"Contos de fadas são mais que verdade; não porque nos dizem que dragões existem, mas porque eles nos dizem que dragões podem ser derrotados." G. K. Chesterton

Gêneros Literários #30: Hopepunk

Há algumas semanas, num chat com alguns amigos, fui apresentado a um gênero (ou movimento) literário que surgiu para representar, de maneira política (azar seu se acha que escrever não é um ato político), um tom de resistência diante dos tempos em que vivemos.

Em geral, eu olho meio torto para os sufixos punk literários que encontro, mas este, de verdade, chamou bastante minha atenção.

"Game of Thrones may not be hopepunk, but Jon Snow is."
["Game of Thrones talvez não seja hopepunk, mas Jon Snow é."]
Toda informação que iremos precisar vem da Vox, que publicou um artigo bem legal sobre o subgênero, intitulado Hopepunk, a mais recente tendência de contar histórias, é tudo sobre otimismo armado, com a chamada "Na era do Trump e da mudança apocalíptica, o hopepunk é um modelo de narrativa para a resistência — e se apega à sua humanidade a todo custo".

"'O oposto de grimdark é o hopepunk', declarou Alexandra Rowland, uma escritora de Massachusetts, em um post no Tumblr de duas frases em julho de 2017. 'Passe adiante'."

"Dependendo para quem você pergunta, o hopepunk é tanto um clima quanto um espírito como um movimento literário definível, uma mensagem narrativa de 'continue lutando, não importa o que aconteça'. Se isso parece muito amplo — afinal, não são todos os personagens fictícios lutando por alguma coisa? —, então, considere o próprio conceito de esperança, com todas as implicações de amor, bondade e fé na humanidade que abrange.

"Agora, imagine essa série de ideias confortáveis, não como um estado de otimismo brilhante, mas como uma escolha política ativa, feita com total autoconsciência de que as coisas podem ser sombrias ou mesmo francamente sem esperança, mas você vai continuar esperando, amando, sendo gentil mesmo assim. Por meio desse enquadramento, a ideia de escolher a esperança torna-se tanto um ato existencial que afirma sua humanidade quanto uma forma de resistência contra cosmovisões cínicas que descartam a esperança como uma poderosa força de mudança.

"Para entender o lugar que o hopepunk ocupa sob o guarda-chuva narrativo mais amplo, ajuda a entender suas origens e como ele se transformou em um fenômeno que, em 2018, finalmente alcançou o mainstream.

Quando pressionada por outros usuários do Tumblr para expandir seu post de duas frases que cunhou o termo, Rowland elaborou sobre o que ela quis dizer com 'hopepunk', tocando em temas presentes em sua própria psique e no espírito de resistência e agitação política todos em volta dela:

"'Hopepunk diz que genuinamente e sinceramente se importar com algo, qualquer coisa, requer bravura e força. Hopepunk não é sempre sobre submissão ou aceitação: é sobre se levantar e lutar pelo que você acredita. É sobre defender as outras pessoas. Trata-se de EXIGIR um mundo melhor e mais amável, e realmente acreditar que podemos chegar lá se nos importarmos um com o outro o máximo que pudermos, com cada gota de poder em nossos pequenos corações.'

"Rowland estava respondendo à ideia de grimdark — um descritor literário de textos e mídias de gênero que evoca uma visão penetrante, sombria, pessimista ou niilista do mundo. Esses são os mundos da era moderna de Batman, Breaking Bad, The Walking Dead e tantas outras propriedades da cultura pop contemporânea — universos nos quais a crueldade é um dado e os sistemas sociais estão destinados a trair ou decepcionar.

"No entanto, ficou imediatamente aparente na definição expandida de Rowland que ela também estava respondendo a um estado de espírito do mundo real. 'Eu estava tendo muitos sentimentos sobre a catastrofização e o desespero que eu estava vendo entre meus círculos sociais na época', disse Rowland à Vox no início deste mês. 'Tudo era novo e diferente de repente.'

