Bestiário #6: Híbridos humano-pássaro

Continuando a série de postagens sobre criaturas híbridas, com a intenção de servir de material introdutório a curiosos e escritores de fantasia, tomando como base o artigo na Wikipédia [em inglês], com informações complementares extraídas de outros sites ou artigos, além de, eventualmente, livros que eu dispor em minha biblioteca.

Para esta terceira parte, vamos conhecer algumas criaturas meio humanas, meio aves que povoam as mitologias e o folclore de diversas partes do mundo.

Alkonost
Autoria dessconhecida
Alkonost é o pássaro do paraíso na mitologia eslava e do folclore russo. Ela tem o corpo de um pássaro com rosto de mulher. O nome Alkonost vem de semideusa grega Alcíone transformada pelos deuses em um martim-pescador.

A Alkonost se reproduz botando seus ovos na costa marítima e depois colocando-os na água. O mar então se acalma por seis ou sete dias ao ponto que os ovos chocam, formando uma tempestade.

Para a Igreja Ortodoxa Russa, Alkonost personifica a vontade de Deus. Ela vive no paraíso, mas vem para o nosso mundo para entregar mensagens. Sua voz é tão doce que qualquer pessoa que a ouve pode esquecer de todas as coisas. Diferente de Sirin, criatura similar, ela não é maldosa.

Gamayun
Gamayun by baklaher
Gamayun é uma ave profética do folclore eslavo e da mitologia russa. É um símbolo de sabedoria e conhecimento e vive em uma ilha no leste mítico, perto do paraíso. Segundo a lenda, é ela quem espalha mensagens e profecias divinas, e sabe tudo de toda a criação, sobre os deuses, os heróis e o homem.

Como Sirin e Alkonost, outras criaturas igualmente derivadas dos mitos gregos e da mitologia da sirene, a Gamayun é normalmente descrita como um grande pássaro com a cabeça de uma mulher.

Harpias
Harpy by znodden
As harpias (em grego, αρπυια) são criaturas da mitologia grega, frequentemente representadas como aves de rapina com rosto de mulher e seios.

Na história de Jasão, as harpias foram enviadas para punir o cego rei trácio Fineu, roubando-lhe a comida em todas as refeições. Os argonautas Zetes e Calais, filhos de Bóreas e Orítia, libertaram Fineu das harpias, que, em agradecimento, mostrou a Jasão e os argonautas o caminho para passar pelas Simplégades. Eneias e seus companheiros, depois da queda de Troia, na viagem em direção à Itália, pararam na ilha das harpias; mataram animais dos rebanhos delas, atacaram-nas quando elas roubaram as carnes, e ouviram de uma das harpias terríveis profecias a respeito do resto da sua viagem.

Segundo Hesíodo, as harpias eram irmãs de Íris, filhas de Taumante e a oceânide Electra, e seus nomes eram Aelo (a borrasca), Celeno (a obscura) e Ocípete (a rápida no voo). Higino lista os filhos de Taumante e Electra como Íris e as harpias, Celeno, Ocípete e Aelo, mas, logo depois, dá as harpias como filhas de Taumante e Oxomene. Ainda são referidas na Eneida de Virgílio como residindo nas Estrófades, um pequeno arquipélago do mar Jónico, à entrada do Orcus, ou numa gruta em Creta, por Apolónio.

Inmyeonjo
Autoria desconhecida
Inmyeonjo (literalmente, ave de rosto humano) é uma criatura imaginária que aparece nos mitos coreanos como um pássaro com rosto humano. A maioria deles é mulher e alguns são do sexo masculino.

Inmyeonjo é conhecido como um pássaro sagrado que conecta o céu com a terra, muitas vezes aparecendo no mural antigo túmulo de três reinos da Coréia. No caso de Goguryeo, pode ser encontrado em vários murais do túmulo, como os túmulos do Condado de Anak, os antigos túmulos de Dukheungri, o Samsilchong e o Mooyongchong. Nomeados como Cheonchu (天 秋) e Mansei (萬歲) nas antigas tumbas de Dukheungri em Nampo, Província do Sul do Pyongan em 1976, eles são um símbolo de longevidade, conhecido por viver por mil anos.

