Sobre a tal maturidade literária


A maturidade literária chega para todos, em diferentes níveis.

E não me refiro a algo específico, uma vez que, no meu caso, alcancei uma boa escrita (aos meus olhos) apenas após 6 anos de escrita quase ininterrupta em diversos cadernos e folhas sulfite; aprendi a respeitar o gosto alheio por leitura somente há pouco mais de cinco anos; e me permiti ler obras que jamais imaginei ler.

A maturidade reside em se olhar para os problemas e não se julgar capaz de solucioná-los ao seu modo, e sim buscar, com outras pessoas, soluções em cima de diversos pontos de vista.

Você passa a enxergar com o olho do outro, ciente de que todos temos limitações e pontos fortes.

Eu, por exemplo, não consigo prolongar nenhum texto para que tenha mais de 40 mil palavras há uns bons anos, contudo me saio bem com um espaço limitado de 2 mil caracteres. Assim como tem gente que se empolga e cria uma trilogia extensa e concisa, bem construída, mas se perde na elaboração de uma mera sinopse.

Os anos de tretas literárias me serviram para que eu conhecesse diversas realidades, saísse inúmeras vezes de meu confortável ambiente de leitor de literatura fantástica e percebesse minhas falhas, assim como as alheias. Há um peso na vivência que está além da zona de conforto, além de querer estar certo ou se achar certo. Pois um escritor, uma vez li em algum lugar, é como um historador de seu tempo, contudo ele imprime em seus textos todas as suas opiniões.

Há uma tendência elitista de nossa parte, seja escritor branco ou negro, hétero ou LGBTQA+, pobre ou classe média, em julgarmos senhores de verdades absolutas sobre assuntos diversos. Não nego que um escritor negro conhece mais sobre racismo do que um branco, mas que conhecimento tem um negro de classe média, que estudou a vida inteira em escolas e colégios particulares, perto de um que dividia seu tempo entre estudar numa escola pública e ajudar na renda familiar?

Indo além, e me usando de novo como exemplo, eu evito dar dicas de escrita justamente porque reconheço, em uma longa linha de milhares de anos, não ser mais do que um mero grão de areia num deserto de literatura. Pois, creio eu, minha maturidade está em saber quem sou e onde estou, e não ambicionar estar além daquilo que posso oferecer.

E há uma pegadinha interessante na tal maturidade literária: um dia, eu abri os olhos e notei que não bastava apenas criticar o mercado e me recusar a fazer parte dele. Eu precisava apontar caminhos, elevar quem estivesse ao meu redor e pudesse fazer a diferença. É sábio que um general busca a vitória sem causar perdas a ambos os exércitos. E a destruição é uma forma de se criar.

Maturidade literária é oferecer o que se tem, mas sem nunca se proclamar mestre. É saber que suas palavras, ditas ou escritas, e suas ações, feitas ou não, ecoam pela eternidade. E tem severas consequências.

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