A definição inicial de Rowland de hopepunk como 'o oposto do sombrio' abraçou o momento político atual, inspirando-se em uma série de inspirações estabelecidas sobre como agir diante do que parece estar invadindo a escuridão. Em sua continuação, ela ofereceu exemplos de figuras políticas míticas e do mundo real: 'Jesus, Gandhi, Martin Luther King, Robin Hood e John Lennon' — heróis que escolheram resistir radicalmente em climas políticos injustos e imagine mundos melhores.

"Se você está pensando 'Tudo bem, mas se o hopepunk é uma questão de lutar contra uma força opressiva, isso não faria com que quase tudo fosse pego de surpresa?”, então você não está sozinho! As amplas pinceladas da definição de Rowland significam que muitas coisas podem parecer hopepunk, contanto que contenham um personagem que esteja resistindo a algo. Por exemplo, sua explicação original postula que The Handmaid's Tale é um exemplo de hopepunk, porque mesmo que o mundo dessa história seja uma distopia sombria, o personagem principal nunca para de lutar contra o sistema.

"No entanto, à medida que o termo ganhou uma ressonância mais ampla, alguns parâmetros distintos emergiram que alinham mais claramente o hopepunk com tendências estéticas e literárias específicas, e o pintam como um contraponto aos outros. Podemos definir esses parâmetros livremente como:

  • Uma estética armada de suavidade, salubridade ou fofura — e talvez, mais genericamente, um clima de gentileza conscientemente escolhida. 'Ser gentil não é uma fraqueza', escreveu Nikita Mor em um ensaio de 2017 sobre suavidade. 'É o que te faz forte.'
  • Uma cosmovisão que argumenta que a luta para construir sistemas sociais positivos é uma luta que vale a pena lutar. 'Sentir-se resignado não é o hopepunk', escreveu Rowland em sua definição expandida.
  • Uma ênfase na construção da comunidade através da cooperação, e não do conflito.
  • Uma representação da luta para alcançar o progresso humano como algo permanente, sem um final 'feliz' fixo. Por exemplo, ver a spin-off de Buffy the Vampire Slayer, Angel, que termina apenas antes da grande luta clímax em que todos os nossos heróis estão irremediavelmente em desvantagem.
  • Um senso de autoconsciência sobre o armamento da bondade e do otimismo — e até a própria emoção — em face dessa luta. Como Rowland notou em sua definição do termo, 'Chorar também é hopepunk, porque chorar significa que você ainda tem sentimentos, e sentimentos são como você sabe que está vivo”."
O artigo ainda se demora por dezenas de parágrafos, mas acredito que a definição tenha fica clara, combinando bastante com os tempos em que vivemos, em que resistir, ter esperança e lutar são verbos poderosos contra dias sombrios.

PseudoCrítica #6: Kingdom - 1ª Temporada (2019)


SINOPSE:
Estranhos rumores sobre a doença do rei deixam todos aterrorizados. Agora, o príncipe herdeiro é a única esperança contra a misteriosa epidemia.

Eu não sou muito fã de séries (embora tenha visto algumas ano passado, conforme os temas foram me interessando), mas sou apaixonado pelo cinema sul-coreano, que tem se mostrado muito diversificado, com produções de qualidade, cobrindo diferentes gêneros.

E não sou muito fã de zumbis, como um todo.

Mas eu realmente preciso indicar Kingdom para vocês hoje.

Quem não fica sobrecarregado às vezes, né?
Segundo a Wikipédia, "a série é definida na época da Dinastia Joseon (1392-1897)", e narra "a história de um príncipe herdeiro" que começa a investigar uma misteriosa praga "que tem assolado o país"; e ainda no primeiro episódio ficamos sabendo as origens disso: a ambição da rainha, que deseja que seu filho ainda não-nascido assuma o trono, e seu pai, que obriga um médico a aplicar uma planta que "ressuscita" o falecido rei, mantenho-o vivo até a criança nasça e se torne o herdeiro legítimo.