Por outro lado, há algumas opiniões de que é Kalaviṅka por causa da forma das asas. Kalaviṅka é uma criatura imaginária que conta as palavras do Buda que aparecem em antigos mitos indianos e textos budistas.

Kalaviṅka
Kalaviṅka by Yáng
Kalaviṅka (sânscrito: कलविङ्क kalaviṅka; chinês: 迦 頻 迦 Jiālíngpínjiā; japonês: Karyōbinga [迦陵 頻 迦], coreano: 가릉빈가; birmanês: Thai; tailandês: การเวก) é uma fantástica criatura imortal no budismo, com uma cabeça humana e um torso de pássaro, com cauda longa e fluida.

Diz-se que o kalaviṅka habita na terra pura ocidental e tem a fama de pregar o Dharma com sua bela voz. Diz-se que ele ainda está solto dentro de sua casca de ovo. Sua voz é um descritor da voz do Buda. No texto japonês, ele passa por vários títulos, como myōonchō (鳥 鳥, pássaro soando requintado), kōonchō (好 音 鳥, pássaro que soa bem), entre outros.

Edward H. Schafer observa que na arte religiosa do Leste Asiático o Kalaviṅka é frequentemente confundido com o Kinnara, que também é uma criatura mítica híbrida metade-humana metade-pássaro, mas que os dois são na verdade distintos e não-relacionados.

Kinnara
Kinnara by AYUVOGUE
Um kinnara é uma figura da mitologia budista e hindu, um amante e um músico celestial que na Índia é metade humano e metade cavalo e no Sudeste Asiático é metade humano e metade ave. Nesta última região, os kinnaras (masculino) e as kinnaris são duas das personagens mitológicas mais populares, seres benevolentes que se acredita terem vindo dos Himalaias e frequentemente velam pelo bem estar dos humanos em tempos de tumulto ou de perigo. O seu carácter é descrito no Adi Parva do Mahabharata na primeira pessoa: “Nós somos amantes eternos e amados. Nunca nos separamos. Somos eternamente marido e mulher; nunca nos tornamos mãe e pai. Nenhum filho é visto no nosso colo. Somos amante e amado sempre abraçados. Entre nós não permitimos qualquer terceira criatura pedindo afeto. A nossa vida é uma vida de prazer perpétuo.

São também descritos em vários textos budismo, nomeadamente no Sutra do Lótus.

Na mitologia do Sudeste Asiático, as kinnaris são representadas como metade mulher e metade ave. São uma das muitas muitas criaturas que habitam a mítica floresta Himavanta. Têm a cabeça, torso e braços de mulher e asas, cauda e pernas de cisne. São conhecidas pela sua dança, canções e poesia, e são um símbolo tradicional da beleza, graça e habilidade femininas.

O sinólogo e historiador americano Edward H. Schafer salientou que na arte religiosa da Ásia Oriental o kinnara é frequentemente confundido com Kalaviṅka, outra criatura fantástica e imortal que também é metade ave e metade humana, não obstante serem duas criaturas distintas e sem relação uma com a outra.

Lilitu (ou Lilith)
Estátua babilônica em terracota, a 2 000 a.C. - 1 500 a.C.
Lilith, em hebraico: לילית, em antigo árabe: ليليث, foi uma deusa adorada na Mesopotâmia e na Babilônia, associada com ventos e tempestades, que se imaginavam ser portadores de enfermidades e morte.

A imagem de Lilith, sob o nome Lilitu, apareceu primeiramente representando uma categoria de demônios ou espíritos de ventos e tormentas na Suméria por volta de 3 000 a.C. Muitos estudiosos atribuem a origem do nome fonético Lilite por volta de 700 a.C. Na Suméria e na Babilônia ela ao mesmo tempo que era cultuada era identificada com os demônios e espíritos malignos. Seu símbolo era a lua, pois assim como a Lua ela seria uma deusa de fases boas e ruins. Alguns estudiosos assimilam ela a várias deusas da fertilidade, assim como deusas cruéis devido ao sincretismo com outras culturas.

