"Contos de fadas são mais que verdade; não porque nos dizem que dragões existem, mas porque eles nos dizem que dragões podem ser derrotados." G. K. Chesterton

Arte do Dia #654

Quem passa por aqui eventualmente deve saber que eu adoro contos de fadas, e os estúdios Disney sempre foram apaixonados por esse tipo de história e criaram animações que atravessaram gerações, além de produzir versões mais modernas dos velhos tropos.

A artista Heather Theurer resolveu criar versões em pintura a óleo de algumas dessas animações, e o resultado é de encher os olhos!














Refrigeroteca de Luís Eduardo Magalhães (BA): Pra quem tem fome de ler!

Este é um post que eu deveria ter feito antes, porém fiquei sem internet por quase uma semana e atrasou tudo.

Mas, agora que voltei do exílio, sentemos um pouco no tapete e leiamos uma pequena história. Não vai demorar muito, prometo. Ela começa assim...


Havia uma lenda sobre portais mágicos, capazes de transportar crianças e adultos até um reino encantado. Através deles era possível conhecer pessoas e lugares, viajar para longe e voltar para o mundo real, quantas vezes quiséssemos, num piscar de olhos!

Estes portais ficaram escondidos, muito bem escondidos, por muito tempo, cheios de duendes e fadas e muitos segredos. Até que um dia dois seres mágicos conseguiram escapar!

Eles conversaram com alguns humanos e bolaram um plano para reabrir os portais, disfarça-los na forma de geladeiras, enfeitá-los com muitas cores e espalhá-los em lugares por onde passe muita gente, para que outros humanos possam voltar a visitar os reinos encantados!

Assim nasceu a refrigeroteca! Há quem pense que apenas as crianças possuem habilidades para decifrar os códigos e entrar nos portais, mas isso não é verdade. Qualquer um com espírito de aventura pode abrir a porta, pegar um livro e ser imediatamente transportado para um lugar incrível.

Ah! E como tudo que é mágico, é de graça!

Vem com a gente até o infinito e além!

E não se esqueça, todos devemos cuidar das refrigerotecas para que nunca mais elas voltem a ser escondidas. Refrigeroteca, é pra quem tem fome de ler!

Um Projeto:
Fundação Alzira da Silva Corrêa e As Marias Propaganda

Uma parceria:
Prefeitura de Luís Eduardo Magalhães
Virtual PP
Cepac
E Rádio Moderna FM


Pronto, acabou.

Mas eu quero falar, com minhas palavras, sobre este projeto, cuja curadoria ficou sob minha responsabilidade.

Como deve ter ficado claro, trata-se de uma campanha muito bonita para incentivar a leitura, espalhando geladeira reformadas pela cidade em que moro atualmente. De literatura infantil a obras motivacionais, de aventura ao horror, do romance ao gibi, a variedade de livros e opções aos leitores será grande, e eu selecionarei cada título a compor o acervo.

Para isso acontecer, é preciso que doemos livros velhos ou que não pretendemos mais ler, passando ao próximo a história que nos encantou ou que, por não nos encantar, talvez seja destinada a outrem.

Eu, por exemplo, já separei alguns livros de minha autoria ou com participação minha para doar, além de vasculhar meu armário e minhas estantes atrás de mais alguma coisa.

Se você não mora em Luís Eduardo Magalhães e quer saber mais sobre o projeto ou doar algum livro que não queira mais, pode me mandar mensagem e passarei todas as informações sobre a Refrigeroteca e as instruções para o envio.

Juntos, livro a livro, podemos formar e incentivar novos leitores.




[Repost] Mensagem minha para mim

Por incrível que pareça, este texto foi publicado, num antigo blog, em 16 de outubro de 2010.


Certa manhã, nesta semana, eu sentei-me em frente a árvore que figura o capítulo 13 de Ariane.

Senti o vento da manhã, vi pessoas passando, senti a grama e as formigas me mordendo... Pensei em tudo, em cada coisa que fez mudar minha vida... Lembrei-me de minha vida até aquele presente momento... Chorei, admito...