Ou seja, a produção é bastante simples em sua trama, e a cada episódio a escala da infecção vai se tornando maior e mais desafiadora, sobretudo por erros simples dos personagens (inclusive protagonistas). Não é raro a sensação de que, se determinado personagem não tivesse feito uma coisa, a epidemia não teria tomado proporções tão ameaçadoras.

"Mau dia, mau dia..."
Por falar em personagens, de antagonistas a protagonistas, passando por coadjuvantes, as atuações são muito boas, e cada um tem sua personalidade bem definida, incluindo os mais caricatos e aqueles com maior carga dramática.

O roteiro (assinado por um único autor, o que é um ponto extremamente positivo, pois permite maior coesão e sentido lógico dos eventos) ainda é pontuado por fortes críticas sociais (para quem não acompanha o cinema sul-coreano, é algo bastante comum, e nada tem de lacração), mostrando como nobres buscam sua própria sobrevivência e não medem esforços em sacrificar plebeus.

E quando a epidemia de zumbis (ou monstros) se torna um problema conhecida por todo o país, a guerra civil se inicia, e um dos lados vê na infestação um tipo de arma biológica, usada para controlar os mais fracos e usar para derrotar o adversário político, que acaba se tornando não apenas o príncipe herdeiro, como também uma espécie de salvador da nação, representando o lado oposto da briga de classes sociais.

E a guerra civil vai começar...
Pela metade da primeira temporada (que conta com 6 episódios), revelações e algumas surpresas rendem boas reviravoltas, ficando evidente que, embora o elemento fantástico seja um atrativo (para quem gosta de zumbis), Kingdom é, na verdade, um drama de ação sobre política, onde os verdadeiros monstros não são os mortos-vivos devoradores de carne, e sim quem engana, trai e busca, numa sede desenfreada, por poder, conquistando-o em cima de mortes e miséria.

Bestiário #6: Híbridos humano-pássaro

Continuando a série de postagens sobre criaturas híbridas, com a intenção de servir de material introdutório a curiosos e escritores de fantasia, tomando como base o artigo na Wikipédia [em inglês], com informações complementares extraídas de outros sites ou artigos, além de, eventualmente, livros que eu dispor em minha biblioteca.

Para esta terceira parte, vamos conhecer algumas criaturas meio humanas, meio aves que povoam as mitologias e o folclore de diversas partes do mundo.

Alkonost
Autoria dessconhecida
Alkonost é o pássaro do paraíso na mitologia eslava e do folclore russo. Ela tem o corpo de um pássaro com rosto de mulher. O nome Alkonost vem de semideusa grega Alcíone transformada pelos deuses em um martim-pescador.

A Alkonost se reproduz botando seus ovos na costa marítima e depois colocando-os na água. O mar então se acalma por seis ou sete dias ao ponto que os ovos chocam, formando uma tempestade.

Para a Igreja Ortodoxa Russa, Alkonost personifica a vontade de Deus. Ela vive no paraíso, mas vem para o nosso mundo para entregar mensagens. Sua voz é tão doce que qualquer pessoa que a ouve pode esquecer de todas as coisas. Diferente de Sirin, criatura similar, ela não é maldosa.

Gamayun
Gamayun by baklaher
Gamayun é uma ave profética do folclore eslavo e da mitologia russa. É um símbolo de sabedoria e conhecimento e vive em uma ilha no leste mítico, perto do paraíso. Segundo a lenda, é ela quem espalha mensagens e profecias divinas, e sabe tudo de toda a criação, sobre os deuses, os heróis e o homem.

Como Sirin e Alkonost, outras criaturas igualmente derivadas dos mitos gregos e da mitologia da sirene, a Gamayun é normalmente descrita como um grande pássaro com a cabeça de uma mulher.

Harpias
Harpy by znodden
As harpias (em grego, αρπυια) são criaturas da mitologia grega, frequentemente representadas como aves de rapina com rosto de mulher e seios.