Ela é também associada a um demônio feminino da noite que originou na antiga Mesopotâmia. Era associada ao vento e, pensava-se, por isso, que ela era portadora de mal-estares, doenças e até mesmo da morte. Porém algumas vezes ela se utilizaria da água como uma espécie de portal para o seu mundo. Também nas escrituras hebraicas (Talmud e Midrash) ela é referida como uma espécie de demônio.

Sirenas
Ulysses and the Sirens by John William Waterhouse
Sereia ou sirena é uma figura da mitologia, presente em lendas que serviram para personificar aspectos do mar ou os perigos que ele representa. Quase todos os povos que dependiam do mar para se alimentar ou sobreviver, tinham alguma representação feminina que enfeitiça os homens até se afogarem. O mito das criaturas híbridas, representadas na mitologia grega, como um ser que continha o corpo de um pássaro e a delicadeza de uma mulher. Ao longo do tempo, transfiguram-se na Idade Média em mulheres metade peixe.

A palavra da língua portuguesa "sereia" (do português arcaico serẽa) e suas equivalentes em outras línguas latinas derivam do grego antigo Σειρῆν no singular (Σειρῆνες no plural), Seirến, enquanto a palavra sirena deriva de Σειρήνα, Seirína, nomes de um ser mitológico. No português, os equivalentes masculinos das sereias são chamados de tritões, nomes de seres da mitologia grega que não estavam relacionados às antigas sirenas da mitologia.

A mitologia grega foi a quem mais colaborou com o imaginário ocidental. Em 1100 a.C., eles criaram não só as sereias como as sirenas: mulheres-pássaros que causavam naufrágios ao distrair marinheiros com a voz. Diferentemente das mulheres-peixe, nunca se apaixonavam por humanos. Eram filhas do deus-rio Aqueloo, criadas para serem amigas de Perséfone, filha de Zeus e Deméter. Filhas do rio Achelous e da musa Terpsícore, tal como as harpias, habitavam os rochedos entre a ilha de Capri e a costa da Itália. Eram tão lindas e cantavam com tanta doçura que atraíam os tripulantes dos navios que passavam por ali para os navios colidirem com os rochedos e afundarem. Odisseu, personagem da Odisseia de Homero, conseguiu salvar-se porque colocou cera nos ouvidos dos seus marinheiros e amarrou-se ao mastro de seu navio, para poder ouvi-las sem poder aproximar-se. As sereias representam na cultura contemporânea o sexo e a sensualidade.

Sirin
Slavic mythology. Sirin by Vasylina
Sirin é uma criatura mitológica de lendas russas, com a cabeça e o peito de uma mulher bonita e o corpo de um pássaro (geralmente uma coruja). Segundo o mito, os sirins viviam em Vyraj ou ao redor do rio Eufrates.

Essas meias-mulheres meio-aves baseiam-se diretamente nos mitos gregos e depois no folclore sobre as sirenas. Geralmente eram retratadas usando uma coroa ou um nimbo. Sirins cantaram canções bonitas para os santos, prevendo alegrias futuras. Para os mortais, no entanto, os pássaros eram perigosos. Homens que as ouviram esqueceriam tudo na terra, os seguiriam e finalmente morreriam. As pessoas tentariam se salvar de sirins atirando em canhões, tocando sinos e fazendo outros ruídos altos para assustar o pássaro. Mais tarde, a imagem das sirins mudou e elas começaram a simbolizar a harmonia mundial (por viverem perto do paraíso). As pessoas naqueles tempos acreditavam que apenas as pessoas felizes podiam ouvir uma sirin, enquanto apenas muito poucos podiam ver uma, porque ela é tão rápida e difícil de pegar como a felicidade humana. Ela simboliza alegria eterna e felicidade celestial.

A lenda de sirin pode ter sido introduzida na Rússia pelos mercadores persas no século VIII ou IX. Nas cidades de Chersonesos e Kiev eles são frequentemente encontrados em cerâmica, pingentes de ouro, mesmo nas fronteiras dos livros do evangelho dos séculos XII. Pomors freqüentemente retratava sirins nas ilustrações do Livro do Gênesis como pássaros sentados em árvores paradisíacas.

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