Eu perdi muita coisa que amava: minha família se despedaçou, meus amigos mais valorosos foram embora, meus amores, minha namorada mais recente... Aí vem a depressão... A falta de fé...

Mas o que nunca me abandonou? A literatura! Ela sempre esteve em todo o curso de minha vida... Não porque ela faz parte de mim, mas porque eu faço parte dela... Por isso, não abandonarei jamais esta companheira que já me deu tantas alegrias, tristezas, surpresas, amigos e filhos, os meus livros.

Vai ser difícil, eu sei...

Enfim, não estou bem ainda, pois perder um grande amor nos machuca, sobretudo quando ambos ainda se amam, mas é preciso enxugar as lágrimas ou não deixá-las cegar sua visão. É preciso aguentar a dor e caminhar, rumo aos seus sonhos... A dor pode ser insuportável, mas teremos que suportá-la... A caminhada é longa, e há muitos caminhos a seguir...

[Fábula] A Raposa e o Verme

Há muito tempo, quando eu ainda engatinhava na carreira de escritor, adorava escrever coisas bem curtinhas, e algumas dessas coisas eram fábulas.

O texto a seguir, por exemplo, é de 4 de outubro de 2012. Se eu não estiver enganado, foi um momento de minha vida que eu estava muito, mas muito deprimido e com um pessimismo absurdo.


Certa vez, numa floresta, uma raposa se gabava de ser o animal mais esperto. Gabava-se tanto que se descuidou da altura em que se encontrava e caiu do galho da árvore, morrendo ao quebrar o pescoço.


Um verme, que já se aproximava do morto, falou:

"De nada valem tantas vanglórias acerca de esperteza, se no final todos serão igualados depois da morte, servindo de banquete a nós, os seres rastejantes."

[Conto] A violinista

Este pequeno conto é bem antigo. No antigo blog, data-se como publicado em 25 de outubro de 2014.

Na época, eu estava aconselhando uma amiga sobre uma ideia dela, então iniciei, pelo WhatsApp, o continho, continuando e concluindo numa postagem no Facebook. Por sorte, deixei registrado no velho blog e posso, agora, reapresentá-lo por aqui.

Autoria desconhecida
A estação estava com pouco movimento; pessoas indo e vindo, preocupadas com horários e compromissos, pensando em problemas. Ninguém notou a figura melancólica chegar, carregando o estojo com o violino, como se fosse uma maleta, numa mão e uma mala pequena, em couro preto e detalhes dourados, na outra. Ninguém reparou seu olhar distante, em algum lugar incerto no tempo e no espaço. E ela preferia assim.

Sentando-se num banco de madeira, cuja pintura estava desgastada pelo tempo, a violinista abaixou os olhos negros, enquanto uma pequenina listra cristalina passeava pela pele alva, encontrando seus lábios finos e rosados, e ali se perdendo a um sorriso que há muito morreu. Apresentou-se a secar a lágrima com um lenço com as iniciais C. S., seu nome artístico.

"Tudo bem, moça?", perguntou uma menina de cabelos castanhos e cacheados, parando diante daquela mulher cansada.

A violinista não queria mentir para uma criança, tampouco revelar suas dores; apenas esboçou um sorriso e abriu o estojo, pegando o instrumento, ajeitando-o de maneira a improvisar alguma canção. Não se importava em se apresentar para uma ou duas pessoas; havia aprendido que uma boa música é livre, assim como a alma.

E, por um minuto, toda a estação se encheu de uma sinfonia suave, algo tão mágico que todos pararam suas vidas medíocres para ouvir as cordas angelicais de um espírito de luz.

[Repost] A garota dos sonhos (ou A caótica teoria da vida)

Fuçando algumas lembranças, recordei-me deste texto. Foi publicado num antigo blog meu, em 10 de dezembro de 2014.

Talvez seja uma crônica, não sei, mas é um dos textos que envelheceu bem e mudou uma coisa aqui ou ali; Talvez eu ainda seja o andarilho que o eu de 2014 acreditava ser, talvez eu ainda sonhe com a musa que vai me resgatar, sei lá.