Na história de Jasão, as harpias foram enviadas para punir o cego rei trácio Fineu, roubando-lhe a comida em todas as refeições. Os argonautas Zetes e Calais, filhos de Bóreas e Orítia, libertaram Fineu das harpias, que, em agradecimento, mostrou a Jasão e os argonautas o caminho para passar pelas Simplégades. Eneias e seus companheiros, depois da queda de Troia, na viagem em direção à Itália, pararam na ilha das harpias; mataram animais dos rebanhos delas, atacaram-nas quando elas roubaram as carnes, e ouviram de uma das harpias terríveis profecias a respeito do resto da sua viagem.

Segundo Hesíodo, as harpias eram irmãs de Íris, filhas de Taumante e a oceânide Electra, e seus nomes eram Aelo (a borrasca), Celeno (a obscura) e Ocípete (a rápida no voo). Higino lista os filhos de Taumante e Electra como Íris e as harpias, Celeno, Ocípete e Aelo, mas, logo depois, dá as harpias como filhas de Taumante e Oxomene. Ainda são referidas na Eneida de Virgílio como residindo nas Estrófades, um pequeno arquipélago do mar Jónico, à entrada do Orcus, ou numa gruta em Creta, por Apolónio.

Inmyeonjo
Autoria desconhecida
Inmyeonjo (literalmente, ave de rosto humano) é uma criatura imaginária que aparece nos mitos coreanos como um pássaro com rosto humano. A maioria deles é mulher e alguns são do sexo masculino.

Inmyeonjo é conhecido como um pássaro sagrado que conecta o céu com a terra, muitas vezes aparecendo no mural antigo túmulo de três reinos da Coréia. No caso de Goguryeo, pode ser encontrado em vários murais do túmulo, como os túmulos do Condado de Anak, os antigos túmulos de Dukheungri, o Samsilchong e o Mooyongchong. Nomeados como Cheonchu (天 秋) e Mansei (萬歲) nas antigas tumbas de Dukheungri em Nampo, Província do Sul do Pyongan em 1976, eles são um símbolo de longevidade, conhecido por viver por mil anos.

Por outro lado, há algumas opiniões de que é Kalaviṅka por causa da forma das asas. Kalaviṅka é uma criatura imaginária que conta as palavras do Buda que aparecem em antigos mitos indianos e textos budistas.

Kalaviṅka
Kalaviṅka by Yáng
Kalaviṅka (sânscrito: कलविङ्क kalaviṅka; chinês: 迦 頻 迦 Jiālíngpínjiā; japonês: Karyōbinga [迦陵 頻 迦], coreano: 가릉빈가; birmanês: Thai; tailandês: การเวก) é uma fantástica criatura imortal no budismo, com uma cabeça humana e um torso de pássaro, com cauda longa e fluida.

Diz-se que o kalaviṅka habita na terra pura ocidental e tem a fama de pregar o Dharma com sua bela voz. Diz-se que ele ainda está solto dentro de sua casca de ovo. Sua voz é um descritor da voz do Buda. No texto japonês, ele passa por vários títulos, como myōonchō (鳥 鳥, pássaro soando requintado), kōonchō (好 音 鳥, pássaro que soa bem), entre outros.

Edward H. Schafer observa que na arte religiosa do Leste Asiático o Kalaviṅka é frequentemente confundido com o Kinnara, que também é uma criatura mítica híbrida metade-humana metade-pássaro, mas que os dois são na verdade distintos e não-relacionados.

Kinnara
Kinnara by AYUVOGUE
Um kinnara é uma figura da mitologia budista e hindu, um amante e um músico celestial que na Índia é metade humano e metade cavalo e no Sudeste Asiático é metade humano e metade ave. Nesta última região, os kinnaras (masculino) e as kinnaris são duas das personagens mitológicas mais populares, seres benevolentes que se acredita terem vindo dos Himalaias e frequentemente velam pelo bem estar dos humanos em tempos de tumulto ou de perigo. O seu carácter é descrito no Adi Parva do Mahabharata na primeira pessoa: “Nós somos amantes eternos e amados. Nunca nos separamos. Somos eternamente marido e mulher; nunca nos tornamos mãe e pai. Nenhum filho é visto no nosso colo. Somos amante e amado sempre abraçados. Entre nós não permitimos qualquer terceira criatura pedindo afeto. A nossa vida é uma vida de prazer perpétuo.

