"Contos de fadas são mais que verdade; não porque nos dizem que dragões existem, mas porque eles nos dizem que dragões podem ser derrotados." G. K. Chesterton

O cordel "Quando a Morte recusou Pedro Malasartes"

Arte de Almeida Júnior
Há anos eu conheço as histórias de Pedro Malasartes, e acho que muitos também as conhecem. Ele está presente no imaginário popular brasileiro, representando a astúcia e a esperteza que tudo pode vencer e enganar.

Então, enquanto pensava num conto para um concurso (história que ainda não escrevi, por sinal), ocorreu-me que a simbologia do Judeu Errante (personagem que, por ser tão detestável, segundo contam as lendas, foi recusado de entrar no Céu e no Inferno, passando a vagar pela Terra) caberia perfeitamente para Malasartes. Afinal, se um sujeito engana todo mundo e não tem qualquer senso moral, com certeza bem recebido no Céu ou no Inferno ele seria, certo?

Foi quando apareceu a oportunidade de ressuscitar meu lado poeta e arriscar no cordel.

E assim como ocorreu com o conto A zoomagista, que foi um teste para explorar uma classe de personagem, o cordel intitulado Quando a Morte recusou Pedro Malasartes foi selecionado para uma antologia da Cartola Editora!

Nunca escrevi cordel antes. Tinha vontade, cheguei a ler sobre os versos, a métrica, estrófes... mas nunca havia me arriscado até aparecer o desafio. Desafio porque, além de eu não ter experiência alguma, sou baiano, portanto precisava garantir ingresso numa antologia sobre uma literatura tipicamente nordestina.

Fiquei feliz tanto por ter passado quanto por, em Quando a Morte recusou Pedro Malasartes dar a introdução para o conto que quero escrever, sendo um separado do outro, sem necessidade de ler um para entender o outro, mas ambos, juntos, formam um quadro da nova versão do fascinante personagem que é Pedro Malasartes.


[Trecho] "A zoomagista"

A antologia Olimpo: deuses, heróis e monstros ainda está com o financiamento coletivo aberto. Editado e a ser lançado pela Cartola Editora, reúne dezenas de escritores (incluindo eu) contando histórias inspiradas na mitologia grega.

Anteriormente, já falei um pouco sobre A zoomagista, mas ainda não mostrei nada, certo?

Para dar um gostinho, além de pedir para que apoiem (até mesmo compartilhando o link da campanha ou desta postagem), segue os primeiros parágrafos do conto.

Boa leitura.


Minha mãe é uma zoomagista. O nome é meio estranho, talvez até engraçado, mas é melhor do que “uma maga que dedica sua vida a estudar os monstros e os animais fabulosos do mundo inteiro e impedir que pessoas supersticiosas e ignorantes os matem”. Ela também aceita que a chamem de bióloga ou zoóloga, mas, em termos corretos, é zoomagista, pois ela pratica o zoomagismo, uma ciência pouco falada atualmente, mas que teve grande prestígio em épocas mais antigas, quando a mente humana aceitava melhor a existência de criaturas peculiares, apesar de o preconceito em relação a elas ser tão ou mais forte do que nos dias de hoje.
O zoomagismo, como o nome pode deixar margem para supor, é uma interessante combinação de estudos de magia antiga e conhecimentos zoológicos. Segundo contou minha mãe, ela precisou primeiro se destacar como maga, provar ser apta a manipular a realidade, conhecer sobre elementos naturais, saber nomes de planetas, constelações, encantamentos e textos fundamentais; somente depois, por possuir excelentes notas nos estudos de criaturas mágicas e animais fabulosos, pôde se especializar em zoomagismo.
Por ser um ramo um pouco mais científico da magia, não era incomum as correspondências entre minha mãe e cientistas de todo o mundo. Até porque ela conhecia a natureza como poucos, então acabava servindo de consultora a casos inteiramente corriqueiros e fora do campo do zoomagismo: um dragão-de-komodo que tinha problemas em se alimentar por má formação da dentição era um assunto menos grave do que tratar ferimentos causados pelo excesso de veneno de uma hidra, por exemplo. Em troca dessas consultorias, biólogos de inúmeros países acabavam avisando-a de suspeitas de seres fabulosos, embora fossem poucos que conhecessem realmente a profissão de minha mãe.