Por ora, apenas sei que gosto deste texto.

Autoria desconhecida
Acordei com a lembrança de que em minha mão havia um número telefônico anotado: 99**-****. Por mais que quisesse tentar, não lembraria mais qual foi a sequência daqueles oito malditos dígitos. Durante o sonho, eu me esforcei muito, muito para decorar aquela combinação, aquela senha para algum grande prêmio.

Sem nome, sem rosto... e ainda assim a mais bela das garotas dos sonhos de um poeta ou escritor solitário... ela veio e me beijou. Talvez cheirasse a rosas frescas, ao aroma da sublime tentação, da juventude que a alma emana naturalmente, a marca de uma mulher que encanta.

Talvez aquela sequência única de algorismos me permitisse conhecer seu rosto, saber quem veio me digitar... e não supor que fosse uma súcubo, embora, se fosse tal criatura, deve ser uma das mais comportadas. Ou não seria essa jovem que me atenderia, e sim um homem ranzinza, que me xingaria de insultos inomináveis?

Fico pensando em quantos outros sonhos, momentos tão meigos como o de um breve sonho, deixei de vivenciar por me esquecer, por me privar de correr riscos. No final da madrugada, foi uma garota sem rosto e sem nome quem me beijou, que me cativou, mas não seria ela uma projeção de alguém real, que eu poderia ter encontrado pelas trilhas da vida?

Chamam isso de teoria do caos.

Seria mais ou menos assim: se eu tivesse acordado e anotado logo de cara o número de telefone, se tivesse ligado depois, saberia se o sonho foi premonitório ou só uma peça pregada por minha imaginação. Uma possibilidade que nunca será real... ao menos neste universo em que vivo, se você acredita em multiverso.

Para ser ainda mais claro, vejam O Curioso Caso de Benjamin Button. Aliás, no filme tem uma citação trágica sobre a nossa existência: “Às vezes, nós estamos numa rota de colisão e nem sequer sabemos. Seja sem querer ou de propósito, não há nada que possamos fazer".

E isso me leva a interpretar meu sonho.

Naquele dia, por algumas vezes, comentei com amigos sobre minha eterna busca pela musa definitiva, por aquela que será a inspiração, a paixão que se tornará amor, que deixará de ser um conceito para ser um objeto (no sentido platônico). Ainda cheguei a mencionar que todo mês tenho uma paixão diferente, seja real ou imaginária, pois sou como um mendigo e andarilho, escrevendo e procurando nas estradas aquilo que nem sei o que possa ser.

E ouvi Anathema. Sério, se você estiver deprimido, apaixonado, entristecido, solitário, decepcionado ou qualquer outro emocionado, não ouça Anathema. Melhor: sob qualquer motivo, não ouça Anathema. Mas eu não sigo isso. E fui dormir com Untouchable (ambas as partes, em ambas versões) na cabeça.

Se eu não tivesse comentado sobre minhas inspirações, se eu não tivesse falado para uma amiga sobre me apaixonar todos os meses por uma musa platônica, se eu não ouvisse Untouchable naquela noite, enquanto pensava na vida de merda que tenho, não teria sonhado com aquela garota misteriosa que me beijou e anotou o número de telefone em minha mão usando caneta Bic azul. Se eu não tivesse sonhado com ela, se não tivesse me apaixonado por sua aura desconhecida, este texto jamais teria sido escrito.

Gêneros Literários #31: Fairytale Fantasy/Fantasia de Conto de Fadas

Este gênero aqui é uma pegadinha e tanto. Quando esbarrei nele, tempos atrás, não consegui captar direito as coisas, porém, mesmo que soe estranho, não é difícil de entender e você vai notar que tem muita coisa produzida que se encaixa ou poderia se encaixar aqui.

Então, vamos lá conhecer este pequeno híbrido da literatura fantástica?

Knight of Fairy Township, Yoshitaka Amano, 1984
fairytale fantasy, ou fantasia de conto de fadas, dando uma aportuguesa malandra, "distingue-se de outros subgêneros de fantasia pelo uso pesado de motivos, e muitas vezes parcelas, do folclore".