São também descritos em vários textos budismo, nomeadamente no Sutra do Lótus.

Na mitologia do Sudeste Asiático, as kinnaris são representadas como metade mulher e metade ave. São uma das muitas muitas criaturas que habitam a mítica floresta Himavanta. Têm a cabeça, torso e braços de mulher e asas, cauda e pernas de cisne. São conhecidas pela sua dança, canções e poesia, e são um símbolo tradicional da beleza, graça e habilidade femininas.

O sinólogo e historiador americano Edward H. Schafer salientou que na arte religiosa da Ásia Oriental o kinnara é frequentemente confundido com Kalaviṅka, outra criatura fantástica e imortal que também é metade ave e metade humana, não obstante serem duas criaturas distintas e sem relação uma com a outra.

Lilitu (ou Lilith)
Estátua babilônica em terracota, a 2 000 a.C. - 1 500 a.C.
Lilith, em hebraico: לילית, em antigo árabe: ليليث, foi uma deusa adorada na Mesopotâmia e na Babilônia, associada com ventos e tempestades, que se imaginavam ser portadores de enfermidades e morte.

A imagem de Lilith, sob o nome Lilitu, apareceu primeiramente representando uma categoria de demônios ou espíritos de ventos e tormentas na Suméria por volta de 3 000 a.C. Muitos estudiosos atribuem a origem do nome fonético Lilite por volta de 700 a.C. Na Suméria e na Babilônia ela ao mesmo tempo que era cultuada era identificada com os demônios e espíritos malignos. Seu símbolo era a lua, pois assim como a Lua ela seria uma deusa de fases boas e ruins. Alguns estudiosos assimilam ela a várias deusas da fertilidade, assim como deusas cruéis devido ao sincretismo com outras culturas.

Ela é também associada a um demônio feminino da noite que originou na antiga Mesopotâmia. Era associada ao vento e, pensava-se, por isso, que ela era portadora de mal-estares, doenças e até mesmo da morte. Porém algumas vezes ela se utilizaria da água como uma espécie de portal para o seu mundo. Também nas escrituras hebraicas (Talmud e Midrash) ela é referida como uma espécie de demônio.

Sirenas
Ulysses and the Sirens by John William Waterhouse
Sereia ou sirena é uma figura da mitologia, presente em lendas que serviram para personificar aspectos do mar ou os perigos que ele representa. Quase todos os povos que dependiam do mar para se alimentar ou sobreviver, tinham alguma representação feminina que enfeitiça os homens até se afogarem. O mito das criaturas híbridas, representadas na mitologia grega, como um ser que continha o corpo de um pássaro e a delicadeza de uma mulher. Ao longo do tempo, transfiguram-se na Idade Média em mulheres metade peixe.

A palavra da língua portuguesa "sereia" (do português arcaico serẽa) e suas equivalentes em outras línguas latinas derivam do grego antigo Σειρῆν no singular (Σειρῆνες no plural), Seirến, enquanto a palavra sirena deriva de Σειρήνα, Seirína, nomes de um ser mitológico. No português, os equivalentes masculinos das sereias são chamados de tritões, nomes de seres da mitologia grega que não estavam relacionados às antigas sirenas da mitologia.

A mitologia grega foi a quem mais colaborou com o imaginário ocidental. Em 1100 a.C., eles criaram não só as sereias como as sirenas: mulheres-pássaros que causavam naufrágios ao distrair marinheiros com a voz. Diferentemente das mulheres-peixe, nunca se apaixonavam por humanos. Eram filhas do deus-rio Aqueloo, criadas para serem amigas de Perséfone, filha de Zeus e Deméter. Filhas do rio Achelous e da musa Terpsícore, tal como as harpias, habitavam os rochedos entre a ilha de Capri e a costa da Itália. Eram tão lindas e cantavam com tanta doçura que atraíam os tripulantes dos navios que passavam por ali para os navios colidirem com os rochedos e afundarem. Odisseu, personagem da Odisseia de Homero, conseguiu salvar-se porque colocou cera nos ouvidos dos seus marinheiros e amarrou-se ao mastro de seu navio, para poder ouvi-las sem poder aproximar-se. As sereias representam na cultura contemporânea o sexo e a sensualidade.

