Onde estão nossos contos de fadas?

Autoria desconhecida
Eu sempre me fiz esta pergunta, em especial quando comecei a estudar, de maneira autodidata, bastante amadora e num ritmo mais lento, os contos de fadas, suas versões, incluindo as originais, entendendo seus símbolos e seus diversos significados.

Nunca achei possível que, com mais de 500 anos de existência de "descoberta", não houve, por menor que seja, uma tradição de contos de fadas em nossas terras. Deparei-me com lendas, mitos, fábulas, contos populares, causos, porém raras as vezes lia ou me era apresenta uma obra popular brasileira como conto de fadas.

Crescemos com referências nacionais de um folclore domesticado (e demonizado, em diversos sentidos), com curupiras, sacis, lobisomens, caiporas, mulas-sem-cabeças e afins. E crescemos com as histórias folclóricas de outros povos, alemães, franceses, italianos, gregos, norte-americanos...

Então, propus-me um desafio: achar, de alguma forma, nossas versões de contos de fadas. Uma vez que parte de nosso país foi formada por europeus, a maioria portugueses, com certeza muitos trouxeram suas histórias, versões de contos populares, coisas contadas e repassadas de uma geração a outra. E há a influência de partes do continente africano, e a de tribos e mais tribos indígenas!

E assim fui esbarrando em citações, iniciando pelos trabalhos de Câmara Cascudo, e indo mais e mais fundo... até desenterrar mais do que eu poderia imaginar: pouco mais de 100 anos atrás, em nosso Brasil, pululavam escritores coletando e estudando nosso folclore! Histórias que ouvíamos e líamos, em versões alteradas, tinham suas origens registradas há quase 200 anos! E o melhor: versões de contos de fadas, de Cinderela a Bela e a Fera, a maioria com fortes influências portuguesas e toques ameríndios e africanos.

Numa variedade esplendorosa, e muitas vezes difícil de encontrar material acessível, há estudos de tribos e de povos, suas mitologias, suas lendas, fábulas povoadas de animais, às vezes em sincretismo, relatos, cantigas e versos, contos populares que, seja por sua estrutura ou inspirações, podem ser considerados contos de fadas legítimos, com seres encantados ajudando moças humildes e pondo à prova rapazes de bom coração.

Então, o que era antes uma busca pessoal, para achar as fontes das citações que antes eu tinha fragmentos, tornou-se uma das minhas metas: cavar e cavar, trazer à tona parte desses antigos estudos e coletâneas de contos populares, de fábulas e lendas, para as próximas gerações possam conhecer, assim como uma minoria das antigas conheceram, cada história de nossa cultura, seus personagens e sua evolução, pois histórias são lembranças, e a memória do povo não deve ser jamais esquecida.

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