"Os contos de fadas literários não eram desconhecidos na época romana: Apuleius incluía vários em O Asno de Ouro. Giambattista Basile recontou muitos contos de fada na Pentamerone, uma história de moldura aristocrática e recontagens aristocráticas. A partir daí, o conto de fadas literário foi retomado pelos escritores franceses do "salão" da Paris do século 17 (Madame d'Aulnoy, Charles Perrault, etc.) e outros escritores que retomaram os contos populares de seu tempo e os desenvolveram em formas literárias. Os irmãos Grimm, apesar de suas intenções serem restauraros contos que coletaram também transformaram os Märchen que eles coletavam em Kunstmärchen.

"Essas histórias não são consideradas como fantasias, mas como contos de fadas literários, mesmo retrospectivamente, mas a partir desse começo, o conto de fadas permaneceu como uma forma literária, e fantasias de conto de fadas eram um desdobramento. Fantasias de conto de fadas, como outras fantasias, fazem uso de convenções de escrita romanesca de prosa, caracterização ou ambientação. A linha divisória precisa não está bem definida, mas é aplicada, mesmo para os trabalhos de um único autor: Lilith e Phantastes, de George MacDonald, são considerados fantasias, enquanto sua The Light Princess, The Golden Key, e The Wise Woman: A Parable são comumente chamados de contos de fadas."

David Revoy
"Este gênero pode incluir contos de fadas modernos, que usam motivos de contos de fadas em enredos originais, como O Maravilhoso Mágico de Oz e O Hobbit, bem como recontagens de contos de fadas eróticas, violentas ou de outra forma mais adultas (muitos dos quais, em muitas variantes, foram originalmente destinados a uma audiência de adultos, ou um público misto de todas as idades, como a série de histórias em quadrinhos Fábulas. Também pode incluir contos de fadas com o enredo preparado com a caracterização, configuração e enredos mais completos, para formar um romance de criança ou adulto jovem.

"Muitas fantasias de contos de fadas são revisionistas, muitas vezes invertendo os valores morais dos personagens envolvidos. Isso pode ser feito pelo interesse estético intrínseco ou por uma exploração temática. Os escritores também podem tornar a magia do conto de fadas autoconsistente em uma recontagem de fantasia, baseada na extrapolação tecnológica de uma ficção científica, ou explicá-la em uma obra de ficção contemporânea ou histórica.

"Outras formas de fantasia, especialmente fantasia cômica, podem incluir motivos de conto de fadas como elementos parciais, como quando em Discworld, de Terry Pratchett, contém uma bruxa que vive em uma casa de gengibre, ou quando em Enchanted Forest, de Patricia Wrede, é repleto de princesas e príncipes tentando caber em seus papéis de conto de fadas nomeados.

"As configurações das fantasias de contos de fadas, como os contos de fadas de que derivam, talvez devam menos à construção do mundo do que à lógica dos contos populares. Príncipes podem vagar na floresta e voltar com uma noiva sem considerar todos os efeitos políticos dos casamentos reais. Um motivo comum, cômico, é um mundo onde todos os contos de fadas acontecem, e os personagens estão cientes de seu papel na história, ocasionalmente até quebrando a quarta parede", como ocorre parcialmente em Encantada, filme de 2007, ou em O Fantástico Mistério de Feiurinha, de Pedro Bandeira.

"Outros escritores podem desenvolver o mundo de forma tão completa quanto em outros subgêneros, gerando um trabalho que também é, baseado no cenário, uma alta fantasia, fantasia histórica ou fantasia contemporânea."

Por fim, podemos acrescentar à lista Neil Gaiman, Oscar Wilde e Italo Calvino como escritores mais conhecidos e que se aventuraram pelo gênero.

Como começar a estudar mitologia sem gastar dinheiro com livros que custam um rim?

Algumas pessoas me procuram querendo saber se livro tal é bom, o que eu recomendo para leitura, onde achar boas referências para conhecer mitologias. Eu tento aconselhar como posso, uma vez que livros sobre mitos e lendas são, em maioria, absurdamente ou caros ou modernos demais, com informações escassas ou que pouco acrescentam e muito atrapalham.

Sun God by Dallas-Williams
Respondendo por mim, eu tive certa sorte de ler muita coisa sobre mitologia em enciclopédias de diferentes tipos e tamanhos, e mais sorte tive por possuir um interesse em anotar as lendas e os mitos que encontrava, embora muito desse vasto material que coletei tenha se perdido com os cadernos que joguei fora. E consegui, ainda criança, acesso a uma biblioteca pública muito boa, onde esbarrei com Os Doze Trabalhos de Hércules, de Monteiro Lobato, que é um apanhado mitológico muito interessante (ainda que bem impreciso e muito cheio de liberdades), que complementa informações dadas em O Minotauro, que só indico se você quiser não apenas conhecer a mitologia greco-romana como os costumes helênicos.

Além de um bom livro didático, que dava algum espaço para as mitologias das civilizações que trabalhava na disciplina de História. E acho importante, sabe, essa relação da escola e do colégio com algo que gostamos (no nosso caso, mitologia e folclore).

Há muitas revistas e diversos livros em bancas que oferecem boas introduções a mitos e lendas. Até difícil citar exemplos, pois eles vivem saindo e voltando, e são cheios de imprecisões e dados controversos, mas estamos falando de uma base para quem quer começar, não? Tem desde cultura egípcia a povos ameríndios! Então, qualquer quantia entre vinte e cinquenta reais, uma banca e um pouco de paciência são ingredientes poderosos para quem quer começar. Uma lástima que a Mundo Estranho acabou, pois saíam edições maravilhosas sobre lendas, mitologia e folclore por esse título, mas a SuperInteressante ainda deve lançar algo, inclusive livros.

Outro material básico (e muito bom) é O Livro de Ouro da Mitologia, de Thomas Bulfinch. Existem muitas edições, e as mais baratas, em bancas de jornal, saem menos de vinte reais. Embora o palco seja pra deuses e heróis greco-romanos, tem espaço para elementais da alquimia, mitologia nórdica e celta.

Agora, se assim como eu, você está cansado de mitologia greco-romana e quer ir para outras, eu recomendo muita pesquisa. E isso leva tempo, sabe? Achar títulos que sejam agradáveis e confiáveis, reunir uma bibliografia que pode trazer versões de lendas ou repetições, mas é o caminho.

Para facilitar quem quer encontrar lendas desconhecidas e fora do circuito mainstream, minha dica final é o blog mais completo e com informações confiáveis que conheço, rico em folclore nacional e mitologias de praticamente todo canto do mundo, o Portal dosMitos.

Enfim, espero ter ajudado.

Quem quiser saber mais ou até mesmo contratar minha consultoria para mais detalhes, incluindo indicações de livros mais densos, só contactar através do formulário.

É, estou escrevendo para crianças também

Shooting Stars by Jessica M. Gibson
Há quase duas semanas, após mais de vinte dias escrevendo e cinco revisando, inscrevi duas histórias infantis para o Prêmio Barco a Vapor. Ainda não posso falar a respeito delas, uma vez que o edital solicita total discrição e ineditismo, mas posso afirmar que são, respectivamente, uma novela e um conto e adorei escrever ambos os textos.

Embora eu tenha me aventurado em alguns contos infantis protagonizados por Rube, nunca me imaginei escrevendo nada fora desse universo mágico sobre livros e mundos fantásticos. Na verdade, meu plano sempre foi amadurecer a personagem, iniciando sua jornada em contos e novelas realmente infantis, mas depois indo a tons mais juvenis.

Quando me sentei para escrever os capítulos iniciais de A Jornada para Encontrar a Felicidade da Mamãe, por exemplo, eu usei como base os conselhos de Tatiana Belinky (e já os havia usado anteriormente, nos contos), pois criar uma história voltada ao público infantil é uma das coisas mais difíceis de se fazer e comumente nos deparamos com escritores cometendo diversos absurdos, seja em plots sem sentido, seja em uma narrativa que trata como idiota a criança.

E aqui estou, com histórias não só de Rube, como também de outra personagem, por sua vez envolvida num tipo de magia diferente da apresentada nas histórias de minha filha literária; há ainda projetos com uma pegada menos sombria ou violenta, como é o meu estilo maus usual, visando leitores abaixo de 14 anos.

Além disso, estou num curso de mediação de leitura, que pretendo, com o tempo, falar mais a respeito.

A questão é: tem sido divertido escrever para um público mais jovem (embora eu nunca tenha, de fato, pensado muito que escrevo para jovens adultos ou adultos; eu apenas escrevo aquilo que gostaria de ler às vezes), pois me fez rever alguns (dos poucos) bons momentos de minha infância e querer dialogar mais com gente de diversas idades, e esse diálogo, acredito eu, seja essencial para formar novos leitores e conquistar alguns para minha literatura.


Bestiário #7: Híbridos voadores

Continuando a série de postagens sobre criaturas híbridas, com a intenção de servir de material introdutório a curiosos e escritores de fantasia, tomando como base o artigo na Wikipédia [em inglês], com informações complementares extraídas de outros sites ou artigos, além de, eventualmente, livros que eu dispor em minha biblioteca.

Para esta quarta parte, vamos conhecer algumas criaturas híbridas voadoras.

Buraque (Buraq)
Autoria desconhecida
Buraque (em árabe: البراق; transl.: Buraq) é uma criatura na qual, segundo a religião islâmica, Maomé foi transportado de Meca para Jerusalém (numa viagem noturna denominada Isra e Miraj), a partir de onde ascendeu ao céu. A sua viagem pelo céu é conhecida como a Miraj, e, segundo os relatos, teria encontrado vários profetas no percurso que antecedeu o seu contato com Deus.

De acordo com a tradição islâmica, o Buraque é um animal branco, metade burro, metade mula, com asas. Algumas tradições artísticas representam-no como uma criatura que é parte cavalo, parte pavão, com uma cara de mulher. É um dos temas mais comuns nas miniaturas persas produzidas a partir do século XIV.

Esfinge
Consecrated Sphinx by lius lasahido
A esfinge egípcia é uma antiga criatura mística usualmente tida como um leão estendido — animal com associações solares sacras — com uma cabeça humana, geralmente a de um faraó. Também usada para demonstração de poder, assim como as pirâmides no Egito.

Vistas como guardiãs na estatuária egípcia, esfinges são descritas em uma destas duas formas: Androsfinge (Sphinco Andro) — corpo de leão com cabeça de pessoa — e Hierocosfinge (Sphinco Oedipus Rex) — corpo de leão com cabeça de falcão.

Havia uma única esfinge na mitologia grega, um demônio exclusivo de destruição e má sorte; de acordo com Hesíodo, uma filha da Quimera e de Ortros ou, de acordo com outros, de Tifão e de Equidna — todas destas figuras ctônicas. Ela era representada em pintura de vaso e baixos-relevos mais freqüentemente assentada ereta de preferência do que estendida, como um leão alado com uma cabeça de mulher; ou ela foi uma mulher com as patas garras e peitos de um leão, uma cauda de serpente e asas de águia.

Hatuibwari/Agunua
Hatuibwari- Agunua Sketches 1 by ZoeHildebrand-R
O Hatuibwari era um dragão nas Ilhas Salomão, na Melanésia. Tem a cabeça de um humano, quatro olhos, braços com garras, asas de morcego e o corpo de uma serpente. A crença antiga é que ele criou e nutriu todas as coisas vivas; que ele é a versão masculina da Mãe Terra. Esta lenda vem de Makira (anteriormente San Cristobal) na Melanésia.

Agunua (nome alternativo Hatuibwari ) é o deus da serpente cósmica do povo da ilha de San Cristoval das Ilhas Salomão. Ele é o deus principal, e todos os outros deuses são apenas um aspecto dele. O primeiro coco de cada árvore é sagrado para Agunua. Ele também é o deus do mar.

Lamassu/Shedu
Lamassu for Kingdoms of Myth by Jose Socas (Genesis Vandrake)
Lamassu (cuneiforme: AN.KAL; em sumério: dlamma; em acádio: lamassu) é uma divindade tutelar da antiga Mesopotâmia, considerada com frequência como sendo do sexo feminino. Utiliza-se com frequência o nome de Shedu (cuneiforme: AN.KAL×BAD; sumério: dalad; acádio: shēdu; hebraico: שד) para se referir ao equivalente masculino de um lamassu.

Resenha #14: Carnificina: Contos das Cidades Malditas [Vários autores]

Ano: 2018
Páginas: 203
Editora: Projeto Carnificina
SINOPSE: Muitos escrevem sobre aquilo que mais desejam na vida: amor, dinheiro, sexo, aventura, fantasia; uma jornada em busca de uma recompensa, uma batalha em nome de um bem maior. Mas poucos são aqueles que se lembram de que, além do “felizes para sempre”, há a morte e todos os elementos que compõem a finitude humana. Destes nasceu o medo, e do medo advieram o terror e o horror que poucos desejam saciar em suas gargantas sedentas pela escuridão.

Sob esta premissa, 12 autores se reuniram a partir de um convite singelo, a fim de que criassem contos de terror e horror com somente uma regra: escrever à vontade, sem amarras morais. Destarte, à procura da essência do sangue, do sobrenatural e das trevas, este grupo deu vida a uma antologia formada por histórias cruéis que se passam em cidades malditas, tal é a nossa realidade brasileira.

80's Horror by TentaclesandTeeth
Queria dizer que não sinto prazer algum em registrar a leitura deste e-book por aqui e eu recomendo a todo mundo que não cometa o erro de ler nenhum conto deste livro.

No prefácio, o organizador, e também autor participante, dedica-se, através de muitas linhas, a classificar e qualificar o terror e o horror, legitimando, com isso, o gore como o terror tradicional. Um discurso falacioso que mostra o tom do que nos aguarda: uma reunião de autores que, sob o pretexto de resgatarem o “terror tradicional”, abriram mão do bom senso, ignorando toda a questão de gatilhos psicológicos (num discurso próximo de quem reclama do “politicamente correto”) e o cuidado literário.

Não há como ler Carnificina – Contos de Cidades Malditas sem sentir três nítidas sensações: o desdém pela proposta de apresentar contos situados no pior das cidades (que só é explicada num posfácio, e não no prefácio, como deveria ter ocorrido); repulsa pela quantidade de cenas de estupros e torturas que são, ao mesmo tempo, imaginativas e muito mal executadas; e uma sensação de prepotência ao analisar tudo e perceber como o livro soa mais como uma birra de adolescente do que qualquer manifesto de resgate de qualquer que seja o horror.


Mantendo-me fiel ao que foi proposto, o gore, a maioria dos contos sequer conseguem honrar o gênero, e cada autor, à sua maneira, apenas joga cenas e mais cenas, muitas delas de péssimo e duvidoso gosto, nas páginas, esperando chocar o leitor de alguma forma. Abundam descrições detalhadas de estupros (seja como tortura, seja como punição por algum ato pecaminoso) e de desmembramentos e eviscerações, algo que acaba se aproximando muito mais do trash do que do gore em si.


Sim, a impressão é que quase todos ali assistiram a Jogos Mortais, por exemplo, e só focaram nas cenas de sanguinolência do porn torture, abrindo mão do que movimenta qualquer subgênero de terror e horror: o medo. Ignorar o medo, e todos os elementos em volta, é desprezar a longa tradição do gênero, o que é irônico, uma vez que a antologia se propõe a fazer um resgate.