Sirin
Slavic mythology. Sirin by Vasylina
Sirin é uma criatura mitológica de lendas russas, com a cabeça e o peito de uma mulher bonita e o corpo de um pássaro (geralmente uma coruja). Segundo o mito, os sirins viviam em Vyraj ou ao redor do rio Eufrates.

Essas meias-mulheres meio-aves baseiam-se diretamente nos mitos gregos e depois no folclore sobre as sirenas. Geralmente eram retratadas usando uma coroa ou um nimbo. Sirins cantaram canções bonitas para os santos, prevendo alegrias futuras. Para os mortais, no entanto, os pássaros eram perigosos. Homens que as ouviram esqueceriam tudo na terra, os seguiriam e finalmente morreriam. As pessoas tentariam se salvar de sirins atirando em canhões, tocando sinos e fazendo outros ruídos altos para assustar o pássaro. Mais tarde, a imagem das sirins mudou e elas começaram a simbolizar a harmonia mundial (por viverem perto do paraíso). As pessoas naqueles tempos acreditavam que apenas as pessoas felizes podiam ouvir uma sirin, enquanto apenas muito poucos podiam ver uma, porque ela é tão rápida e difícil de pegar como a felicidade humana. Ela simboliza alegria eterna e felicidade celestial.

A lenda de sirin pode ter sido introduzida na Rússia pelos mercadores persas no século VIII ou IX. Nas cidades de Chersonesos e Kiev eles são frequentemente encontrados em cerâmica, pingentes de ouro, mesmo nas fronteiras dos livros do evangelho dos séculos XII. Pomors freqüentemente retratava sirins nas ilustrações do Livro do Gênesis como pássaros sentados em árvores paradisíacas.

"Os Crimes de Grindelwald" contra a representatividade

Há algum tempo, escrevi uma postagem sobre representatividade. Mais ou menos, há dois anos.

De lá para cá, tenho tentado inserir personagens representativos, conforme possível e necessário, mas sem, contudo, jamais forçar a barra. Acredito, sim, que representatividade é algo muito importante e deve ser incentivado, mas discordo veementemente que seja algo obrigatório e que deva ser feito por fazer.

Para o segundo caso, o filme Animais Fantásticos - Os Crimes de Grindelwald nos mostra algumas importantes lições.

Tá todo mundo perdido neste filme.
Rowling sempre esteve envolvida em polêmicas sobre uma tardia representatividade em sua principal obra, a franquia Harry Potter, com informações reveladas por meio de tweets ao longo dos anos, depois de concluir os sete livros da saga. De Dumbledore gay (embora seja algo com alguma menção controverso nos livros) a Hermione negra (na peça teatral A Criança Amaldiçoada), ela coleciona tretas.

Recentemente, contudo, mostrou-se "inclusiva" ao escalar a atriz Claudia Kim para viver a personagem Nagini, uma criatura bastante conhecida pelos fãs da saga, contudo nunca antes revelada sua verdadeira natureza: uma bruxa amaldiçoada que se transforma em cobra e, pouco a pouco, essa transformação vai se tornando irreversível. Um segredo guardo, segundo a escritora, por meros 20 anos.

E aqui começam alguns problemas.

Reuniram algumas pessoas reclamando de como era um tropo nocivo a amaldiçoada mulher asiática escrava/serva de um homem branco maligno, o Voldemort. Rowling, claro, respondeu às críticas, e um elemento me chamou muito a atenção: "Naga é uma cobra mística da mitologia indonésia, daí o nome Nagini. Elas são às vezes descritas como seres com asas, ou metade humanos, metade cobras. Na Indonésia há vários grupos étnicos, como javaneses e chineses", ela responde.

Ao consultar a Wikipédia, deparamo-nos com o seguinte sobre a Indonésia: "Há cerca de 300 diferentes grupos étnicos nativos e 742 línguas e dialetos diferentes no país. A maioria dos indonésios é descendente de povos de língua austronésia, cuja origem pode ser atribuída ao antigo idioma proto-austronésio, que possivelmente se originou na ilha de Taiwan. Outro grande grupo são os melanésios, que habitam leste da Indonésia. O maior grupo étnico são javaneses, que compreendem 42% da população e são politicamente e culturalmente dominantes. Os sundaneses, malaios e madureses são os maiores grupos não-javaneses. Um sentimento de nacionalidade indonésia coexiste com fortes identidades regionais. A sociedade é, em grande parte harmoniosa, embora existam tensões sociais, religiosas e étnicas que têm provocado uma violência horrível. Os indonésios de origem chinesa são uma minoria étnica influente que compõe entre 3% e 4% da população".

Mesmo que levemos em conta que uma das seis religiões oficiais do país seja o hinduísmo, não tem como assegurar que a Naga seja uma criatura originária daquele país. Na verdade, o povo Naga é bastante mencionado nas lendas hindus e, posteriormente, budistas, estando sempre numa luta mortal contra homens e deuses, ora como monstros malignos, ora como seres benignos ou em busca de redenção.

Há, contudo, sim, menção a Naga em períodos "medievais" indonésios, como ressalta a historiadora Siwara Tripalka: "Nāginī é a palavra em sânscrito para uma nāga fêmea – uma serpente, ou demônio-serpente. A palavra também é encontrada no javanês antigo, na língua malaia e outras similares. Eu nunca li Harry Potter ou literatura relacionada a HP, e nunca vi os filmes, mas digo isso caso você queira saber qual é a etimologia da palavra".

Portanto, temos uma informação parcial fornecida para justificar a presença de uma atriz sul-coreana para interpretar uma bruxa amaldiçoada que foi encontrada na Indonésia. Seria como dizer que japoneses e chineses são iguais (o que pode ser visto, sim, como uma forma de preconceito étnico); ou como tanto faz se é sul-coreana ou indonésia, são tudo a mesma coisa. Ou pior: levando em conta o que Rowling apontou, como se sul-coreana e chinesa fosse a mesmíssima coisa!


Se não bastassem esses deslizes, a personagem de Kim, Nagini, é uma personagem que não traz peso algum à trama (igual diversos momentos do filme, tão carregados de fanservice que só serve para alimentar o interesse numa história com potencial quase completamente não-explorado). Sua melhor cena é a sua apresentação e, segundos depois, a transformação. A partir daí, ela fica fadada a sua sina: servir de companheiro a um homem branco, não a diferenciando de nenhum outro tropo ou estereótipo exaustivamente explorado. Nagini não tem peso nem voz, está sempre acuada e apavorada, e isso nem é trabalhado, então fica a pergunta de por que ela está ali mesmo? (É um problema com a maioria das personagens femininas de Os Crimes de Grindelwald, por sinal.)

Mas há mais um problema no filme, e ainda se refere aos núcleos esterotipados: o personagem de William Nadylam, Yusuf Kama. Em poucas palavras, embora o roteiro tente lhe dar relativa importância, ele está ali apenas por puro papel de encher alguma linguiça, trazendo à trama uma subtrama um tanto desnecessária envolvendo a mulher negra servindo de objeto de desejo ao homem branco (se foi uma crítica ao racismo, não sei, mas não me agradou) e revelações quase nada impactam o espectador.

Ao fim, a sensação de representatividade do filme é completamente falha, torta e ruim, repetindo estereótipos já vistos, o que só agrava os problemas de um roteiro preguiçoso e confuso.



Gêneros Literários #29: Gaslamp Fantasy/Gaslight Fantasy

Aneriormente, ao apresentar o dreampunk, fechei a postagem com menção a um gênero que, segundo algumas discussões em fóruns, possuía relações com o gênero cuja principal fonte de inspiração são os sonhos e toda sua carga emocional e simbólica.

