Resenha #14: Carnificina: Contos das Cidades Malditas [Vários autores]

Ano: 2018
Páginas: 203
Editora: Projeto Carnificina
SINOPSE: Muitos escrevem sobre aquilo que mais desejam na vida: amor, dinheiro, sexo, aventura, fantasia; uma jornada em busca de uma recompensa, uma batalha em nome de um bem maior. Mas poucos são aqueles que se lembram de que, além do “felizes para sempre”, há a morte e todos os elementos que compõem a finitude humana. Destes nasceu o medo, e do medo advieram o terror e o horror que poucos desejam saciar em suas gargantas sedentas pela escuridão.

Sob esta premissa, 12 autores se reuniram a partir de um convite singelo, a fim de que criassem contos de terror e horror com somente uma regra: escrever à vontade, sem amarras morais. Destarte, à procura da essência do sangue, do sobrenatural e das trevas, este grupo deu vida a uma antologia formada por histórias cruéis que se passam em cidades malditas, tal é a nossa realidade brasileira.

80's Horror by TentaclesandTeeth
Queria dizer que não sinto prazer algum em registrar a leitura deste e-book por aqui e eu recomendo a todo mundo que não cometa o erro de ler nenhum conto deste livro.

No prefácio, o organizador, e também autor participante, dedica-se, através de muitas linhas, a classificar e qualificar o terror e o horror, legitimando, com isso, o gore como o terror tradicional. Um discurso falacioso que mostra o tom do que nos aguarda: uma reunião de autores que, sob o pretexto de resgatarem o “terror tradicional”, abriram mão do bom senso, ignorando toda a questão de gatilhos psicológicos (num discurso próximo de quem reclama do “politicamente correto”) e o cuidado literário.

Não há como ler Carnificina – Contos de Cidades Malditas sem sentir três nítidas sensações: o desdém pela proposta de apresentar contos situados no pior das cidades (que só é explicada num posfácio, e não no prefácio, como deveria ter ocorrido); repulsa pela quantidade de cenas de estupros e torturas que são, ao mesmo tempo, imaginativas e muito mal executadas; e uma sensação de prepotência ao analisar tudo e perceber como o livro soa mais como uma birra de adolescente do que qualquer manifesto de resgate de qualquer que seja o horror.


Mantendo-me fiel ao que foi proposto, o gore, a maioria dos contos sequer conseguem honrar o gênero, e cada autor, à sua maneira, apenas joga cenas e mais cenas, muitas delas de péssimo e duvidoso gosto, nas páginas, esperando chocar o leitor de alguma forma. Abundam descrições detalhadas de estupros (seja como tortura, seja como punição por algum ato pecaminoso) e de desmembramentos e eviscerações, algo que acaba se aproximando muito mais do trash do que do gore em si.


Sim, a impressão é que quase todos ali assistiram a Jogos Mortais, por exemplo, e só focaram nas cenas de sanguinolência do porn torture, abrindo mão do que movimenta qualquer subgênero de terror e horror: o medo. Ignorar o medo, e todos os elementos em volta, é desprezar a longa tradição do gênero, o que é irônico, uma vez que a antologia se propõe a fazer um resgate.


O gore está inserido como um pilar apenas, ao lado de emoções humanas, boa atmosfera, bons personagens, um enredo atraente e habilidade de escrita. Nos filmes, o recente Vingança consegue trabalhar muito bem uma cena de estupro, sem ser algo explícito, constrói relativamente os poucos personagens, cria tensão e nos banha com muito sangue. Filmes mais dramáticos, com elementos de horror, como Hereditário e A Bruxa, constroem todo um clima e sabe quando inserir o gore. O sugestivo também é capaz de assustar e impressionar, ou teve alguém que saiu ileso na cena da bruxa esmagando um bebê para criar uma pasta para se rejuvenescer no já citado A Bruxa, quase toda feita de forma sugestiva e sem ferir o bom senso?


Outro grande problema dos contos, em sua maioria, está nos títulos, que parecem obrigar cada escritor a se manter firme num elemento, o que nem sempre é seguido e causa uma sensação de amadorismo (assim como a revisão, conforme anunciada pelo organizador e constatada na leitura).


Se estão curiosos sobre os contos, seguem abaixo algumas palavras de cada um, lembrando que todos ostentam Cidade como título, seguido do elemento que os norteiam (ou deveria).


Degenerados é um dos piores, contendo um eu lírico que zomba do ocorrido em São Paulo, na Cracolândia, alegando que não foi errado demolir prédios e internar compulsoriamente os viciados. Cenas descrevendo adolescente recém-estuprada e um culto a Anhangá (um erro que me deu um treco, uma vez que o autor é historiador) somam-se aos problemas de uma narrativa com viés partidária.


Machista é outro muito ruim, com tons inicialmente caricatos e crítica social, mas perde-se quando abusa de cenas de masturbação feminina e estupros, feminino e masculino, além de doses exageradas de escatologia. Destaque para o plano do protagonista: estuprar uma mulher qualquer só para ser preso, plano executado e que em nada acrescenta na trama, uma vez que, assim como o todo, não faz o menor sentido.


Extermínio é curto e altamente expositivo, com necrofilia e uma crítica à homofobia. Não é ruim, mas está longe de ser bom.


"Cristã”, do organizador, é outro muito ruim. Longo, cansativo, perde-se em divagações patéticas de moral e trechos bíblicos. Não possui qualquer cena memorável, mas cai no erro de usar o estupro como punição pelas ações do protagonista. Um fato curioso na escrita do autor é a insistência em separar as ações perversas em dois grupos: os antagonistas agem pela natureza má do homem, enquanto os protagonistas, por influência de demônios.


Ritual é, de longe, o melhor. Não que seja muita coisa. Novamente recorre ao sexo, agora consensual, embora não faça muito sentido no contexto geral.


Alcoólica é excessivamente longo e cansativo, mas tenta criar um clima de tensão. Assim como muitos já citados e os seguintes, exagera na escatologia com a intenção de chocar, o que acaba atrapalhando muito o andamento da história.


Boçal tinha tudo para ser bom, mas apela para cenas muito semelhantes a um hentai hardcore, incluindo alma servindo de camisinha para o diabo.


Bonecas é outro longo, que tenta criar clima, apela para cenas descritivas de estupro e comete um erro perigoso: descreve, com detalhes, uma boneca humana de seis anos, o que acaba sendo muito além do bom senso e o aceitável, uma vez que estamos falando de tortura infantil.


Esquecidos honra o título. Mal desenvolvido e sem qualquer clima. É um dos poucos que não apela ao gore ou trash na intenção de chocar.


Carnificina não tem um pingo de originalidade e é o mais porn torture de todos. Um Clube da Luta encontrando Jogos Mortais.


Bullying é quase um terrir no desfecho, embora tenha ido relativamente bem no desenrolar. É um dos que mais sofreu com a limitação temática, uma vez que o título é apenas um evento que desencadeia o canibalismo do protagonista.


Morte é longo, cansativo e confuso, numa clara tentativa de crítica social.


Enfim, é uma antologia muito ruim no todo, e não vale a pena tempo nem dinheiro investidos. A prepotência do projeto impediu uma lapidação melhor dos assuntos abordados, ficando o choque pelo choque.


O organizador pede para que avaliemos e comentemos, para ajudá-los a melhorar, porém duvido muito que todos ali irão ouvir nada que seja elogio. Uma lástima, pois de minha parte só tenho a criticar.



NOTA: 0,1

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