo de seu ídolo em uma noite chuvosa, ele é surpreendido com a presença do próprio Peter, vestindo o traje do herói aracnídeo sob um sobretudo. A surpresa fica ainda maior quando Miles descobre que ele veio de uma dimensão paralela, assim como outras variações do Homem-Aranha.

Há um tempo, numa conversa com amigos, comentei sobre meu desânimo com a nova versão do Homem-Aranha que a Marvel nos trouxe. Segundo reboot em tão pouco tempo, o estúdio precisou fazer duvidosas modificações no personagem, além de apelar à máxima quanto mais CGI, melhor para vender.

Então, quando anunciaram Spider-Man: Into the Spider-Verse (ou Homem-Aranha no Aranhaverso, no português), nao fiquei lá muito animado, mesmo que se tratasse de uma animação (péssima brincadeira com palavras, Alec).

Parte do elenco de voz desta animação maravilhosa.
Mas eis que o filme, que usa uma técnica completamente nova de animação, com um roteiro relativamente simples, mas com ritmo quase frenético, ótimas sacadas humorísticas, sem medo de mesclar referências Marvel e estilos, conseguiu a proeza de ser altamente elogiado, tornando, assim, a Sony o estúdio que, após falhar no primeiro reboot do Homem-Aranha, trazer o MELHOR FILME DO AMIGO DA VIZINHANÇA!

E não é por menos que mereceu levar a estatuaeta de Melhor Animação no Oscar deste ano.

Múltiplas Aranhas
Se Deadpool conseguiu fazer um filme decente com um personagem desbocado, fazendo uso de muita violência gráfica, quebra de quarta parede e alguns outros recursos metalinguísticos, Spider-Man: Into the Spider-Verse vai ainda além, estabelecendo um universo já conhecido por quem aprecia quadrinhos, contudo quase inteiramente novo a quem conhece apenas Peter Parker.

Aliás, a animação é um prato cheio de referências, autoparódias e memes, conseguindo, sem perder o ritmo da história, provocar gargalhadas e subverter, à medida do possível, elementos bastante gastos em produções de super-heróis.

Olha a dancinha!
Por falar em história, ela é muito simples, e com algumas surpresas, mas nada tão imprevisível, mas tão bem executada e com uma técnica de animação tão maravilhosa que é impossível não se sentir fascinado pelo que é contado. O design da cidade e dos personagens, por sinal, consegue alternar do futurístico ao mais underground, do mais proporcional ao caricato.

As cenas de ação, às vezes com uma pegada mais gibi, é de encher os olhos. A trilha sonora, meus caros, é muito bem encaixada, agitando quando precisa agitar e comovendo quando precisa comover.

Visualmente espetacular.
Enfim, é um baita filme para fãs e não-fãs, para adultos e para crianças. E, sobretudo, se você não aguenta mais tantos reboots do mesmo personagem e quer conhecer muitos vilões, novas versões do Cabeça-de-Teia, talvez esteja aqui uma franquia que mereça sua atenção.

Cada pôster lindo tem este filme!
Por fim, pequeno spoiler da melhor cena pós-crédito da história do cinema: