"Os Crimes de Grindelwald" contra a representatividade

Há algum tempo, escrevi uma postagem sobre representatividade. Mais ou menos, há dois anos.

De lá para cá, tenho tentado inserir personagens representativos, conforme possível e necessário, mas sem, contudo, jamais forçar a barra. Acredito, sim, que representatividade é algo muito importante e deve ser incentivado, mas discordo veementemente que seja algo obrigatório e que deva ser feito por fazer.

Para o segundo caso, o filme Animais Fantásticos - Os Crimes de Grindelwald nos mostra algumas importantes lições.

Tá todo mundo perdido neste filme.
Rowling sempre esteve envolvida em polêmicas sobre uma tardia representatividade em sua principal obra, a franquia Harry Potter, com informações reveladas por meio de tweets ao longo dos anos, depois de concluir os sete livros da saga. De Dumbledore gay (embora seja algo com alguma menção controverso nos livros) a Hermione negra (na peça teatral A Criança Amaldiçoada), ela coleciona tretas.

Recentemente, contudo, mostrou-se "inclusiva" ao escalar a atriz Claudia Kim para viver a personagem Nagini, uma criatura bastante conhecida pelos fãs da saga, contudo nunca antes revelada sua verdadeira natureza: uma bruxa amaldiçoada que se transforma em cobra e, pouco a pouco, essa transformação vai se tornando irreversível. Um segredo guardo, segundo a escritora, por meros 20 anos.

E aqui começam alguns problemas.

Reuniram algumas pessoas reclamando de como era um tropo nocivo a amaldiçoada mulher asiática escrava/serva de um homem branco maligno, o Voldemort. Rowling, claro, respondeu às críticas, e um elemento me chamou muito a atenção: "Naga é uma cobra mística da mitologia indonésia, daí o nome Nagini. Elas são às vezes descritas como seres com asas, ou metade humanos, metade cobras. Na Indonésia há vários grupos étnicos, como javaneses e chineses", ela responde.

Ao consultar a Wikipédia, deparamo-nos com o seguinte sobre a Indonésia: "Há cerca de 300 diferentes grupos étnicos nativos e 742 línguas e dialetos diferentes no país. A maioria dos indonésios é descendente de povos de língua austronésia, cuja origem pode ser atribuída ao antigo idioma proto-austronésio, que possivelmente se originou na ilha de Taiwan. Outro grande grupo são os melanésios, que habitam leste da Indonésia. O maior grupo étnico são javaneses, que compreendem 42% da população e são politicamente e culturalmente dominantes. Os sundaneses, malaios e madureses são os maiores grupos não-javaneses. Um sentimento de nacionalidade indonésia coexiste com fortes identidades regionais. A sociedade é, em grande parte harmoniosa, embora existam tensões sociais, religiosas e étnicas que têm provocado uma violência horrível. Os indonésios de origem chinesa são uma minoria étnica influente que compõe entre 3% e 4% da população".

Mesmo que levemos em conta que uma das seis religiões oficiais do país seja o hinduísmo, não tem como assegurar que a Naga seja uma criatura originária daquele país. Na verdade, o povo Naga é bastante mencionado nas lendas hindus e, posteriormente, budistas, estando sempre numa luta mortal contra homens e deuses, ora como monstros malignos, ora como seres benignos ou em busca de redenção.

Há, contudo, sim, menção a Naga em períodos "medievais" indonésios, como ressalta a historiadora Siwara Tripalka: "Nāginī é a palavra em sânscrito para uma nāga fêmea – uma serpente, ou demônio-serpente. A palavra também é encontrada no javanês antigo, na língua malaia e outras similares. Eu nunca li Harry Potter ou literatura relacionada a HP, e nunca vi os filmes, mas digo isso caso você queira saber qual é a etimologia da palavra".

Portanto, temos uma informação parcial fornecida para justificar a presença de uma atriz sul-coreana para interpretar uma bruxa amaldiçoada que foi encontrada na Indonésia. Seria como dizer que japoneses e chineses são iguais (o que pode ser visto, sim, como uma forma de preconceito étnico); ou como tanto faz se é sul-coreana ou indonésia, são tudo a mesma coisa. Ou pior: levando em conta o que Rowling apontou, como se sul-coreana e chinesa fosse a mesmíssima coisa!


Se não bastassem esses deslizes, a personagem de Kim, Nagini, é uma personagem que não traz peso algum à trama (igual diversos momentos do filme, tão carregados de fanservice que só serve para alimentar o interesse numa história com potencial quase completamente não-explorado). Sua melhor cena é a sua apresentação e, segundos depois, a transformação. A partir daí, ela fica fadada a sua sina: servir de companheiro a um homem branco, não a diferenciando de nenhum outro tropo ou estereótipo exaustivamente explorado. Nagini não tem peso nem voz, está sempre acuada e apavorada, e isso nem é trabalhado, então fica a pergunta de por que ela está ali mesmo? (É um problema com a maioria das personagens femininas de Os Crimes de Grindelwald, por sinal.)

Mas há mais um problema no filme, e ainda se refere aos núcleos esterotipados: o personagem de William Nadylam, Yusuf Kama. Em poucas palavras, embora o roteiro tente lhe dar relativa importância, ele está ali apenas por puro papel de encher alguma linguiça, trazendo à trama uma subtrama um tanto desnecessária envolvendo a mulher negra servindo de objeto de desejo ao homem branco (se foi uma crítica ao racismo, não sei, mas não me agradou) e revelações quase nada impactam o espectador.

Ao fim, a sensação de representatividade do filme é completamente falha, torta e ruim, repetindo estereótipos já vistos, o que só agrava os problemas de um roteiro preguiçoso e confuso.

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