Hoje, vamos descobrir se existem tais similaridades.

(Lembrando que todo artigo usado aqui, assim como as ilustrações, quando possível, possui link para a fonte, no idioma original.)

Autoria desconhecida
Também conhecido como romance gaslight (gaslight romance, no original), segundo a Wikipédia, "é um subgênero de fantasia e ficção histórica. De um modo geral, esse reino particular da fantasia emprega um ambiente vitoriano ou eduardiano. O gênero não deve ser confundido com o steampunk, que geralmente tem mais uma borda super-científica e um tom ucrônico. A gaslamp fantasy também difere da fantasia clássica vitoriana/eduardiana ou pura fantasia no estilo de Tolkien ou de Lewis Carroll ou de romances policiais históricos no estilo de Anne Perry ou June Thomson pelos elementos, temas e assuntos sobrenaturais que ele apresenta. Muitos de seus tropos, temas e personagens das ações derivam da literatura gótica — um gênero de longa data composto de traços românticos e horríveis e motivado pelo desejo de despertar medo, apreensão e outras emoções intensas no leitor — e pode ser descrito como uma tentativa de modernizar o goticismo literário".

"O termo gaslamp fantasy foi cunhado pela primeira vez em 26 de abril de 2006, pela artista Kaja Foglio para diferenciar sua história em quadrinhos, Girl Genius, da ficção convencional steampunk.

"'Eu chamei isso de gaslamp fantasy porque, na época em que estávamos trazendo Girl Genius, havia uma história em quadrinhos chamada Steampunk nas prateleiras e eu não queria nenhuma confusão. Além disso, eu nunca gostei muito do termo steampunk para o nosso trabalho, ele é derivado do cyberpunk (um termo que eu acho que se encaixa bem no gênero), mas não temos punk, e temos mais do que apenas vapor, e usando um nome diferente parecia apropriado. Eu me lembrei mal de um termo que eu havia encontrado no prefácio de um livro de H. Rider Haggard, onde o autor estava falando sobre Jules Verne, H. G. Wells, Rider Haggard e esse tipo de material de aventura pré-pulp, e veio com "Gaslamp Fantasy". Eu me senti um pouco tola quando descobri que tinha feito meu próprio mandato, mas funciona e eu gosto disso.' - Kaja Foglio, autora de Girl Genius.

"Girl Genius, apesar de ficção científica ambientada na Europa do século XIX, não tem uma ênfase firme na fantástica tecnologia da Revolução Industrial. Elementos de outros tipos de ficção são apresentados, incluindo criaturas mágicas e míticas, e o elemento científico é menos proeminente. Também inclui steampunk, assume elementos de biologia sci-fi contemporânea, como cyborgs de relógio, criaturas do tipo Frankenstein produzidas em massa e outros monstros.

"Geralmente, o termo refere-se à ficção baseada em um ambiente de estilo vitoriano, semelhante ao steampunk, mas com uma ênfase mais ampla. As histórias geralmente não são tão focadas no maquinário do período (ou, muitas vezes, em qualquer máquina), tomam mais liberdades com o período de tempo real e podem conter elementos de outros gêneros."

No TV Tropes, são mencionadas algumas obras que se encaixam no gênero: os filmes O Castelo Animado, Stardust (baseado no livro homônimo, de Neil Gaiman) e Van Helsing; e a série de livros Fronteiras do Universo, de Philip Pullman.

Enfim, não há muitas similaridades com o dreampunk, exceto que ambos os gêneros se inspiram numa Inglaterra mais fantástica, onde tecnologia e magia costumam andar lado a lado.

Arte do Dia #647

Um pouco antes de Pantera Negra colocar em alta o afrofuturismo, a estilista Lisa Farrall, em 2016, criou uma linha de vestimentas inspirada na cultura africana, chegando a montar visuais dignos de personagens afrofuturistas e de fantasia épica.