Literatura fantástica infantil NÃO É apenas criaturas mágicas, pessoal!

Fairy Friend by JamesRyman
O edital do clube de assinatura Leiturinha conseguiu me fazer perceber algumas coisas interessantes sobre literatura fantástica brasileira e literatura infantil segundo os olhos dos escritores nacionais.

Logo de início, uma das condições da curadoria dos livros infantis diz o seguinte: "As obras analisadas devem ser, necessariamente, literárias em seus mais diversos gêneros, com narrativas diversas: contos, romances, poemas, cantigas, fábulas, literatura fantástica, biografias, crônicas, não-ficção, entre outros". A ênfase em FÁBULAS e LITERATURA FANTÁSTICA é minha.

A seguir, é detalhada uma série de características que eliminariam da competição por espaço no clube uma margem enorme de histórias: conter "algum tipo de etiqueta com indicação ou classificação etária, que discrimine faixa etária/idade para a qual o livro deva ser direcionado, salvos casos de etiqueta do INMETRO", pretender "a didatização de conteúdos escolares", apresentar "conteúdos estereotipados, seja de caráter visual ou textual", "conteúdo de cunho moralizador ou doutrinário", conter "vocabulário que subestime a capacidade intelectual da criança", apresentar "conteúdos religiosos e políticos-partidários", "seres mágicos, como bruxas, fadas e duendes, como temática central na história" e ser "destinadas a um público específico, baseado em gênero, por exemplo". Novamente, ênfases minhas.

Mas... como assim eles solicitam literatura fantástica e exclui histórias com seres mágicos como temática central? Absurdo?! Nem tanto.

Vasculhando um pouco a Internet, deparei com uma lista, de 2017, com 12 livros que foram enviados pelo clube. E tem uma segunda lista, de 2018, com 30 livros. Ao analisar ambas, fica evidente a preferência por fábulas, excluindo contos de fadas, mas abrindo espaço para ideias criativas e imaginativas, que exploram o lúdico cotidiano, que dê tempero mágico ao corriqueiro.

Enquanto alguns se dedicam a defender a importância de histórias infantis com criaturas fantásticas e animais fabulosos, como o artigo emocionante do Publisnews (ok, fui sarcástico aqui) ou outro, um pouco mais interessante e menos emocional, de outro clube de assinatura (acho fascinante como esse mercado se movimenta), eu prefiro seguir o caminho inverso.

Ok, eu sei da importância dos contos de fadas, das fábulas, dos duendes, anões, elfos, fadas, bruxas, sacis, duendes e toda a sorte de criaturas que saem das páginas dos livros mais vendidos e dos mais mainstream. Eu sei. E por isso estou discordando desse alvoroço todo.

Primeiro, porque a maioria dos escritores de fantasia sequer conhece uma mitologia que não seja do eixo Grécia/Roma - países nórdicos. Quiçá, com baita sorte, vários deles conseguem listar uma dúzia de criaturas de nosso folclore, quase todas mais manjadas do que jornada do herói.

Segundo, estou de saco cheio de histórias com essas criaturas que o edital vetou. De verdade. Escrevo contos sobre bruxas e fadas, adoro duendes e qualquer criatura próxima deles. Mas, de boa, é uma coisa que já saturou e não ajuda muito.

Terceiro, se os escritores de fantasia (e que escrevem para crianças) realmente estão minimamente inteirados sobre o mercado, sabem que literatura fantástica não é só seguir tropos de contos de fadas amenizados ou apelar pra bruxos, fadas e duendes. Há elementos mais profundos e atemporais, coisas que se adaptam a qualquer personagem. Um exemplo disso é existência de uma edição do clássico O Amigo Fiel, de Oscar Wilde, com animais de nossa fauna.

E quarto, um escritor deveria jamais se limitar a elementos, características, deixando-se estereotipar. Fantasia não é só criaturas fantásticas, literatura infantil é uma das mais complexas de se desenvolver. Não é a presença ou a ausência de um duende que vai determinar a qualidade de sua história. Um dos livros que o próprio Leiturinha recomenda, em 2018, é sobre criaturas inventadas pela autora... em 1945!

Então, não tomemos o clube de assinatura como vilão. Não estão errados em defender seus monstros, mas estão em achar que eles são o suprassumo da coisa toda.

E de histeria coletiva nosso país já anda muito cheio.

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