O gore está inserido como um pilar apenas, ao lado de emoções humanas, boa atmosfera, bons personagens, um enredo atraente e habilidade de escrita. Nos filmes, o recente Vingança consegue trabalhar muito bem uma cena de estupro, sem ser algo explícito, constrói relativamente os poucos personagens, cria tensão e nos banha com muito sangue. Filmes mais dramáticos, com elementos de horror, como Hereditário e A Bruxa, constroem todo um clima e sabe quando inserir o gore. O sugestivo também é capaz de assustar e impressionar, ou teve alguém que saiu ileso na cena da bruxa esmagando um bebê para criar uma pasta para se rejuvenescer no já citado A Bruxa, quase toda feita de forma sugestiva e sem ferir o bom senso?


Outro grande problema dos contos, em sua maioria, está nos títulos, que parecem obrigar cada escritor a se manter firme num elemento, o que nem sempre é seguido e causa uma sensação de amadorismo (assim como a revisão, conforme anunciada pelo organizador e constatada na leitura).


Se estão curiosos sobre os contos, seguem abaixo algumas palavras de cada um, lembrando que todos ostentam Cidade como título, seguido do elemento que os norteiam (ou deveria).


Degenerados é um dos piores, contendo um eu lírico que zomba do ocorrido em São Paulo, na Cracolândia, alegando que não foi errado demolir prédios e internar compulsoriamente os viciados. Cenas descrevendo adolescente recém-estuprada e um culto a Anhangá (um erro que me deu um treco, uma vez que o autor é historiador) somam-se aos problemas de uma narrativa com viés partidária.


Machista é outro muito ruim, com tons inicialmente caricatos e crítica social, mas perde-se quando abusa de cenas de masturbação feminina e estupros, feminino e masculino, além de doses exageradas de escatologia. Destaque para o plano do protagonista: estuprar uma mulher qualquer só para ser preso, plano executado e que em nada acrescenta na trama, uma vez que, assim como o todo, não faz o menor sentido.


Extermínio é curto e altamente expositivo, com necrofilia e uma crítica à homofobia. Não é ruim, mas está longe de ser bom.


"Cristã”, do organizador, é outro muito ruim. Longo, cansativo, perde-se em divagações patéticas de moral e trechos bíblicos. Não possui qualquer cena memorável, mas cai no erro de usar o estupro como punição pelas ações do protagonista. Um fato curioso na escrita do autor é a insistência em separar as ações perversas em dois grupos: os antagonistas agem pela natureza má do homem, enquanto os protagonistas, por influência de demônios.


Ritual é, de longe, o melhor. Não que seja muita coisa. Novamente recorre ao sexo, agora consensual, embora não faça muito sentido no contexto geral.


Alcoólica é excessivamente longo e cansativo, mas tenta criar um clima de tensão. Assim como muitos já citados e os seguintes, exagera na escatologia com a intenção de chocar, o que acaba atrapalhando muito o andamento da história.


Boçal tinha tudo para ser bom, mas apela para cenas muito semelhantes a um hentai hardcore, incluindo alma servindo de camisinha para o diabo.


Bonecas é outro longo, que tenta criar clima, apela para cenas descritivas de estupro e comete um erro perigoso: descreve, com detalhes, uma boneca humana de seis anos, o que acaba sendo muito além do bom senso e o aceitável, uma vez que estamos falando de tortura infantil.


Esquecidos honra o título. Mal desenvolvido e sem qualquer clima. É um dos poucos que não apela ao gore ou trash na intenção de chocar.


Carnificina não tem um pingo de originalidade e é o mais porn torture de todos. Um Clube da Luta encontrando Jogos Mortais.


Bullying é quase um terrir no desfecho, embora tenha ido relativamente bem no desenrolar. É um dos que mais sofreu com a limitação temática, uma vez que o título é apenas um evento que desencadeia o canibalismo do protagonista.


Morte é longo, cansativo e confuso, numa clara tentativa de crítica social.


Enfim, é uma antologia muito ruim no todo, e não vale a pena tempo nem dinheiro investidos. A prepotência do projeto impediu uma lapidação melhor dos assuntos abordados, ficando o choque pelo choque.


O organizador pede para que avaliemos e comentemos, para ajudá-los a melhorar, porém duvido muito que todos ali irão ouvir nada que seja elogio. Uma lástima, pois de minha parte só tenho a criticar.



NOTA: 0,1