Por mais absurdo que pareça, gore não torna nenhuma história de horror uma obra-prima


Lembro-me quando completei 18 anos e me propus a escrever duas histórias, ambas altamente violentas e pesadas (ao menos para minha mente ainda adolescente), com cenas de tortura, mutilações e insinuações de sexo e estupro. Um amigo, que leu ambas, chegou a me pedir para maneirar na violência.

Com o tempo, conforme fui amadurecendo como escritor, fui aprendendo a dosar a quantidade de sangue derramada nas páginas de minhas histórias, pois compreendi que mais do que simplesmente banhar o leitor no precioso líquido da vida, o horror se faz de camadas mais profundas, coisas que nem sempre são vistas ou, na mais fina das vezes, sentida.

Não é de se admirar, por exemplo, que muitos jovens atualmente achem que violência e sexo bastam para tornar seus enredos clichês em obras adultas ou, quiçá, carregadas de um horror subversivo, pois o gore, como dizem os tais ousados escritores de horror contemporâneo, a maioria crianças encantadas com aquilo que não entendem, seria o horror primordial, sem as amarras do "politicamente correto".

A meu ver, creditar ao gore um papel fundamental na base do horror e do terror é assumir uma ignorância sem tamanho, uma vez que o horror gótico, por exemplo, pautava-se, em temas macabros, como magia negra, satanismo, zoofilia, canibalismo, violências sexuais, incestos, vampirismo e ocultismo para compor suas histórias. Mas não era incomum que muito da carnificina ficasse à cargo do leitor imaginar.

A literatura de horror é, em termos gerais, sobre o medo.

Se há o horror urbano de Poe, também há o cósmico de Lovecraft. Se há o horror ocultista de Machen, há ainda o horror perverso de Barker. Se há o horror sugestivo de Kipling, há o horror descritivo de Stoker. E conhecer essas variadas faces do horror e do terror permite ao escritor descobrir qual é o seu, auxilia na maturidade da escrita e na melhoria da ideia a ser produzida.

O gore, então, deixa de ser uma ferramenta, como anuncia o prefácio da medíocre coletânea Carnificina: Contos das Cidades Malditas, cuja resenha fiz recentemente, de ideias repulsivas e que buscam ofender o politicamente correto, ignorando os gatilhos psicólogicos (afinal, diz a turma da suposta subversão, tal coisa foi criada para tentar impedir a manifestação da arte sangrenta). Ele passa a ser um elemento complementar apenas, unindo-se a um estudo mais profundo do medo, seja do conhecido ou do desconhecido.

Escrever horror, portanto, é retratar personagens dançando não até a exaustão, caindo agonizando, suplicando por suas vidas, mas envolvidos numa histeria tão grande que acabam morrendo por não conseguirem parar de se mexer; e não uma patética cena de pessoas "gastando" suas carnes no chão, raspando-as até não sobrarem muito, como se nosso corpo fosse um pedaço de giz. Além de risível, achar que nos gastaríamos como grafite é de uma incompetência criativa muito infantil.

Horror também não é descrever, por páginas, cenas de tortura sem o menor cuidado com emoções, nem visar chocar o leitor com uma adolescente devorando completamente dois adultos e uma criança em menos de uma hora. Tal decisão apenas demonstra que o autor pouco importa com o universo de sua história e nada sabe sobre anatomia humana.

A maioria das histórias de Lovecraft consegue assustar sem derramar uma gota de sangue, pois trabalha o medo do desconhecido. Alguns contos de Poe surpreendem e amedrontam justamente pelas ações vingativas e cruéis de seus personagens. Boas histórias de fantasmas nos apavoram por nos dar respostas inquietantes sobre a vida após a morte.

Mas o patético escritor de horror gore acredita piamente que sua história só é boa se não fizer o menor sentido e tiver muitas vísceras, estupros, fezes e situações constrangedoras de tão absurdas e incoerentes com a realidade.

Por isso, em muitos casos, eu prefiro contemplar escritores de horror de verdade, e não crianças mimadas.

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